Rasgue Suas Capas e Queime Seus Reis
1 Fantine, Driz e Leona
Reviravoltas de Relicário
Fantine Robstein estava apreensiva, observando a subdivisões da cidadela de Relicário da janela mais alta na Fortaleza central: cidade alta, com seus prédios elegantes e automóveis a vapor, habitada por uma parcela mínima da sociedade, a cidade média, onde se encontrava a Tripartição, os centros comerciais e uma parcela agradavelmente abastada da população, e, por fim, a subcidade, extremamente lotada, cheia de construções que se debruçavam uma sobre a outra, com um movimento interminável de pessoas e viramantos, enchendo as ruas, becos e vielas num frenesi constante, onde se escondiam as gangues, os segredos e os mistérios mais degradantes de Relicário.
Seus cabelos escuros cacheados retumbavam com a brisa fria é misteriosa da aurora senil daquele dia que prometia grandes reviravoltas. Seus olhos luziam quando observava os postes de gás sendo apagados ao longe. O céu cinzento estava coberto de pássaros e, ao longe, pôde observar um zepelim, talvez da região vizinha, Feitiçaria, fazendo uma travessia diplomática por Relicário. Aportaria talvez nas extensões rurais ou mais periféricas da região, longe do centro em constante movimento que ela observava agora.
Se forçava a não mordiscar os próprios lábios, onde já havia uma conhecida ferida de outros tempos, encarando a labuta da sua ansiedade com toda força de sua confiança. Mantinha-se firme, forte e irredutível — pois sabia que ela não tinha a opção de ser fraca, não diante deles. A mãe lhe alertara tantas vezes "Seja forte, Fantine, pois o mundo não terá pena de você", que já havia se tornado uma oração aos olhos da garota.
Ao longe observava toda extensão da região, até o lugar que se perdia de vista, nas terras rurais, burgos comandados por regionalistas e vilarejos oficiais. Fantine se questionava como o poder podia se manter numa sociedade tão descentralizada, com espaços esparsos tão gritantes entre o centro político, a cidadela de Relicário, e os demais arranjos sociais. A resposta, contudo, era óbvia: não se mantinha, mas os diplomatas estavam desinteressados demais para tomarem alguma iniciativa.
As portas se abriram. A aia de Fantine, Driz, entrou, esvoaçando sua capa marrom-acinzentada, que todos os viramantos serviçais tinham em semelhança. Meio curvada, levemente intimidade pela presença da moça, a mulher afirmou:
— Ocorreu o pior, excelência — ela disse, com olhos marejados em uma tristeza decadente.
— Como? — Fantine questionou, friamente, sem tirar os olhos da cidade diante de si, de costas para a aia.
— Era veneno da ignorância, como o diplomata Asteu desconfiou. Precisaram colocá-lo em coma com andiz-maturado, aquela planta que...
— Eu sei o que andiz-maturado é e o que ele faz, Driz, mas obrigada pelo óbvio — nesse instante, Fantine deu as costas à cidade, virou-se de imediato e permitiu que sua capa verde-esmeralda, com detalhes escamosos brilhantes, voasse contra o vento da janela. Com uma expressão empertigada de ódio, leve frustração e certa satisfação, num meio sorriso sinistro e desconfiado, a garota começou a caminhar pelos corredores da Fortaleza, com sua aia a seguindo tão intimamente quanto a capa que tinha em ombros. Fantine tinha pressa, então seus passos rápidos e altos ressoaram por todos os salões da Fortaleza. Por onde passava as pessoas, os viramantos e os animais a encaravam. — Quem está com ele? — ela questionou. Driz deu uma corridinha astuta para se pôr a frente da senhora.
— Sieur Asteu, Sieur Tennant e Irelia Bangchui — Driz afirmou. Fantine parou, confusa, e encarou a aia.
— Irelia? O que ela faz aqui? Não devia estar comandando Feitiçaria?
— Ela mencionou ter deixado o comando da região aos seus Diplomatas. Como principal aliada de Relicário, precisava saber como estava o Diplocrata depois do incidente — Driz respondeu. Fantine encarou a moça, com um rosto amargo em ódio, um semblante estarrecido e olhos verdes-oliva, profundos e penetrantes como os de uma serpente, numa preocupação tênue e pensativa.
— É óbvio. Os urubus vieram patejar sobre a carne podre — afirmou, irritada, com uma veia saltante na testa. Driz fez menção a dizer algo, mas fora interrompida — E sim, eu sei que o viramanto de Irelia Bangchui é uma garça, não precisa me corrigir. Foi uma observação irônica, Drizlyn — Fantine alisou as têmporas, pensativa, fechou os olhos e analisou as probabilidades por longos instantes — Isso coloca tudo em risco... Tudo que eu planejei, todo trabalho que eu tive... Que fatalidade — ela suspirou e encarou Driz — O mais rápido que puder. Vá e diga para Sieur Magster reunir os diplomatas e segmentários da Criação e da Execução, em caráter de urgência. Precisamos definir o futuro de Relicário agora que a situação de papai é irreversível e já temos inimigos à espreita. A vinda de Irelia complicou tudo que vínhamos planejando... — ela pensou em voz alta, preocupada, caminhando de um lado para o outro.
Driz concordou, fez uma leve reverencia e começou a caminhar no sentido contrário, apressada, até sentir sua capa ser puxada para trás.
— Vire seu manto. Vai chegar mais rápido — Fantine ordenou, impaciente. A aia assentiu, tomou a capa marrom em mãos e girou ao redor do próprio corpo, num grau completo e perfeito. Em instantes, seu corpo se envolveu pelo tecido aveludado e, como mágica, se metamorfoseou por completo, transformando o corpo magricela da aia no corpo peludo, quadrúpede e esguio de um cão no mesmo tom do tecido da capa, com orelhas pontuadas e olhos atentos.
Já na forma canina, Driz voltou a fazer uma reverência a sua senhora e correu pelos corredores da Fortaleza, carregada pela brisa, tão ligeira quanto o próprio vento, atravessando pessoas e outros animais, até sair da enorme construção, passar toda Cidade Alta e chegar aos salões da Sede da Tripartição, na Cidade Média.
Segmentários caminhavam por todos os lados, entupindo os corredores de pessoas e mantos virados; Pessoas comuns visitavam a Tripartição em busca de justiça, auxílio para suas dúvidas e problemas, bem como apenas para reclamar. Driz, certificando que já havia corrido o suficiente, fez um novo giro em torno de si mesma e se despiu da capa em torno do corpo, voltando a sua forma original, tímida, assustada e ofegante pela corrida. Diante dos enormes prédios da Tripartição a moça se sentia minúscula. Lâmpadas de gás iluminavam toda a extensão obscura naquela aurora sombria; homens e mulheres fardados caminhavam pelos lados, ostentando os medalhetes dos segmentos que trabalhavam — eram três, como sugere a tripartição: a Proteção, Criação e a Execução. Naquele instante buscava chegar à Criação, onde poderia encontrar e reunir todos os diplomatas da região de Relicário para que sua senhora pudesse realizar o que planejava.
Cães, lobos, leopardos, gaviões, ratos, gatos e todo tipo de animal atravessava o caminho de Driz, que julgava intimamente a necessidade extrema de alguns viramantos de se manterem sob a forma animal quando não era necessário. Os medalhetes de bronze, ostentados com uma espiral tripartida, pendidos nos ombros, onde seguravam as capas que caiam sob as costas dos que ostentavam, significavam pertencimento ao Segmento da Proteção, onde tratavam de crimes. Os prateados, da Criação, onde viramantos diplomados elaboravam as regras de convívio, faziam acordos, etc. Já os dourados eram daqueles poucos que pertenciam à Execução, segmento intimamente ligado ao Diplocrata, o líder soberano da região, que executava, ordenava e governava sobre os viramantos.
Uma coisa importante a se saber é que no País das Diplomacias, dividido em regiões distintas, governadas por Diplocratas, não haviam seres humanos comuns, apenas viramantos — seres espetaculares, com habilidades extremamente fantasiosas, cuja principal característica residia no o fato de sempre ostentarem capas (ou mantos), que lhes dão a possibilidade de se transmutarem em determinado animal, de acordo com a herança genética que carregavam. Também não haviam animais comuns, "animais de alma", como são conhecidos, porventura de uma extinção massiva que ocorrera em outros tempos, então era dever dos viramantos realizarem tudo que os animais outrora faziam, estabelecendo, assim, o equilíbrio do sistema natural. Mesmo assim, ainda carregavam o fardo de ser organizarem em sociedade. Nunca a frase "o ser humano é animal social" coube tão bem a um contexto.
Driz caminhou por entre aquelas multidões intermináveis da Tripartição, observou bandidos sendo presos, encontrou velhos conhecidos, fingiu não ver pessoas que não lhe agradavam, cumprimentou pessoas importantes que atravessaram seu caminho e seguiu direto para seu destino, no segundo andar da Tripartição.
— Onde vai com tanta pressa, Drizlyn? — seria impossível não reconhecer aquela voz. Driz encolheu os ombros, estarrecida, e parou, observando de canto de olho a moça que lhe interceptara — Sem nem cumprimentar suas velhas amizades? Que maldade! Trabalhar na Fortaleza te mudou tanto assim?
Leona Fenir encarou a amiga e sorriu. Driz alisou a nuca, observando os cabelos brancos da moça esvoaçando com a brisa da manhã, proporcionada por uma janela na lateral. Os olhos de Leona eram escuros e felinos, ostentando uma capa vermelho alaranjada, com uma medalha de bronze do Segmento da Proteção a prendendo nos ombros, largos e fortes.
— Como vai Leona? — Driz sorriu e fez uma reverencia à amiga. Leona revirou os olhos, impaciente, se aproximou e envolveu a amiga num abraço.
— Sem essa de reverencia, estamos entre velhas amigas. Você cresceu junto de mim, a não ser que tenha esquecido tão facilmente — afirmou, irritada — Semas comentou sobre você esses dias. Disse que a víbora da Fortaleza tira seu coro com gosto — ela afirmou, sorridente. Driz riu, desconcertada. Leona era uma mulher bem grande, corpulenta, mas esguia ao mesmo tempo. Tinha músculos que se destacavam nas roupas, um rosto delicado e traços mesclados, típico dos mestiços. Trabalhava como rastreadora de criminosos para o segmento de Proteção e, por estar segurando um rapaz algemado, Driz imaginou que ela estivesse em pleno serviço.
O rapaz, inclusive, era um garoto meio etéreo, no estilo obscuro e gótico dos jovens das classes mais baixas, tentava fugir constantemente, mas Leona o segurava com a facilidade de quem segurava um boneco de pano. Driz observou o rapaz por uns instantes, sorriu desconcertada, e voltou a encarar a amiga, que lhe presenteava com um olhar esperançoso e sorridente.
— E como estão as coisas? — Driz questionou, mais porque sabia que Leona estava esperando e queria se livrar dela o mais rápido possível, do que por curiosidade real. Leona puxou as mãos mais rente ao próprio corpo, arrastando o garoto consigo, esboçando um olhar de desatenção.
— Ah, bem, na medida do possível. Eles ainda me mantém no setor de pequenas infrações, então, basicamente, só lido com adolescentes e, às vezes, prostitutas ou casos que ninguém se interessa... Me pergunto quando vão me deixar pegar um caso de verdade. O Licaon, por outro lado, está sempre envolvido nos melhores... Também é o favorito da repartição — Leona arregalou os olhos, surpresa, como se tivesse dito algo errado, engoliu seco e encarou Driz — Não sei se devia ter mencionado ele... — então suspirou e se acocorou à um móvel do corredor, meio entristecida.
Driz engoliu seco, levemente desconcertada, e coçou seus cabelos escuros, com olhos atentos e meio tímidos.
— Tudo bem eu... eu não me importo — mas, no fundo, ela se importava, só não queria transparecer. Leona sorriu em compadecimento e segurou o ombro da amiga.
— Ah, é tudo tão entediante. Fazia tempo que não conversava com alguém, aliás. Esse pessoal das gangues não fala, você acredita? Eles começaram essa ideia de que só podem falar com as pessoas da própria gangue. As pessoas da repartição da Proteção são estúpidas, como você sabe, fingem que gostam, mas no fundo dá para sentir como eles não engolem os tais "odiados mestiços". — Leona observou o rapaz, levemente irritada — Licaon tem sorte de conseguir passar despercebido, você sabe... Ah! E ele só sabe falar de trabalho, deve imaginar como é chato e cansativo... Meu deus! Eu sou uma pessoa terrível fazendo amizades. Acho que não fiz nenhuma desde que você foi trabalhar na Fortaleza.
Driz olhou aos arredores, alisou a cabeça e suspirou, sem saber o que responder, levemente desconcertada.
— Bem, eu preciso ir agora... é situação de urgência na Fortaleza, você sabe... — ela afirmou, envergonhada. Leona pareceu levemente decepcionada, mas nada disse, apenas assentiu. Driz sentiu uma iminente necessidade de não sair sem dar explicações, então afirmou: — O Diplocrata foi dado como morto, oficialmente. A made Fantine tem de reunir os diplomatas.
Leona arregalou os olhos, deixando o rapaz escapar por entre seus dedos, extremamente surpresa com as palavras da amiga. Sua capa alaranjada voou por cima dos ombros eu suas pernas tremeram.
— Cosmo Santo! É verdade? — questionou, assustada. Driz confirmou com um olhar entristecido. — Entendo sua urgência, então. Vá logo. Aqueles velhos alvos estão todos reunidos no Salão Esmeralda. Acho que já prediziam o que viria a acontecer.
Driz fez uma reverencia curta, sorriu timidamente para a amiga e, antes que pudesse caminhar para o local indicado por Leona, fez uma pausa e disse:
— Aquele rapaz fugiu — afirmou. Leona arregalou os olhos, olhou para os lados a procura do infrator de outrora, bufou, irritada e revirou os olhos.
— Merda — e, antes que Driz pudesse dizer mais alguma coisa, Leona girou a capa em torno de si mesma, mudando suas feições humanas para um felino quadrúpede, amarelado com pintas escuras. No mesmo instante, chacoalhou a cabeça para Driz, o que poderia ser uma despedida, e começou a correr pelos corredores da tripartição, no rastro do garoto que estava sob seus cuidados mais cedo.
Leona, numa velocidade surpreendente, correu por entre os corredores da tripartição, atravessou segmentários, diplomatas, viramantos transformados, saltou sobre mesas, subiu escadas, pulou em paredes, tudo no rastro ínfimo do infrator a quem estava encarregada. Ainda na forma felina, conseguia sentir infimamente o cheiro que o rapaz deixara, tornando a caçada mais fácil, porém igualmente frustrante.
A terceira leva de escadas a levou ao quarto andar da Tripartição, onde outrora ficava o quarto poder, a Monarquia, que fora expurgada e destruída por todas as regiões do País das Diplomacias, julgada inconsistente e injustiça, causadora de guerras e dor aos povos, agora sob um regime participativo baseado na opinião comum. Os salões queimados das Tripartições eram, agora, a lembrança eterna que rei nenhum voltaria a reinar sobre um país unido pela diplomacia.
Leona não podia evitar ficar levemente assustada naquele lugar, onde tantos foram queimados durante a revolução diplomata. Sua corrida desacelerou, sentiu seus pelos se arrepiarem e seu coração acelerar. Diante de um monumento enegrecido pelas cinzas, o que parecia uma estátua do Santo da Apoteose, tão cultuado entre os mais tradicionalistas das regiões, a moça, em forma felina, curvou sua cabeça e rugiu baixinho, o que poderia ser uma oração ou uma súplica. Fechou os olhos, em respeito, suspirou e voltou a correr atrás do rastro do garoto.
Ao chegar no térreo da Tripartição, Leona observou o fugitivo, estirado no chão, alisando uma ferida aberta na testa, diante de um homem alto de cabelos longos e escuros. Mesmo de costas a moça o reconheceu com facilidade, atenta a seus traços altos e esguios, com uma capa cinzento-prateada caindo sobre os ombros.
— Ele estava sobre meus cuidados, Licaon. Não precisava da sua ajuda — ela afirmou, irritada, ao tornar a forma humana, enquanto sua capa esvoaçava ao encontro do vento frio da aurora. O homem deu de ombros, com seu manto cinzento firme e rígido, como se ignorasse o vento, numa disciplina invejável.
— O encontrei fuxicando nos corredores da tripartição. Quando fui atrás, fugiu. Reconheci o cheiro da gangue do Ópio e fui atrás. — ele afirmou, encarnado a moça com um olhar de repreensão e tédio — Devia tomar mais cuidado, Leona, numa dessas você acaba perdendo seu trabalho — afirmou, preocupado. Leona revirou os olhos e se aproximou, de braços cruzados, observando o rapaz no chão, que lhe encarava com um olhar assustado e irritado.
— Machucou ele? — ela questionou, irritada, ignorando as palavras do irmão e focando na imagem do jovem no chão. Licaon, com seu rosto pálido e delicado, de olhos finos e longos, com lábios rosados e nariz fino, encarou a moça de volta e torceu suas grossas sobrancelhas negras.
— Ele caiu — afirmou, sem mais adições. Leona o encarou com um olhar desconfiado — Que foi? Estou sendo sincero.
— Uma vez na vida me surpreenderia — ela afirmou, irritada, se aproximando do rapaz e observando a ferida em sua testa. Após averiguar que era ínfima, lhe entregou um pedaço de pano para que pudesse se limpar, apertou seus ombros e segurou seu braço — Agora você não foge mais — afirmou e, seguidamente, encarou o irmão, observando-lhe com um olhar desinteressado e pensativo — Encontrei Driz, Licaon — ela disse, por fim. Licaon deu de ombros, desinteressado.
— Depois que ela se vendeu para os diplomatas não faz questão em lembrar que tem amigos na cidade — afirmou, irritado. Leona suspirou, levemente pensativa e incomodada — Que foi?
— O Diplocrata Robstein... Morreu — afirmou. Licaon ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Literalmente?
— Literalmente. Por isso Driz veio a Tripartição. Fantine mandou reunir os Diplomatas da Criação e da Execução... Provavelmente planeja substituir o pai como Diplocrata interina de Relicário — ela disse, com olhos pensativos. Licaon suspirou.
— Até que novas eleições sejam feitas, pelo menos — ele completou, se escorando numa parede suja, enquanto tirava um cigarro do bolso e acendia com um fósforo. — Soube como ele morreu?
— Ela não disse, mas foi repentino. Ele esteve em Maldição na última semana, em visita diplomática, pelo que ouvi em plena saúde, chegando a brigar com as Quimeras. Suspeito de assassinato — ela supôs, com olhos atentos. Licaon concordou com um olhar julgador, sentindo no seu âmago que muito mais estava por detrás daquela morte do que ele ou a irmã poderiam imaginar.
— Um assassinato em plena viagem diplomática... — Licaon deixou a fumaça do cigarro sair pela boca, chacoalhando a cabeça em desdém — Isso vai contra a lei máxima da diplomacia. Certamente vai trazer muita desgraça — afirmou. Leona concordou. — Maldição já era uma terra malvista em razão dos Sardos e das Quimeras, imagine se minimamente desconfiarem que algum deles está por trás dessa conspiração que atingiu o diplocrata...
Leona murmurou algo, levemente entediada, sem saber exatamente o que completar. Concordava com as palavras do irmão, mas não queria entrar no âmbito da política, pois sabia que discordavam veemente de certos assuntos e certas perspectivas — sendo Licaon radicalmente revolucionário, enquanto Leona mantinha-se timidamente numa linha tênue entre a liberalidade e a tradição, mais perdida em razão das próprias crenças e incertezas que poderia imaginar.
Um encarando outro sem saber o que dizer em seguida, os irmãos entraram num silêncio constrangedor. Era comum entre os dois esses tipos de momento. Mesmo assim permaneciam ali, sentindo intimamente a necessidade de conversarem entre si, debaterem mais sobre o assunto, darem suas opiniões e afins, mas nada fizeram para isso.
Leona fez menção a dizer algo, mas desistiu no meio do caminho. Observou o rapaz da gangue terminando de se limpar, suspirou, alisou os próprios cabelos e encarou o irmão.
— Vou prender o garoto. Te vejo em casa mais tarde — ela afirmou. Licaon não disse nada além de um murmúrio desinteressado, sem encarar Leona.
Leona puxou o rapaz pelo braço, que nem tentou lutar para se libertar, tendo sido encarado por um olhar assustador de Licaon. Enquanto o arrastava para dentro, todavia, fora interceptada por um show de luzes que surgiu inesperadamente à suas costas:
O céu cinzento convergiu num tom vermelho-sangue, onde crepitavam trovões lilases e surgiam nuvens amareladas; o clima ficou extremamente gélido, a escuridão daquele dia ficou mais profunda; o vento assoprou tão forte que as capas amargaram em seus ombros. Então uma luz incandescente em mil tons de laranja e vermelho surgiu, manipulando as dimensões e o espaço, dando origem a um portal brilhoso e inconstante, do tamanho de um homem médio, que estrondava num som de metais batendo e se arrastando. Faíscas douradas saíram dele primeiro, um cheiro de cinzas amargas em seguida, e, por fim, um homem de pele marrom, barba curta e cabelos escuros desgrenhados o atravessou, parando de pé diante dos três.
O homem se manteve catatônico por alguns instantes, com um semblante assustado. Olhou cada uma das faces diante de si, suspirou e disse, num tom enfraquecido e gaguejado:
— Aranha.
Seguidamente, se estatelou no chão com um peso denso tomando sua mente e obstruindo seus pensamentos, enquanto suas pernas cediam sob o peso do próprio corpo e suas lembranças desapareciam como mágica. O cheiro de cinzas se intensificou, obrigando Leona e Licaon a cobrirem os narizes com o forte odor. O portal desapareceu tão rapidamente quando surgiu. Leona, sem palavras, encarou Licaon, e encontrou o irmão inesperadamente tão assustado quanto si mesma.
— O que aconteceu aqui? — o garoto das gangues foi o primeiro a falar, extremamente assustado. Leona o encarou e observou o irmão em seguida. Licaon encarava o corpo desfalecido do homem que havia atravessado o portal.
— Percebeu? — ele questionou sem tirar os olhos do desmaiado. Leona desviou o olhar do irmão para o desconhecido no chão e voltou a encarar Licaon.
— Ele não está usando uma capa — ela afirmou. Licaon confirmou, com um olhar angustiado.
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