Rainha
1 Capítulo 1 -
A cidade dos meus sonhos era Petrópolis, uma cidade muito bonita pelo pouco que vi. O castelo que eu sempre quis conhecer. Parecia bem sombrio a principio, mas depois de passar por ele algumas vezes pareceu um lugar mais alegre. Queria visitá-lo, nunca tinha entrado em um castelo antes, e essa podia ser minha chance. Ele estava aberto ao publico, era realmente muito bonito, tanto por fora quando por dentro. Mas tinha algumas partes do castelo que era proibida para visitantes, bem, eu me conheço e curiosidade não faltou, queria ver o calabouço, não respeitei os avisos do tipo “Proibido a entrada de não funcionários”, passei por uma porta de madeira, sinceramente ela era bem velha e estava meio difícil de abri-la, mas passei. Desci as escadas, parecia que não acabava mais, era muito fundo, depois de alguns minutos finalmente cheguei ao final da escada, estava tudo um tanto escuro, apenas algumas lâmpadas acesas que não iluminavam bem o lugar.
Parecia um labirinto, tentei voltar às escadas, mas não as achava mais. Andei mais um pouco pelo escuro e encontrei algo, parecia uma sepultura. Eu não tinha noção do perigo que estava correndo naquele lugar, estava domada pela curiosidade, e ao ver aquela sepultura ali me perguntei “O que isso faz aqui?”. Dei alguns passos em direção a sepultura, toquei-a com as mãos, estava molhado, o teto tinha muitas goteiras, o lugar estava bem escuro, se não fosse por uma lâmpada perto da porta não tinha visto o que havia naquela sala. Um calafrio, um arrepio, senti que tinha algo errado, o som das goteiras parou, o barulho das lâmpadas que parecia que iria queimar a qualquer momento também sumiu. Dei um passo para trás e ouvi um barulho, a lâmpada perto da porta tinha se apagado, eu estava no escuro, não enxergava nada, entrei em pânico, qualquer ser humano se ficar sozinho no escuro num lugar daqueles entraria em pânico. Tentei voltar à porta, mas não a encontrava, o desespero tomou conta de mim, o medo, comecei a chorar, não sabia o que fazer, não havia nenhuma luz, nada que eu pudesse usar para iluminar aquela sala, nem mesmo meu celular, eu não o encontrava de jeito nenhum. Sentei no chão, estava tão molhado, fiquei ali naquele mesmo canto por alguns minutos, tremia tanto, cada momento que passava o medo só aumentava. Ninguém iria aparecer e me tirar dali, ninguém sabia que eu estava ali, entrei sem permissão e escondida. Um barulho alto dentro da sala me fez paralisar, era como se algo tivesse sido arrastado, e eu tinha me esquecido dela, estava ali sozinha no escuro junto com aquela sepultura e agora ouvir esse barulho, comecei a chorar de desespero e medo, soluçando sem parar. Pude ouvir alguma coisa, como se fosse passos, pensei “será que alguém está vindo me tirar daqui?”, não, não tinha como. Senti alguma coisa perto de mim. Não conseguia me conter, o choro aumentou, a tremedeira excessiva chegava a doer, podia sentir a respiração de alguém bem do lado do meu ouvido, e eu queria correr, mas as pernas não obedeciam, um som em meu ouvido me fez querer gritar, mas a voz não saiu. O medo era tanto que eu não agüentei, desmaiei. Tinha alguém naquela sala comigo e eu indefesa sem poder me defender, desmaiada naquele chão molhado. Não ouvi nada, nem senti nada, ao tentar abrir os olhos pude ver uma luz bem fraca, era a luz fraca do corredor perto das escadas. Ouvi a voz de alguém, era um segurança do castelo, ele estava perguntando o que eu estava fazendo ali, mas eu estava tão tonta que não consegui responder. Ele me carregou para cima e me levou a uma sala, onde fiquei deitada ainda sem saber o que estava acontecendo. Não demorou muito e uma mulher de branco veio até mim, me colocou sentada e começou a mexer no meu ombro, eu comecei a sentir um incômodo na região que ela tocava.
_Jesus! Onde foi que você machucou isso?! _ Perguntou o mulher de branco.
_Quando eu a encontrei já estava assim, parece à mordida de um animal_ Disse o segurança_ Será que tem um cachorro nos calabouços?_ Perguntou ele.
_Você devia dar uma olhada_ Disse a mulher de branco_ E quanto a você moçinha, vou levá-la para um hospital, esses ferimentos são profundos.
Eu ainda não estava entendendo o que eles diziam, era como se estivesse em outro mundo ou como se estivesse drogada, as coisas giravam e eu não conseguia me manter em pé.
Quando me dei conta estava em uma cama de hospital e minha Mãe estava ao meu lado, parecia bem preocupada.
_Como você está se sentindo querida?_Perguntou minha Mãe.
_Me sinto tonta ainda, mas melhor_ Respondi.
_Você me deu um susto, ligaram no hotel dizendo que você tinha sofrido um acidente, eu fiquei tão preocupada._ Disse minha Mãe.
_Estou bem, Mãe_ Eu disse.
_É isso que você diz... Eu quase tive um ataque!_ Disse minha Mãe.
Nessa hora uma enfermeira chegou para trocar meu curativo, quando ela tocou nos esparadrapos senti uma dor forte e por um instante me vi naquela sala escura novamente, comecei a entrar em desespero novamente e ouvi as vozes de minha Mãe e da enfermeira me chamando.
_Luana! Calma querida, por que está gritando?_ Perguntou minha Mãe.
_Vou dar a ela um tranqüilizante, ela parece estar agitada demais_ Disse a enfermeira.
Logo depois da injeção que a enfermeira me aplicou eu comecei a sentir sono, foi bem rápido até, fechei os olhos e adormeci. Sonhei com um homem num beco escuro, ele era bem alto e pelo que deu pra ver seu cabelo era comprido, parecia que ele estava observando alguém.
Acordei com frio, estava com febre, à ferida em meu ombro estava infeccionada e o medico já estava ao meu lado preparando alguns remédios e uma seringa. Tomei os remédios e já me sentia sonolenta novamente, os médicos falavam e falavam e mais uma vez tudo começou a girar até que eu adormeci novamente.
Em outro sonho me vi novamente na sala escura, mas sentindo alguém me tocando nos braços e subindo até meus ombros, senti algo me mordendo, mas não sentia dor, talvez isso não tenha sido um sonho, talvez seja meu inconsciente me mostrando o que aconteceu naquele lugar. Eu pude ouvir sussurros, mas não os entendia, até que uma frase eu entendi “Pegue minha mão”, realmente foi muito estranho, no meio de tudo aquilo ouvir algo assim. Vi-me sendo arrastada pela mão, passando pelos corredores mal iluminados até chegar perto das escadas, e um barulho bem alto como se fosse um grunhido, depois vi uma sombra perto de mim, passando as mãos sobre o machucado em meu ombro.
Acordei novamente e estava no quarto do hotel, minha mãe fazia as malas e falava comigo.
_Nos vamos embora logo e você ai dormindo, já está curada, já dormiu por 14 horas, suas feridas já estão boas e você continua ai deitada, só sabe me dar preocupação!_ Diz minha Mãe.
_Eu já acordei Mãe_ Eu disse.
_Ah! Céus! Que susto! Mas ainda bem que acordou, vamos pegar o ônibus para são Paulo às 14h30min, é melhor você se arrumar e arrumar suas coisas_ Disse minha Mãe.
Eu levantei e fui ao banheiro, olhei no espelho, olhei o curativo, meu rosto estava pálido, tirei minha roupa e entrei no chuveiro, deixei a água cair sobre o machucado que não doía mais, fechei os olhos por um instante e pude relaxar um pouco. Arrumei minhas coisas e já estava pronta para pegar o ônibus quando tive a impressão de ter visto o homem do meu sonho do lado de uma pilastra do hotel, mas ainda não podia ver o rosto dele, pensei em ir até ele quando minha Mãe me puxou pelo braço me apressando a entrar no ônibus, quando olhei novamente ele já não estava mais lá.
No caminho para São Paulo as coisas foram tranqüilas, fiquei ouvindo musica no meu celular que por milagre apareceu na minha bolsa, na hora do desespero naquele escuro não consegui achá-lo. A estrada estava molhada com a chuva que caia fraca, os carros que passavam ao lado do ônibus pareciam com pressa. O ônibus fez uma parada, e eu fui ao banheiro, na volta senti um calafrio, olhei para trás e vi aquele homem de novo ao lado do banheiro masculino, não consegui ver o rosto dele mais uma vez, e ele desapareceu como mágica. De volta ao ônibus fiquei pensando nas coisas que aconteceram em Petrópolis, a sepultura debaixo do castelo, a ferida em meu ombro, esse homem que fica me seguindo. O que será que tudo isso significava, estava tudo um tanto confuso para mim, mas de certa forma estava feliz por ter ido aquele castelo, visto tanta beleza, realizei um de meus antigos sonhos apesar de tudo.
Finalmente em casa, coloquei as malas em um canto do meu quarto e me joguei em cima da minha cama macia. Nada mais gostoso do que nossa cama depois de uma viajem dessas. Entrei no banho, valei o machucado que parecia já ter cicatrizado, o que achei estranho, mas não dei tanta importância, peguei meu diário e comecei a escrever sobre tudo que havia acontecido. 2 horas depois já estava deitada e coberta, cansada e com sono, fechei os olhos e adormeci.
Enquanto dormia, o tempo lá fora começava a mudar, o vento soprava forte, folhas e galhos de arvores caiam, e as nuvens tomaram conta do céu. Uma jovem passava pela rua nessa hora, parecia estar bêbada e falava com o nada.
_Esses babacas acham quem podem me usar sem pagar por nada!_ Disse a jovem._ Esses canalhas! Eles vão pagar...
Ela cambaleou e caiu na calçada, e começou a gritar.
_Esse mundo é injusto comigo mãe!_ Gritou a jovem.
_Concordo com você. _ Disse uma voz misteriosa.
_Quem está ai?_ Perguntou a jovem.
_Não é importante quem eu sou, e sim quem você é!_ Disse a voz misteriosa.
A voz parecia vir de perto, a jovem olhou para traz e avistou um homem alto de preto com um capuz.
_Que? Eu sou importante? Vai procurar uma baranga pra traçar seu monte de merda!_ Disse a jovem.
_Você certamente é importante, pra mim._ Disse o homem, com certo tom de raiva.
Ele se aproximou dela e a puxou pelos cabelos, a fazendoela gritar.
_Ah, eu adorei ouvir sua voz, vamos gritar mais um pouco, sua cadela de rua?_ Disse o homem.
Ele puxou mais o cabelo dela, fazendo a gritar mais alto, e rasgou sua garganta. O sangue ainda jorrando pela calçada, e o homem em pé ao lado do corpo da jovem que ainda se debatia no chão sorria de satisfação.
Acordei de manhazinha e desci as escadas já falando pra minha Mãe se ela tinha preparado o bolo que eu adoro e me deparei com meu Pai e minha Mãe parados em frente a TV.
“Camila de Oliveira Silva, foi encontrada morta nesta manha na região de Pirituba, não se sabe ainda o que aconteceu, mas os policiais já estão investigando, voltaremos em breve com mais noticias.”
_Minha nossa... Aquela garota deve ter sofrido... E pensar que ela podia ter sido você Luana._ Disse minha Mãe.
_Você deve tomar cuidado se for sair a noite, vai que é um maníaco._ Disse meu Pai.
_Nossa, a Camila, ela estudou comigo no colegial... Espero que esteja em um lugar melhor._ Disse Eu.
_Aquela garota já estava nas drogas, não me surpreenderia se ela fosse sido assassinada pelos traficantes que andam por ai._ Disse meu Pai.
_Mas é uma pena, fico imaginando o sofrimento da mãe dela._ Disse minha Mãe.
_Ela realmente se envolveu com pessoas perigosas, mas acho que não chegaria a tanto..._ Disse Eu.
_Quem sabe._ Disse meu Pai.
_Bom, vamos tomar café, vocês tem que ir trabalhar._ Disse minha Mãe.
Depois do café, fui me arrumar, ao olhar pro espelho vi uma sombra atrás de mim, eu paralisei, a sombra começou a se aproximar e comecei a ter calafrios um atrás do outro junto com uma tremedeira, a sombra chegou a por a mão em meu ombro e senti um pouco de dor, fechei os olhos por um instante e quando abri já não estava mais La, mesmo tendo sumido eu ainda continuava paralisada quando minha irmã mais nova passou pelo quarto e me chamou.
_Lu? Você está bem?_ Disse Lucia.
Assim que ela me chamou consegui me mover novamente.
_Lucia... Eu estou bem... Você acordou cedo..._ Disse Eu.
_Lu, você não parece bem, talvez devesse ficar em casa pra descansar, afinal, você tem a desculpa do seu machucado no ombro._ Disse Lucia.
_Mas é melhor eu ir, se não me sentir bem volto pra casa..._ Disse Eu.
_Está bem então._ Disse Lucia saindo do quarto.
_Lucy!... Obrigada._ Disse Eu.
_Obrigada por quê?_ Disse Lucia.
_Só obrigada pequenina, agora pode ir, você tem aula hoje não tem?_ Disse Eu.
_Você está estranha hoje, mas tudo bem, até mais tarde Lu._ Disse Lucia.
Ainda apavorada com o que tinha visto, sentei na cama e lembrei-me do homem que parecia que estava me seguindo. O que será que tudo aquilo significava?
O dia tinha sido cansativo e meu ombro ainda doía, mas já era pra ter parado. Subi as escadas, segui pelo corredor e entrei no meu quarto. A casa estava vazia e o único som era o do relógio.
Havia uma carta em cima da minha cama, era estranho por que parecia com as cartas de antigamente com um tipo de selo de cera, eu a abri e dentro tinha um botão com sangue e um pedaço de papel meio amassado com algumas coisas escritas.
“Aqui estou, diante deste mundo novo que me trouxeste, existem coisas maravilhosas que jamais pensaria em ver, devo agradecer a você por ter me acordado, logo estarei com você, mas preciso de um tempo para me acostumar com as coisas deste mundo novo.”
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