Rainha das sombras
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Havia uma coisa esperando na escuridão.
Era antiga e cruel, e andava nas sombras de sua mente. Não era de seu mundo, e fora trazida ali para enchê-lo com um frio primordial. Alguma barreira invisível ainda os separava, mas a parede desintegrava-se um pouco a cada vez que a coisa o espreitava, testando sua força.
Ele não conseguia se lembrar do próprio nome.
Essa foi a primeira coisa que esqueceu quando a escuridão o envolveu, semanas ou meses ou anos atrás. Então, ele esqueceu os nomes dos outros que tanto significavam para ele. Ele se lembrava do horror e desespero – somente por causa do solitário momento que irrompia na escuridão com o constante ritmo de um tambor: alguns minutos de gritos e sangue e vento gélido. Havia pessoas que ele amava naquele quarto de mármore vermelho e vidro; e uma mulher perdera a cabeça.
Perdera, como se a decapitação fosse culpa dele.
Uma linda mulher de mãos delicadas, como pombas douradas. Não era culpa dela, mesmo que ele não conseguisse lembrar o seu nome. Foi culpa do homem no trono de vidro, que ordenou que o guarda com a espada cortasse carne e osso.
Não havia nada na escuridão além do momento em que a cabeça da mulher bateu no chão. Não havia nada além daquele momento, de novo e de novo e de novo, e essa coisa andando nas proximidades – esperando para quebrá-lo, submetê-lo, entrar nele. Um príncipe.
Ele não conseguia lembrar se a coisa era o príncipe, ou se ele mesmo fora um príncipe uma vez. Improvável. Um príncipe não teria permitido que a cabeça da mulher fosse cortada. Um príncipe teria parado a lâmina. Um príncipe a salvaria.
No entanto, ele não a salvou, e sabia que não havia ninguém vindo para salvar a ele.
Havia ainda um mundo real além das sombras. Ele foi forçado a participar dele pelo homem que ordenou o abate da mulher adorável. E quando o fez, ninguém percebeu que ele se tornara pouco mais do que uma marionete, esforçando-se para falar, para agir, com as algemas em sua mente. Ele os odiava por não perceber. Essa era uma das emoções que ele ainda entendia.
Eu não deveria te amar, a mulher havia dito – e então ela morreu. Ela não devia tê-lo amado, e ele não deveria ter se atrevido a amá-la. Ele merecia essa escuridão, e quando a barreira invisível quebrou e a coisa atacou, infiltrando-se, enchendo-o – o demônio ganhou.
Assim, ele permaneceu preso na noite, testemunhando o grito, o sangue e o impacto da carne na pedra. Ele sabia que deveria lutar, sabia que tinha lutado nos segundos finais antes de o colar de pedra negra ser preso ao seu pescoço.
Mas havia uma coisa esperando na escuridão, e ele não teve coragem de combatê-la por mais tempo.
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