Rainy Day
1 Sob a Chuva, o Encontro
Notas iniciais
A tarde caía cinzenta, coberta por nuvens pesadas que despejavam chuva sem trégua sobre a cidade. O som ritmado das gotas batendo no para-brisa se misturava ao barulho insistente das buzinas. Os carros estavam parados havia quase uma hora, e Ikki já sentia o sangue ferver.
Ele bateu levemente no volante, bufando.
— Droga… justo hoje. — murmurou, observando as gotas escorrerem pelo vidro.
Era o tipo de situação que deixaria qualquer um frustrado, mas para ele era pior. Ikki nunca teve muita paciência, e agora, preso naquele engarrafamento interminável, sabia que alguém o esperava — alguém que não deixaria barato a demora.
Afinal, não era uma noite qualquer. Fazia quatro anos desde que ele e Shaka haviam decidido caminhar juntos, apesar das diferenças, dos ciúmes e das teimosias. Quatro anos de aprendizado mútuo, de brigas e reconciliações, de risos e silêncios. E agora, justo no aniversário de namoro, o destino parecia zombar deles com aquele temporal.
Ikki apoiou a cabeça no encosto e suspirou.
— Ele vai me matar… — resmungou, já imaginando a expressão serena, mas afiada, de Shaka.
“Está atrasado, Ikki. De novo.”
Ele quase podia ouvir a voz calma e levemente provocante ecoando em sua mente.
Mas, se tinha uma coisa que o leonino não fazia, era recuar.
— Ah, se ele começar… eu começo também. — disse, balançando a cabeça e dando um meio sorriso. — Dessa vez, não fico quieto.
Mesmo assim, no fundo, Ikki sabia como aquilo terminaria. Sempre terminava da mesma forma: com um olhar trocado, uma provocação disfarçada de ironia… e, inevitavelmente, um gesto que dissolvia qualquer raiva.
Ele imaginava a cena: chegaria em casa ainda com o cheiro da chuva nas roupas, os cabelos molhados. Shaka estaria lá, de braços cruzados, tentando manter a pose de ofendido.
Ikki diria com um sorriso:
— Vai ficar bravo comigo ou vai me dar um abraço?
Shaka, é claro, suspiraria, fingindo indiferença, mas caminharia até o aparador e serviria duas taças de vinho.
— Não sei se merece — diria ele, com um olhar que misturava reprovação e carinho.
Ikki aceitaria a taça, observando o reflexo do outro no cristal. Shaka então tiraria os óculos de grau, um gesto pequeno, mas cheio de significado — o sinal de que a raiva havia passado.
— Então… me perdoou? — Ikki perguntaria, se aproximando devagar.
Shaka sorriria, aquele sorriso calmo e doce que só ele sabia dar.
— Eu nunca disse que estava bravo.
E antes que qualquer outra palavra fosse dita, Ikki o puxaria para um beijo — intenso, profundo, cheio de saudade. Um beijo que apagaria a distância, o tempo e até o barulho da chuva lá fora.
De volta ao presente, preso ainda no trânsito, Ikki deixou escapar um riso baixo.
— Esse cara ainda vai me deixar louco…
Olhou para o relógio, ansioso, e o sorriso se alargou. Mesmo frustrado, seu peito se aquecia ao pensar em Shaka. Bastava lembrar daquele olhar tranquilo e daquela voz suave para o mundo inteiro parecer menos cinzento.
A chuva continuava a cair, o trânsito continuava parado, mas, dentro do carro, algo se acalmava. Ikki sabia que, no fim daquela noite, tudo valeria a pena.
Porque, apesar de tudo, Shaka sempre seria o único capaz de fazê-lo sorrir e corar de verdade.
fim
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