Rakuen PROJECT I ~ FIRST STAGE [BETA VERSION]
14 OUTSIDE CHAPTER #6 - Confederacy – Part 1
Notas iniciais
Visão de Jiki Hideo
[14/04/2013 – SUNDAY – AFTERNOON]
Depois de induzir Shizuka Arashi a refazer o selo de Shinraisei Tekki, ambos desmaiaram. Sorri triunfante, o que de certa forma apavorou Arashi, e então a Dawn’s Key e a sua outra parte, Twilight’s Lock*, começaram a agir, curando o ferimento de todos e toda a destruição. Assim que o processo entre as duas terminou, a Dawn’s Key retornou para Arashi. Yui teve suas memórias reformuladas. Para ela, Arashi passou mal e acabou indo para o hospital e, algumas horas depois, estava repousando em casa. Manipulada pela chave de Arashi, ela voltou para casa parecendo um zumbi. Deu vontade de rir, mas, assim que ela virou as costas, a senhorita Pillar, minha comandante, surgiu na minha frente.
– Que merda foi essa agora? – a loura que acabara de surgir inquiriu. – O moleque não tinha escondido o Geas*?
– Sim... – respondi inexpressivamente. – Mas ele recuperou parte das memórias e removeu o selo. Nesse momento, os restos das memórias vieram, e o garoto perdeu o controle da Akashic’s Gear*. Consegui induzir Shizuka Arashi para refazer o selo dele, contudo é uma medida provisória. Isso não segurará Tekki por muito tempo...
– O quê? Você usou aquele reizinho de bosta pra fazer um selo? – ela franziu o cenho, insatisfeita. – Por que não usou o Twilight’s Lock para isso?!
– Porque seria mais complicado. E também estava difícil pará-lo. Sabes muito bem que a preparação de selos pelo Twilight’s Lock é demorada e delicada... E ainda corríamos o risco de perder Tomodachi...
– Por que não reconstruir Tomodachi, caralho?!
– Quantas vezes preciso dizer que estava difícil pará-lo?! – já estava começando a ficar irritado. Após encerrar a frase, ajeitei os óculos.
– OK, OK... – Pillar-sama* confirmou, suspirando pesarosa em seguida. – E agora, o que pretende fazer? Vai continuar só observando ou quer apressar as coisas?
– É melhor apressarmos... O relacionamento de Arashi com as garotas está desmoronando... Coisas foras do plano estão surgindo... O protótipo Hikari Yuri também deve eliminado... E a melhor maneira de avançarmos seria... Bem, preciso conversar com o presidente de nossa organização. Pode chamá-lo, Pillar-sama?
– Sim... Ele não parece tão ocupado... – Pillar-sama informou, e alguns segundos depois nosso líder apareceu.
– O que deseja, Hideo-kun? Tem algo de interessante para me dizer?
– Sim... Quero sugerir uma mudança de planos e lhe notificar de alguns erros que ocorreram nas últimas operações para que...
– Dos erros já estou ciente – ele revelou abruptadamente. Ele era perfeccionista, por isso odiava erros. Além disso, quando ele sabia de algo, não gostava de ouvir alguém lhe informando novamente, mesmo que a pessoa não estivesse ciente do conhecimento dele. – Seu próximo objetivo é sumir com Hikari Yuri. Mas... O que quis dizer com “mudança de planos”? – ele abriu um sorriso malicioso ao falar “mudança de planos”. Após vários meses consegui entrar em algum assunto que o interessava.
– Eu sugiro que...
Quando terminei de falar, ele abriu um sorriso de orelha a orelha e quase babou de tanta emoção.
– Tudo bem, Hideo-kun! Façamos do seu jeito! Gostei disso... Então, quando for a hora, me chame com isso, ok? – ele me estendeu um controle pequeno com apenas um botão vermelho. Parecia um detonador de bomba, todavia era apenas um sinal para chamar meu líder por magia.
– Sim, senhor... – assenti.
O líder sumiu de minha vista. Pillar-sama parecia feliz com o plano novo que orquestrei, pois estava mais sorridente do que nunca. Encarei-a seriamente e questionei:
– Pretende se aproveitar disso, não é?
– Claro! – ela respondeu praticamente cuspindo as palavras. – Acho que agora posso pegar o Akashic’s Gear para mim de novo!
– Faça isso depois que eu levar os dois para casa e conferir se está tudo certo...
– OK, Time & Space Boy*...
– Agora é só do tempo... Minhas habilidades com o espaço foram muito reduzidas porque eu dei a chave para o Shizuka Arashi...
– Ah, sim... Mas do que isso importa? Vamos logo, faça seu dever, idiota.
Assenti e me tele transportei para as casas de ambos, deixando-os em suas respectivas camas. Eu que coloquei Hikari Yuri junto de Arashi. Eu deveria matá-la, mas... Agora não. Queria me divertir um pouco mais. Depois fiquei vigiando os dois. Eles não se pegaram e demoraram mais de duas horas para despertar, contudo foi divertido ver as garotas cheias de ciúme. O mais estranho é que Arashi conseguiu contornar a situação com um breve diálogo e... beijando na boca de Noyogi Shoujo? Isso foi estranho. E essa garota... Comecei a sentir algo estranho acerca dela.
– O que foi, Hideo? – Pillar-sama questionou preocupada. Era a primeira que ela me chamava pelo nome e que se mostrava preocupada comigo. – Você está tremendo...
– Essa garota... Noyogi Shoujo...
– O que tem? Ela não é só uma das bonecas...
– Ela é uma das bonecas, mas não é só isso... Ela... pode ser...
– Pode ser o quê?
– A Trap* do grupo...
Pillar-sama começou a rir, contendo-o com muito esforço. Por pouco não fomos descobertos, pois a gargalhada, mesmo contida, era barulhenta...
– Trap? Você tá dizendo que ela é um garoto?!
– Não, idiota! E se não parar de rir eles vão nos descobrir! Melhor sairmos daqui e irmos à casa do ShinraiseiTekki...
Ela riu um pouco mais e, quando as garotas e Arashi olharam em nossa direção, tele transportamo-nos para a casa de Tekki. Ao chegar lá, Pillar-sama inquiriu curiosa:
– Cara, o que você quis dizer com Trap mesmo?
– Bem... Ela é a garota que pode acabar com o Rakuen PROJECT...
– Isso não seria ganho para nós?
– Não, acho que entendestes errado, Pillar-sama. Ela pode acabar com o harém antes da hora certa... Essa garota acabará com os planos de todos... Noyogi Shoujo é o maior perigo de todos... Arrependo-me de trazê-la a casa de Arashi... Não me ajudou em nada...
– Pare de reclamar! Mas... isso de ela ser perigosa é sério? Por quê?
– Porque Shizuka Arashi... ama ela de verdade. Ele também sente afeição pelas outras, mas a principal em sua mente é ela. Por isso... temos que afastá-la do Arashi e do Rakuen PROJECT. YamiKaien concordará comigo com certeza.
– Sim, não tem como ele recusar... Se o que você diz é verdade, então... ela é realmente perigosa... Oh! Tem alguém entrando na casa!
– O quê?! – estranhei, e logo me camuflei nas sombras, seguindo Pillar-sama.
Uma garota pequena, com cabelos, olhos e roupas roxas entrou na casa e, ao fechar a porta atrás de si, disse:
– Tadaima...
Tirou os sapatos e adentrou a casa, indo até o quarto de Tekki. Debruçou-se sobre ele, ajoelhando-se no piso de madeira, e começou a chorar. Arregalamos os olhos, eu e minha comandante loura.
– Perdoe-me, Tomodachi... A culpa foi minha! Eu... Fui à pior amiga que você poderia ter!
Hikari Yuri chorou mais, e eu me perguntei mentalmente o que teria acontecido entre eles. Em um dado momento, ela continuou:
– Por causa da minha omissão... Seu eu tivesse te falado que eu sabia quem você realmente era, nada disso... Nada disso teria acontecido! Me perdoa, Tomodachi! ME PERDOA!!
E chorou ainda mais alto. Era estranho vê-la assim. A garota sempre foi inexpressiva e indiferente a tudo. Além disso, Tekki quase a matou. Então porque ela pedia perdão? Por que ela se sentia culpada? Essas dúvidas martelavam minha mente, deixando-me inquieto. E então, quando todos menos esperávamos, Tomodachi despertou.
– Tomo... dachi? – Yuri chamou-o, incrédula.
Ele se sentou na cama lentamente, esfregando os olhos com um indicador e, ao ver Hikari Yuri, espantou-se.
– Y-y-yuri-chan?! O que está fazendo aqui? E... onde estou? Em casa?!
– Você... ouviu o que eu disse?
– Não, você disse alguma coisa enquanto eu dormia?
– Sim...
– Hm... Enfim, vem aqui...
Ela obedeceu, sentando-se ao lado dele. Quando Yuri fez isso, Tomodachi secou as lágrimas dela delicadamente.
“Que contradição esse garoto é... Há três horas ele tentou matá-la, mas agora...”, pensei, franzindo o cenho.
– Tomodachi, eu... – ela tentou dizer com a voz ainda chorosa e embargada e afundando o rosto no cobertor por alguns segundos. Tekki tocou a cabeça dela e a mesma o fitou perdidamente.
– Fique calma... Mais importante: você sabe o que aconteceu comigo? Eu sei muito bem que você percebeu que eu tava seguindo vocês três no encontro, mas mesmo assim não falou nada... E... Depois que Yui-chan pediu para beijar o Arashi-chan, eu... não lembro de mais nada.
– Sério isso?! – Yuri questionou levemente espantada, porém também aliviada.
Sorri maquiavelicamente. Tinha dado certo.
– Vamos sair daqui... Já vimos o suficiente... – sussurrei para Pillar-sama.
– Não... Temos que pegar a maldição dele... – ela sussurrou de volta.
– Tsc!
Usei a Twilight’s Lock na potência máxima para paralisar até mesmo os escolhidos por Arashi, e então Pillar-sama retirou a “maldição do conhecimento” de Tekki e a pegou para si, como antigamente.
– Bem melhor... – ela comemorou.
– OK, vamos sair logo daqui...
Desativei a paralisação do tempo e voltei para casa. Pillar-sama também, provavelmente indo para a base.
Visão de Hikari Yuri
[14/04/2013 – SUNDAY – EVENING]
– Tomodachi... Eu... – pronunciei com dificuldade. Repousando a cabeça em suas panturrilhas, quase voltei a chorar, contudo ele tocou o alto de minha cabeça, e, ao erguê-la, vi-o com um semblante confuso, tentando sorrir.
– Fique calma... – ele suplicou com a voz fraca. – Mais importante: você sabe o que aconteceu comigo? Eu sei muito bem que você percebeu que eu tava seguindo vocês três no encontro, mas mesmo assim não falou nada... E... Depois que Yui-chan pediu para beijar o Arashi-chan, eu... não lembro de mais nada.
– Sério isso?! – inquiri estática, todavia também aliviada.
– Sim... Você sabe, não é? – seu semblante alterou-se. Estava inquisitivo, cenho franzido e bastante confuso.
Hesitei em respondê-lo. Além de Arashi, Tomodachi era o único que me entendia e me acolhera como parte da família. Não queria mentir para ele, entretanto era necessário. Aquela destruição não foi feita pelo Tomodachi, e sim por Tekki, seu alter-ego. Pelo menos era no que queria acreditar. A personalidade dominante e correta era a do Tomodachi safado, divertido, otaku* e acolhedor que conheci há pouco tempo. Meu coração parecia rachar e se dividir lenta e dolorosamente a cada palavra falsa que saía de minhas cordas vocais.
– Tomodachi, escute... – respirei fundo antes de continuar. –Você iria interromper o beijo de Arashi e Yui...
– Por quê? – ele questionou, levantando uma sobrancelha.
– Porque... – mordi o lábio inferior. – você me viu. Trocamos olhares e então você ficou furioso com o Arashi por me “negligenciar”. Você estava tão eufórico que acabei te derrubando para proteger... Arashi... Perdoe-me... – lágrimas brotaram novamente em meus olhos ardidos. A última sentença foi à única sincera. Eu estava sofrendo. Meu primeiro amigo não tinha o direito de saber a verdade. Pelo menos por hora.
– Hmmm... – o gigante estava pensativo. Talvez estivesse avaliando se minha mentira era convincente. Repentinamente franziu a testa, abaixou a cabeça e sorriu maliciosamente e, antes que eu perguntasse qualquer coisa, ele me puxou para seus braços. Senti minhas bochechas queimando, embora não fosse ruim. Eu... me sentia mais confortável agarrada ao menino. – Entendo. Eu que peço desculpas. Pois foi eu que...
Ele não conseguiu terminar com meu choro iminente. Abracei-o com força lentamente, depositando em seu tórax nu minha angústia úmida com litros de extensão. O garoto limitou-se a fazer um cafuné em minha cabeça e sussurrar:
– Tudo bem. Eu estarei aqui para você sempre que precisar.
Essas palavras inocentes e confortantes na verdade me deixavam mais angustiada. O peso invisível sobre meus ombros aumentou consideravelmente, e um gosto amargo dominou minha boca e estômago. Comecei a tremer e soluçar, ainda em prantos, agarrando-o ainda mais. Esse mundo é mesmo cruel. Até porque, além de eu estar sendo confortada por, tecnicamente, meu inimigo, ainda havia duas pessoas nas sombras. Quando olhei na direção deles, ambos sumiram, e, sem eu perceber, Tomodachi desvencilhou-se de mim e estava deitado na cama novamente, inconsciente e suando. Tentei acordá-lo desesperada, todavia nada adiantava... Com os olhos inchados e esbugalhados, chacoalhava o meu amigo freneticamente e em vão. Queria chorar mais. Tudo o que acontecia era culpa minha. Entretanto eu precisava ser forte. Eu tinha que salvá-lo.
Lembrei-me da época em que moramos juntos e, correndo para a cozinha, procurei o papel onde estava o número da ambulância.
***
Eu estava sentada em uma desconfortável e gélida cadeira de madeira, ao lado da maca de Tomodachi, há mais de três horas, olhando para o seu lindo rosto, no qual felizmente estava mais relaxado. Suspirei pesarosamente pela décima quinta vez.Eu estava muito feliz por ele parecer melhor, no entanto queria-o totalmente bem. Queria que seus problemas acabassem. Queria... o meu amigo bem.
“Ou Tomodachi seria alguém mais especial para mim e eu ainda não percebi?”, pensei repentinamente.
Tremi. Um sentimento inexplicável começou a me sufocar e dominar minha mente. Eu sentia como se eu estivesse afogando, e, ao mesmo tempo, meu coração aumentava o ritmo das batidas desengonçadamente, transformando-se em uma sinfonia descompassada de horrores, o que significavam... nervosismo? Sim. Com certeza havia algo errado comigo...
“Tenho que me lembrar de que ele é perigoso. Mesmo sendo seu alter-ego, ele... tentou me matar... Novamente.”
Uma lembrança me veio à mente naquele momento.
[FLASHBACK: ON]
Imaginei que estivesse morta até o momento que despertei naquele quarto escuro. Um renascimento no mínimo incomum, mas necessário. O homem que me ressuscitou estava a minha frente, com um sorriso triunfante em seu rosto.
– Quem eu sou? – perguntei ao homem.
– Não se lembra?
– Não... Minhas únicas memórias são as Torres e o fogo...
– Entendo... Vejo que até estas pequenas amostras estão com este defeito... Mas pelo que vejo, não há falhas além de suas memórias.
Após um momento de silêncio, questionei:
– Eu renasci para uma missão, não?
– Sim. Uma missão pelas minhas ambições altruístas.
– Ambições altruístas?
– Como você não é humana, nunca compreenderá. Deite-se na maca novamente.
Obedeci, e na mesma hora algo se plugou à minha nuca, e uma poesia se repetiu milhares de vezes na minha mente, forçando-me a compreendê-la.
Nasceste por minha ambição altruísta
Cresceste pelo meu desejo
Morreste por minha missão que do teu ser dista
Renasceste para concluir meu anseio
Após eu ser libertada, ele perguntou:
– Sabe qual a sua missão?
– Sim, em parte. Devo continuar sua ambição.
– Exatamente. Para isso, você deve eliminar o primogênito dos Shizuka, esta pessoa exibida na parede.
Uma foto de um garoto surgiu projetada na parede.
– Mate Shizuka Arashi e interrompa o Rakuen PROJECT. – ele ordenou.
– Sim, senhor... – respondi.
Sua vontade é absoluta. Não posso revogá-la. Ele é meu mestre, pois ele me criou, ele me desenvolveu, ele me matou e ele meu ressuscitou. Eu sou dele, e minha razão de existência é por ele. Naquele momento redescobri esta verdade, e então, determinada, me vesti com uma roupa ao lado do criado mudo e segui até o local que já estava em minha mente. Shizuka Arashi está em um prédio conhecido como “escola”. Está vulnerável. Seu fim está próximo.
[FLASHBACK: OFF]
Engoli em seco.
“Eu... não estava raciocinando quando despertei... Meus pensamentos estavam confusos...”, refleti, colocando uma mão sobre a testa e secando o suor que escorria por ela. “Aquele microchip devia ter controlado não só meus movimentos como minha cabeça... Enfim, tem algo que está me intrigando”.
Ao me lembrar da voz dele, recordei-me de outro detalhe: alguém da escola era o dono dela. Eu percebi isso há algum tempo, no entanto acreditei que era apenas um delírio. Contudo, a voz ecoava por meu crânio a todo o momento, perseguindo minha sanidade sem parar a fim de destruí-la. Eu a ouvira pouco tempo depois do surto de Tomodachi/Tekki, e até um rosto estalou em resposta enquanto eu revisava os fatos, porém, em piscar de olhos, a memória da face do meu antigo mestre sumiu.
– Yuri-chan – Tomodachi chamou.
Virei para ele rapidamente e sorridente; alegre por ele ter acordado. Não obstante, ele franzia o cenho e fitava-me analítico. Fechei o rosto em dúvida em segundos e em seguida questionei:
– Você está bem? – o rosto dele ficou ainda mais dobrado.
– Ficaria melhor se você... não tentasse me matar... – ele revelou, lenta e temerosamente.
– O-o quê? – exclamei perplexa.
“What the hell are you saying?”, pensei. “Have you gone mad again?!”. Quando eu estou desesperada, pensar em inglês era bom. Entretanto de nada adiantou naquele momento. Tomodachi me dizendo aquelas palavras era angustiante demais.
– Você ainda pretende matar o Arashi, né? Ele ainda tá vivo, sua puta?!
Fiquei boquiaberta. O que diabos...?
Isso não importava. Algo estava errado. E não era culpa de meu amigo.
Lenta e violentamente ele se desprendeu dos fios que o prendiam e se ergueu, e, repentinamente, começou a me enfocar. Eu tentei me desvencilhar, mas logo desisti, pois a culpa pesou. Eu estava pagando pelos meus erros. Eu não merecia viver novamente, para início de conversa. Tomodachi gritava algo, contudo para mim sua voz estava distante. A morte era bem-vinda para mim, que estava amargurada. Fechei meus olhos, aguardando-a. Senti meus pulmões se esvaziando do precioso oxigênio, e, aos poucos, meu organismo diminuindo seu metabolismo e definhando. Via-me no limiar do mundo físico e espiritual e, ao encarar o precipício de queda infinita, pulei sem medo. Meu amigo merecia sua vingança. Embora houvesse uma corda em meu pé, pulei. Esperava que Tomodachi a partisse, no entanto alguém a puxou...
– T-tomodachi...?! – uma voz feminina chamou-o ao abrir completamente a porta do quarto. – Mas o quê...?! SOLTA ELA!
Ele me soltou, e eu desabei no chão desengonçada e de joelhos, derrubando muitas lágrimas estúpidas. A minha salvadora, por incrível que pareça, viera ver a nós dois. Mesmo assim, eu não a agradeceria naquele momento. Perdoe-me por minha insensibilidade, Noyogi-san...
Visão de Noyogi Toshimi
[APRIL-JUNE EXPLANATIONS]
Eu estava confusa. Todos os amigos de Shizuka Arashi estavam estranhos após o domingo do dia 14 de abril. Ele mesmo também estava mal. Todos pareciam deprimidos. Para ficar mais próxima deles e de minha irmã amada, Shoujo-neechan, entrei para o clube deles, mesmo que tivesse um nome bastante suspeito. Por que infernos ele se chamava “Plano Harém”?
Enfim, depois de um tempo, comecei a sentir algo anormal. Toda vez que Arashi-kun olhava para mim, sentia uma batida falhar. Minha respiração ficava ofegante e pesada, além de problemas de concentração. Houve um dia em que ele me elogiou após eu explicá-lo um exercício de Matemática, dizendo:
– Obrigado! Você é muito inteligente e bonita! Nunca havia parado para te olhar de perto... Agora eu percebo isso...
Pensei que iria desmaiar ao ouvir isso. Mesmo que meu interior estivesse sendo incendiado, por fora eu senti apenas minhas maçãs do rosto quentes. Pura sorte. Torcia internamente para ter mais sorte e ele não ouvir meu louco coração desenfreado.
Até hoje não entendo isso. Arashi-kun mexia com meu equilíbrio, e morar na mesma casa que ele não me deixava mais tranquila.
Visão de Jiki Hideo II
[02/06/2013 –SUNDAY – OVERNIGHT]
Eu poderia estar dormindo. Poderia se eu não tivesse sugerido o novo plano ao presidente de nossa organização, IDC*. Segundo ele, estava demorando demais. Não dava mais para esperar.
– Amanhã você irá iniciar o plano? – ele inquiriu, claramente entediado e irritado pela demora. Mesmo sendo um grande cientista, historiador e pesquisador, não tinha muita paciência. Deve ser por isso que ele nunca namorou antes de ficar rico.
– Sim, Clannad-sama... – respondi inexpressivamente.
– Tente uma aliança com ela. Mesmo sendo a espiã, não podemos esquecer o que ela disse no dia em que tentamos forçar o despertar do Beloved King*...
– Verdade... Depois daquilo que entreguei a Dawn’s Key para ele. Achei que foi o momento certo, mas não encontrei um para negociar com a garota. Vou fazer isso amanhã. Já deve estar na hora...
Clannad-sama deu um sorriso de canto malicioso. Sorri da mesma maneira. Mesmo que eu prefira seguir com a vida e os planos mais devagar que o presidente, fiquei motivado por finalmente ter uma chance de avançar com a Sinfonia de Dominação.
Visão de Yami Tsuki
[APRIL-JUNE EXPLANATIONS]
Todos haviam mudado. Novos membros haviam entrado no clube. A maldição do meu noivo estava trancada. Por eu estar confusa e estressada, não consegui entrar em contato com meu pai, Yami Kaien. Eu estava sozinha e no escuro. Em um momento desses, geralmente se deve cair fora da missão, mas eu duvido que meu pai fique contente com isso. Além disso, eu tenho um interesse forjado pelo Arashi, mas... eu queria saber se ele poderia ser real. Por isso ignorei os problemas e segui em frente com o clube.
Porém Jiki Hideo me incomodava. Entrou no clube inteiramente por causa de Arashi. Sempre ignorava as atividades que eu passava para movimentar o grupo e melhorar a relação entre as noivas. De vez em quando ia ao clube, e toda vez que aparecia causava confusão e discórdia, além de sempre provocar o meu pretendente.Além disso tudo, o garoto tinha uma estranha aura, como se nada a sua volta fosse grande coisa. O mesmo não temia nada. Quase sempre falava o que pensava e não projetava as consequências. Ele tinha todas as vezes a certeza de que iria triunfar sobre meus argumentos. Isso era apavorante, até mesmo para mim. Resolvi observá-lo minuciosamente, e, ao descobrir que ele era uma pessoa infiltrada na escola, como eu, mas que não seguia as ordens de meu pai, estreitei os olhos sobre o estranho menino. Ele pretendia sabotar os planos de meu pater, e isso não seria bom para o meu pescoço.
[03/06/2013 – MONDAY – AFTERNOON]
Depois que Arashi contou o que aconteceu entre ele, Hideo e Tomodachi, ou melhor, Tekki, guardei o pavor para mim mesma. Aquilo era inacreditável. O albino na verdade é uma pessoa que não posso confiar, e eu nem desconfiei de sua suposta loucura. Mesmo que contido, era apenas uma questão de tempo até um novo despertar... Além disso, Hideo me incomodava. O que ele tentou fazer afinal? Apertei as mãos fortemente após ouvir a notícia. Ouvi cristais disformes de gelo se formando, partindo-se em minha mão e derretendo, escorrendo pelos punhos cerrados, queimando-os. Sempre acontece quando eu estou tensa. Eu tentei esconder o nervosismo de todos, pois se eles percebessem, todo o Rakuen PROJECT desmoronaria. Não podia permitir que isso ocorresse. A vida de meu pai dependia do sucesso desse plano. De jeito nenhum eu iria falhar.
– Então foi isso... – soltei quase suspirando.
Agindo com naturalidade, continuei o diálogo, mesmo com o Hideo me assustando daquele jeito... Não me surpreendi quando vi a redação dele. O garoto se dizia filho de um deus, e não era apenas brincadeira. Tekki que o diga. Segui o resto da reunião o melhor possível. Fiquei preocupada com Arashi, pois ele ficou estranho ao atravessar a porta. Quando pensei em segui-lo, ouvi a voz de Toshiko-sensei atrás de mim.
– Não o siga... Espere todos saírem e Hideo voltar... Temos uma negociação a realizar...
Fiquei paralisada. Toshiko estava ao mesmo atrás de mim e na minha frente, ao lado da porta?! Não, havia algo errado. A que estava às minhas costas não era a professora... Virei para ver quem era. Desapareceu. Olhei para frente. Ouvi passos se distanciando, e a loura havia saído da sala do clube. Engoli em seco. Após uma breve hesitação, andei até a porta.
“Tenho que seguir o Arashi... Ele deve estar...”, pensei.
– Aonde pensa que vai? – uma voz familiar interrompeu meus pensamentos, novamente à minha retaguarda.
Virei para o sujeito e, antes de vê-lo, adivinhei:
– Jiki Hideo...
– Olá.
– “Olá” o caralho. Diga o que planeja. Agora. Ou eu...
– Receio que você esteja na desvantagem para me ameaçar... E... eu pretendo uma aliança.
Arqueei uma sobrancelha.
– Creio que irá aceitar a oferta – Hideo especulou. – Ou melhor, não terá escolha.
Ele estalou os dedos e um corpo ensanguentado e coberto por um saco de carregar batatas caiu pesadamente no chão. Fiquei boquiaberta.
– D-de novo?! – gaguejei em pânico.
– Sim. Parece que ela gosta de apanhar para proteger o Arashi – ele respondeu simplesmente.
Mordi um lábio. “O que quer que esse garoto queira propor, eu sei que não é coisa boa...”
Visão de Shinraisei Tekki (passado selado)
[14/04/2013 – SUNDAY – AFTERNOON]
Minhas memórias voltaram parcialmente naquele momento. Não vi naquela hora meu passado conturbado, então tentei proteger Arashi com o meu GEAS. Porém, ao ativá-lo, o selo foi rompido totalmente. Eu me lembrei de tudo. Lágrimas de sangue corroeram mais ainda minha verdadeira alma insurgente. Para vingar o passado, tudo eu tinha que destruir.
[FLASHBACK: ON]
[01/01/2002 – TUESDAY – NIGHT]
Eu não morava em Tokyo naquela época, e sim em Hokkaido. Enquanto aguardava o retorno de minha família olhando o céu estrelado e límpido pela janela de meu quarto, suspirei entediado. Uma única nuvem podia ser vista ao longe no firmamento. A Lua imperava no centro do véu da escuridão com uma luz ofuscante e avermelhada. Era um fenômeno raríssimo que meu pai, Shinraisei Hajime, vivia me ilustrando em noites gélidas de inverno como aquela. Fiquei alegre por assistir tal fenômeno, porém questionei-me a todo o momento se meu pai, minha mãe e, claro, minha irmã, estavam vendo. Além disso, eu torcia para minha irmã estar saudável.
Depois uma rajada de vento frio quase me derrubar da cama onde eu estava ajoelhado e debruçado à janela, fechei-a com um suspiro. Parecia que aquela simples nuvem na verdade estava carregada com uma nevasca iminente. Engoli em seco e vesti mais casacos. Desci as escadas e sentei na entrada da casa, pelo lado de dentro. Olhei no relógio e eram oito e meia da noite. Tremi com uma brisa marota que invadiu as fraquezas dos agasalhos. Pensei se eles realmente chegariam naquele dia. Meus pais haviam me ligado às três da tarde, dizendo que chegavam às seis... Como já estava acostumado com esses atrasos, não fiquei irritado, apenas um pouco preocupado. Comecei a pensar em várias coisas. Nos Réveillon que passei com família reunida, que só foram dois e eu só me lembrava de um; nas noites em que minha mãe contou histórias de ninar para mim ou meu pai, suas experiências e artigos científicos; minha irmã deficiente mental me irritando, mas ao mesmo tempo me divertindo. Bons tempos. Minha família, porém, resolveu investir na pesquisa que curaria a patologia dela. Fiquei feliz que eles estavam empenhados em algo que a ajudaria, contudo... eu fiquei praticamente sozinho por um ano, somente sendo vigiado por uma babá gorda e implicante que eu esqueci completamente o nome. Eles estavam prestes a retornar, e eu deveria estar feliz, no entanto um mau pressentimento dominava a minha mente.
***
Passou-se três horas e nada. Enquanto eu congelava sentado e solitário, um desespero consumia-me. Eles estavam demorando mais do que de costume. “Eles não virão mais... Provavelmente darão uma desculpa esfarrapada amanhã de manhã... Vou dormir”, pensei quase chorando. Evitei as lágrimas, com medo de elas queimarem minha face resfriando-se. Ao fazer esforço para levantar, me surpreendi com o som de um motor de carro freando. Era o carro do meu pai. Ao ouvir o ruído familiar, corri até a porta e a abri alegremente, gritando com todo o ar de meus pulmões:
– Otou-chan*, oka-chan*, onee-chan! Okaeri!!
Meu pai saiu do carro sem responder. Não me recordo exatamente como estava seu semblante, todavia eu me apavorei com ele. Ao cruzar seu corpo ao meu, sussurrou algo que me fez estremecer:
– Entre em casa. Agora.
Com os olhos arregalados e tremendo com o frio da noite, entrei em casa. Minha mãe saiu do carro logo em seguida, entrando atrás de mim. Com todos dentro de casa, meu pai havia fechado todas as janelas da casa e, quando me viu com uma cara provavelmente revelando minhas dúvidas, ajeitou o corpo, pegou uma faca e disse:
– Deite-se no chão e estique os braços como uma estrela. Agora.
– O quê? – questionei sem entender.
– Somente faça! Sem questionamento!
Obedeci. Ao fazer isso, minha mãe pisou em meu tórax com tanta força que quebrou duas costelas automaticamente. Cuspi sangue alto e por pouco não engasguei com o próprio. Meu pai pegou outra faca e, enquanto ele se aproximava de mim a passos lentos, um pavor tomava conta de mim. “O que diabos está acontecendo?!”, pensei.
– Fique alegre. Lhe entregaremos o poder que você tinha o direito desde o início! O Poder dos Reis!
– O quê?! – questionei, tossindo e cuspindo mais sangue em seguida, pois minha mãe pressionou mais meu peito e costelas fraturadas.
– Prepare-se. Isso vai doer.
“Mais do que essas costelas?!”, perguntei-me. A dor era insuportável.
Imagine mil flechas em seu peito, quebradas, repartidas, e seu corpo cheio de fragmentos de madeira pinicando e rasgando toda a área. A dor que eu sentia era cem milhões de vezes pior. Mas não era o suficiente. O sujeito que dizia ser meu pai, a alguns metros de mim, correu em um impulso repentino e, após se agachar para se aproximar do meu rosto em um pulo, ficou de joelhos, arrastando no chão por poucos segundos antes de me alcançar, e então, com nenhum remorso, fincou as lâminas nos meus dois olhos.
E assim eu fiquei cego.
Primeiro foi literalmente: fiquei quase um ano sem enxergar.
Depois que eu recuperei a visão graças ao Instituto de Ciência e Tecnologia Yami, o selo feito nas órbitas do meus olhos foi efetivado, e eu esqueci tudo. Mais uma vez eu fui traído. Primeiro pela minha família, e depois pela família Yami, um velho com uma estranha doença e uma garota de cabelos negros e olhos verdes faiscantes... Ela era...
Yami Tsuki.
E o meu passado sombrio não para por aqui.
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