Rainha De Copas

6 capítulo seis


Notas iniciais
Espero que estejam gostando.

Pus correndo os sapatos e fui até a casa de meu tio. Uma casa de dois andares no centro do segundo bairro da vila. Subi os pequenos degraus e bati na porta com toda a minha força, mas ninguém respondeu. Pronta para levantar meu punho novamente quando ouvi o estalar da tranca. A porta rangeu e dela surgiu uma cansada senhora.

Dinvi, a empregada, com roupas de dormir e uma cara amassada de cansaço me olhou com surpresa.

—-- Senhorita! O quê faz na rua no meio da noite?!

—-- Meu tio! Cadê? Preciso falar com ele!

—-- Senhorita já é tarde e ...

—-- É importante! Algo terrível aconteceu! --- Vendo minha cara assustada Dinvi deu espaço para eu entra-se.

Mal fechou a porta e disparou pela escada para o quarto do tio. Então sozinha fiquei no hall estreito da casa. Inquietos meus olhos passavam pelos vários quadros de diferentes formatos sem nenhum prender minha atenção. Apoiei meu corpo no aparador e me olhei no espelho.

Desespero poderia ser lido em minhas feições. Eu era a personificação de tal coisa. Meus cabelos assanhados da correria, minhas roupas inapropriadas para a rua, apenas cobertas por uma simples capa que tentava disfarçar, eram o que se via, mas meu olhar foi cativado pelos olhos refletidos que demonstravam algo que eu não sentia naquele momento, raiva.

Eram olhos hostis, raivosos e perigosos que me olhavam intensamente, me desafiando a desviar o olhar. De repente o som de Dinvi descendo as escadas desviou os raivosos olhos me fazendo dar um pulo para trás.

—-- O que foi menina?--- Perguntou a empregada estranhando meu comportamento, olhei para ela e de novo para o espelho que agora estava novamente me imitando, os olhos eram meus dessa vez.

—-- A..achei que era um rato.--- Tremula menti.

—-- Um rato! Mas que horror! Onde? --- Olhava freneticamente ao redor, levantando um pouco a camisola para poder ver os pés.

—-- Era só impressão. Não era nada. --- Disse acalmando a pobre senhora. Com um suspiro aliviado parou de procurar o rato e olhou para mim.

—-- Que susto me deu senhorita! Tenho pavor de ratos.

—-- Desculpe. --- Disse sinceramente, não quis causar mal estar a Dinvi que era uma senhora tão boa.--- Mas e o tio ele já desce?

—-- Sinto senhorita, mas ele não está na casa e olha que olhei no quarto e no escritório, parece que não voltou da cede.

—-- Obrigada.--- Disse me virando de forma agitada à saída. Não perdi nenhum instante, precisava encontrá-lo. Não parei, mesmo quando ouvi a empregada chamando meu nome.

Corri pela vila deserta até a cede que ficava na praça central, no momento não pensei que poderia encontrar, só parei para pensar quando a familiar praça estava diante de mim.

Desde a morte da tia, evitava que nem praga tal lugar, claro a medida do possível, será que meu irmão estaria na jaula? Como minha tia? Desviei meu trajeto e fui até o lado esquerdo da praça, o lado da jaula, mas nada tinha ali, nem guardas e nem Leif, não era um alivio, isso queria dizer que ele estava nas cavernas da cede, coisas horríveis acontecem por lá.

“Que o tio tenha piedade” essa foi minha prece silenciosa. A cede era um edifício simples pelo menos por fora feita de pedras, por dentro era um salão enorme com varias portas que levavam a diversos túneis, o quê tinha nesses túneis? Alguns eram para tortura, outros simples escritórios, outro era onde os conselheiros se reuniam e outros, eu faço a mínima idéia.

Bati na porta de madeira maciça com força. E não demorou para que um soldado a abri-se.

—-- Eu preciso falar com ...

—-- Ele nos disse que você viria.

—-- Oh. Então ele me espera?

—-- Não. Você não pode entrar. Ele não tem nada para falar com a senhorita, diz ...

—-- O quê? Preciso falar com ele, por favor! Levaram meu irmão.

—-- Que você deve voltar para casa e aguardar o julgamento de Leif.---- Continuou, ignorando completamente minha suplica. Deu um passo para trás e fechou a porta em minha cara.

Desesperada bati na porta novamente, mas dessa vez ninguém abriu, não sei quanto tempo fiquei em frente aquela porta, quantas vezes esmurrei-a, tudo em vão.

Sem saída voltei para casa.

Não demorou para que o veredicto saísse. Por causa do local do crime, sua punição seria decidida pelo rei de copas, que faria o julgamento a seu critério.

A vila toda entrou em alvoroço, o rei viria pessoalmente até a vila, segundo o mensageiro real. “Quem será que o de sangue ofendeu?”

Em frente a cede os preparativos estavam sendo feitos para receber a majestade. Um palanque alto com um trono simples no centro, a jaula foi arrastada para frente do palanque, mas continuava vazia. Só seria trazido o prisioneiro no dia do julgamento, possuía-se o medo que ele escapasse.

Quando o rei chegou na vila tinha um grande alvoroço, todos queriam vê-lo, amontoados na praça como chance de vislumbrá-lo, mas ele tinha entrado na cede, a porta mesmo entre aberta era guardada por dois soldados.

Eu estava lá por outro motivo, queria ver meu irmão, precisava entrar na cede, mas sabia que não permitiriam, tinha que ser na surdina. “Como fazer?” Cheguei o mais perto da porta sem os guardas perceberem o quê não era muito já que havia uma distancia entre eles e a porta e em conseqüência da multidão.

Assim olhei a meu redor, tinha que ser inteligente, não poderia simplesmente tentar passar por trás, me veriam. Vi que uma senhora segurava um bebê, era bonita e elegante do seu lado seu marido com a aparência comum de um de prata, olho claro, alto e forte. Tinha uma cara amarrada, parecia que não estava ali porque queria e sim porque foi arrastado por sua esposa que parecia empolgada com a chance de ver sua majestade.

Era minha porta de entrada. Passei casualmente para trás dos dois, e com um movimento rápido deu uma beliscada forte no traseiro da senhora. O efeito foi imediato. Ela deu um gritinho e olhou para trás, a criança começou a chorar.

—-- O que foi? --- Perguntou o marido.

—-- Alguém me beliscou nas partes privadas! --- Respondeu horrorizada. Raiva rapidamente surgiu no rosto do homem que olhou em volta em busca do culpado.

—-- Foi ele! --- Apontei para um gordo que estava um pouco atrás da senhora. --- Eu vi! Que indignidade.

Mal terminei de falar e o marido pulou no homem, ele nem teve tempo de ver quem o acusara. O caos se instalou, a multidão apertada contribuiu para que outros fossem acertados e entrassem na briga, os guardas vendo a situação escalonar correram para socorrer abandonando seus postos, aproveitei esse momento para esgueirar-me para dentro da cede da vila.

Era um grande salão, amontoado de caixas de suprimentos, com várias portas duplas cada uma levava a um túnel, mas qual seria a certo? Antes que pudesse fazer minha escolha uma das portas se abriu. Escondi-me atrás das caixas.

Dela saiu seis guardas cada um segurando uma corrente conectada aos grilhões presos ao prisioneiro, os soldados bloqueavam minha vista até o momento que o prisioneiro tropeçou e caiu, foi quando eu vi os cabelos ruivos.

“Não!” pensei. Eles estavam levando Leif para a jaula, para o fim. Lágrimas surgiram em meus olhos quando eles atravessaram e sairam do salão. Permiti-me um soluço quando a porta fechou.

—-- Por que choras menina Ive? --- Em um pulo cai de bunda no chão. Olhei para cima e mais uma vez dei-me de cara com o rei. Não tinha percebido sua presença. “De onde ele surgiu?”

—-- Eu ...o quê ..? --- Estava confusa e assustada, tinha sido pega.

—-- Não se preocupe não conto a ninguém que esta aqui. Será nosso segredo. --- Sorriu. “ele não vai contar?” --- Gostaria de conversar com você pequena, mas agora tenho que julgar uma causa, que tal nos ver depois?

“Ele quer me ver” freneticamente ajoelhei diante dele, o que fez abrir os olhos de surpresa.

—-- Por favor, eu lhe imploro, tenha piedade de meu irmão.--- Agora as lagrimas rolavam soltas.

—-- Seu irmão?

—-- Sim, Leif, ele é inocente, por favor não o mate.

O rei deu a volta na caixa e parou diante de mim, agachou, pegou minhas mãos e sorriu.

—-- Você ama seu irmão, não?

—-- Sim, muito.

—-- Há testemunha contra ele, sabia?

—-- É falsa! --- Falei sem duvidar. Ele enxugou uma lagrima minha de forma delicada.

—-- E se não for?

—-- Por favor! Acredite, ele é inocente.

—-- E seu disser que há uma forma de salvar seu irmão? Você faria?

—-- Sim.--- Mais uma vez respondi o lobo sem pensar.

—-- E se for algo que não goste?

—-- Faço qualquer coisa por meu irmão.

—-- Case-se comigo então.