Raio de Sol
13 Aniversário
Notas iniciais
Capítulo 14 – Aniversariante
– Vamos Ismael! – ela estava batendo nele com o travesseiro. – Hoje é seu aniversário! Quero fazer algo!
– Raiane – ele disse com a voz grogue – São sete da manhã e estamos em pleno domingo. Tenho trabalho amanhã.
– Eu também e não estou fazendo corpo mole para isso pirralho – ela revirou os olhos. – E antes que tente argumentar dizendo que dormiu tarde, lembre-se de que dormimos no mesmo horário.
Ele deu um pequeno grito e se cobriu de novo.
– Cacete, mas você é mesmo uma criancinha – ela abriu as cortinas. – Quero sair deste apartamento e comer em algum lugar legal, ok? – ele resmungou algo. – Vou tomar isso como um sim. O café da manhã está pronto e tem Sucrilhos – abriu o guarda-roupa. – Vou tomar um banho e me trocar, espero que faça o mesmo.
Ismael ouviu a porta fechar. Cadê aquela Raiane monótona e calma de antes? Logo após ter pensado nisso ele se repreendeu. Não, Raiane está mais viva agora e arrisco a dizer que mais feliz também.
Suspirou e se levantou, mas abrir a cortina foi muita mancada. Enquanto se levantava arrastando para a cozinha ele desenvolveu um monólogo sobre como era prejudicial abrir as cortinas quando alguém estava ainda adormecido e chegou à conclusão de que se contasse isso para Raiane ela iria achar uma frescura.
Bocejou e sentou-se a mesa. Colocou Sucrilhos no prato e o suco no copo, depois que comeu estava muito mais acordado e animado com a ideia de passear com Raiane. Ouviu-a saindo do banheiro e a chamou.
– Raiane, para onde vamos...?
Ele não sabia se completava a frase ou se continuava embasbacado por ver Raiane daquele jeito. Ela estava diferente de qualquer outro dia. Seu cabelo negro estavam presos em um coque alto, usava uma regata amarela e um short jeans, estava de sandálias beges e apesar de não usar nenhuma maquiagem ela estava radiante.
– Faz jus ao nome.
– O que? – ela perguntou confusa e ele rapidamente disse que não era nada. – Pensei de irmos ao festival do Japão que está tendo lá no centro Imigrantes. Umas colegas do colégio militar estão com um stand lá e me convidaram.
– Espera. Colégio militar? – ele franziu a testa.
– Sim, eu não te contei? Fiz o Ensino Médio em um colégio militar, não fiz exatamente amigas, mas elas são gente boa. Podemos ir, não é?
– Ah sim, claro. – Ela disse ‘umas colegas’. Então são apenas garotas?
– Ismael, você realmente precisa aprender a guardar seus pensamentos para si – ele ficou vermelho e ela suspirou. – Sim, são apenas garotas, mas acho que o namorado de Emma estará lá.
– Ok. Vou me trocar – ela assentiu e começou a tirar as coisas da mesa enquanto ele foi procurar algo para vestir.
Precisava urgente fazer algumas compras, estava ficando sem roupas. Acabou por colocar uma camiseta estampada com algum número e uma bermuda. Calçou os tênis e foi para o banheiro. Escovou os dentes, molhou o cabelo e acabou deixando ele do jeito que estava.
Raiane sorriu ao vê-lo e ele achou melhor não perguntar o que tinha de engraçado, não queria acabar com o humor dela.
Saíram e pegaram o metrô até a estação onde tinha o transporte para o Festival. Todo o trajeto durou uma hora e tinha uma fila consideravelmente grande, como se lesse os pensamentos dele ela disse:
– A fila é grande, mas anda rápido, estaremos dentro de lá em meia hora no máximo – ele assentiu e ela pegou um mapa do evento da bolsa. – Aqui – mostrou um quadradinho no mapa. – É onde vão estar, vamos direto para lá e já resolvemos isso.
Ismael percebeu algo de diferente nela.
– Está nervosa, Raiane?
– Não diria que estou nervosa – respirou fundo. – Apenas um pouco apreensiva. Nunca fui muito sociável e isso me faz imaginar o motivo de terem me ligado.
Ismael sorriu e colocou o braço ao redor dela.
– Sei que não acha, mas pode ser muito legal sabia? – ela deu um sorrisinho de escárnio. – Falo sério!
Conseguiram entrar e foram diretamente para o stand. Era um stand de origamis e Ismael se perguntou que tipo de colegas eram aquelas.
– Raiane!
As mais estranhas possíveis.
– Olá Emma – Raiane disse e cumprimentou ela com um abraço rápido. Emma estava vestida de um personagem japonês qualquer e apesar de Ismael ter tomado um susto, Raiane nem se importou. – Então, para que precisam de mim?
– Ah – ela fez um biquinho. – Como pode pensar que só te chamei aqui por que estou interessada em seus dotes administrativos? – ela piscou e Raiane suspirou. – Vamos lá Raiane, deixe de ser tão cabisbaixa! – ela olhou para Ismael e deu um sorrisinho malicioso. – Parece que não fui só eu que me dei bem, hein – Raiane ficou um pouco vermelha e Ismael sorriu abertamente. – Eu sabia!
Emma estendeu a mão para Ismael – que achou estranho um cumprimento tão formal para alguém de peruca rosa e vestido rodado. Ele se apresentou e ela sorriu dizendo que apesar da conversa estar boa tinham que voltar ao trabalho.
Era um stand ligeiramente grande e tinha uma placa bem grande em letras de forma: “ORIGAMI CENTER”. Várias pessoas estavam sentadas com papéis pequenos fazendo origamis. Emma levou Raiane e Ismael para conhecer seu namorado, um cara muito simpático.
Ismael não entendeu o que estava acontecendo, mas Emma e Raiane pareciam muito ocupadas e sentiu-se mal por não estar fazendo nada. Logo Raiane sorriu e Emma caiu na gargalhada, Ismael sorriu para as duas e foi até Carlos, namorado de Emma, em busca do que fazer.
– Pode me ajudar a colar essas coisas? – ele riu. – Tenho muitas coisas pra fazer e vou demorar séculos para fazer isso.
Era um tipo de papel mais grosso, algo parecido com cartolina, e colavam letras e outros desenhos, foi até que divertido e Ismael se pegou rindo e com cola na camiseta várias vezes. O tempo passou rápido e já era uma da tarde quando deixaram uma Emma muito feliz por ter acabado o que tinha que fazer e um Carlos cansado de colar letrinhas.
– Foi legal – Ismael disse. – Temos que voltar ainda? Estou com fome.
– Não, não temos que voltar, Emma é gente boa, mas muito animada para mim – suspirou. – Vamos comer, mas antes vamos passar no stand de camisetas, outra colega me pediu para ajuda-la – ao ver o olhar de Ismael ela riu. – Não, não vamos demorar, ela só quer minha opinião sobre algo.
Chegaram e uma japonesa de sorriso tímido os recebeu, ela era o contrário de Emma tinha um jeito calmo de falar e deu um abraço em Raiane no momento em que a viu.
– Raiane! – ela disse e Raiane retribuiu o abraço. – Quanto tempo! Estou feliz por termos conseguido nos encontrar!
– Sim – Raiane sorriu. Acho que as duas se davam bem. – Então Laura, este aqui é Ismael – os dois apertaram as mãos e trocaram um “prazer em vê-lo”. – Para que precisa de mim?
– Ah! Nisto aqui – as duas se voltaram para dentro do stand. – Ah, lembra-se de Marcela?
– A garota que desistiu no primeiro ano? – Raiane murmurou olhando fixamente para uma faixa.
– Sim! – Laura encostou-se à bancada – Parece que se casou e teve filhos!
– Meu Deus – Raiane apertou os lábios. – Ela tem o que? Nossa idade, certo?
– Sim, eu também achei, mas parece que está realmente apaixonada e o cara tem uma boa vida... Deve ser uns três anos mais velho que ela. Com vinte e três e já tem dois filhos – Laura riu. – Eu não sei se aguentaria.
– Hum... – Raiane murmurou e Ismael queria loucamente que aquela conversa continuasse, quando teria a chance de escutar Raiane falando sobre filhos de novo? – Eu não sei... Casar já é bem sério, ter filhos então...
– Entendo – Laura falou e disse. – Mas quando erámos mais novas você queria ter filhos não queria?
Elas esqueceram que eu estou aqui, não foi?
– Acho que queria, mas acho que estou muito nova para isso. Quero me estabilizar antes.
– Isso realmente é a sua cara – Laura riu. – Você foi ao stand da Emma, não foi? – Raiane assentiu e Laura suspirou. – Parece que ela quer ter uns cinco filhos, mas este é o terceiro namorado dela só neste ano.
A conversa se seguiu e Ismael parou de prestar atenção no quero me estabilizar antes. O que ela queria dizer com isso? Mas o que eu estou pensando? Nem estamos namorando direito!
– Ismael? – Raiane se virou para ele. Ah Deus, por favor, eu não posso ter falado isso alto. – Vem aqui, por favor?
Tudo o que ela queria era mais uma informação. Despediram-se de Laura e foram comer. Passaram de frente a inúmeras barracas e andaram a praça de alimentação inteira, mas Ismael não gostava de comida japonesa então acabaram comendo tapiocas.
Meia hora depois, já tinham andado boa parte do Centro e visto uma apresentação. Por pedido de Ismael voltaram, ele estava começando a se sentir mal como toda aquela gente. Duas horas já estavam no metrô.
– Aonde quer ir? – Raiane perguntou. – É seu aniversário, pode escolher.
– Hum... – ele pensou e olhou para ela. – Vamos a algum parque! Fazer um piquenique, o que acha?
– Um piquenique? Mas não temos toalha nem nada... E um parque aqui perto... Bom. Podemos ir ao parque da Trianon, mas vai ficar faltando a toalha e a comida.
– Isso não é problema! – ele disse animado. – Tem barracas perto do Trianon que vendem toalhas e podemos passar em algum mercado para comprar a comida!
Raiane não pode dizer não a ele. Estava tão animado que Raiane se perguntou se tudo aquilo era por causa de um simples piquenique. Desceram na estação, e resolveram se separar. Raiane foi comprar as comidas e Ismael foi para o parque comprar a toalha e escolher um lugar.
Ismael não demorou a achar e escolheu aquela toalha mais clichê que tinha. Xadrez branco e vermelho. Achou que o tamanho estava bom e entrou no parque. Não estava muito cheio e teve sorte em achar um lugar confortável entre as árvores.
Não achava mercado algum então Raiane parou em uma padaria comprando torta de frango, salgadinhos, pratinhos e talheres descartáveis, uma garrafa de guaraná de 600 ml e copinhos. Ia ser um piquenique muito simples, mas se isso fizesse Ismael feliz não importava para ela.
Ligou para ele que deu as coordenadas de onde estava. Enquanto andava até lá não conseguiu evitar pensar em tudo aquilo que Ismael tinha lhe contado. Tudo o que ele havia sofrido e como apesar de tudo aquilo quando se encontravam ele tinha um sorriso no rosto. Duas imagens apareceram em sua mente. O Ismael do metrô, sarcástico, e o Ismael do pesadelo, tremendo e suando frio.
Percebeu então, surpresa consigo mesma, que gostava dos dois lados dele. Eu gosto dele. Viu então ele quase deitado em uma toalha, mas que clichê, ela riu e correu até ele. Ele estava com os olhos fechados e não viu ela se aproximando. Com cuidado ela encostou sua boca na dele.
– Eu gostei disso – ele disse abrindo os olhos lentamente depois de se separarem.
– Presente de aniversário – ela se sentou de frente para ele. – Gostei da toalha – foi tirando as coisas da sacola. Minutos depois já estavam comendo e bebendo. O tempo estava incrivelmente bom.
Raios de sol penetravam nas árvores dando uma sensação de tranquilidade e, por que não dizer, amor. Eles batiam no rosto dela e pareciam acaricia-la. Raiane o percebeu encarando-a e o questionou.
– Não é nada – ele disse sorrindo. – Só sei que você é um raio de sol.
– Há – ela riu. – Pare de fazer trocadilhos com o meu nome!
– Mesmo se eu disser que é o meu raio de sol? – ela parou de rir.
Era inexplicável o olhar dele. Era terno, carinhoso, amigo, tranquilizador. Tudo o que ela buscava. Não precisava de um hobby. Precisava dele e já o tinha nas mãos.
Nunca o deixaria escapar. Nunca.
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