Rapsodia
1 Capítulo Único.
R A P S O D I A
No fundo de uma prisão de mentira, o fruto proibido
espera para o som rindo dos sinos sinalizando o fim
O rosto desenhado em uma página em branco puro
é a de uma flor florescendo em segredo na escuridão.
Talvez fossem os dias monótonos ou o tempo extremamente frio que a fazia ter ilusões sobre aquele belo sonho, não tão belo, ela era um pássaro preso. Liberdade, sonhos, ilusões, nada nunca passou de uma ilusão talvez? Com seus belos olhos esmeralda fitava todos os cantos da enorme gaiola prateada na qual estava aprisionada, seus cabelos castanhos iam até a cintura e seu belo vestido estava em trapos á essa altura, a comida que traziam fedia tanto como os demônios que a cercavam.
Seu corpo coberto por feridas nada era tão profundo como a ferida que jazia em seu coração por todo aquele tempo, a dor de ser abandonada, o sofrimento naquele pequeno e puro coração de ter a pessoa que mais ama virando suas costas, era doloroso, mas ela entendia o motivo. Tudo começou num dia em que o sol decidiu partir trazendo as nuvens acinzentadas para a pequena cidade e amaldiçoou cada pedacinho de terra entre o reino Iluminado e o Jardim Infinito.
Aquela garota não tinha nada de especial e por isso fora mandada para o abismo, naquela época para um ser nascido no mundo mágico não ter magia era tratado como um monstro, pior que um demônio, pior do que qualquer coisa era um ser sem magia. Seus pais tentaram salvá-la, eles morreram nas mãos daquele em quem ela sempre confiou.
Tocar as pétalas que pede seu nome,
Esses olhos vermelhos se aproximarem de uma palavra proibida
Abre-os!
Ela não sabia o que era que chamava tanta atenção nele, mesmo o odiando ela o amava; talvez fossem aqueles belos cabelos prateados ou os olhos vermelhos, ela precisava temê-lo, detestá-lo e se tivesse uma chance matá-lo, mas seu coração não deixava. Ela sabia o que tinha de especial, ela sabia que havia algo errado com ele, talvez a alma dele já não estivesse mais lá, era um corpo vazio comandado pelos demônios do abismo.
Olhou os olhos da garota quando os vermelhos e o par de esmeraldas encontraram-se soltou um longo suspiro e o outro aproximou-se daquela gaiola coberta de uma aura intoxicante, talvez fossem seus olhos esmeralda ou as vagas lembranças que tinha de ser tocado por aquela garota tão branca como a neve, apoiou-se nas grades prateadas e se pôs a observar, sem saber o que fazia e com sua cabeça ás alturas estendeu sua mão para a garota lá dentro.
Levantou-se com muito esforço e tocou a mão dele, aqueles olhos vermelhos que por um momento estavam tão leves e gentis como antes tornaram-se o vermelho repleto de ódio, o mesmo vermelho que matou os pais daquela garota, o mesmo vermelho que foi manchado por sangue inocente ele já não estava mais ao alcance dela ainda que a amasse tanto.
L'inzio!
Trovão aperta minha gaiola,
No meu despertar o coro do meu coração reverbera
O demônio dos meus sonhos me acenam com o soprano segredo
avermelhar minhas bochechas com tal
Violenza!
A gaiola que a prendia fora aberta os olhos esmeralda brilharam e pensou que talvez um pedaço de sua alma ainda estivesse lá, engano seu, quando aproximou-se e tocou seus braços foi afastada por alguém realmente furioso com tal ação, seu rosto estava doendo e aquilo machucava ainda mais seu coração, lágrimas escorreram, ele havia lhe dado um tapa no rosto.
Afastou-se em passos lentos e caiu no chão gélido e escuro encolhendo-se e agarrando os joelhos, seus olhos rodavam e os pensamentos estavam tão longe que não notou a presença do outro ainda ali, ele nada fez apenas deu as costas e trancou novamente a gaiola, antes de fechar uma onde elétrica percorreu a gaiola prateada o fazendo perder a chave, ela levantou-se e saiu dali em passos leves dirigindo-se á algum lugar sem rumo, os olhos vermelhos a observava curiosos.
Liderados por esse labirinto, minhas asas perplexas
recordar as pontas dos dedos que costumavam correr pelo meu cabelo
Respirando fundo e chamando o seu nome com a minha alma
a ilusão aparece novamente.
O profundo negro do abismo havia sumido e dado lugar ao cenário de um antigo castelo coberto por teias de aranha e o chão sujo de sangue, continuou a andar sem rumo até uma sala escura com muitas portas, entrou na primeira que viu e caiu num labirinto, enquanto andava por aquele lugar coberto de folhas negras e árvores mortas podia ouvir lá do fundo suas melhores memórias.
Lembrou-se dos olhos vermelhos, de como era feliz com aquele que amava, de como sua vida era perfeitamente especial para ela, lágrimas sinceras caíram de seus olhos. Mas aquelas lágrimas não estavam felizes por lembrar daquelas coisas, afinal era tudo mais uma ilusão, seu coração batia como louco á qualquer momento poderia saltar para fora, mas ela precisava ouvir aquelas palavras que dariam á ela liberdade.
Agarrando a mão, eu vou te mostrar o meu juramento
Esses lábios carmim tremem ao ouvir o meu voto
Abre-os!
Sentiu mãos geladas segurarem as suas, soltou um longo suspiro já que havia conseguido terminar aquele labirinto que parecia sem fim. Seus olhos tornaram a percorrer a paisagem e voltara para o mundo real, mas daquela vez uma igreja abandonada, sorriu de um modo triste e fitou os olhos vermelhos e logo a espada negra que ele segurava numa mão.
Era triste como um doce pesadelo terminaria tão facilmente, ela havia perdido sua mente, alma e coração naquele jogo de luxúria, cerrou os punhos e afastou-se o suficiente para deixar as asas brancas libertarem-se, ela realmente esperava que os olhos daquele que amava fossem abertos com sua confissão, mas permaneceram a observando sem nenhum sentimento, deixou um riso escapar.
"Seu julgamento..."
- Eu esperei muito por isso, mas ainda não é seu tempo. – um sorriso de canto brotou nos seus lábios.
Silenzio!
O tempo para os jogos é muito mais,
meus olhos trêmulos convidá-lo em uníssono
Meu coração começa a bater como você pisou
nessa doce prisão da mina.
Quem era a caça virou o caçador, os olhos esmeraldas caíram perante a máscara pura revelando alguém assustadora, o brilho em seus olhos era belíssimo e seu belo rosto como o canto de anjos, mas suas asas tornaram-se negras e em suas mãos surgiu uma bela flor, arrancou uma pétala e o cenário sumiu deixando somente o escuro e frio abismo.
Tudo não passava de uma ilusão causada por seus incríveis poderes, aquela era ninguém mais ninguém menos do que a bruxa do norte, uma mulher cruel que adorava brincar em seus sonhos loucos com o passado criando muitas versões do que uma vez viveu.
L'inzio!
As cortinas levantam em nossa ópera!
Arriscando minha vida eu irei cantar minha Aria
mesmo que o meu karma está contaminado
Eu vou abraçar sua nobreza
Con Grazia!
O cenário escuro de um abismo tornou-se tão belo como uma ópera, o prateado estava sentado em um dos assentos e a garota que tanto amou no palco o belo sorriso em seus lábios permaneceu até o final da apresentação e mais uma vez ela contou sua história para o belo rapaz por quem se apaixonou talvez aquela fosse uma paixão doentia, ela não suportara perdê-lo durante a tragédia, portanto o criou usando magia novamente com um fragmento de sua alma.
Aproximou-se o bastante para abraçá-lo e sentir aquele corpo quente novamente, por mais estranho que fosse ainda havia sentimentos flamejantes o amando dentro dela, apesar de odiá-lo, apesar de temê-lo ela ainda o amava como a garotinha que fora abandonada quando se declarou.
- O mandamento do silêncio foi quebrado por minhas emoções e eu não consegui segurar. – soltou um longo suspiro, e logo o cenário mudou para uma sala de julgamento – Se sou a pessoa que atravessará o purgatório, eu ficarei. No entanto, não tem testemunhas, você não pode julgar essa flor que floresce no abismo.
- O que está tentando dizer, Middletown? – o outro ficou levemente irritado. – Que ficará como inocente até que provemos que fez um mundo paralelo com magia para brincar com seus sonhos fúteis?
- Dar-me o juízo, dar-me o castigo, me conceder o perdão... – fechou seus olhos e sorriu. – Só pode ser feito por ele.
Canizza!
Dê-me o seu aplauso, cordeirinhos!
Mesmo que a minha vida se apaga
enquanto a minha alma não hesita
Eu vou continuar a voltar com você
Rapsodia.
Bateu palmas para sí mesma e olhou no fundo dos olhos negros profundos dos demônios á sua frente de modo irônico, roubou a espada negra que outrora estava nas mãos do prateado e a usou para perfurar seu próprio estômago, cada vez perdia mais sangue, mas continuou de pé até o final.
- Desculpe-me, mas eu continuarei á voltar, por ele. – assim dito sorriu de um modo tão doce e quente como o sol e sumiu em milhões de pétalas de flor.
Como um presente de despedida
Eu espalharei minhas pétalas
e um sorriso.
Notas finais
Violenza - Violência.
Con Grazia - Graciosamente.
Canizza - Caos.
Rapsodia - Rapsódia.
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