Rainbow War
37 Romolo e suas teorias
Notas iniciais
POV Jack
Não sei o que me alertou que estava ficando tarde: se o foi o sol se pondo lá fora ou minha mãe chamando a gente pra um lanchinho. Depois de passar a tarde discutindo com meus amigos sobre quase tudo, cheguei à conclusão que não tínhamos conversado sobre nada. Talvez fosse apenas ilusão da minha cabeça, mas eu estava bem preocupado com o destino de duas pessoas que se mostravam meio esquisitas.
Pensei em ligar pra um certo cretino imbecil, mas eu gostava demais dele pra querer papo num momento delicado. Isso geralmente acaba mal. Voltei a focar o presente quando vi que mamãe tinha preparado dúzias de sanduíches naturais, biscoitos com patê, sucos, refrigerantes, chás, bolos, e até pão de queijo… Mamãe se supera. Fiquei um pouco retraído enquanto meus amigos se fartavam, mas logo chegou minha vez, e fiz a farra da comilança.
– Jack, o lanche está divino! Mas sinto interromper esse momento, pois tenho que assistir o jornal. Seria bom estar atualizado sempre, já que o vestibular está chegando. – disse Romolo. Eu, muito bonzinho, fui ligar a TV pra ele e já estava preparado pra ser bombardeado pelas notícias do terremoto.
– Jack, aproveita e vê se tem alguma notícia do terremoto. Não tive tempo de ver nada sobre isso o dia inteiro. – disse Perla.
– Que terremoto, minha filha? Não soube de nenhum terremoto recentemente. – disse papai, passando pela cozinha rapidamente pra pegar uma água.
Isso meio que me preocupou, pois meus pais não estavam tão velhos a ponto de esquecer o que acabou de acontecer… Às vezes, por conta do estresse e da preocupação, eles acabam tendo alguns fatos ocultados da mente, mas nada muito traumático. Nada do tipo “esqueci que ocorreu um terremoto grave no shopping ontem, e que meu filho era uma vítima em potencial”. Eu estava me sentindo até um pouco desprezado.
Mas ao ligar a TV, tive a confirmação: não estavam noticiando loucamente o terremoto, e quando eu perguntei sobre o shopping que desabou, convenientemente apareceu a resposta na TV dizendo que ele tinha sido demolido, pois iria ser reformado desde sua estrutura subterrânea. Quanta conveniência, não acham? Hora de ver se as respostas não surgiriam novamente do nada.
– Não acredito que não estão noticiando nada! Isso é alguma piada de mau-gosto? Porque se for, nem sei o que sou capaz de fazer! – disse Nanda.
– É, né? Temos de ter em mente que algumas coisas não foram feitas para caírem no gosto da mídia. O terremoto foi uma delas. – disse Romolo.
– Mas um terremoto? Ninguém ganharia nada abafando esse caso em especifico. A menos que seja alguém do comando de Darkshadow, e eu tenho minhas duvidas se ele tem algum alien capaz de controlar eventos ocorridos no passado. – falei.
– Seja como for, isso é muito mais estranho do que qualquer coisa que nós já tenhamos visto. Isso realmente precisa de uma nova teoria. Mas acho que hoje não se faz mais teoria. Vamos marcar de novo outra semana, pode ser? – falou Perla.
– Pode. Se vocês quiserem ir indo, podem ir. Eu vou ficar aqui mesmo… – falei eu, pra fazer graça.
Como o esperado, a galera ficou toda brincalhona e conseguimos ter um último relax antes de voltarmos cada qual pra nossas casas. Só espero que isso dure o máximo de tempo possível, antes de termos mais uma batalha contra o ser das sombras. Todos foram aos poucos, de acordo com seus horários, mas como que por ironia, Romolo foi o ultimo a sair. Esperei a brincadeira final, antes de partir pra baixaria.
– Jack, acho que hoje foi um bom dia. Me diverti bem, até. Você sabe o que eu disse sobre sofrer por você sofrer? Pois é, acho que estou aprendendo a realmente gostar de você. – disse Romolo, pondo a mão em minha bochecha e me puxando pra frente.
Meu coração acelerou tanto que eu tive certeza que mamãe podia ouvir meus batimentos lá da cozinha. Eu estive esperando tanto tempo por esse momento que quase desejei morrer depois do beijo. Mas ainda tinha muita coisa pra viver, e o que eu estava vivendo agora era simplesmente o momento mais feliz, mais perfeito, mais tudo da minha vida. Não existia nada, apenas a boca de Romolo grudada na minha.
Ele se afastou um pouco rápido demais, como se tivesse nojo, mas depois acabei descobrindo que ele estava mesmo era com a boca queimada. Acho que vou precisar aprender a controlar MUITO bem meus poderes antes de beijar qualquer pessoa de novo na vida. Pelo menos eu tive o melhor segundo de toda a eternidade.
– Bem, eu tenho que ir agora. Vou ver se boto um gelo na boca quando chegar em casa, e passo uma pomada. Espero que tenha manteiga de cacau, senão vou ter que passar na farmácia.
– Com certeza tem! Você é um dos maiores beijoqueiros do bairro, claro que tem manteiga de cacau na sua casa.
– Na verdade é meu irmão, mas deixa pra lá. Te vejo amanhã na escola.
E assim ele partiu rumo a sua casa. Me surpreendia muito a capacidade dele em não se preocupar com nada. Fechei a porta e decidi comemorar aquele momento único na vida de maneira bem bacana, ou seja, fazer a maior gritaria possível. Mas aí me lembrei que não poderia exaltar meus sentimentos e que meus pais não deviam ter uma bandeira assim tão grande do que acontecia na minha vida.
Fui para o meu quarto quase levitando, e tomei um banho frio pra ver se esfriava a cabeça. E de preferência, a segunda cabeça. Abri o chuveiro e deixei a água percorrer o meu corpo todo, mas só consegui esse feito depois de algum tempo, pois eu estava tão quente que a água evaporava somente entrando em contato com a minha pele. E depois de todo o cuidado dispensado para o banho relaxante, fui até o quarto e deitei na cama, lembrando de todos os detalhes.
Acordei na manhã de segunda-feira com um humor totalmente mágico. Era como se a Fada da Felicidade estivesse me dizendo oi, e jogando todo o pó mágico dela em cima de mim. Fiz toda a minha rotina matinal e fui direto pra escola, e eu tinha dois motivos pra chegar bem cedo. E quando eu cheguei lá, eles já tinham chegado também: Hikari estava sentando nos bancos e Romolo estava perto do jardim. Era só uma decisão de com quem eu falaria primeiro. Antes amigos e depois namorado.
– Oi Hikari, como vai você? Alguma novidade pra me contar? – perguntei eu, invadindo o espaço pessoal dele e cutucando-o bem forte no braço.
– Espaço. Mais espaço. Bem, tirando meu braço quebrado pelos seus cutucões, eu estou bem. Não tivemos nenhuma novidade enquanto você estava fora. – respondeu ele, com uma voz estranhamente robótica.
– Você é um robô? Não tinha percebido.
– Nós somos a unidade de inteligência artificial monitorada por satélite. Fomos enviados a esse planeta com o intuito de coletar dados e amostras de vida inteligente. Precisamos de uma amostra da vida inteligente. – disse ele fazendo garras pra cima de mim.
– Ah, estou sendo atacado por um robô alienígena assassino! Alguém me ajude! – e depois disso, eu e ele caímos na gargalhada.
– Eita, Jack. Você e eu somos mesmo dois idiotas. E não, não tem nenhuma novidade aparente. Só mesmo o marasmo de sempre.
– Percebo. Quer sair comigo? Podemos ir ao motel primeiro, depois jantamos, depois vamos ao cinema, e depois a gente vai cada um pra suas casas.
– Esse encontro está me parecendo meio invertido na ordem. Vamos usar alguma maluquice pra voltar no tempo?
– É realmente. E que tal irmos lá a casa assistir um filme? A gente pode fazer uma gororoba e assistir um bom e velho terror satânico. O que acha?
No fim das contas, a gente estava se acabando de sorrir e tínhamos combinado tudo para sexta que vem. Espero mesmo que tudo dê certo. Mas eu estava retardando o verdadeiro momento crucial: falar com Romolo. Tenho certeza de que ele não se lembra do nosso beijo e eu não faria o menor esforço para lembrá-lo. Fui caminhando até ele e quando ele me olhou, percebi que ele não devia nem ter levantado.
– Oi Jack. – disse ele, com um tom frio e distante.
– O que aconteceu com você, Romolo? Foi alguma coisa grave? Diga-me se eu posso te ajudar? – disse eu, com uma pedra no coração.
– Ninguém pode me ajudar. Agora está tudo nas mãos de Deus, inclusive nós, Jack. Lembra que há algum tempo você disse que Darkshadow estava sempre um passo a nossa frente porque algum de nós deixava vazar informações para alguém que era informante dele? Pois é. Eu acho que sei quem é essa pessoa.
Meu coração apertou no peito e eu fiquei apavorado. Logo agora que eu tinha me acertado com o Hikari, ele vai jogar a culpa em cima dele e vai começar o inferno na minha vida. Não fazia a mínima idéia do que Romolo tinha planejado nem descoberto, mas com uma expressão triste como aquela estava literalmente na cara que não era nada de bom. Preparei meu psicológico para a bomba.
– Qual é sua suspeita? Pode compartilhar comigo?
– Acho até que você suspeita da mesma pessoa. Mas aqui não é um bom local pra conversarmos sobre isso. Tem gente demais.
Dei uma rápida olhada pelo pátio e realmente tinha várias pessoas, e tinham até alguns curiosos olhando pra gente. Isso significava que nossa escola não era mais um lugar seguro para se falar sobre nossa vida alienígena. Claro que eu disse pra ele me encontrar quando terminassem as aulas e assim poderíamos conversar melhor. Precisava esclarecer essas suspeitas o quanto antes.
– Depois da escola, me encontra lá em casa pra gente ter uma conversa bem específica sobre isso. Preciso saber quem você acha que seja, assim posso tomar as providências adequadas. – disse eu, bem sério.
– Certo, mas agora vai pra sala. Eu vou precisar de um tempo sozinho pra pensar. – disse Romolo, com uma cara quase chorosa.
Fui embora. Deixei meu Romolo com os pensamentos dele e me pus a encarar uma realidade que eu tinha criado: Romolo me dizia que o informante era o Hikari e que ele tinha contato direto com Darkshadow, mas que agora ia além. Hikari estava o tempo todo contrabandeando informações de mim, que sou o cérebro do grupo e que assim, ele garantia um passo a frente da vitória certa. The boy is a monster.
Fui para a escola e comecei com minha vida chata de estudante profissional com as aulas chatas de Matemática, Filosofia, Português, Química e Física dupla nos dois últimos horários. Mas felizmente terminou tudo com uma rapidez espantosa e me deixou livre pra voltar pra casa com uma pessoa. Encontrei-o na porta da minha sala quando terminei de arrumar minhas coisas e saímos juntos.
– Você já parece bem melhor agora. Os seis horários de hoje te fizeram um bem danado, né?
– Se é o que parece… Mas eu garanto que você não faz a menor idéia do que está se passando aqui dentro. Você não faz a mínima idéia.
Seguimos então, andando pelas ruas até chegar a minha casa. Acho que Romolo estava realmente preocupado, pois não abriu a boca nem para sorrir das minhas piadas. Isso era uma questão a ser considerada trágica, mas eu continuei tentando animá-lo, para vencer pelo cansaço, no mínimo.
Finalmente chegamos em casa e eu pude nos trancar no quarto. Se eu pudesse, trancava-o na minha cama, mas deixei isso de mão e me pus a pensar em como faria para agüentar o assunto. Ele ficou meio deslocado e foi sentar-se na cama e ficou me encarando com cara de infeliz. Quase saltei em cima dele, atraído pela tristeza de seus olhos.
– Jack, eu sei que vai ser difícil pra você escutar isso, mas eu gostaria que você entendesse. Eu pensei e repensei cada teoria possível para dizer, mas tudo voltava sempre ao mesmo ponto: existe um espião que consegue todas as informações e coloca Darkshadow a par. E eu suspeito que Hikari seja essa pessoa.
Dito e feito.
– Você acha isso só pelo fato de que ele é meu melhor amigo e que Darkshadow entrou em cena por minha causa?
– Precisamente. Na verdade, momento cosplay teu. Eu elaborei duas teorias: ou Hikari consegue informações com você e vende para Darkshadow por alguma razão maluca que nem eu consegui explicar, ou ele é o próprio Darkshadow e consegue as informações de você pra usar em benefício próprio.
Aquilo me chocou tanto que eu fiquei calado. Eu já tinha considerado essa teoria várias vezes, mas nunca tinha chegado a pronunciar em voz alta. Tinha muito medo de que eles levassem a sério e eu perdesse meu melhor amigo para a vida inteira. Mas se até Romolo está considerando essa possibilidade, então era hora de investigar isso mais a fundo do que qualquer outra pessoa.
– Não acha que pode existir outra explicação para isso? Tipo, alguém está controlando a mente do Hikari para ele usar os poderes de plutoniano? – perguntei, tentando uma distração ridícula.
– Qual dos aliens tem poderes de manipulação mental? – revidou Romolo.
– Eu não sei, ainda não tivemos nenhum com essas habilidades. Mas a Nanda acha que o pessoal no shopping foi vítima de uma manipulação mental. E como abafariam um terremoto se não fosse manipulação mental? Cara, eu tenho certeza que o Hikari jamais faria isso se ele tivesse escolha. Eu tenho uma certeza absoluta que ele está sendo coagido a fazer isso. – disse eu no auge do meu desespero de defender meu melhor amigo.
Romolo abaixou a cabeça e ficou meditando por um tempo. Percebi que eu tinha sido muito passional com Romolo e tinha deixado transparecer alguma coisa que não era real com Hiraki. Quase me dei um face palm. Como não tinha como desfazer o estrago, tentei me juntar a ele numa formação de teoria, mas ainda não tinha nada na cabeça. E ele não parecia querer minha presença por perto.
– Jack. Talvez você tenha matado a charada de modo inconsciente pra defender o Hikari, mas eu tenho uma coisa pra te dizer: mesmo que seja controle da mente, teremos que vigiá-lo de perto agora para saber como vão funcionar todos os atos dele daqui por diante. Qualquer coisa pode nos levar ao verdadeiro chefão.
Verdadeiro chefão? Mas o chefe de verdade não é Darkshadow? Pensei um pouco nisso, mas não fazia sentido que ele fosse comandado por outra pessoa. Não tinha lógica, e a menos que Romolo me explicasse isso, ainda teria a certeza absoluta que o miserável das sombras é o real motivo de todas essas desgraças.
– Certo. Quer ficar pra almoçar, ou você já tem planos? – perguntei eu, querendo pela primeira vez ficar longe dele. Seguir Hikari seria minha tarefa e não iria deixar que o grupo metesse o nariz nisso. Ele era minha responsabilidade.
– Não, não vou te dar esse trabalho. Eu vou almoçar em casa hoje, e outro dia eu venho almoçar aqui, pode ser?
– Pode, a cozinha está as ordens sempre que se sentir com vontade. Deixa eu te levar até a porta.
Saímos do meu quarto em silêncio e fomos até a porta, onde deixei Romolo livre para voar, por assim dizer. Assim que me despedi dele, voei para o meu quarto e tomei um banho rápido. Escolhi as roupas mais discretas que pude e me enfiei dentro delas com uma velocidade espantosa. Romolo tinha descoberto alguma coisa e com certeza vai avisar o resto de nós. Eu tenho que ser mais rápido e tirar minha dúvida sobre o Hikari antes que eles façam alguma coisa.
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