Notas iniciais
Vai doer no kokoro? Vai...

Acordamos umas oito horas da manhã. Trocamos-nos. Ele olhou para mim:

— Vamos para o café?

— Pode indo na frente. Vou arrumar umas coisas aqui e já te alcanço.

— Tudo bem.

Depois que ele saiu, esperei cerca de cinco minutos e fui buscar o colchão. Arrumei a cama dele e então fui ao refeitório.

Estava na primeira mesa à esquerda, junto com um dos garotos que foram no passeio (um japonês com hábitos estranhos é tudo que posso dizer a seu respeito). Sentei com eles:

— Eles devolveram o colchão.

— Que bom.

Disse isso e deu um sorriso de canto de boca. O que me fez lembrar que precisava de uma solução para aquela noite.

Pensei, pensei e nada veio.

Levantei para pegar um último café antes de irmos embora. Coloquei o líquido na xícara e dei um gole. Arrependi-me imensamente; queimei a língua. Foi então que me veio uma ideia.

Fui até a mesa e, chegando perto, fingi que tropecei e joguei o líquido nas mãos de Nicholas, que estavam sobre a mesa. Ele começou a gritar de dor. Atuei arrependimento o melhor que pude.

Levamo-lo até a enfermaria. A enfermeira disse que tinha sido grave. Bateu uma ponta de culpa confesso, mas bastou lembrar-me daquele maldito barulho que ela esvaiu-se. A moça disse que teria que passar pomada por quatro dias e enfaixar os dedos.

Quando saímos dali, passei meus braços em torno do seu ombro e o abracei. Sussurrei em seu ouvido:

— Desculpa.

Ele assentiu e continuou andando. Evitou-me um pouco naquele dia. Eu compreendia. Também não o procurei mais. Agora podia relaxar, teria quatro dias de paz.

No dia seguinte voltamos a nos falar normalmente, mas nem toquei no assunto. Nos próximos três dias fizemos algumas atividades juntos, conversamos e trocamos alguns beijos. Sua mão foi melhorando aos poucos, até que chegou a hora de tirar as ataduras.

Vi-me obrigado a pensar novamente no que faria. Era tão difícil. Ainda teria que controla-lo por mais um mês e uma semana. Pensei em colocar luvas ou pimenta em suas mãos, mas não teria uma boa explicação. Cogitei irmos até a academia e derrubar um peso em seus dedos, mas eu já os havia queimado, se também os quebrasse ele nunca me perdoaria. Eu não queria ficar encarando mau humor do meu colega de quarto por tanto tempo. Afinal, ele era boa companhia; gostava dele.

Passamos o dia juntos. Ele estava tão carente. Um pouco demais até. Já estava me saturando.

Chegou à noite e não tinha pensado em nada. Estava desolado. Teria que suportar aquela tortura novamente.

Notas finais
Lucas: Sensibilidade 0