Rakuen PROJECT I ~ FIRST STAGE [BETA VERSION]
10 OUTSIDE CHAPTER #4 - Soul's Refuge
Notas iniciais
Visão de Hikari Yuri
[03/04–12/04/2013 – EXPLANATIONS]
Desde que desertei pela estranha curiosidade do significado de amizade, eu perdi o local que eu poderia chamar de casa. Não é exatamente uma casa, mas era onde eu repousava após as aulas e... tentativas de assassinato a Shizuka Arashi. Eu não deveria fazer isso, pois devia ser grata por meu mestre me devolver minha vida perdida há doze anos. Porém, mesmo que eu lhe deva muito, os valores que Shizuka Arashi deseja me passar são maiores que minha gratidão devida.
Assim sendo, precisei morar em outra casa. Mas aonde? No dia três de abril, quando Arashi retornou para casa e eu o acompanhei, pensei em pedir para morar junto com ele, entretanto fiquei ressentida e acabei não pedindo. É um sentimento estranho para uma garota tecnobiogenesis*, mas decidi guardar para mim, pelo menos naquele momento.
Andei pelo bairro de Chiyoda* sem rumo, até que, em um determinado momento da noite, alguém apertou meus ombros por trás. Levei um susto e tentei atacar o culpado, mas era apenas Shinrasei Tomodachi, aquele idiota que tentou me levar para sair no primeiro dia de aula... Ele estava com as mãos para o alto, e suando frio, pediu gaguejando:
– P-p-p-por favor, desfaça essa g-g-garra! Quero te fazer uma pergunta!
Desfiz a garra.
– Desculpe-me, mas você me assustou. Estava me defendendo.
Ele relaxou, abaixou os braços e a cabeça, além de suspirar.
– He... Enfim... Por que está há essa hora na rua, e ainda mais sozinha?
– Eu... não tenho para onde ir – revelei, meio temerosa.
– Hm... Bem, meus pais estão viajando, então você não quer ficar um tempo na minha casa?
Pensei na possibilidade, mas depois duas incógnitas encontrei mentalmente, e resolvi perguntar:
– Antes de responder, tenho duas perguntas. Primeira: o que está fazendo aqui? Segunda: como soube que eu estava aqui na rua?
Ele riu um pouco antes de responder.
– Bem, minha casa é aquela ali – ele apontou para casa logo a nossa frente. Estávamos em frente a uma esquina, e a casa dele era logo no outro quarteirão à esquerda. – E eu estava olhando pela janela e te vi, por isso resolvi perguntar.
Fiquei um pouco em silêncio, pensando, e logo fiz outra pergunta:
– Mas... como eu posso confiar em você? Eu nem o conheço direito!
– He, he. Você é uma gracinha... – ele comentou.
– Esse elogio só me faz ter nojo de você.
– Calma, calma! Quando eu digo isso, é que além da garota ser fofa, ela é inocente! Mas se você não pode confiar em mim, me responda: como você pode confiar em Shizuka Arashi?
– O-o quê?! Como você...?!
– Ele me falou sobre você e sobre a conversa que tiveram no telhado, afinal somos melhores amigos. Pelo o jeito que ele me disse, você confia nele.
Tomodachi acertou em cheio. Eu estava confiando incondicionalmente em Shizuka Arashi, e sentimentos que desconheço estavam me dominavam toda vez que eu pensava nele...
– Você tem razão... Mas... ele é de confiança. Conversamos por pouco tempo, mas ele é... gentil. É o tipo perfeito de... humano.
Ele começou a rir, entretanto continuei:
– E... se você é o melhor amigo dele, aceito o seu convite. Obrigada pela hospitalidade.
Ele parou de rir na hora, e então pediu:
– Você poderia repetir? “Obrigada pelo...” o quê?
– Você ouviu. Vamos entrar porque o frio está me congelando. E eu nem quero saber mais de frio...
Ele riu novamente, entendendo que eu falava de Yami Tsuki e seu poder de gelo.
Isso... o que foi isso? Eu... falei algo..., pensei.
– Ótima piada! Que ironia perfeita! – ele elogiou, rindo mais em seguida – Vamos entrar então! Siga-me!
Então isso foi uma... piada irônica?, concluí mentalmente.
Segui-o. Ele estava animado enquanto eu o seguia, pois caminhava em pulinhos. Ri um pouco, inesperadamente. Até ele se surpreendeu. Entramos em casa, e logo apaguei em um quarto qualquer. Assim sendo, passei alguns dias descansando em sua casa. Incrivelmente, foi até tranquilo. Dormi no primeiro dia e em todos os dias que permaneci lá no quarto de hóspedes, que era bem confortável, e ele dormia em seu próprio quarto. Ele me deu roupas limpas de sua irmã menor, e sempre preparava a comida para nós dois sempre, e tenho que admitir que ele cozinha bem. Mesmo assim, não conversávamos muito, e quase não nos víamos, até porque eu acompanhava Arashi até a sua casa e voltava depois para a casa de Tomodachi, e eu também não tinha nenhum assunto para falar com ele. Além disso, na hora dos animes favoritos dele, o tal exigia silêncio.
***
No dia onze de abril era uma quinta ensolarada, e, durante o intervalo, encontrei-me com Shizuka Junko. Ela abriu um sorriso e me abraçou ao me ver, dizendo:
– Sinto muito a sua falta lá na sala! He he!
– Sério? – perguntei.
– Claro! Somos amigas!
Confirmei minha teoria de que ninguém se lembrava do ocorrido no telhado, com exceção de mim, Tsuki e... Arashi.
– Sim... É...
– Onde você mora? Tava querendo passar um dia com sua família, só para podermos conversar e se divertir!
– Bem... eu não tenho casa nem família...
– O quê?!
– E... por enquanto eu estou morando na casa do Tomodachi... Mas eu não quero causar mais incômodo para ele... O que eu faço?
– Sério? Wow! Bem, você pode morar com a gente!
– O quê?! – comecei a sentir um certo calor no rosto todo – Com você e o A-arashi?!
– Claro! Tou-chan* é muito legal!
Fiquei sem palavras por alguns segundos, mas me recuperei e disse:
– Obrigada.
Ela riu triunfante. O sinal bateu e ela informou:
– É melhor voltarmos para a sala logo! – e saiu correndo para sua classe.
– É mesmo, não é... – concordei, vendo-a partir com um olhar distante.
Ao voltar para a casa de Tomodachi, ele me recebeu:
– Okaeri*!
– Tadaima*... – respondi, acessando meu banco de dados mental relacionado a tratamentos japoneses.
– Não devia ser o contrário?! – ele estranhou, rindo em seguida.
– Sim... – afirmei, não vendo graça alguma.
– Hu... Parece que você não muda mesmo... Enfim, parece que quer falar algo comigo, não?
Como ele adivinhou?, perguntei-me.
– Bem, eu posso ver pelo seu olhar... – ele respondeu meu pensamento, assustando-me mais ainda. – Então, o que quer?
– Hm... Bem... – por algum motivo não conseguia dizer. Algo me travava, e um sentimento brotou em meu peito, dizendo: Não parta...
– Se não puder dizer agora, tudo bem. Quando se sentir confiante, me diga. Sou paciente, he, he!
– Tomodachi... Você é... tão legal...
– O quê?
– Não pensei que fosse tão gentil também... Eu... realmente estou agradecida pela a sua ajuda!
– S-sério?! Era isso que você queria me dizer?
– Bem, não era só isso... – eu suspirei, e as palavras seguintes não queriam sair de minha boca.
Confusa, fiz a única coisa que veio a minha mente: aquele momento em que Arashi me abraçou no telhado. Imitei-o, abraçando Tomodachi.
– Y-y-yuri-chan?! O que aconteceu com você?! – ele parecia confuso e constrangido.
Sorri antes de responder:
– Acho que com isso somos amigos?
– Acho que sim... Mas perguntar para o Arashi não seria melhor? Esse é... o dever dele...
– Não é? Então perguntarei para ele mais tarde!
Soltei-o e subi até o quarto onde eu estava hospedada. Lembrei-me de quando Tomodachi me disse que eu poderia ficar com aquelas roupas, então comecei a dobrá-las e guardar na mochila.
Eu partirei no dia seguinte, pensei. Por mais que o Tomodachi seja... desse jeito... Eu não posso ficar aqui. Se a família dele voltar e me encontrar aqui, ele estará em apuros. Além disso, sou responsabilidade do Arashi agora... Eu acho...
Ao guardar todas as roupas, joguei a mochila no chão e deitei na cama. Passou algumas horas, e eu desci novamente. Tomodachi tinha terminado de preparar o jantar e já iria me chamar quando eu desci para o primeiro andar. Durante a refeição, acabei perguntando:
– Tomodachi, porque você cozinha tão bem?
– Bem, meus pais são muito ocupados – ele começou. – Eles estão sempre trabalhando ou viajando, então eu que preparo a comida da casa quase sempre. Aprendi a cozinhar por pura necessidade e falta de tempo de meus pais. Além disso, a minha irmã... é deficiente física. Ela sempre quis ajudar na casa, mas nunca pôde por seus problemas locomotores... Além disso, ela não cresceu muito.
– Entendo... Desculpe-me por fazê-lo entrar em um assunto tão íntimo...
– Nada, que isso. Essa última viagem eles levaram minha irmã porque no Estados Unidos descobriram uma cura para a doença dela.
Minha cabeça começou a doer com a sentença. Havia algo errado com aquela história.
– Que síndrome... ARG! – coloquei as mãos na testa. O suor não parava de escorrer.
– Yuri-chan, você tá bem? – ele questionou, se aproximando.
Quando ele apoiou a mão sobre o meu ombro e tocou em minha testa, afastando as minhas mãos, a dor passou. Meu corpo começou a ficar quente, e meu coração começou a bater mais rápido. Constrangido, afastou-se de mim em um salto e exclamou:
– Desculpe! Te deixei constrangida?
– N-não! – gaguejei. – Foi... bom...
O que foi isso?, pensei. Foi realmente bom, mas... ao mesmo tempo assustador. O que aconteceu comigo afinal?
Tomodachi suspirou. Lembrei-me da pergunta que eu iria fazer e a refiz:
– Qual é a síndrome de sua irmã?
– Hm... Não sei...
– Um momento...
Aproximei-me dele e beijei sua testa.
– O que está fazendo?! – ele inquiriu.
– Pegando suas memórias emprestadas por um tempo. Fique quieto – respondi, beijando novamente em seguida.
Mesmo corado, ele assentiu. Revirei as memórias e vi: aquela síndrome, segundo meu banco de dados, não tem cura, e o EUA não faz pesquisas relacionadas a ela. Somente há pesquisas sobre ela na Inglaterra e na Suécia. E Tomodachi não mentiu para mim, os pais lhe disseram isso. Então... só restaram duas hipóteses: ou os pais mentiram, ou foram enganados.
Mesmo sabendo da verdade, não fui capaz de dizer nada para o Tomodachi. Dei uma desculpa qualquer e fui para o quarto. Escrevi um bilhete de despedida e o deixei em cima da cama dele no dia seguinte.
Visão de Chitsujo Yui
[12/04/2013 – FRIDAY – NIGHT]
Minhas lágrimas não paravam de rolar enquanto eu me tocava. Estava com raiva, mas também queria vê-lo.
Por que o meu primeiro amor tem que me decepcionar “dessa forma”?!, pensei, e nas palavras destacadas enfiei com mais força e fúria.
Aquilo virou um exercício de relaxamento com prazer, pois é bem melhor fazer isso do que socar alguma coisa. Porém, quando eu menos esperava e as lágrimas começaram a secar, recebi uma mensagem que renovou minhas forças:
Me desculpe por isso. Sho-chan roubou meu celular e disse bobagem. Vou sair sim com você. Me aguarde.
Meus olhos começaram a brilhar, e após eu colocar o celular na cômoda, comecei a pular de alegria. O meu dia não podia ficar melhor.
[13/04/2013 – SATURDAY – MIDDAY]
Durante o almoço, meu irmão idiota comentou:
– Ah, eu vi o Arashi hoje na rua...
– Sério? – perguntei.
– Sim... Espanquei ele...
– O QUÊ?!
– Aquele safado trocou você pela Noyogi-chan! Eu não podia perdoar!
– Mas aquilo foi um mero engano!
– Como assim?
– I-idiota! Nunca entenderia! Além disso, já pedi para parar de querer resolver meus problemas! Sou grande o suficiente para resolvê-los...
– Se é assim, por que abandonou seu cargo como monitora de classe?
Hesitei, e após alguns segundos apenas disse:
– Estou sem fome.
Abandonei a mesa, e já iria atrás do Shizuka-kun, mas meu irmão segurou meu ombro, afirmando:
– Você não vai. Mamãe não deixou.
– Vá se danar – ordenei.
DING DONG!
A campainha tocou, interrompendo nossa briga e trazendo uma boa visita: o refúgio da minha alma.
Fale com o autor