Notas iniciais
Hey Guys! Quero pedir desculpas pelo capítulo não ter ficado tão grande quanto o anterior, mas esse final de ano tem sido muito corrido para mim, começando pelo meado de novembro que acabei ficando muito doente e atrasou a digitação e revisão do capítulo e dezembro simplesmente está sendo corrido, mas o capítulo está aqui completo e revisado para vocês, espero que gostem. Boa leitura!

SEMPRE PENSEI QUE MORRERIA quando os pobres começassem uma revolta contra a coroa, mas enquanto era carregada pelas ruas geladas, eu percebi que seria fácil demais num mundo tão injusto como o que vivo. Talvez os novos deuses simplesmente decidam que não vale mais a pena manter os humanos vivos, ou talvez eu seja queimada como as bruxas da antiga Salem por causa do meu sangue. Medo. Pela primeira vez em toda minha vida fiquei com medo da morte.

— Fica acordada! — gritou irmã Lily.

Não que fosse difícil, eu simplesmente não queria.

— Aguenta mais.

Eu fechei meus olhos. Eles estavam cansados, doíam como minhas costas e a luz vinda do céu nublado apenas deixavam minha visão turva. Flashes passavam em minha frente, um fio vermelho se estendia como se mostrasse toda minha linha temporal; mamãe e papai ainda estavam vivos, ele usava a farda do exército com tanto orgulho que me obrigava a rir todas as vezes que Lee roubava para fingir ser um general de guerra. Éramos crianças bobas e felizes que não entendiam nada sobre guerra.

— Catherine! Você precisa acordar!

Eu abri meus olhos bem a tempo de observar a grande igreja do Éden ficando cada vez maior a minha frente. Nossa igreja era grande se comparada as casas no Éden. Existiam dois gigantescos andares e um cemitério na parte de trás; o primeiro andar costumava ficar para os fiéis mais devotos e suas famílias. Eles adoram aos deuses todos os domingos pela manhã, enquanto os órfãos e eu nos escondemos nos quartos do andar de cima.

As vidraçarias com as imagens dos doze deuses eram quase impossíveis de encontrar no segundo andar. Tínhamos nossa cozinha atrás do primeiro andar, banheiro em ambos os andares e uma sala de disciplina muito rigorosa para quando fizéssemos coisas erradas. Eu mesma perdi as contas de quantas vezes parei naquela sala por andar fora do toque de recolher.

O quarto do padre e de todos os trabalhadores da igreja é na capela subterrânea. Eles tinham pouco e se convenciam de que aquele pouco era muito, diferente daqueles que moravam próximos da capital. Padre Phillipe sempre costuma dizer que a igreja de Sakurada tinhas dezoito vezes nossa renda anual, então sempre pedíamos doações e nem todos estão dispostos a doar.

— Abram espaço — gritou irmã Lily enquanto passavam meu corpo para uma das camas. — Ela precisa de espaço, saiam todos.

Ouvi o som rouco do vestido sendo rasgado e atirado para longe.

— Phillipe, tire as crianças do quarto! — ordenou a irmã.

Suas tremiam enquanto ela passava o pano gelado pelas minhas costas para tirar a sujeira.

Eu vi bem pouco enquanto o padre obrigava a todos saírem. Quis fechar meus olhos novamente e acreditar que tudo não passava de um sonho; eu quis dormir e acordar de volta em minha cama naquela mesma manhã e fazer tudo diferente, mas isso era impossível.

Esse tipo de coisa é impossível para humanos comuns Catherine.

— Vai doer um pouco, por favor, aguente.

— A dor é uma amiga indesejada — consegui sussurrar. — Pode começar.

Minhas costas ardiam por causa do chicote, o vermelho que deveria acabar com o vestido foi substituído por um azul típico dos nobres da capital e foi graças a irmã Lily que os camponeses do Éden me ajudaram; o mesmo não aconteceu com Jeon. Ao notarem o sangue azul em suas roupas e o corpo morto, eles o queimaram, sem ao menos darem uma chance de despedida adequada aos órfãos da igreja.

Infelizmente, isso foi há poucas horas e enquanto irmã Lily limpava as feridas em minhas costas eu só conseguia pensar em quando os camponeses invadiriam a igreja e exigiriam ver a cor do meu sangue? Se percebessem o típico azul da capital, mesmo me conhecendo eles teriam coragem de fazer o que fizeram com Jeon? Essas dúvidas me deixavam cada vez mais com medo das respostas.

Medo.

— Isso doeu — sussurrei durante o toque.

Me contorci mais uma vez antes de me agarrar ao colchão improvisado ignorando as dores que viriam a seguir.

— Desculpe, estou um pouco nervosa — sussurrou irmã Lily. — Claro né Lily.

— Você conversa com você mesma? — forcei um sorriso, apesar da dor.

Irmã Lily não sorriu nem nada, apenas continuou limpando as feridas.

— Nunca pensei que todos aqueles anos aprendendo o básico de medicina na cidadela serviria pra alguma coisa no Éden.

Apesar de uma lágrima escorrer de meus olhos, tentei não deixar transparecer a dor... Missão fracassada.

— Moramos no Éden... Pessoas se machucam aqui todos os dias — disse.

— Sim — ela sorriu antes de passar a agulha pelas minhas costas outra vez. — Mas um ferimento de chicote como esse não é comum por aqui.

Eu forcei as lembranças do chicote estalando em minhas costas para fora e tentei focar apenas em minha respiração, mas a dor latente me lembrava a todo momento que Jeon tinha sido assassinado por nobres sentinelas azuis enquanto eu olhava admirada para eles imaginando os anjos que estampavam as vidraçarias do antigo vaticano, no velho mundo antes das bombas.

— Parece um chicote feito pra usar em ladrões — sussurrei. — Lee sempre traz um pra casa todos os anos. Ele diz que é para castigar os inimigos antes de condena-los a morte.

— Eu não seria tão cruel — sussurrou ela.

— Você não teria escolha — disse calma apesar da leva sensação de ardência e lágrimas nos olhos. — Lee sempre diz que precisa fazer uma escolha. Ou os inimigos de Avalon caem, ou nossos irmãos e amigos caem. Então desde que minha família esteja aqui, não importo com quem morra.

Irmã Lily pressionou o pano amarelado contra minhas costas uma última vez. Ainda estava gelado, eu finalmente conseguia senti-lo refrescar minhas costas apesar da dor.

— Isso é egoísmo da sua parte. Por mais que seu irmão esteja de volta, outras pessoas, mesmo nossos inimigos nunca mais verão seus familiares de novo. É justo que eles morram e seu irmão esteja aqui com você?

Ela estava certa? Não, não estava. Chame de infantilidade ou egoísmo da minha parte, mas eu deixaria o mundo queimar se isso protegesse Lee.

— Não é justo — menti. Eu só precisava dizer o que ela queria ouvir para dar fim ao assunto.

— Descanse um pouco Catherine, eu consegui parar o sangramento, mas nada disso vai adiantar se você não conseguir descansar — ela tirou os joelhos do chão e levou meu vestido junto dela. — Os outros lá fora querem uma explicação do seu sangue azul, padre Phillipe está tentando acalmar as coisas, mas sugiro que fique dentro da igreja nos próximos dias.

Assenti ainda em silêncio.

— O que vai fazer com o vestido? — perguntei.

— Queima-lo. Encobrir todas as provas do seu sangue azul — disse ela calma. — Eu venho mais tarde pra ver se está tudo bem.

Fechei meus olhos apenas para refletir. Meu sangue sempre foi vermelho, nunca azul. Jeon sempre se cortava na cozinha, então se seu sangue fosse azul, qualquer um na igreja já saberia. Alguma coisa tinha acontecido e eu não conseguia entender.

Eu não queria dormir, precisava apenas descansar da dor, mas eu não consegui.

Em meu sonho, eu levantei assustada. O assoalho nunca esteve tão limpo quanto agora, algumas teias de aranha se prendiam nas dobradiças, outras caiam pela janela, mas era certo que a quantidade de aranhas era grande. Corri até o espelho mais próximo procurando alguma mudança visual, mas ainda era eu. O cabelo castanho avermelhado ainda caia sobre meus ombros, o vestido era o da igreja e as manchas que deveriam ser vermelhas como o sangue dos outros era azul.

Procurei pela porta que me levaria de volta aos corredores rubros da igreja, mas não existiam mais. O chão abaixo de mim rangeu, as luzes se acenderam automaticamente e então eu caí no andar de baixo.

Algumas risadas ecoaram felizes, mas não era pela minha queda. As paredes que deveriam ser vermelhas estavam sujas com mofo e já haviam perdido as cores há muito tempo, as portas a frente feitas com restos de madeira encontradas na rua com certeza pertenciam há três pessoas que eu não via há muito tempo. Essa é minha casa. Não a casa que Lee se esforçou para construir e ficar comigo durante o inverno, mas a casa que nosso pai construiu antes de ser morto pelos sentinelas do rei.

— Mas que merda! — sussurrei baixo.

Estávamos no meio da noite, mas as risadas com certeza vinham da sala. Andei devagar até lá. As risadas ficavam cada vez mais altas e então paravam. Desci o último lance de escadas com lágrimas nos olhos. Estavam todos ali mais uma vez, mamãe, Lee e papai, sorrindo e jogando um antigo jogo de tabuleiro que papai trouxe do campo de batalha.

Quando me viram o sorriso sumiu de seus lábios. Uma lágrima escorreu de meus olhos e pela primeira vez em anos eu me senti como uma criança outra vez.

— Acho que rimos alto demais — disse minha mãe. — A borboletinha acordou.

— Hoje ela pode — sussurrou papai. — Amanhã não tem aula e nem trabalho, quer jogar com a gente?

Ela foi a primeira a ficar de pé. Os longos cabelos ruivos voaram em minha direção e cobriram minha visão, foi então que neve caiu em meus ombros. Eu olhei pro alto outra vez, a madeira gasta e parede com mofo foi substituída pelo céu acima da montanha.

Estava frio e mesmo assim mamãe estava ali, parada, chorando e desolada. Algumas pessoas no Éden diziam que ela estava enlouquecendo aos poucos desde que eu nasci. Algumas senhoras comentavam que mamãe tinha problemas mentais. Ela via inimigos por todos os lados, estava alerta a todo momento, como se estivesse se preparando para a guerra e todas as noites acordava gritando.

Eu lembrava perfeitamente dessas noites. Papai trancava a porta do quarto e tentava acalmar mamãe, Lee sempre me chamava para andar um pouco. Ele dizia que durante a noite, enquanto todos dormiam e as luzes estavam sempre apagadas, o céu ficava mais visível e as estrelas brilhavam como nunca antes. Ele também dizia que se estivéssemos na luz da lua, os deuses estariam olhando por nós.

Morgana! — o grito ecoou de longe.

Papai e Lee subiam rápido a montanha. Eles vestiam os trapos de dormir, roupas mais antigas que mamãe sempre pedia para usarmos para dormir ao invés de jogar fora. Eu ainda usava o vestido da igreja, mas sabia que naquele dia eu estava bem agasalhada, porque mamãe nunca me deixaria sair sem colocar ao menos duas camisas e um casaco.

Não faça isso Morgana! — gritou papai, outra vez.

Lee vinha logo atrás dele, o semblante cansado e pesado de alguém que havia ficado varias noites sem dormir estava em evidencia, eu por outro lado, era pequena demais na época para entende qualquer coisa. Lembro que estava sentada na neve fazendo bonecos enquanto os gritos apenas continuavam.

— Por favor, Morgana! — gritou papai.

Aproveitei que tudo não passava de um sonho para olhar o que tinha depois daquela montanha. Caminhei calmamente até a ponta, mamãe desviou o olhar para mim, lagrimas escorriam de seus olhos, os pulsos pingavam pequenas gotas azuladas de sangue e seus olhos brilhavam como a noite.

— O que aconteceu com você? — perguntei.

Eu sabia que ela não responderia, afinal, aquilo não passava de uma lembrança que eu revivia apenas pelo trauma.

Olhei mais abaixo. O rio congelado se estendia até as pontas de uma floresta. Cervos pareciam correr enquanto luzes brilhavam de longe. Vermelho, verde e azul, eram essas cores. Eu sempre pensei que fosse fogo, mas ninguém nunca deu alarde.

— Mamãe! — sussurrei.

Lee me agarrou me puxando para longe da ponta, mamãe sorriu antes de deixar o corpo cair. Ela saltou da montanha como se esperasse voar, mas não aconteceu, Papai pulou logo atrás dela.

Os gritos que Lee deu naquela noite foram altos o suficiente para que eu não ouvisse o barulho do gelo se quebrando. Os gritos de raiva que vieram logo depois não foram abafados nem pelas luzes que estouravam no céu. Papai ainda estava vivo, com o corpo da mamãe em seus braços, enquanto o gelo quebrava ao redor dele.

Naquela época eu não tinha entendido nada, mas hoje em dia eu entendo, mamãe tinha cometido suicídio e só não consigo entender porquê?

Notas finais
P.S: O QUE ACHARAM DA NOVA CAPA?