Rainha De Sangue

1 Rainha de Sangue


Notas iniciais
Boa leitura.

Só mais uma noite. Apenas mais uma noite. Era a impressão que eu tinha ao passar pela porta de casa me deparando com a floresta, ou pelo menos, era o que eu queria acreditar.

— Porque, exatamente, tenho que ir? — perguntei rabugenta para minha mãe, que me olhou sorrindo.

— Sua avó está doente, Jenna, vá e não reclame.

— Até quando ela vai ficar doente? — bufei não esperando resposta — Onde está minha boina?

— Tome. — disse ela, me entregando uma boina vermelha — Se apressar-se voltará cedo o bastante para poder tirar um cochilo antes de ir ao colégio. — mais uma vez, ela sorri. Se ela soubesse a vontade que tenho de fazê-la engolir aquele sorriso, não sorriria tanto.

Peguei minha mochila, lhe dei as costas e comecei a caminhar em direção a floresta. E então me pergunto mais uma vez, porque diabos aquela mulher mora em meio à floresta? A idade deve ter lhe deixado louca.

Sinceramente, não era a caminhada sobre a floresta a noite que me incomodava, isso na verdade era o de menos... Pelo menos pra mim, que sou uma das únicas pessoas da cidade que não tem medo de caminhar dentro, ou até mesmo perto daquela floresta. Não que ela não fosse assustadora, a questão é que você se acostuma quando se tem que passar por ela sempre que sua avó fica doente, o que não é pouco. Mas por trás de lugares sombrios, sempre há uma lenda. E essa é a preocupação dos moradores. Uma lenda transformada em história para crianças dormirem... Mal sabem elas.

A versão contada para as crianças é simplesmente sobre uma garota, linda e gentil, conhecida por Chapeuzinho Vermelho por usar sempre uma capa vermelha. Certo dia, sua avó ficou doente, e sua mãe lhe pediu que fosse a visitar, levando-lhe uma cesta com diversos doces, — talvez, quisesse matar a velha de diabete, quem sabe? — porém, para chegar à casa de sua avó, a garota teria de atravessar uma floresta, e assim fez. No meio do caminho, se deparou com uma bifurcação, da qual um dos caminhos era mais longo, porém livre de ameaças, já o outro, a levaria até a casa de sua avó rapidamente, mas se não se cuidasse, não sairia viva para isso. Descrente e cansada, ignorou os avisos e seguiu pelo caminho mais curto, mas não esperava ela que ao chegar à casa de sua avó, a encontraria um tanto diferente deitada em sua cama, e então, lhe fez algumas perguntas:

— Porque esses olhos tão grandes?

Então ela é respondida:

— Ó minha querida, são para te enxergar melhor.

— Porque essas orelhas tão grandes?

— São para te ouvir melhor.

— E porque essa boca tão grande?

— É para te comer!

E de repente, por baixo das vestes de sua avó, sai um lobo, do qual uns dizem que ambas foram devoradas por ele. Os mais otimistas contaram com a ajuda de um lenhador. Tenho certeza que conhecem a história, deem o final que quiser para ela, afinal, pra mim não passa de uma história... Uma história irônica por sinal, pois eu acabava de me encontrar em uma bifurcação.

De costume sempre peguei o caminho mais longo, não que eu acreditasse na história, mas sim para ter mais tempo sozinha caminhando, porém, de uns tempos para cá, é exatamente esse caminho que me incomoda, digo, o que me espera na metade desse percurso.

Há alguns meses, mudou-se um lenhador, chamado Caleb, para uma casa que há no caminho, o que deixa tudo mais irônico. Mas não pense “Bom, se aparecer um lobo, estará salva.”, acredite, ser devorada por um lobo não é pior do que cair nas mãos daquele homem sujo, a não ser que goste de ser violentada.

Entende a minha repulsa por isso? Ter as mãos imundas daquele cretino em meu corpo... Antes apenas as mãos. Tomar o caminho mais curto e dito perigoso não me importaria se evitasse aquele homem. Quem sabe até seria devorada por um lobo se estivesse com sorte.

Então segui. Tudo que se ouvia era o som de meus passos. O caminho era um tanto mais fechado do que o outro. Na verdade, a lua quase não conseguia iluminar o lugar suficiente para enxergar onde eu estava pisando, e isso estava me preocupando, mas não o bastante para que me arrependesse de ir por aquele caminho.

Foi então, que escutei outros passos além dos meus, e uma risada que me arrepiou os pelos dos braços.

— Olha, quem acho por aqui. Chapeuzinho Vermelho. Achou que ia se livrar de mim? — disse Caleb.

— Um momento insano de esperança. — respondi dando de ombros.

— Tola.

Então senti sua mão em meu braço, me puxando, derrubando-me no chão e logo o peso de seu corpo estava sobre o meu.

Nojo, era a única coisa que eu conseguia sentir.

— Veja que engraçado, a história se repete. A garota da capa vermelha escolhe finalmente o caminho mais curto.

— Não me lembro dela ser estuprada pelo lenhador nessa história! — grunhi.

— Novos tempos. Quem sabe o lobo não lhe salve.

— Pois acho que lá vem ele...

E com um urro forte, um borrão enorme salta de meio às arvores, e com as garras retira o caçador de cima de meu corpo, jogando-lhe não muito distante, e com seus dentes arrancando-lhe as tripas. Os gritos do caçador de certa forma me davam alivio, até mesmo, um sentimento de prazer, o que era estranho. Mas aquela besta negra dava-me arrepios, medo. Nunca, jamais havia visto algo parecido com aquilo... Ou será que sim? Parecia-me tão familiar.

Seu tamanho podia ser comparado ao de um urso, mas sua postura era parecida a de um cão e seus pelos eram negros.

Meu coração batia tão forte que por um momento pensei que sairia do peito. Afastei-me, mas meu movimento trouxe a atenção do lobo para mim. Seus olhos, tão vermelhos quanto o sangue do caçador, eles me fitavam como se já me conhecessem.

Ele podia ter me salvo do lenhador, mas não sabia se estaria salva dele, e certamente, não ficaria ali para descobrir. Tirei um canivete de dentro de minha bota e comecei a correr. A besta estava logo atrás de mim, junto de seus saltos e passos largos. Senti então suas garras penetrando minhas costas e a rasgando de meus ombros até meu quadril. Um grito surgiu de minha garganta e o impacto me levou ao chão, mas me levantei rapidamente e cambaleando, corri o pouco caminho que levava até atrás da casa de minha avó.

Apoiei minhas costas na parede de madeira fazendo com que as mesmas ardessem. Com a respiração forte, tentei escutar algo que mostrasse que minha avó estava sã e salva, mas tudo que podia ouvir era o som do vento.

— Enfim, nos encontramos de novo, pequena Jenna. — pode-se ouvir uma voz tão demoníaca que poderia ser vinda do próprio inferno.

— De novo? — mantive minha voz firme. O dono da voz riu.

— Não se lembra, não é mesmo? Vidas passadas. Já nos encontramos muitas vezes, e tenho certeza que nos encontraremos muitas mais. Acho que acreditas em mim, não é mesmo? — o lobo então apareceu, vindo calmamente em minha direção.

— Depois de um cachorro falante, acredito em qualquer coisa.

— Atrevida como sempre.

— E que as próximas sejam pior! — com o canivete em uma das mãos, corri em direção contrária ao lobo, que não me impediu de primeira, mas ao chegar à frente da casa ele saltou em minha direção, e por um segundo me esquivei de sua pata, passando a faca sobre seu peito e corri para dentro da casa.

A casa estava em perfeito estado. A lareira acesa e um caldeirão no fogo me davam a certeza que havia alguém ali. Estava tudo muito quieto.

— Vovó? — chamei, mas não houve resposta.

Minha respiração voltou a ficar ofegante, então, comecei a caminhar em direção ao quarto. Ao levar a mão à maçaneta, a porta de repente se abre.

— Droga, vovó! A senhora quer me matar?!

— Oh, me desculpe, minha querida, sua avó está meio surda, não ouviu você chegar.

— Está tudo tão... Calmo.

— Não está com medo daquele velho lobo, não é? — olhei incrédula.

— Como sabe do lobo?!

— Relaxe querida, sente, vou lhe dar o que comer.

Não me sentia confortável, mas sentei em uma das cadeiras da mesa. Minha cabeça parecia que iria explodir, tudo estava rodando.

— Vovó, não estou me sentindo bem...

— Ah sim, é o efeito das garras do lobo.

— Eu não lhe contei sobre isso, vovó.

— É claro que não. — seus olhos haviam sido tomados por um vermelho sangue. Era o lobo.

Então senti cordas prendendo meu braço nos braços da cadeira. E em seguida, sobre mim, colocou uma capa vermelha, cobrindo minha cabeça com o capuz da mesma.

Suas mãos agora eram garras, e ele me olhava como se tivesse ganhado.

— O que vai fazer? — minha voz saia como um sussurro.

Sem me responder, com uma de suas garras, rasgou uma cruz de cabeça para baixo em ambos os lados de meu rosto. Logo, derrubou o que havia em cima da mesa, e mais uma vez, com suas unhas, colocou-se a desenhar símbolos na mesa de madeira. Três cruzes, um circulo que passava sobre as três e mais outros que não pude decifrar. Ao terminar, caminhou até o caldeirão que havia ao fogo, com uma concha de ferro, colocou um pouco do que havia dentro em um prato, e em seguida o colocou em minha frente.

Não havia mais forças em mim, minha cabeça então permaneceu tombada, e o sangue escorria pelo meu rosto. A besta então caminhou até mim, desamarrando-me as mãos, sabendo que não faria nada, pois já não havia forças para isso.

— Coma. — e então, colocou uma colher de madeira dentro do prato.

Fitei o liquido espesso que continha ali, e pude perceber algo solido também, como pedaços de carne. De alguma forma, aquilo estava me dando fome. E cada vez mais fome. Dando-me por vencida, juntei forças em um único braço, segurando a colher com um pouco do que havia no prato, levei-a com um pouco de dificuldade até minha boca. O gosto de ferro predominou a mesma, mas jamais, em toda minha vida, havia comido algo tão bom como aquilo. E a fome que me apertava o estomago me fez atacar o prato, fazendo aquele liquido escorrer aos cantos da boca, então percebi o quão vermelho era.

— Sua avó tem um gosto delicioso, não é? — e então, o lobo voltou a sua forma animal, fazendo-me perceber que havia acabado de provavelmente jantar as tripas de minha avó. — Coma mais.

O convite havia sido tão irrecusável que me coloquei a comer novamente esquecendo o fato do que realmente era aquilo. E então, mais algumas palavras saíram da boca do lobo: “I dimisit eum, regina sanguinis”

E com meus olhos parecendo em chamas, e a boca cheia de sangue, um sorriso nasceu em meu rosto, satisfeito estávamos ambos e eu estava livre novamente.

(Então, ouvia-se o silencio da noite.)

Notas finais
Obrigada por ler.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!