Raiva
1 Capítulo 1
Cai de joelhos sobre a superfície gelado do congelado lago da cidade, apoiando ambas as mãos. Assim eu poderia continuar a vê-la.
Eu sabia que não deveria ter me permitido amar.
Sabia que isso me deixaria fraco e vulnerável, mas mesmo assim deixei que acontecesse.
Você não passa de uma criatura patética — Ecoei em pensamentos.
Mas ainda não era o suficiente.
O ódio fluía por meu corpo, me mantendo aquecido. Eu precisava de mais. Eu queria mais.
Minhas mãos ensanguentadas deixavam marcas no gelo.
Apertei o frasco da magia que o refizera até que o pequeno pedaço de vidro se partiu em meus dedos.
O sangue começou a se espalhar pela água, mas ninguém se importaria.
Humano algum se arriscava a entrar nessa parte da floresta nessa época da estação, onde a neve caia com mais força.
A cabeça de Katherin flutuou até mim enquanto a outra afundou. Os olhos vermelhos me fitando.
— Eu te odeio – Falei para a cabeça sem vida.
Me apoiei somente em meus joelhos, olhei para Lua e uivei com todas as minhas forças.
A neve caindo torrencialmente sobre meu corpo desnudo.
Deveria estar sentindo pelo menos um pouco de remorso, mas não. Eu não conseguia sentir nada além de raiva e prazer por tê-los matado. Era como se eu sentisse meu coração endurecer, ficando mais gelado que a pior noite de inverno do lugar mais frio do universo. Mais congelante que essa merda de noite de inverno.
De dentro da floresta, dois globos amarelos brilharam como vagalumes.
A cena de minha, agora falecida namorado, se pegando com alguém da alcateia inimiga passou como um flash em minha mente.
Mais um par de globos amarelados se juntou ao outro.
— Vocês realmente chamam isso de se esconder? – Gritei noite a dentro – Uma criança de dois anos faz melhor.
Dois imensos licantropos irromperam da floresta, vindo velozmente em minha direção.
Pela pelugem mesclada, eu sabia que não eram puros sangues como eu.
Bom... só existe um licantropo com o sangue tão puro quanto o meu e nós não nos vemos a algum tempo.
— Espero que vocês possam me entreter mais que o fracote de seu companheiro de alcateia.
Me levantei e deixei a fera rasgar minha pele, que se desgrudou de meu corpo e caiu como a sujeira que era.
Os dois pareciam acostumado a trabalhar juntos e até poderiam ter alguma chance se eu não estivesse exalando raiva.
Um deles tomou a dianteira e se lançou sobre mim, que desviei facilmente.
Agilidade era a minha especialidade.
O outro tentara me pegar pelas costas, mas suas garras faziam muito barulho, deixando-o facilmente perceptível.
Saltei exatamente no momento que ele tentara me agarrar e aterrissei em suas costas, derrubando-o e nos fazendo deslizar. Sem perder tempo, cravei meus dentes em seu pescoço e lhe arranquei a cabeça.
Minha pelugem branca ficou manchada de sangue novamente naquele dia.
Olhei para meu oponente a minha frente e rosnei com todo meu amargor, que se estendeu na noite.
Ao perceber que não teria chances contra mim, desatou a correr em direção a floresta.
Isso mesmo, carneirinho... torne isso um pouco mais interessante.
Fiquei sobre as quatro patas, com os olhos semicerrados, só esperando o momento certo para atacar. Assim que entrou na floresta, me lancei em sua direção.
O carneirinho assustado corria em ziguezagues, na esperança de que isso fosse o suficiente para conseguir escapar.
Diminui minha velocidade, dando uma chance a ele, mas logo toda essa brincadeira me entediou. Então foi fácil capturá-lo, usando apenas uma arvore como impulso.
Minha presa tentara se soltar, mas fora inútil.
Um a um, arrancei seus membros até que sua desprezível vida se esvaísse de seu corpo fraco.
Me levantei, ainda arfando e caminhei até a Grande Arvore.
Arranhei seu velho tronco enquanto deslizava até o chão e voltava a patética forma de homem.
Aqueles dois eram provavelmente novatos na alcateia, pois foram incrivelmente fáceis de liquidar, mas pelo menos me fizeram cansar. Meu peitoral descia e subia enquanto eu recuperava meu folego.
Fechei e olhos e pensei no quão severa seria a punição que Lair me daria por matar um membro de nossa própria alcateia. Por mais que Katherin tivesse nos traído, ela era uma das favoritas e eu tomara a decisão sem antes consulta-lo. Dessa vez, ele não poderia deixar meu temperamento passar despercebido.
— O seu pai sempre lhe diz que mulheres farão você fazer estupidez – Disse a conhecida voz de Astaroph.
— hump...
— Noah... – Ele me disse, jogando uma troca de roupa, que peguei e comecei a vesti-las — ... você tem noção do que acabou de fazer.
Eu o olhei com ódio.
Isso fora o suficiente para fazê-lo saber que deveria ficar quieto.
— Lair quer ver você... agora.
Eu achei que teria mais tempo para pensar no que dizer, mas Lair era um Alfa muito competente.
Então para acabar logo com tudo isso, caminhei com Astaroph embaixo daquela pesada tempestade de neve, num inverno que ficaria para sempre gravado em mim, até uma possível punição que me deixaria com marcas.
...
Ao nos aproximarmos da casa de nosso Alfa, pude avistar alguns dos outros membros da alcateia.
— Se não é o baixinho de estimação do Alfa – Krenfer, um dos mais velhos da alcateia comentou com algum membro menos importante que estava ao seu lado – Espero que dessa vez ele coloque uma coleira nesse filhote.
Eu o olhei com cara de entediado.
— Não ligue pra ele – Astaroph disse.
— Eu não ligo... só não estou satisfeito com a quantidade de sengue em meu corpo.
Meu velho amigo balançou a cabeça em negação.
Continuamos a entrar na casa, até que chegamos a sala onde Lair se encontrava.
— Você queria me ver – Falei interrompendo sua conversa com uma garota que eu nem fazia ideia da existência.
Ele a dispensou e então me olhou atentamente.
Era evidente o descontentamento em seus olhos violetas.
— Noah... Noah! O que eu faço com você?
Dei de ombros.
— Qual é a sua desculpa dessa vez? – Continuou.
— Tenho certeza que a essa altura você já deve saber...
Ele bufou e passou a mão nos longos cabelos brancos.
— Eu quero saber qual foi o real motivo de você ter matado Katherin.
— Ela estava no traindo. Passando informações para a alcateia inimiga.
— Tem certeza que não foi por ela estar traindo a você, Noah? – Falou me pegando de surpresa – Por ela estar trepando com Aster.
Eu jamais esperava ouvir Lair, que era como um pai para mim, falar desta maneira.
Incapaz de responder, desviei o olhar.
Lair veio até mim, pegou meu rosto entre suas mãos e me fitou bem fundo nos olhos.
Assim que seus olhos tomaram um forte brilho violeta, os meus ficaram vermelhos.
Era de lei. Se um alfa mostrasse seus olhos, você deveria mostrar os seus também.
Astaroph olhava a tudo atentamente.
Sempre achei que se alguém fosse nos trair, seria ele, mas eu nunca estive tão cego.
— Ora, filho. É normal ficar com raiva quando descobrimos uma traição, mas isso não justifica você matar uma de minhas filhas... ainda mais uma tão inestimável – Aproximou nossas cabeças, deixando nossos olhares na mesma altura – Da próxima vez que você matar alguém da minha alcateia, eu vou de destroçar pedacinhos por pedacinho, até que você implore para morrer.
Sua ameaça me arrepiou inteiro, deixando meu corpo gelado.
Afirmei com a cabeça.
— Quero que diga que entendeu cada palavra que eu disse.
— Entendi cada palavra que o senhor disse.
— Bom garoto – Disse me dando dois tapinhas no rosto e saindo de perto de mim.
Relaxei um pouco, pois estava esperando uma confusão muito maior.
— Ah! E Noah...
Eu relaxara cedo demais.
Lair se virou rapidamente em minha direção e golpeou meu olho esquerdo.
Cabalei para trás, com a mão pressionando o local ferido. Eu senti meu sangue escorrer.
— Desculpe, mas eu não posso te deixar ir embora só com um sermão. Que tipo de Alfa minha alcateia pensaria que eu sou?
Com o olho bom, pude ver a satisfação em seu rosto.
Tentei abrir o outro olho, mas pareceu que nada havia mudado.
A dor que eu sentia, era imensa. Era como se rasgassem minha pele com um metal em brasa, subindo e descendo por meu olho.
A primeira coisa que pensei, seria em como explicaria isso aos meus pais.
— Não se preocupe – Lair disse como se pudesse ler meus pensamentos – Amanhã, quando sua família acordar, você já estará curado e sua família não saberá que esteve machucado.
Eu afirmei, e sem dizer nada fui embora.
Antes de chegarmos ao lado de fora da casa, precisei me segurar para não matar dois idiotas que estavam rindo de mim.
— Bom. Pelo menos amanhã você já vai estar inteiro e ninguém mais vai lembrar disso – Astaroph comentou.
Bufei.
— Você é idiota assim mesmo ou se faz? – Perguntei enquanto voltávamos a caminhar – Toda ferida feita pelo Alfa, deixa uma cicatriz.
— Mas Lair disse...
— Ele se referia a minha forma humana. Quando eu me transformar, a ferida aparecerá.
Astaroph fez uma cara de desgosto que meu deu vontade de soca-lo.
— Que cara de bosta é essa? – Perguntei.
— Quando você ver a gravidade disso na sua cara, você vai fazer a mesma cara.
Infelizmente, o idiota estava certo.
Assim que cheguei em casa e me olhei no espelho, fiz a mesma expressão.
Eu tinha sorte de que iria me curar dali a um tempo, pois o estrago fora feio.
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