Rainha Das Trevas

3 Capítulo II - Athalia


Notas iniciais
Oi, lindos, como estão? Como prometido, hoje vocês vão ver como anda a Athalia. Espero que gostem! Ah, e deixem um comentário! Críticas e sugestões são sempre bem-vindas ♥

— CAPÍTULO II -

ATHALIA

Cartoff, território norte das Terras do Reino, ano 5495

O sol se escondia por entre as nuvens naquela manhã no vilarejo de Cartoff. Distante de Galira, capital do reino, era um povoado simples, porém farto de suprimentos, pois era o maior daquela região. As casas de pedra e o pequeno templo no centro da vila, pouco iluminadas àquela altura por conta do tempo nublado, ficavam ao lado do maior armazém de suprimentos local, que geralmente ficava lotado àquela hora do dia. Porém, naquele dia, os moradores de Cartoff não estavam comprando e vendendo; ao invés disso, todos se amontoavam em frente ao templo, onde fora montada uma estaca, e gritavam palavras de ódio para uma mulher amarrada á madeira, com os pés em todas espalhadas. Suas vestes eram negras, e ela usava uma capa com um capuz da mesma cor, embora não estivesse tão frio naquele dia. A seu lado, um sacerdote vestindo uma batina branca de certo luxo segurava uma tocha.

—Queime nas trevas, bruxa! – uma senhora murmurou, em meio à multidão, levantando a cabeça e cuspindo na mulher amarrada. Ela nada fez; sequer pronunciou uma palavra. Apenas permaneceu olhando para frente, para onde os cidadãos de Cartoff acreditavam não haver ninguém, mas estavam enganados.

Atrás da porta entreaberta de uma estalagem, vazia àquela altura, uma jovem de vestes simples, nada além de uma camisa, calças e agasalhos de viagem de cor clara, mirava de volta a bruxa. Esguia e pálida, com cabelos negros longos e olhos acinzentados, Athalia caminhou despercebida pelo povo para fora da estalagem, com passos lentos, enquanto o sacerdote erguia a tocha e dizia:

—Que a Progenitora tenha piedade desta alma, e purifique Savinya deste mal por meio das chamas que levarão este corpo pecador.

A multidão ao redor vibrou novamente, exclamando, em conjunto, duas únicas palavras: “queime bruxa”. Athalia se lembrava da primeira vez que havia visto a execução de uma bruxa daquele ponto de vista. Fora como se os calafrios em sua pele houvessem demorado um dia inteiro para ir embora, junto ao medo que tudo fosse dar errado. Agora, já com duas décadas de vida, não sentia mais nada disso. O tempo, e, principalmente, a experiência, haviam endurecido suas emoções. Em meio ao coro de ódio, Athalia seguiu em frente, até perto da multidão, e no momento em que o sacerdote aproximava a tocha das toras, ela pronunciou, apenas para seus ouvidos escutarem:

Arientum maharis.

No momento em que as palavras saíram de sua boca, Athalia piscou por um instante, e no que abriu os olhos, sua consciência se projetou pelo espaço até chegar ao sacerdote. Em menos de um segundo, ela sentiu o peso da batina em seu corpo, a madeira já quente da tocha em sua mão direita, e viu, com o canto dos olhos, seu próprio corpo, parado atrás da multidão, com os olhos brancos fixos no infinito.

Olhando rapidamente para o outro lado, Athalia viu a bruxa amarrada a poucos centímetros de si, e a tocha prestes a tocar a madeira que a prendia. Não havia muito tempo. Segurando a tocha com força, Athalia balançou o braço e atirou-a em direção ao povo. O fogo planou pelo ar até atingir, em cheio, a cabeça de um homem de cabelos negros. Em um instante, as chamas o consumiram.

Os cidadãos gritaram. O homem em chamas correu desenfreado, passando o fogo para mais dois ou três que tentaram ajudá-lo, causando um pânico geral. Mas Athalia não prestou atenção em nada disso; nos segundos que ela sabia que seu feitiço ainda iria durar, ela desamarrou sua irmã bruxa, sentindo as cordas queimarem suas mãos, mas não importava, pois aqueles dedos não eram seus. Um instante depois, então, ela fechou os olhos novamente e, ao abri-los, já estava de volta a seu corpo.

Àquela altura, a maioria das pessoas que se amontoava por ali já havia se dispersado, correndo para todos os lados e causando uma grande confusão.

—Elas vão nos matar! Que a Progenitora nos salve! – alguém gritou, de um modo tão frenético que pareceu contagiar as pessoas ao redor, pois muitas começaram a suplicar por misericórdia da Progenitora e se esconder dentro do templo. O único que permanecia parado era o sacerdote, como se se perguntasse o que estava acontecendo, mesmo quando a bruxa a seu lado deu um salto para longe da estaca, balançando os cabelos castanhos e as vestes negras enquanto corria até Athalia.

—Vamos. – ela disse à irmã, e Athalia correu junto a ela para longe da multidão.

Alguns homens tentaram segui-las, mas elas, rápidas e experientes quando o assunto era fugir de quem as queria queimar, os despistaram em meio às casas e estabelecimentos de Cartoff, indo em direção à fronteira da cidade com a floresta, mas por um caminho que os deixou confusos demais para perceberem para onde elas iam.

—Bem a tempo, não foi, Zenna? – Athalia brincou.

—Como se eu houvesse duvidado. – Zenna respondeu-lhe, parando atrás de uma construção em um beco vazio para respirar.

—Nem por um segundo?

—Nem por um segundo. Ninguém faria o feitiço de transe melhor que você.

Athalia também respirou por alguns segundos. Aquelas ações costumavam ser perigosas, principalmente quando envolviam uma isca viva, mas eram as que mais geravam frutos no fim das contas.

—Pode ver se Devehrya já conseguiu roubar os suprimentos? – perguntou Zenna.

—Não preciso. – respondeu Athalia – Tenho certeza que ela já está na floresta à nossa espera.

As duas riram juntas, ao longe os gritos da multidão ainda ecoando. Chegava a ser irônico como eles sempre achavam que conseguiriam extinguir os bruxos. Tolos. Mal sabiam que, enquanto se vangloriavam de terem capturado Zenna – de uma forma fácil demais para que não desconfiassem, diga-se de passagem – Devehrya e mais bruxos disfarçados saqueavam seu armazém de suprimentos. Athalia precisara apenas controlar o sacerdote para livrar Zenna da fogueira. Se tudo aquilo ocorresse no fim de sua infância, ela teria sentido culpa por ter incendiado um homem inocente, mas agora ela sabia que de inocente ele não tinha nada. Nem ele, nem o sacerdote, nem ninguém daquela vila.

Os cidadãos das Terras do Reino podiam viver livres e alimentados, mas sua liberdade era justamente o que os tornava arrogantes. E sua arrogância, por sua vez, era o que os deixava séculos atrás dos bruxos.

—Elas foram por ali!

Athalia ouviu a exclamação em poucos segundos, e, não distante de onde ele parecera vir, sons de cascos de cavalo.

—Guardas do reino. – disse Zenna, certeira.

—Corra! – Athalia exclamou, saindo do beco junto a sua irmã, e logo as duas corriam em direção à floresta. Ao redor, o povo de Cartoff parecia ter mergulhado em pânico, pois os gritos permaneciam altos e o barulho de todos correndo por vezes até mascarava o dos cavalos, mas Athalia ainda podia ouvi-los se aproximando.

Os guardas do reino eram uma classe abaixo dos cavaleiros. É claro, o rei não mandaria seus leais cavaleiros às cidades mais afastadas de Galira. Ao invés disso, enviava seus guardas; homens indigentes e endividados com a coroa, que aceitavam trabalhar para ela para não acabar nas masmorras reais. Eles eram muitos, portanto, mas, na maioria das vezes, acabavam se tornando bêbados e vadios por não terem supervisão na maior parte do tempo. Athalia sabia bem disso, desde a invasão Izeny a Amatur, onze anos atrás. Amatur também possuía guardas do reino, mas eles não haviam impedido a desgraça da vila.

Mas não havia problema. Naquela noite, Athalia descobrira seu destino, graças à ausência das forças do reino. Agora, podia lidar facilmente com elas.

A floresta estava a alguns metros, e os cavalos se aproximavam. Athalia avistou uma árvore de tronco grosso e puxou Zenna para trás dela.

—O que está fazendo? – Zenna perguntou. Athalia não respondeu; ao invés disso, fechou os olhos para se concentrar e disse:

Arientum cordara.

Quando abriu os olhos, Athalia viu em sua frente o interior de uma floresta. O barulho de Cartoff pareceu distante. A seu lado, os cavalos de seus irmãos bruxos estavam parados, carregados com os mantimentos roubados da vila. Todos os bruxos já estavam montados, vestindo seus disfarces de comerciantes. Eram um grupo de não mais que dez, contando com Devehrya, que era por cujos olhos Athalia enxergava naquele momento.

Aquele feitiço, diferente do anterior, apenas lhe permitia enxergar pelos olhos de outra pessoa e ouvir por seus ouvidos, não controlá-la, mas, naquele momento, não era necessário.

—Estão nos esperando, não muito longe daqui. – Athalia disse, piscando com força e interrompendo o feitiço – Precisamos despistar os guardas.

—Eu cuidarei disso. – respondeu Zenna.

—Tem certeza?

—Absoluta. Não podemos arriscar você. – Zenna deu a mão para que Athalia se levantasse. Os cavalos dos guardas estavam há poucos metros – Vá até nossos irmãos. Encontro vocês em alguns minutos.

No que terminou de falar, Zenna saiu de trás da árvore e correu na direção oposta à da floresta. Em um mero instante, os guardas montados a seguiram. Athalia esperou que tomassem certa distância, e depois começou a correr até a floresta. Acreditava-se, entre os bruxos, que cada feiticeiro tinha um talento natural para um tipo de magia. No caso de Athalia, eram os feitiços de transe, e, no de Zenna, os de defesa, por isso não raro ela era a isca viva dos planos. Isso era o que dava a certeza de que ela sairia ilesa daquela perseguição. Athalia seguiu correndo sozinha em meio às árvores, ou, ao menos, assim imaginava, pois, no intervalo entre o piscar de seus olhos, uma flecha cortou o ar, passando a centímetros de seu pescoço, e no que ela se virou para trás, avistou um homem grisalho com a besta a postos, vestido com o uniforme vermelho e preto dos guardas do reino.

—Bruxa imunda! – ele murmurou, atirando outra flecha. Athalia desviou por pouco, seu coração batendo rápido pela velocidade com que ela correra, o guarda em sua frente, e ela olhava para todos os lados e não encontrava uma saída.

Em um impulso de medo, Athalia correu para trás de uma árvore, e viu uma flecha dilacerar parte de seu tronco. Ela pensou que poderia correr mais, porém o guarda atirou-se sobre ela, derrubando-a no chão.

Athalia desviou de um soco, e tentou usar as unhas para se livrar do guarda, mas ele não a largou; ao invés disso, ela sentiu que ele pressionava suas pernas com os joelhos, e se erguia para apanhar uma flecha com as próprias mãos.

Ela sabia o que ele faria, e sabia que não sobreviveria a um golpe daquela flecha. Era tarde demais para escapar dele, e ela não conseguiria concentração para fazer um feitiço àquela altura. Athalia mirou a ponta da flecha se aproximando, tentando pensar em uma forma de se desvencilhar daquele homem, mas não encontrou. Ela então, no instante que lhe restava, fez a única coisa que podia fazer.

O grito do guarda ecoou em seus ouvidos. Ele foi cambaleando para trás, derrubando a flecha ao lado de Athalia, e ela, vendo-se livre, apanhou-a e cravou sua ponta no peito do guarda, que permanecia no chão se contorcendo de dor.

Ele gritou mais, porém sua voz se calou quando sangue escorreu para fora de sua boca, e seus movimentos pararam. Athalia permaneceu ali até que o guarda se paralisasse por completo, e seus olhos se fixassem no infinito. Da flecha em seu peito, mais sangue caía.

Athalia virou as costas e voltou a correr floresta adentro, o mais rápido que podia, e só parou ao avistar a pele escura e cabelo trançado de Devehrya.

Ela estava muito parecida com a primeira vez em que as duas haviam se visto, onze anos atrás. Haviam rumores em Savinya de que as bruxas faziam feitiços e rituais para não envelhecerem – o que, obviamente, era mentira –, mas a forma como Devehrya parecia jovem quando não era tanto, era de fato comparável a magia. Sua pele era lisa e de aparência macia, e ela tinha poucas linhas de expressão no rosto. Seus olhos castanhos fitavam Athalia, mas não foi neles que a jovem bruxa prestou atenção, e sim em Zenna, que já estava em meio aos outros bruxos.

—O que houve? – ela perguntou. Só então Athalia percebeu que um pouco de sangue havia espirrado em suas roupas.

—Athalia? – a voz de Devehrya, preocupada, tirou-a de seus pensamentos.

—Um guarda me alcançou na floresta, mas consegui matá-lo. – Athalia contou.

—Feitiço de morte? – Zenna questionou-a. Athalia balançou a cabeça em negativa.

—Ele estava armado com uma besta. Consegui atacá-lo com uma das flechas.

Enquanto seus irmãos a encaravam, Athalia permaneceu em silêncio. Desde que chegara à Cidade dos Mortos, todos os bruxos sabiam do poder que ela possuía; sabiam que ela era a Profecia da Salvação. E ela sempre fora instruída por todos eles a jamais fazer um inimigo sentir dor. As chances eram poucas, mas talvez alguém fora da Cidade dos Mortos soubesse que isso era um sinal da Profecia, assim como Devehrya soubera naquela noite em Amatur. Por isso mesmo, Athalia não queria contar como havia matado aquele guarda. Pelo menos, não para todos; apenas para a única que certamente desconfiaria.

Devehrya já olhava para ela como quem sabia.

—Devemos voltar à Cidade dos Mortos o mais rápido possível. Não é seguro ficarmos aqui. – disse ela. Os bruxos assentiram, ordenando a seus cavalos que andassem. Zenna montou em um cavalo desocupado, e Athalia foi até uma égua negra que a esperava, com olhos escuros que poderiam meter medo em qualquer desconhecido, mas não nela. Porém, elas não andaram de imediato; ao invés disso, Athalia esperou que Devehrya também montasse e se aproximasse – Você o fez sentir dor, não fez? – Athalia apenas balançou a cabeça em concordância – Já lhe pedi que não faça isso...

—Só o fiz porque era a única maneira...

—Eu sei. É por isso que é perigoso trazer você para fora da Cidade dos Mortos. – Devehrya suspirou – Se alguém aqui fora souber o que você é...

—Ninguém saberá. – Athalia interrompeu – O guarda está morto, e não havia ninguém além de nós... Não houve testemunhas.

Devehrya a mirou por mais alguns momentos, com pesar nos olhos, mas um pesar carinhoso. Athalia entendia sua preocupação, é claro que entendia. Após todos aqueles anos aguardando, se preparando sem descanso, seu ritual estava próximo. Ela não sabia quando, mas, em algum momento em breve, seria capaz de conjurar a Energia, como dizia a Profecia da Salvação, e muitos planos estavam em curso na Cidade dos Mortos para quando isso acontecesse.

Não importava o que acontecesse, ela não podia arriscar. Devehrya tinha toda a razão.

—Vamos, Nyra. – Athalia disse a sua equina, que lhe obedeceu de pronto. Os bruxos já se apressavam para fora da floresta, e ela os seguiu.

Afinal, o caminho até a Cidade dos Mortos era longo, e poderia ser muito perigoso caso os disfarces fossem descobertos.

Notas finais
E aí, gente, estão gostando? Fiquem à vontade pra me falar as opiniões de vocês! Ah, e se quiserem curiosidades, novidades e artes bem legais da história, sigam o Instagram @rainhatrevas, o facebook Rainha Das Trevas e o blog rainhadastrevas.home.blog! Até o próximo capítulo! ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.