Ranhoso
1 Prólogo
Fazia uma manhã nublada de outono quando Severo mudou-se para aquele vilarejo em Cokeworth. Foi ali a primeira vez que a viu.
Carregava naquele dia uma enorme caixa de papelão com velhos pergaminhos de sua mãe quando avistou alguém escorado na cerca, observando-o. Tinham ambos em torno dos dez anos e meio, e Severo não se lembrava de ter visto uma garota tão adorável como aquela.
É claro que não costumava reparar em garotas, nem tampouco gostar delas, mas aquela menina de compridos cabelos acobreados e grandes e curiosos olhos verdes não demorou a conquistar-lhe a simpatia.
"Então é você o novo vizinho?" Perguntou a garota, puxando assunto.
Severo desviou o olhar, desconfiado de suas intenções. Outras crianças não costumavam lhe dirigir a palavra, a não ser para tirarem sarro dos seus cabelos ou do modo estranho como se vestia.
"Como pode perceber." Respondeu, virando-se em seguida para adentrar em casa.
Não olhou para trás para ver se ela havia ido embora, mas imaginou que sim, já que não veio mais lhe importunar nesse dia. Enganou-se, porém, em achar que conseguira afastá-la...
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No dia seguinte, quando abriu a porta para atender quem havia tocado à campainha, lá estava novamente. Agora tão mais próximo, pode perceber que seus olhos eram muito mais verdes do que imaginava, como brilhantes esmeraldas, e seu rosto branco era salpicado de sardinhas rubras, especialmente no nariz.
"Ei! Trouxe essa torta como um cumprimento de boas-vindas a você e sua família. Espero que gostem." Sorriu-lhe a menina.
Severo olhou das mãos estendidas da garota para a torta embrulhada (que cheirava muito bem, por sinal) e por fim para o rosto sorridente que o fitava.
"Obrigado." Agradeceu, estendendo as mãos pálidas para receber o embrulho.
Como que para lhe contrariar novamente, a menina não se despediu; em vez disso, ficou ali parada, toda sorrisos.
"Hm..." começou, a fim de despachá-la.
"Você ainda não me disse seu nome." Esclareceu.
Severo passou o peso do embrulho para o outro braço e pigarreou, estendendo a palma da mão para a garota, em sinal de cumprimento:
"Snape. Severo Snape"
"Evans. Lily Evans" Respondeu e, logo em seguida, passou seus braços pequenos pelo pescoço de Snape, ignorando sua mão estendida e abraçando-o de um jeito atrapalhado.
A única coisa que Severo conseguiu pensar antes que ela se afastasse era que seus cabelos cheiravam maravilhosamente bem.
"Amanhã farei um piquenique no jardim da minha casa; se quiser vir, será muito bem vindo, Sev." Convidou, indo embora logo em seguida.
É claro que, depois desse dia, não houve cor mais bonita do que o verde esmeralda dos olhos de Lily, nem fragrância mais incrível que a exalada por ela, e o vermelho fogo de seus cabelos aqueciam seus sonhos todas as noites, para sempre.
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