Rainbow War
42 É rir pra não chorar
Notas iniciais
POV Jack
Me doeu tanto aquela ferida aberta em outra pessoa. Parecia que minha alma tinha sido sugada por um aspirador de pó, mas eu não estava incomodado com isso. Estava mais incomodado com a sujeira dentro do saco, com o calor e a sufocante sensação claustrofóbica, ou seja, a incapacidade de fazer alguma coisa pra ajudar o meu Romolo. Qualquer coisa que seja.
Consegui sobreviver a uma batalha e mesmo assim, me sentia péssimo por isso. Agora as coisas estavam muito mais complicadas. Mesmo que Romolo conseguisse se mover, ele nunca mais teria a mesma mobilidade de antes, e isso comprometia totalmente sua capacidade de lutar. E ele era um dos fortes do meu time, e agora que eles tinham Fliender. Nós perdemos um grande membro, e eles ganharam um maior ainda.
Cheguei em casa me sentindo pior do que uma torradeira queimada. Minha terça-feira estava completamente negra. É absurdamente incrível como 24 horas consegue mudar o destino de tantas pessoas. Quase não senti vontade de ir pra escola, mas a possibilidade de ver como Romolo estava se virando era absurdamente crucial para mim. Além do que, precisava pressionar o Hikari.
Se existia alguma conexão entre ele e Darkshadow, por menor que fosse, era hora de descobrir tudo. Me arrumei da melhor maneira possível e fui pra escola tentando disfarçar que não tinha dormido nada, e que estava totalmente quebrado. Geralmente ir estudar depois de ser totalmente massacrado por aliens não é algo que os heróis fazem (exceto o Homem-Aranha).
Cheguei lá e tentei parecer alegre e enturmado. Mas lá pela terceira aula me dei conta de uma coisa que chamou a atenção: Hikari não estava em sala. Pensei que ele tivesse saído pra ao banheiro, mas como se demorasse a voltar, percebi que ele nem tinha vindo pra escola. Meio esquisito ele não vir no dia seguinte a uma derrota completamente humilhante minha. Isso me incomodou.
Aproveitei essa deixa pra na hora do intervalo ir comentar a respeito com Romolo. Apesar dele provavelmente não ter vindo, sentia que deveria tentar vê-lo, só pra saber se ele conseguiu chegar bem em casa. Na verdade, eu me sentia culpado por tudo. Eu sentia a culpa queimando dentro de mim, porque eu sou fraco. Eu não consegui proteger quem eu amo, e por isso ele está assim.
Quando o sinal bateu, me arrastei como um condenado, me segurando nas paredes de tanta dor e cansaço. Quando cheguei na sala do terceiro ano, percebi que ninguém estava lá, e só tinha duas garotas que por sorte eram da sala dele. Perguntei se ele tinha vindo hoje, e elas apenas responderam que não, que era raríssimo ele faltar, mas que se isso aconteceu, então era algo grave.
“Vocês não fazem idéia do quão grave é”, pensei eu. Decidi conversar com outros amigos, mas ninguém ouviria minhas “baboseiras sobre alienígenas”. Talvez a única pessoa que ouviria seria a mais improvável de todas. Mas o desespero de causa e sempre um aliado das decisões malucas. Não hesitei e fui atrás do Hugo. Não tinha a mínima noção se seria algo bom, mas eu precisava tentar.
Andei mais um pouco pela escola e tentei descobrir onde estava aquele ser chamado Hugo, e fui vê-lo como sempre: jogando futebol na quadra com os outros amigos dele. Isso meio que me felicitou. Se ele aqui, então eu teria alguém pra desabafar, mesmo que por meio de estórias e ficções. Fiquei olhando ele jogar por um tempo, até que ele se cansou e foi beber água. Aí me olhou e foi falar comigo.
– Jack, parece que você caiu do céu. Na verdade, despencou do céu. Você tá parecendo um defunto que levantou apenas para se despedir de alguém. O que aconteceu? – perguntou ele, suado e fedido.
– Passei uma noite completamente pavorosa. Mas acho que um dia isso vai valer a pena. Só que nessa noite, um dos meus melhores amigos se machucou muito, e eu não consigo fazer nada para ajuda-lo. – falei eu, com a voz arrasada.
– Talvez ele só precise de um tempo pra descansar e pensar. Ele vai se recuperar e vocês vão voltar a serem amigos. Pedir perdão também ajuda. Seja humilde e vá até ele e fale o que você sente.
– Se fosse assim tão fácil, acho que o mundo inteiro estaria aos meus pés. Não sei. Só que eu sinto que meus atos só machucam as pessoas que eu amo. Eu sinto como se eu atraísse todos os perigos para perto de quem eu me importo. Eu odeio isso!
– E por que seria diferente? A gente só briga com quem a gente ama, e só levamos conosco as pessoas mais importantes. Se fosse diferente, então o que você sente por ele não é verdadeiro.
Considerei as palavras do Hugo por alguns minutos e percebi o quão certo ele estava. Não tinha mais o mesmo cansaço e meus olhos agora ardiam, mas com as lágrimas que queriam sair. Por um lado, o que ele disse levantara meu moral, e por outro, terminara de abaixar. Pensei em falar toda a verdade pra ele, mas não achei que devesse. Não ousaria envolve-lo no meu mundo tão perigoso para uma criança.
Tudo o que fiz, foi chegar próximo à ele e abraça-lo. Senti que meu coração tinha se rompido em lágrimas de sangue, então precisava de consolo. Porém, ele soltou um gemido tão engraçado que parecia que eu tinha quebrado uma costela dele. E olha que eu nem tinha apertado tanto. Só algo mediano. Afastei-o delicadamente e percebi que, possivelmente, tinha quebrado duas costelas dele.
– Cara, faz o que fizer, mas não me aperta. Estou todo quebrado! Eu nem sei porque, mas amanheci todo cheio de hematomas e com um arranhão enorme no braço.
– Credo, será que alguém te atacou de noite?
– Eu não sei. Mas sinto como se tivesse passado a noite toda por uma batalha do circo dos horrores. Enfim, deixa isso pra lá. Eu realmente estou doído, mas piorou porque inventei de jogar bola.
– Porque você é um louco. – disse eu com o primeiro sorriso do dia.
O sinal bateu e eu fui direto para a sala decidido a dormir o máximo que podia. Torci para que fosse algo de biologia e assim, poderia tirar pelo menos 50 minutos de puro cochilo. Mas minha esperança foi por água abaixo quando acabei entrando na sala segundos antes da professora de português. Ela podia ser uma gata, tratar todo mundo bem. E tinha uns peitos que me fariam delirar! Mas a aula dela era tão entediante que nós só prestávamos atenção para o rabo dela balançando enquanto ela apagava o quadro.
De todo modo, fui para minha carteira e desabei tentando bater uma punheta imaginaria com aquela professora gostosa subindo e descendo nas minhas indecências. Quase gozei na hora da chamada e acabei soltando um “PRESENTE” na forma de um gemido e a turma inteira veio abaixo. Sorte que a professora é relax e deixa a gente bagunçar de vez em quando. Ainda assim, senti meu rosto queimar em chamas.
De todo o modo, não fui expulso da sala por muito pouco. E por isso, fiz minha parte do acordo: troquei de lugar e fiquei lá no fundo da sala, junto com os bagunceiros, mais dormindo do que acordado. Os últimos três horários passaram de maneira assustadoramente rápida, e nenhum professor veio me incomodar. Isso é tão raro que eu tinha quase certeza de que eu estava em uma dimensão paralela.
Quando peguei todas as minhas coisas e joguei na mochila sem nenhuma preocupação, me preparei para ir para casa e dormir o dia inteiro. Mas provavelmente não era uma boa ideia dormir toda à tarde em casa. Mamãe desconfiaria, já que ela sabe que eu não consigo dormir de tarde, mesmo querendo. Então precisava ir pra casa de alguém, mas quem cederia sua cama pra mim?
– Jack, vem almoçar lá em casa. Meus pais estão viajando essa semana e o insuportável do meu irmão vai querer infernizar minha vida ao máximo. Por favor, diz que vai ficar comigo lá hoje! – disse Hugo, chegando assustadoramente silencioso. Nem tinha visto quando ele tinha se materializado ao meu lado.
– Quando foi que você chegou aqui que eu nem vi? Mas tudo bem, eu vou até sua casa. Preciso mesmo de um álibi pra dormir um pouco. Não se importa se eu dormir, né?
– Não. Só preciso de você pra dar um pretexto ao meu irmão ficar longe do meu quarto. Acho que você sabe que Rafael é bem malandro quando quer e pode dar um jeito de fazer alguma sabotagem lá.
Decidido o que fazer, liguei para mamãe e avisei que iria para a casa do meu amigo, assim ela ficaria tranquila. Quando cheguei lá, a recepção foi calorosíssima: Rafael armou uma armadilha pra quem abrisse a porta e acertou Hugo em cheio com um balde de água morna com pimenta. Não foi muito grave, porque eu sou incrivelmente resistente ao calor e ao fogo, mas Hugo começou a fazer a dança da chuva.
– Filho da puta! Desgraçado, eu vou te matar! Eu vou te estraçalhar, caralho! Se eu te encontrar, eu vou rasgar você ao meio, e você nem faz ideia de por onde eu vou começar! – enquanto Hugo gritava esses impropérios, o irmão dele, Rafael, aparecia na porta e começava a se matar de rir.
Hugo estava espumando de ódio e eu sentia que se aqueles dois se atracassem, não sobraria nada da casa. Eu tinha até medo de que começassem a se matar bem alí, por isso peguei a mão de Hugo e levei-o para o quarto dele. Rafael ainda soltou alguns comentários maldosos antes de fechar a porta e ter novamente um ataque de risos. Ele realmente devia estar se divertindo muito.
Chegamos finalmente no quarto de Hugo e quase gozei de novo ao ver a cama toda estendida para mim. Dormir era o que eu mais queria naquele segundo, porém, assim que entrei e fechei a porta, Hugo começou a gritar e planejar uma vingança infernal. Acho que ele deve ter derrubado quase tudo o que se encontrava suspenso ou pendurado. Normal para uma criança em fúria.
Joguei-me em cima da cama com toda a capacidade de ficar inerte ali por incontáveis séculos. De qualquer jeito, fechei os olhos e tentei entrar em transe: ficar acordado o bastante para responder perguntas e conversar, mas relaxado o bastante para cochilar. E acreditem isso era algo que eu sei fazer muito bem até hoje, apesar de não precisar fazer de forma recorrente.
– Cara, você vai ter que me ajudar. Tá vendo o que esse imbecil tá fazendo? Eu preciso tomar um banho com urgência! Ainda estou sentindo meu corpo ardendo por inteiro. Necessito de água. – disse ele, tirando as roupas e jogando em cima de mim.
– Sabe tão bem quanto eu que pode fazer um suco pra ele e colocar wasabi dentro dele, né? – respondi e virei de lado, dando as costas pra ele.
– Ainda é pouco. Quero fazê-lo sofrer os horrores do inferno. Quero fazê-lo sentir a dor penetrando por cada poro do corpo dele, como se eu estivesse enfiando agulhas elétricas e dando choques de 20.000 Volts. – disse ele.
– Nossa, você é tão cruel. As vezes eu acho que te conheço muito pouco.
– Ninguém conhece ninguém hoje em dia. É fato consumado. Mas relaxa, eu não faria mal a um amigo. – eu podia jurar que ele estava sorrindo, mas não sabia dizer. Eu estava de olhos beeeeeeeeem fechados. – Eu vou tomar um banho, pra ver se acalma o fogo. Dorme um pouco que depois eu volto pra te chamar pra almoçar.
Não sei exatamente quanto tempo o banho do Hugo durou, mas sei que consegui cochilar o suficiente para ficar acordado o resto do dia. E devo confessar que me senti extremamente relaxado, forte, recuperado. Quando acordei, senti que poderia destroçar todos que aparecessem na minha frente. Darkshadow, Jade, Fliender, Atlantis, todos seriam vítimas da minha ira se dessem as caras.
– Nossa! Você dorme pouco assim mesmo? Pensei que teria que te deixar dormindo ai por mais meia-hora, mas pelo visto… – falou a voz de Hugo em algum lugar.
– Quanto tempo eu dormi? – perguntei saltando da cama. Parecia que eu estava sobrecarregado de energia nuclear.
– Acho que meia-hora. Mas parecia mais que você estava morto! Nem se mexia. Parecia até que nem respirava. Mas tudo bem. Pronto pra descer e almoçar e me ajudar a armar uma vingança contra o Rafa? – ainda tive tempo de vê-lo enfiando o bilau em uma cueca boxer preta e não vestir mais nada.
– Hugo, quando é seu aniversário? – perguntei.
– Vinte e dois de abril, porque?
– Vou te dar algumas roupas de presente. – falei eu, sorrindo.
Tive de descer correndo porque ele partiu pra cima de mim, tentando partir minha cabeça. E gritava como um rockeiro. Só que ele gritava impropérios terríveis e que fariam uma vovó cair escada abaixo. Chegamos na cozinha e o que vimos foi uma bagunça nojenta: havia uma espécie de água mal-cheirosa e alguns pedaços de gosma verde que eu nem quis supor o que fosse.
– Se vocês quiserem comer, vão ter que cozinhar alguma coisa. Não tem mais comida nessa casa. Ah, e a propósito: essa cozinha está uma imundície, Huguinho, querido. Poderia limpar para mim? – perguntou o odioso Rafael. Agora eu estava com nojo dele.
Eu e Hugo passamos quase uma hora pra limpar a cozinha inteira e mesmo assim, ainda ficaram algumas manchas verdes nas paredes. No fim, conseguimos improvisar alguma gororoba com macarrão, queijo, presunto e carne moída. Realmente não tinha mais comida nesta casa. Pelo menos tinha os temperos essenciais. Fiz as comidas com o máximo de cuidado, torcendo para não ficarem ruim.
Na verdade, eu mais limpei do que outra coisa. Sou um exímio faxineiro, mas um péssimo cozinheiro. Então consegui de Hugo uma ajuda preciosa, que conseguiu aprender com Perla muitas coisas sobre cozinha. No fim, tínhamos macarronada pronta, mas faltava um toque especial. Aí, as ideia do mino fez efeito e taquei metade do vidro de ketchup dentro da comida. Devo admitir que ficou interessante.
Depois de comermos, fomos até o quarto de tranqueiras lá em cima, ver se arrumávamos alguma coisa pra fazer um excelentíssimo susto no Rafa. Eu estava carregado e por mim, usava minhas asas de fogo pra deixa-lo de rabo quente. Mas eu não poderia fazer isso agora, então tentei achar alguns espetos de churrascos e correntes enferrujadas. Mas topei com uma coisa muito melhor.
Era um tipo de pedra grande e pesada. Não parecia nada com qualquer tipo de pedra que eu conhecesse. Bem, eu não conheço muitos tipos de pedra, mas não pude deixar de notar que ela parecia extremamente queimada e brilhante. Como se tivessem minúsculos cristais espalhados por sua superfície. Fiquei um pouco fascinado com aquilo e pensei que poderíamos usar pra trollar o Rafa.
– Seria interessante fazer alguma coisa com isso. O Rafa é apaixonado por isso aí. Ele disse que é um fragmento da Lua. Viagem daquele mané, mas a gente podia inventar, né? – disse Hugo, com um sorriso demoníaco no rosto.
Rápidos como raios, pegamos a pedrona e fomos até a escada. Daí foi segundos até Hugo descer as escadas e atrair o Rafa para um arranca rabo daqueles. Mas quando ele viu a pedra, parecia que estava vendo o demônio bem na frente dele, com tridente, chifres, cauda e tudo. Acho que por alguns segundos, o coração dele parou e isso o fez ficar quase transparente de tão pálido.
– Eita, Rafa. Já virou frangote de novo e vai chorar por causa dessa pedrinha? Que tal se a gente te der um monte dessas pedrinhas? É só o Jack jogar lá de cima que você vai ter várias para a sua coleção! – o sorriso cínico e cruel de Hugo nunca me assustara tanto.
Pus a pedra suspensa e joguei um pouco pra cima e agarrei antes de sair muito. Rafael dera um berro tão grande que parecia que estávamos queimando o dinheiro da vida dele. Nunca imaginei tamanho escândalo por causa de uma pedrinha. Mas enfim, deixei o Hugo se divertir mais um pouco, só pra ver até onde ele iria por causa de uma pedra como aquelas.
Acho que posso dizer que ele foi bem longe. Tiveram punições bem inusitadas e outras até nojentas. Mas no fim, Hugo me disse pra jogar a pedra no Rafa. Pensei não ter escutado direito, mas ele confirmou e então só se viu uma pedra preta passar voando pelo ar e indo de encontro ao corpo magro do garoto. Deu um pouco de pena quando ele quase se quebrou pra segurar aquilo, mas pelo menos foi divertido.
Hugo saiu chispando canela e eu logo atrás e nos trancamos no quarto dele. Rafael depois de três segundos que entendeu que tinha acabado, se revoltou. Acho que nem Dercy soltaria tanto palavrão quanto ele naquele segundo. E olha que eu e Hugo tivemos que fazer barricada na porta, senão ela ia abaixo com os chutes dele. Foi realmente um surto pesado.
Depois que tudo se acalmou, Hugo e eu ficamos realmente várias horas rindo e conversando. É algo divertido de ser fazer. A gente ficou falando besteira até quase umas seis e meia, quando já ia ficando tarde pra mim. Aí peguei minhas coisas e piquei a mula, como diz o povo do interior. Mas pelo visto, Hugo estava de tão bom humor que resolveu ir me deixar na parada.
– Jack, sabia que eu te considero mais irmão do que o Rafa. Ele sempre foi legal, mas nunca tivemos realmente intimidade. As vezes eu acho que a culpa e minha, e apesar de eu te conhecer há pouco, você já se tornou muito especial pra mim. – disse Hugo, colocando um clima mais sério.
– Ah, Huguinho, você também é super legal pra mim. Te considero pra caramba. Só não gostei daquela vez que você tentou me estuprar no seu banheiro. – disse eu lembrando-me daquele momento constrangedor.
– Como é? Quando foi isso que eu não to lembrado? Eu tentei te estuprar? Foi naquela segunda-feira que a gente tomou banho junto pra ir pra escola. Eu passei a noite na sua casa, não lembra? – perguntou ele quase saltando os olhos da cara.
– Cara, você não se lembra? Como assim? Você ficou me provocando horrores, e ainda falou altas imoralidades sobre quem comeria quem. Não lembra disso? – minha vez de ficar surpreso.
– Não! Que droga! Eu não acredito que isso está acontecendo de novo! – falou ele quase chorando.
– Peraí, isso o que? Me explica isso direito! – perguntei eu, ficando nervoso até.
– Quando eu tinha sete anos, algumas coisas aconteceram de estranho comigo. Eu nem consigo lembrar direito como tudo começou, mas… Eu tinha alguns surtos momentâneos onde eu apagava minha mente por completa e não conseguia lembrar de nada que acontecia dentro de um espaço de tempo aleatório. Nunca conseguiram descobrir a causa desses apagões, mas todas as vezes que isso acontecia, eu simplesmente fazia alguma coisa que eu nunca faria em sã consciência. Não sei nem explicar o que acontecia sem que parecesse loucura. Eu perdi todos os meus amigos por causa disso, e tive que mudar de escola. Eu não quero que isso aconteça de novo.
Ele tinha parado de caminhar e agora ameaçava chorar, mas eu não deixei nem começar. Abracei-o forte e disse que ele nunca mais estaria sozinho. Eu seria amigo dele mesmo que ele tentasse me matar. Eu sabia que dentro dessas coisas, sempre tinha alguma coisa que motivava, um causa. E eu descobriria, pelo bem do meu Hugo. Eu jamais deixo meus amigos passando por um momento de necessidade, e não seria hoje que eu deixaria um deles. Isso vocês podem ter certeza.
Acredito que chorei um pouco com ele também, mas isso faz parte também, né? Depois de um tempo, quando chegamos na parada, começamos a conversar besteiras de novo e tudo ficou com um clima melhor. Ficamos também conversando sobre nossos amores e como era bom estar apaixonado, até que meu ônibus passou. Fiquei um pouco assim por saber que agora ele ficaria sozinho com Rafa de novo, mas ele devia saber se virar, contanto que ele não apagasse de novo.
Cheguei em casa só com tempo de fazer as atividades, jantar e dormir. Eu já sabia que teria o interrogatório por causa da minha demora, mas não esperava que mamãe pegasse tão pesado. Acho que ela faltou perguntar apenas a cor da calcinha preferida da mãe do amigo com quem tinha passado o dia. Depois de todas as informações subi pro meu quarto e fui ter um verdadeiro sono reparador.
Claro que verifiquei o meu celular só pra saber se alguma coisa estava acontecendo. E pra minha surpresa, tinha cinco chamadas não atendidas: uma de papai e quatro do Hikari. Ainda tentei ligar pra ele, mas como só caía na caixa postal, achei que fosse algo que não devesse ser muito grave, então deixei pra lá. Dormi com a consciência limpa como a de um bebê, mas mal sabia eu que isso duraria tão pouco.
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