Ramona Castellyn e os Novos Marotos
6 Primeiras Aulas - pt. 2
Alice nem falou comigo no final da aula, saiu irritadíssima e passou direto por mim, me fazendo desviar antes que ela me atropelasse. Eu fiz careta enquanto chegava perto de Lorcan, que arrumava calmamente suas coisas. Parei ao seu lado, me apoiando na mesa.
— Como vai, campeão? – Brinquei.
Ele me olhou e soltou um sorriso.
— Eu tomaria cuidado com o Zabini – ele falou. – Dizem que não é bom se meter com os Novos Marotos.
Eu franzi o cenho.
— Novos Marotos? O que é isso? Uma banda? – Ri, lembrando do “Sorriso Maroto”. Quase comecei a cantar, mesmo que ele nem fosse entender a letra por ser em português.
Ele não entrou no humor.
— São um grupo de tranqueiras, arruaceiros e delinquentes juvenis. Segundo os professores – ele parou para pensar. – Para os alunos normais são só um bando de jovens que fica aprontando na escola. Mas, por algum motivo, as garotas gostam.
Eu assenti.
— É. Mulher gosta do perigo – brinquei de novo, mas ele ainda não entendeu meu humor.
— É? – Perguntou.
Eu ri e bati em seu ombro, o ajudando com as coisas para irmos mais rápido. Ao sair da sala, rumamos para o campus fora do castelo onde tinha a aula de Trato das Criaturas Mágicas; andamos bastante e estava quase confirmando com Lorcan se ele estava me levando para a morte ou algo do gênero quando avistei ao longe alguns alunos e o meio-gigante velho que havia visto na estação de trem. Então fiquei quietas.
Estávamos próximos a entrada de uma floreta. Alguns alunos pareciam desconfortáveis com isso, por mais que a maioria nem ligasse.
— Todos aqui? – Perguntou o homem. Acabei vendo Zabini mais afastado, junto com o irmão de Alice e outros dois garotos. – Pois bem. Vamos começar... para nossa primeira aula, eu queria mostrar algo muito empolgante que os fizessem querer mais! – Eu estava gostando daquele meio-gigante. – Então decidi que esse ano iriamos começar com hipogrifos! Apresento-lhes!
Então, saíram do meio das árvores três enormes hipogrifos, um mais belo que o outro. O primeiro deles era completamente negro, o segundo tinha a pelugem um pouco queimada, mas mais puxada para o castanho, enquanto o terceiro era completamente marrom. Eram tão lindos que meus olhos brilhavam mais que tudo. Eram maravilhosos! Eu queria tanto falar com eles, mas não podia no meio de tanta gente.
A aula foi tranquila. Todos se apresentaram para o hipogrifo, eu fui a primeira e deixei todos (até o professor, que depois descobri se chamar Rúbeo Hagrid) espantados com a facilidade que consegui. Eu até cheguei a conversar um pouco com ele, mas como tinha muita gente para conhecê-los, nós não pudemos montar. Prof. Hagrid disse que iria deixar futuramente, mas eu duvidava que teria outra chance. Mas não estava triste. Apenas o fato de ver aquela linda criatura era o suficiente para mim...
No almoço, consegui falar com Alice, que já estava mais tranquila. Ela me contou que havia discutido com Frank e que estava muito, muito mesmo, irritada ao saber que ele seria sua dupla em Transfiguração durante todo o restante do ano letivo. Lorcan falou que estava feliz fazendo dupla com Batilda, uma garota da Grifinória, e eu comentei que Zabini era muito legal. Alice não gostou do meu comentário.
— Ele é um idiota, assim como Frank, James e Fred! Todos eles são idiotas, você não os conhece suficiente! Eles não passaram o natal na sua casa! – Ela estava bem raivosa, então apenas levantei os braços em rendição. Parecia que todo mundo odiava esse quarteto, eu em... decidi que seria melhor mudar de assunto.
Falei sobre Quadribol. Lorcan também não jogava, ele disse que até gostava de voar, mas não era atencioso o suficiente para jogar: não conseguia seguir o Pomo de Ouro, não tinha força para ser batedor e muito menos atenção o suficiente para artilheiro ou goleiro, a goles sempre o acertava em cheio. Eu comentei que amava Quadribol e minha posição preferida era artilheira, que seria certamente a posição que jogaria.
Em uma semana seria os testes para o Quadribol e eu estava animada. Nem conseguia dizer o quanto queria entrar para o time! Afinal, o meu sonho de ser capitã estava vivo novamente... se eu conseguisse ser capitã, eu iria comemorar muito. Mesmo que demorasse um pouco, o que eu sabia que iria...
O restante do dia foi tranquilo, até chegar à última aula, a primeira com a Sonserina. Eu estava animada, para dizer a verdade, mas não por ser aula com a Sonserina, sim por ser poções e eu amava poções (não que eu fosse ótima, mas amava do mesmo jeito, já que me lembrava a visão trouxa dos bruxos e eu não sabia da existência de bruxos até meus seis anos, achava que meus cabelos serem coloridos e meus olhos também era algum tipo de genética estranha e nunca cheguei a querer ir na escola trouxa, por esse motivo nunca perguntei o fato de aprender tudo em casa e ser proibida de sair). Ao entrar na sala das masmorras, toda escura, eu fiquei inda mais feliz por as aulas serem em trio.
Eu estava animada colocando minhas coisas na mesa e conversando com Lorcan e Alice quando alguém tirou minha concentração.
— Olha o que temos aqui... um trio estranho de lufanos. Tem uma nova texuga na área – a risada a seguir foi sim algo estranho.
Olhando para cima, vi uma menina com vestes verdes da Sonserina, cabelos enormes, ondulados, negros. Os olhos eram em um tom maravilhoso de azul, usava roupas curtas demais (não parecia ter treze anos), e usava bastante maquiagem, deixando com uma pele porcelana e olhos marcados com lápis. Ela era bonita, eu admito, mas o seu interior era podre.
— Boa tarde, Isabelle – respondeu Alice, cuspindo as palavras. Como eu imaginava, aquela deveria ser Isabelle Nott. Tinha duas garotas em suas costas que deveriam ser suas abelhas operárias, vestindo roupas um pouco menos provocantes, tinham cabelo castanho com tons muito parecidos e olhos de mesma cor, assim como usavam a maquiagem igual de Isabelle. Pareciam querer copia-la, o que eu deveria imaginar ser verdade.
Lorcan nem parecia se importar com a presença da mesma, mas por algum motivo, ele foi o alvo dela do dia.
— O estranho ainda vende as revistas? – Ela sorriu maliciosa. – Posso ver uma?
Lorcan não pareceu enxergar a maldade de Isabelle, pois sorriu e tirou animadamente uma revista da bolsa e a entregou a ela. A menina pegou com um certo nojo, entregou as garotas em suas costas e elas puxaram, cada uma de um canto, rasgando a revista. Como se não bastassem, elas rasgaram mais e mais, picotaram tudo, deixando um Lorcan parado e encarando tudo aquilo com uma certa tristeza compreensível.
E eu, certamente, não iria observar tudo calada.
— Que beleza, criancinhas. Agora podem pagar. É um galeão – estendi a mão, sorrindo.
Em um instante, eu era o centro das atenções. Isabelle Nott riu;
— Não vou pagar por esse lixo – declarou.
Eu fiz cara de desentendida.
— Oh, desculpa, você é necessitada? Mesmo que seja, por que razão pediu a revista se não ia pagar por ela? Parece um tanto... hm... podre de sua parte. Mas, me desculpa, as vezes eu esqueço que as pessoas só transparecem o que são de verdade – eu sorri.
Ela começou a ficar com raiva. Todos nos encaravam e ela estava realmente sem palavras, as meninas em suas costas estavam bem mais surpresas que qualquer outro que observava tudo aquilo. Alice, do meu lado, sorria com alegria e Lorcan observava tudo atentamente, o que era muito considerando que falávamos de Lorcan.
Ela abriu a boca para retrucar, o que demorou tanto que o professor adentrou a sala e mandou que todos se sentassem, fazendo com que Isabelle fosse se sentar sem dizer mais palavras. O professor encarou a revista rasgada, quase que iria dizer algo, mas simplesmente mandou que Lorcan limpasse, sem nem perguntar se fora ele. Eu iria discutir, mas Alice pareceu perceber e tampou minha boca. O professor começou a falar, era o mesmo que estava na sala da Diretora McGonagall, usava capa negra e verde.
— Esse é o professor de poções, Dylan Skruses – disse, então. – Ele não gosta que o interrompa, que questione a autoridade ou que se dirija a ele sem erguer a mão... na verdade ele é bem chato, mas pelo menos não tem favoritismo. Provavelmente só mandou que Lorcan recolhesse a revista em trapos por conta que ele quem trás as revistas para sala de aula.
Eu fiquei quieta, pensei ser o melhor. Estava tudo indo bem, eu consegui fazer a poção perfeitamente e ganhei dez pontos para nossa casa, deixando todos espantados novamente, além de ganhar mais pontos que Isabelle; Alice comentou que aquilo era realmente esplêndido, e disse que se eu continuasse assim, iria me tornar a melhor aluna da classe e deixaria Isabelle, que era a melhor aluna na atualidade, para trás. Deveria ser o fato de Isabelle Nott estar me fuzilando com os olhos.
Se ela tivesse lazers naqueles olhinhos lindos e azuis, eu não existiria mais.
Terminamos a aula e saímos. Eu havia até me esquecido de Isabelle, mas a pequena megera não havia se esquecido de mim e fez questão de ir até nossa mesa de novo nos infernizar. Ela chegou com uma carranca, não escondendo seu ódio, e fez com que todos novamente parassem para observar. Lá se ia meu dia perfeito...
— O que pensa que está fazendo, lufana desprezível? – Ela falou o “lufana” de um modo que certamente parecia querer me ofender. Eu realmente não entendia.
Eu a olhei com um tom de desentendida, depois olhei para Alice e Lorcan que me encaravam curiosos, e depois voltei a observar Isabelle.
— Eu penso estar guardando os meus materiais para ir jantar. E você? – Soltei um leve sorriso.
Ela odiou a resposta, mas alguns alunos pareceram gostar. Todos da Lufa-Lufa, na verdade, os sonserinos me encaravam com ódio.
— Não se meta comigo, texuga – ela se aproximou em um jeito muito desafiador, ameaçador, esperando que eu fosse recuar ou algo do gênero. Ela me fazia lembrar Ingritt, uma garota da minha sala que era igualzinha ela, mas feia. Eu não me movi um centímetro. – Você não sabe o inferno que posso fazer em sua vida, garota.
— Bem, eu sei que você pode tentar – dei de ombros, soltando mais um dos meus sorrisos provocantes. – Afinal, tenho certeza que consegue. Só falta o rabo e os chifres para se tornar um diabo perfeito, será que posso te chamar de Lúcifer ou prefere Satã?
Ela parecia estar queimando de raiva. Queimando.
— Quem você pensa que é, garota? Você sabe quem eu sou, novata?
Então eu estendi minha mão, sorrindo como sempre, e disse:
— Meu nome é Ramona Castellyn. E você, quem é?
Ela bufou e cuspiu na minha mão. Eu olhei com um pouco de nojo da ação e limpei na sua própria capa, o que fez todos arregalarem os olhos e me olharem como seu eu fosse realmente maluca. Ela estava com tanta raiva que pensei que ia me azarar ali mesmo, mas por sorte ou azar, o professor apareceu em mesma hora:
— Vão sair da sala logo ou terei que tranca-los ai dentro?
***
Eu parecia ser um tipo de heroína lufana, pelo o que Lorcan comentou quando perguntei porque diabos todos os lufanos estavam vindo me dar oi. De manhã, eles apenas me encaravam pelo fato de eu ser nova. Agora que anoitecera, eles sorriam e davam olas. Alice simplesmente disse:
— Isabelle Nott é o terror dos lufanos. Ela adora nos humilhar desde o primeiro ano – então, ela suspirou. – Saber que você não se deixa levar deixa eles mais animados.
Eu assenti, ainda sem entender muito bem. Na verdade, eu estava começando a entender um pouco sobre as casas de Hogwarts que, na minha opinião crua, era a seguinte: os lufanos eram os excluídos, os corvinos eram os metidos que não se misturavam, os grifanos eram os metidos que faziam questão de ser populares e os sonserinos os valentões que adoravam pegar no pé dos mais fracos. Nessa questão, nós, os lufanos, eram os mais fracos. A cadeia alimentar de Hogwarts.
Revirei os olhos. Por que todo lugar tinha que ser igual? E, por que, de novo eu tinha que ficar com os excluídos? Eu nasci para ser excluída? Sorri e dei de ombros. Quem eu queria enganar? Eu adorava ser a excluída!
Alice, Lorcan e eu ficamos até tarde conversando no Salão Comunal. Era tão legal o modo que conversávamos! Estávamos tão amigos em tão pouco tempo que, no final da noite, tínhamos acabado cedendo a Lorcan que venderíamos o Pasquim (eu insisti tanto para Alice que ela acabou ceitando). Lorcan ficou tão feliz que era uma ótima recompensa por aquilo. Fizemos até um dever, o de Transfiguração, e eles quase conseguiram escrever com as chamas, mas algumas tentativas e conseguiriam. Quando fomos para os nossos devidos dormitórios, o Salão Comunal estava quase vazio.
Ao passar pela porta hobbit do dormitório feminino e entrar no corredor de texugo que era onde ficavam os corredores por quartos, Alice suspirou ao admiti:
— Lorcan é muito legal, apesar de ser bizarro.
Eu ri.
— As pessoas mais legais que vai conhecer são bizarras, Alice. Deixa o preconceito de lado e cai dentro – a abracei de lado.
Ela assentiu. Entramos no quarto e a primeira coisa que ouvi foram as Barbies dizendo que estavam orgulhosas do modo como encarei Isabelle que, para o meu prazer deleite, elas chamaram de Satã. Parece que o apelido havia pegado entre os lufanos. Amy não estava interessada, apenas lia, porém mais tarde acabou falando que concordava com as Barbies. Acreditam que elas até disseram que aceitavam o meu chapéu estranho? Eu ri tanto e tive que explicar que só usava o chapéu nas ocasiões especiais.
Alice pediu desculpas por “quebrar minha tradição”. Eu dei de ombros. Algum dia eu teria que quebrar mesmo.
Naquela noite eu colei meu pôster das Harpias de Holyhead, assim como um quadro para anotar as tarefas que tinha (anotando, claro, as tarefas que eu já possuía, Alice ficou realmente surpresa ao perceber que eu era “dedicada”, mesmo que eu não me considerasse isso) e finalmente tirei a minha vassoura do meu malão. Quando as garotas viram, ficaram admiradas. As Barbies, na verdade, porque Amy estava muito ocupada... lendo.
Uma semana e eu estaria nos testes para artilheira. Isso era tão empolgante! Aquele dia eu estava tão animada que foi mais difícil de pegar no sono, tanto que passei uns bons minutos olhando pela janelinha do quarto que dava ao jardim exterior e me deixava com uma sensação estranha de ser uma hobbit. Ah, como eu amei aquele dormitório hobbit!
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