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1 1 - Sem Título


Notas iniciais
conto bastante depressivo. as pessoas que leram, em geral, acharam muito bom e algumas quase choraram -fazer o que Q

Os últimos acordes do piano ainda reverberam pelo ar quando olho para a porta. Aquela mesma vil esperança de que se abrirá e o sorriso doce e iluminado dela aparecerá no vão tomou conta de mim. Ela caminhará lentamente e soltará seu corpo nos meus braços, enchendo-me de beijos como sempre faz.

Fecho os olhos e sinto o cheiro de seu cabelo castanho espalhado pelo meu peito, e minha boca se enche do seu doce sabor. Lágrimas me descem descontroladamente quando essas lembranças, das quais não consigo me livrar, voltam à tona. Ainda de olhos fechados, consigo sentir a textura de sua pele e dou um sorriso entre as lágrimas, fantasiando sua presença. Permaneço de olhos fechados, porque sei que quando abri-los, as lágrimas voltarão a descer ao constatar sua ausência.

Um filme passa pela minha mente com os nossos momentos de amor. Sua pele muito alva, convidativa; seu beijo caloroso e transbordando ternura; sua voz que era a mais perfeita música para os meus ouvidos; suas surpresas detalhadamente preparadas quando eu chegava cansado; sua dança envolvente em nossos momentos mais íntimos.

Não consigo e nem desejo conter as lágrimas, e em poucos minutos meu rosto já está encharcado. Seu lado na cama permanece intocado e sua fronha é a mesma desde a última vez que deitou no travesseiro, não consegui trocar. Não cancelei nada e correspondências continuam chegando em seu nome.

Não sei o que fazer com o tempo que me sobra, pois costumava passá-lo em sua companhia; não sei como responder as perguntas sobre ela que ainda me fazem, sem cair em prantos; não sei para onde olhar a cada manhã, se o meu objeto de desejo não está mais lá; não consigo tocar no piano outra música que não seja a que ela me pedia todas as noites.

Há também um pesadelo que me persegue insistentemente. Um telefonema no fim da tarde. Ferro retorcido. Sangue. Sirene. Desespero. Branco contrastando com vermelho. Um corpo inerte em meus braços. Lábios gelados nos meus. Gosto metálico de sangue.

Tomo coragem e pego o ramo de rosas vermelhas e brancas de cima do piano. Caminho em direção ao pôr-do-sol que costumávamos apreciar juntos. Empurro o portão de sua nova morada e o familiar rangido atinge meus ouvidos. Percorro o caminho de sempre e paro em frente a um pedaço de mármore que contém seu nome, deixando as flores no vaso vazio.

Hoje faz um ano que metade da minha alma me abandonou.

Notas finais
espero que tenham gostado. deixem reviews por favor!