Notas iniciais
O que seria dessa fic sem um drama imenso hein :D Voltei? Consegui escrever este pelo menos. Pode-se dizer que uma playlist me salvou. Espero que gostem. Comentem, sim?

– Ei Ismael – Raiane chamou mexendo o arroz. – O que você acha de assistirmos um filme?

– Pode ser – disse um pouco distraído. – Vou procurar algum – ela assentiu e ele se dirigiu a sala olhando a estante atentamente.

Ela tinha poucos filmes, mas nenhum que ele já tivesse visto. Pegou um que o nome lhe pareceu familiar e leu a sinopse. Teve que se controlar para não colocar o DVD imediatamente na estante. O Diário de Anne Frank. Já havia lido o livro quando pequeno para um trabalho escolar e assistiu ao filme para ter uma visão diferente das coisas, o filme o tinha feito chorar e não pretendia ver aquilo de novo.

Enquanto escolhia escutou algo parecido com uma tosse da cozinha, mas não prestou atenção nisso. Focou no que estava fazendo, reparou melhor e percebeu que era uma versão mais nova do filme. Suspirou e resolveu não assisti-lo, mas Raiane o chamou e em vez de guarda-lo deixou em cima do sofá.

Eles jantaram arroz, salada e feijão. Ismael decidiu que da próxima vez iria fazer algum doce para eles comerem de sobremesa e com esse pensamento foi tomar banho, ela disse que iria após assistirem o filme e foi para a sala. Passados alguns minutos estavam enrolados em um cobertor no sofá. Olhou para o rosto de Raiane e disse a si mesmo que parecia meio pálido.

Olhou para a TV e quase teve um ataque do coração quando viu o letreiro. Era culpa sua afinal, ninguém tinha mandado deixa-lo ali em cima. Respirou fundo e disse a si mesmo que conseguia, involuntariamente segurou a mão de Raiane que simplesmente o olhou.

Raiane resolveu deixar aquilo quieto e assistir ao filme. Com somente dez minutos de filme Ismael já estava perdido em pensamentos horrorizados e inquietos sobre como horrível era a cena de Anne sendo levada e o trágico fim dela. Raiane suspirou pesadamente e se levantou do sofá.

– Vamos trocar de filme – ela disse e tossiu um pouco. – Está me deixando irritada toda essa sua inquietude — Ismael não pôde falar nada já que Raiane estava certa. – Tenho aqui O Som do Coração, é bonito e não tem um final triste... O que acha?

– Claro – concordou ligeiramente envergonhado, mas também preocupado. – Está tudo bem Raiane?

– Está sim – disse limpando a garganta. — Vamos apenas ver o filme.

Trocaram então de filme e assim que o terminaram resolveram dormir. Ismael levantou-se do sofá acompanhado por Raiane, os dois com a mesma pergunta na cabeça. O que aconteceria agora?

– Então.

– Hum – ela disse.

– Eu acho que vou para o quarto.

– Tá.

– Boa noite.

– Boa noite.

Entretanto nenhum dos dois se mexeu. Ismael suspirou e segurou o rosto de Raiane entre as mãos. Deu um selinho e logo a abraçou, não foi como os outros beijos ela pensou. Tinha alguma coisa diferente nesse. Ela passou seus braços pela cintura dele e sorriu rapidamente e Ismael acabou perdendo este momento.

– Ok – ela disse os separando. – Estou indo para o quarto.

Ele concordou com a cabeça e observou com um olhar preocupado Raiane voltar para seu quarto tossindo um pouco. Suspirou e disse a si mesmo que se ela não estava preocupada não seria ele que insistiria. Dirigiu-se para o quarto de hóspedes ligando a luz.

Ismael lembrou-se do pesadelo que teve e disse a si mesmo que não tinha muito que se fazer. Arrumou os cobertores e colocou seu celular para carregar, desligou a luz, mas não fechou a porta completamente. A luz do corredor estava ligada e queria um pouco de luz ali.

Mas Ismael estava errado, Raiane estava preocupada. Assim que entrou no seu quarto, ela pegou dois comprimidos os engoliu sem água nem nada. Fechou os olhos com força esperando não ter uma recaída e deitou apagando todas as luzes e fechando sua porta.

Deitou e cobriu-se sentindo o corpo ficar mole e pensando que devia estar bem amanhã ela adormeceu.

O sono dos dois seguiu-se ininterrupto até às quatro horas da manhã. Ismael acordou com as tosses molhadas vindas do quarto à frente. Sentou-se na cama e passou a mão pelos cabelos olhando no relógio que horas eram, até que seu cérebro finalmente processou o tipo de som que o havia acordado.

– Raiane!

Ele se levantou correndo tropeçando no carregador do celular, escutou um som de alguém vomitando. Ismael desenroscou seu pé e abriu a porta com muita força. Ele tentou a abrir a porta do quarto de Raiane, mas algo parecia estar bloqueando ele.

– Raiane! – ele esmurrou a porta e escutou a tosse dela mais alta e mais longa. – Abra essa porta agora!

– Sai! – ela tentou parecer ofensiva, mas sua voz estava entrecortada e rouca demais para isso. – Eu já tomei os remédios – houve um baque dentro do quarto e Ismael imaginou que algo houvesse caído. – Vai... passar – mais tosses.

– O que caiu Raiane? – ele estava desesperado. – Eu estou pouco me fudendo pra remédio! Abra essa porta!

Ela fez um som que acreditava ser uma risada, mas não estava tão certo disso. Escutou outro baque dessa vez mais abafado e as tosses pararam.

– Raiane? – ele respirou tentando acalmar sua mente e abriu a porta lentamente encontrando uma cena deplorável.

Raiane estava caída no chão atrás da porta talvez a estivesse bloqueando com seu peso, viu que o que havia caído era o caderno que Tália lhe deu, havia vomito nele e no chão ao lado dela, tinha sangue perto da sua boca também e estava praticamente banhada em suor.

Ismael caiu de joelhos e a viu com os olhos entreabertos e as mãos tremendo. Não conseguia falar nada, tudo o que fez em seguida lhe pareceu um borrão, não sabia se era adrenalina, desespero, medo que Raiane morresse, mas quando deu por si estava com ela no colo com os braços dela pendendo em seus ombros e sua cabeça encaixada em seu pescoço descendo as escadas correndo.

Poderia ter escorregado a qualquer momento, mas por algum motivo já havia chegado ao térreo e estava tentando ignorar a sensação molhada no seu pescoço toda vez que Raiane tossia. Chegou à portaria pedindo por um hospital próximo qualquer coisa.

Seus olhos não conseguiam focar no rosto do porteiro quando ele ligou para uma ambulância e corria para tentar ajudar Ismael. Mas a realidade é que Raiane provavelmente teria morrido se tivesse esperado por uma ambulância. Um casal que chegava ao prédio de carro viu o que estava acontecendo e o porteiro disse em três segundos o que havia acontecido já que Ismael parecia incapaz de falar mais.

– Seu Ismael! – o porteiro o chamava. – Dona Helena e seu marido vão levá-los, rápido! Entre no carro!

Ismael não perguntou quem eram até aquele momento não tinha visto o casal e simplesmente entrou no carro. Ele embalava Raiane como algo precioso, algo especial que poderia quebrar se fizesse movimentos bruscos. Estava em choque e Helena tentou acalmá-lo dizendo que ia dar tudo certo.

Era óbvio que Ismael não acreditava naquilo. Estava perdendo alguém de novo? Dessa vez pra porcaria da morte? Que merda de vida era aquela? Por que tudo o que tinha foi tirado e tudo o que deveria ter nunca lhe foi dado? Quando finalmente encontrou alguém que amava de verdade essa pessoa escapava pelas suas mãos.

Ismael conseguia sentir Raiane escorrendo pelos seus dedos e indo para bem longe. Longe o bastante para nunca mais voltar e a cada tosse banhada a sangue ele via sua vida perdendo todo o sentido.

– Ismael! – o homem chamou. – Chegamos!

Abriu a porta quase sem esperar o carro parar e entrou no hospital com Raiane praticamente desfalecida nos seus braços. Enfermeiras surgiram do nada ou talvez Ismael só conseguisse sentir o cheiro de desinfetante típico de hospital e não viu os médicos que chegaram com macas.

Eles a tiraram de seus braços e o seguraram. Por que a estavam levando? Queria ir com ela. Tinha que ir com ela.

Raiane. Era o que conseguia pensar e o que murmurava sem parar. Logo depois Helena e seu marido entraram no hospital e Ismael sentiu suas pernas fraquejarem. Helena gritou para Chris – descobriu então o nome dele – para segurá-lo. O colocaram na cadeira e todas aquelas perguntas o deixavam com dor de cabeça.

Soltou a respiração. Fechou os olhos. Disse que não era nada. Suportaria aquilo. Já passaria. Nada sobraria depois.

Exatamente o que fazia quando o seu padrasto o abusava. Abriu os olhos novamente e com a visão com mais foco perguntou para o homem de branco que tinha uma expressão estranha.

– Ela vai embora?

O médico de nome Tales olhou em seus olhos e com seu rosto estranho e expressão estranha deu um meio sorriso cansado de um dia inteiro de emergências e doenças.

– Você conseguiu a trazer até aqui. Fez muito bem.

E apagou.

Notas finais
Raiane T^T Será que ela vai ficar bem? Não sei :D