Raining Blood: O Príncipe Das Trevas

3 Capítulo III - ''Your blood is mine''


Condado de Brasóvia, Cárpatos — Romênia.

A sala estava iluminada por diversos candelabros suspensos e alguns dispostos em cima da grande mesa de mogno vermelho e polido. As paredes eram de granito branco com arabescos entalhados no centro e no rodapé. A pedra reluzia a luz das velas fazendo um efeito esplendido de luzes. Era realmente um castelo clássico e de bom gosto. Os ancestrais da família de Petri eram abastados e poderosos, uma das dinastias mais importantes da Europa Oriental. Os nobres mandaram construir um castelo nas montanhas para que passassem o inverno em um lugar pouco agitado e confortável assim como o castelo de Bram, o mais importante da Transilvânia, mas em um local distante e menos visitado. Visivelmente dera certo, o castelo era belo do mesmo modo que era confortável.

A mesa que se encontrava na sala estava farta de todos os tipos de carnes, doces e massas e bebidas, em especial vinho tinto da Moldávia, todas distribuídas em pratos de porcelana ornamentados e jarras de cristal polido. Á dela cabeceira estava Dragos, com seu traje carmesim com botões prateados e bordados de folhas com linha dourada. Estava magnificamente garbo, tinha um extremo bom gosto quando de tratava de vestimentas, gostava se se mostrar sempre impecável e chamar a atenção dos presentes. Era realmente um príncipe quando se tratava de apresentação, mas poucos sabiam quem ele era fora de sua encenação primorosa.

Elisabetha se encontrava ao lado de Ekaterina que estava feliz e sorridente, com a voz tenra, tratava todos com cortesia e conversava sobre sua família e os acontecimentos recentes do reino da Hungria. Diferente de sua mãe, não tocara em nada que estava á mesa, vez ou outra bebericava o vinho para não fazer desfeita com os convidados e tentava parecer o mais calma possível para que o irmão não a repreendesse. Mal conseguia encara-lo, ela aprendera a temê-lo e não confiar em sua falsa serenidade e cortesia e também atender qualquer pedido que ele fizesse a ela.

Nos outros assentos estava a família de Grigore Valcovici, um grande lorde valáquio, acompanhado de seus filhos Ciprian e Mihas, dois jovens um tanto bonitos e inteligentes para serem filhos do grosseiro lorde Grigore. O velho senhor viera ao castelo de Brasov para conhecer a jovem e deleitante Elisabetha. Dragos dissera a ele achava que sua irmã estava ficando demasiadamente velha e que havia se tornado um estorvo para família, mas que sem dúvida era delicada e ainda tinha os dotes de uma senhorita devota. De fato a irmã o detestaria mais ainda por lhe obrigar a casar-se com tal homem de tamanha asquerosidade, mas ele tinha planos e intenções maiores.

— Elisabetha! Sente-se aqui ao meu lado. — chamou ele calmamente, acenando para ela.

— Claro irmão. — respondeu ela com a voz seca, sabia que quando a chamava para perto de si era para lhe causar desconforto.

Ela se levantou pesarosa e se colocou ao lado de Dragos sem olha-lo, esperando que ele a trouxesse uma cadeira para que sentasse, assim como os homens eram educados a fazer. Mas ele continuou sentando, a encarando como se esperasse alguma atitude, ela sabia que ele estava a julgando e a reprovando só pelo modo como ele olhava e pelo leve sorriso que esboçava.

— Acredito que não vá sentar no chão. Correto Lisa? — disse, descontraído enquanto sorria sugestivamente para ela.

— Perdoe-me irmão! — ela encarou-o com raiva e constrangimento — Mas acredito que não conseguirei levantar meu assento sozinha!

Ciprian, o filho mais novo e franzino do Lorde Valcovici, percebendo o constrangimento de Elisabetha, levantou-se envergonhado e desconfortável e com muita dificuldade levantou a enorme cadeira de mogno, por momentos quase a derrubou, mas conseguiu coloca-la cadeira ao lado de Dragos.

— Obrigada jovem Ciprian, embora isto não fosse necessário! Eu poderia ter feito este incomodo serviço.

Todos os presentes começaram a sentir o desconforto e a impaciência de Elisabetha, e Dragos estava ficando um tanto alterado ao ver que a irmã estava se comportando de forma reprovável na frente de seu futuro esposo. O clima cada vez se tornava mais tempestuoso e estranho, somente Ekaterina em sua ingenuidade e falta de atenção parecia estar normal.

Elisabetha se sentou ao lado de Dragos, o olhando fixamente. Parecia ter perdido o receio que tinha e o transformado em desgosto e fúria. Ela não sabia o porquê daquela reunião repentina e nem por qual motivo a família de Grigore se encontrava em Brasóvia. Mas sabia que de uma forma ou outra ela seria o centro do assunto daquela desagradável reunião só pelo modo como estavam todos a encarando e pelo sorriso e o olhar brilhante que sua mãe lhe lançava.

— Então, acredito que não sabem o porquê deste agradável encontro entre duas famílias prósperas. — Dragos parecia falar apenas com Elisabetha, fitava-a com seu olhar insinuante.

— Bem, apenas você e eu conhecemos o motivo. — respondeu Grigore. — Os homens sempre tem de ser os primeiros a saber de um acontecimento.

— Nos diga então meu filho, e acabe com essa curiosidade. — falou ela muito entusiasmada, como sempre costumava ser quando se tratava novidades vindas do filho — Mas acredito que tenho uma ideia do que possa ser, espero que minha suspeita esteja certa.

— Pois bem, Lorde Grigore veio até nosso castelo pedir a mão de nossa amada Lisa. — Dragos sorria para irmã como se aquela situação o deleitasse completamente — E acredito que ela não recusará. Lorde Valcovici é um homem importante e cavalheiro, algo que toda jovem moça sonha em encontrar. Estou errado querida Lisa?

Ao ouvir aquilo Elisabetha ficou estática. Olhara rapidamente para a face cheia e rosada de Grigore e sentiu asco, ele era terrivelmente obeso e tinha os traços mais malfeitos que vira em sua vida, uma barba rala mal desenhada, lábios finos e sem formato e os olhos negros e profundos. Não conseguia nem pensar na possibilidade de se deitar todas as noites com um homem tão asqueroso. Nem conseguiu abrir a boca para responder Dragos. Se dissesse sim ao pedido, sairia do castelo do irmão e não teria mais o que temer, não haveria mais ameaças e olhares estranhos. Por outro lado teria de se doar a aquele homem e a sua família, provavelmente lhe dar filhos e cuidar deles. Por um momento sentira uma vontade estupenda de continuar em Brasóvia, ao menos seu irmão era agradável de olhar e não a obrigava a ter relações com ele, mas algumas vezes parecia se interessar de outras formas por ela.

— Lisa, minha filha? — chamou Ekaterina, preocupada.

— Me desculpe. — ela piava. — Acredito que já estou velha demais para que me case com um grande senhor, certamente que não sou a moça correta para o lorde.

A face de Dragos havia mudado, sua expressão era séria e dura. Tudo que menos necessitava agora era das demonstrações de rebeldia de Elisabetha e de que ela rejeitasse o pedido que tanto custou para ser feito. Mas não poderia se enfurecer na frente de tantos. Engoliu seco e se aproximou do ouvido da irmã.

— Lisa, não tema. — sussurrou ele calmamente — Tudo irá dar certo. Não deixarei que este asqueroso lhe toque, tu és somente minha. Aceite o pedido do lorde, é apenas um plano minha querida, apenas um plano para que nossa família ascenda.

''Tu és somente minha''.

Bastaram aquelas poucas palavras para fazer o corpo dela estremecer. Havia entendido tudo. Não teria como escapar do príncipe implacável, nem mesmo Deus a tiraria das garras dele. Mesmo que ela se cassasse com Grigore, o irmão a tomaria novamente. Não havia possibilidade de se desvencilhar dos olhares e da cobiça de Dragos, de sua imponência. Agora ela era somente dele.

Ficou sem reação e pareceu perder o ar dos pulmões. Não conseguia ponderar o que seria pior para ela. Certamente o irmão a possuiria se ficasse e ainda teria de suportar todos os castigos que ele lhe daria por desobedece-lo, mas casar-se com um homem tão terrível e asqueroso lhe dava náuseas. Poderia ele ao menos ser gentil e bondoso e lhe proteger das garras assustadoras do irmão, pois ele não deixaria que Grigore a tocasse, seja lá o que significasse o que ele tenha dito, ela era de Dragos, mesmo se não quisesse.

— Seu sangue é meu Elisabetha, somente meu.