Raio de Sol
8 Velório
Notas iniciais
Capítulo 8 – Velório
Era seis da manhã quando Ismael acordou.
Ele se levantou e sabia que o dia iria ser difícil tanto para ele como para ela. Muito mais para ela, pensou enquanto se dirigia para a porta do quarto e parou com a mão em cima da maçaneta. Não sabia o que aconteceria naquele dia, mas tinha certeza de que não seria o melhor dia de suas vidas.
Abriu a porta e ouviu o barulho do chuveiro. Não estava surpreso por saber que ela já havia acordado, mas se surpreendeu ao ver um terno estirado no sofá. Havia um bilhetinho que dizia: “Vista isso, não dá para ir a um velório de jeans”. Ele sorriu levemente e levou o terno para o quarto.
Voltou para a cozinha e viu que ela ainda não tinha feito café. Resolveu ajudar pelo menos um pouco. Ele pegou o coador, o bule e começou a esquentar a água.
Enquanto olhava a água formar minúsculas bolinhas milhares de pensamentos passaram por sua cabeça. Ismael estava tão dentro de seus próprios pensamentos que nem percebeu quando começou a falar alto.
– Tenho que arrumar um lugar para ir – e tirou a água do fogo e levemente jogou sobre o pó de café no coador. – Não acho que a Raiane fica confortável comigo aqui e deve ser muito estranho ter alguém desconhecido em sua casa – o cheiro de café era tão bom. – Acho que ela quer que eu vá embora não? – e suspirou.
Colocou o bule já vazio agora dentro da pia e pegou uma colher para mexer o café que tinha um cheiro tão forte que chegava a ser nauseante. Ismael inspirou aquele cheiro e foi pego de surpresa por uma terrível memória.
Deveria ter oito anos, não sabia de verdade, esta época para ele foi tão confusa que só as piores memórias ele se lembrava com clareza. Sua mãe chegando a casa com um homem e dizendo que ele seria seu padrasto, meses de tortura sem poder falar nada, seu padrasto brincando com ele e o levando onde trabalhava, por fim, sua mãe quase o espancando por seu padrasto ter ido embora. Meses depois apareceu com outro homem. Seu padrasto gostava de café.
Ismael sacudiu a cabeça quando percebeu que sua mão começava a tremer, voltou a mexer o café tentando se esquecer de qualquer memória relacionada aquilo. Raiane também gosta de café. Ele assentiu para si mesmo e dando-se por satisfeito colocou o café pronto e outro bule limpo. Estava quente e colocou o bule sobre a mesa.
Pegou na geladeira manteiga e colocou o pão no microondas dizendo a si mesmo que deveria pedir gel a Raiane, não podia deixar seu cabelo do jeito que estava.
Raiane estava encostada na bancada da cozinha o olhando, os dois se encararam por um instante e Raiane soltou um pequeno suspiro.
– Não me incomoda exatamente tê-lo aqui – ela disse sentou-se a mesa.
– O que? – Ismael tirou o pão do microondas.
– Você não precisa ser tão desesperado para sair daqui é o que estou dizendo – ela disse erguendo as sobrancelhas. – Senta logo – disse quando ele ficou paralisado. – Mas o que foi?
– É... – ele abriu um sorriso. – Você está falando sério?
– É claro que é estranho ter você aqui, mas não é um incomodo. Claro que não estou dizendo que pode morar aqui, pirralho, mas estou dizendo que não precisa ter tanta pressa.
Ela queria dizer que estava gostando de ter ele ali, mas nunca daria este gostinho a ele. Depois disso, Ismael disse um animado “obrigado” e ao terminarem de tomar café Raiane o mandou vestir-se logo.
– Mas nós já vamos sair? – ele disse um pouco intrigado.
– Sou família e parece que meus pais querem que eu ajude antes dos “convidados” chegarem – Raiane fez um sinalzinho de aspas com as mãos e bufou. – É um velório, não uma festa e eles ainda tiveram a coragem de chamar todos os amigos possíveis.
Quando se levantou para tomar banho foi que realmente reparou nela. Raiane tinha os cabelos negros soltos e usava um vestido de mangas curtas que ia provavelmente até os joelhos. Ela vai passar frio, pensou enquanto ainda a analisava. Ela estava deslumbrante, mas seu olhar estava sem brilho algum.
Ismael conteve um suspiro e foi tomar banho. Vinte minutos depois estavam os dois prontos para sair. Ismael suava frio quando saíram do prédio e pegaram o táxi.
Chegaram ao lugar que ocorreria tudo por volta de umas sete e quarenta. Raiane saiu do carro primeiro e Ismael a acompanhou. Ele não parava de pensar como seria seu encontro com os pais dela. Ismael suspirou e se repreendeu. Estou em um velório, não conhecendo os pais da minha namorada. Infelizmente, a personalidade de Ismael não conseguiu evitar completar com um “ainda” e um sorrisinho.
Raiane, para o seu próprio bem mental, fingiu que nem tinha visto esse sorrisinho. Entraram no que achava ser algo exagerado para um velório e Raiane viu seus pais.
Eles conversavam com o que achava serem funcionários, mas já carregavam em suas mãos taças. Ah que ótimo, é um velório e eles já estão ficando bêbados. Raiane sabia desde que colocou o pé ali que não seria bem-vinda pelos seus pais depois da ligação do dia anterior, mas mesmo assim – por educação – foi até eles.
– Mãe? Pai? – ela disse com Ismael logo atrás dela. – Precisam de ajuda para algo?
E era isso. Nem um “tudo bem” ou “sinto muito” e Raiane sabia que não estava facilitando as coisas para eles, mas desde que saiu da casa de seus pais não ligava mais para regras de etiqueta.
– Você veio – sua mãe disse em um sussurro, ela parecia estar abatida. – Fico feliz que tenha vindo – ela engoliu em seco quando disse isso e Raiane apenas assentiu e deu um abraço nela. – Pode ajudar com a decoração?
Raiane franziu o cenho pensando para que diabos um velório precisava de decoração? Mas assentiu e já ia pedindo para Ismael acompanhá-la quando seu pai disse:
– E quem seria esse? – Ismael não sabia o que falar, mas Raiane falou por ele.
– Ele estava comigo quando soube da morte de Tália – Raiane disse curta e grossa. – Ele me levou para o hospital quando desmaiei, vem Ismael...
– Ah Raiane – sua mãe disse em tom repreendedor. – O menino não tem nada a ver com isso – e ela sorriu para ele. – Deixe-o aqui para que possa descansar um pouco.
Raiane não sabia do que diabos ele iria descansar, mas não estava a fim de discutir com sua mãe. Raiane soltou um suspiro e olhou para Ismael com aquele olhar sem brilho que transmitia um pedido de desculpas. Saiu para falar com os funcionários e o deixou ali, a mercê de seus pais.
– Então... – o pai de Raiane disse. – Seu nome é Ismael certo?
– Sim, senhor – ele parecia um pouco inseguro.
– Por favor, dispenso formalidades. Me chamo Marcos e esta é minha esposa Lídia – ele disse e sorriu, também tinha uma expressão abatida. – Parece ser mais novo que Raiane, quantos anos tem?
Ismael definitivamente não estava gostando do rumo daquela conversa e disse com seu sorriso clássico.
– Vou fazer dezenove – ele disse. – Agora se não se importam acho que deveria ajudar Raiane... – Ismael sabia que era uma falta de educação tremenda deixá-los falando sozinho, mas Raiane parecia tão perdida que estava querendo ajudá-la.
– Ah então é maior de idade! – a mãe dela disse e estendeu uma taça para ele. – Acho que não tem problema de beber um pouco, certo?
– Muito obrigada, mas não bebo – ele sorriu levemente. – Não gosto do efeito – ele completou já querendo sair dali.
– Ora, ora – Marcos disse com um olhar um pouco surpreso. – Um rapaz em época de faculdade que não bebe? Essa é realmente uma surpresa, não Lídia?
– Sim, sim – ela sorriu colocando a taça oferecida em cima de uma mesa. – Mas diga Ismael, há quanto tempo conhece Raiane?
A resposta não o pegou de surpresa e sorrindo ele já sabia onde aquela conversa iria dar.
– A conheci no dia em que recebeu a notícia de Tália – era estranho pronunciar o nome de Tália para ele. – A conheci minutos antes no metrô e por coincidência descemos na mesmo estação.
– Entendo – Marcos tomou mais um gole do que deveria ser qualquer bebida alcoólica. – Mas qual seu interesse em nossa filha?
Ah, eu não acredito, Ismael queria morrer naquele instante e suas mãos pareciam estar derretendo, mesmo assim não perdeu a compostura e continuou com seu sorriso.
– Não tenho nenhum interesse amoroso em sua filha se é isso que está dizendo, Marcos – era verdade que talvez o chamando pelo nome estivesse sendo muito informal, mas não podia dizer que a pergunta não tinha o irritado.
– Desculpe se meu marido o irritou Ismael – Lídia disse e completou. — Nos perdoe é que não faz muito sentido um rapaz como você acompanhar uma menina como Raiane no velório da irmã dela... Que não tem relação alguma contigo.
Ismael estava ficando realmente irritado e suas sobrancelhas se juntaram ao perguntar: — Como assim “uma menina como Raiane”?
– Ismael – Marcos disse suspirando. – Raiane é nossa filha e nós a amamos, mas sabemos que não é possível alguém virar seu amigo só por que é uma pessoa adorável.
– Mas o que...? – Ismael os olhou com incredulidade.
– Por favor, não nos lance esse olhar Ismael – Lídia disse parecendo um pouco envergonhada. – Mas nós conhecemos nossa filha e ela não tem nenhum amigo ou já teve algum namorado decente, Ismael.
Ismael não sabia o que fazia diante daquilo. Queria bater nos pais de Raiane, mas sabia que não podia fazer isso, deveria se controlar apesar do absurdo que estavam dizendo.
– Desculpe Ismael – Lídia pousou uma mão em seu braço. – Parece horrível pais estarem dizendo isso, mas...
– E é mesmo – ele disse, não estava acreditando nas palavras deles. – Vocês conhecem sua filha? Não parece – se desvencilhou do toque de Lídia. – Eu realmente não quero perder o controle por que estamos no velório da irmã de Raiane e em respeito a isso eu vou simplesmente me retirar e ajudá-la.
– Ah – Marcos parecia surpreso com a fala de Ismael. – Quer dizer que você, um estranho, conhece nossa filha então?
– Nunca disse que conhecia, mas pelo que me falaram conheço muito melhor do que vocês – Ismael arqueou uma sobrancelha. – Vocês não devem fazer ideia de quem é Raiane, não é? Raiane me ajudou quando mais precisava – ele se aproximou do pai dela que não era muito maior do que ele. – Eu estava completamente machucado e ela tomou conta de mim, ainda está! – ele não gritou, mas seu tom era muito pior do que qualquer outro grito. – E ainda tem coragem de dizer isso? Desculpem-me, mas quem não conhece Raiane são vocês.
Deixou os pais de Raiane com um olhar de incredulidade e saiu para ajudá-la.
– Ué? – ela o olhou e algo estava piorando no olhar dela. – Meus pais já te liberaram? – Raiane estava agachada arrumando fitas azul-marinho.
– Não sei – ele respondeu a olhando com preocupação. – Você está bem?
– To – ela suspirou e se levantou entregando as fitas para o funcionário.
– Vem – ele pegou o pulso dela e nem ligou se os pais dela estavam vendo ou não. – Você não está bem, vamos lá fora – e a arrastou com ele.
Fale com o autor