O ar rarefeito do templo parecia pesar nos pulmões de Di, enquanto ela lentamente emergia da inconsciência. Aos poucos, a névoa que envolvia sua mente começou a se dissipar, revelando um torpor doloroso em seu rosto. A dor pulsante, como um tambor constante, lembrava-a do chute brutal que a enviara para a escuridão.

Os sentidos da jovem se ajustavam lentamente à semiobscuridade do templo. Janelas barricadas bloqueavam qualquer tentativa de entendimento sobre a passagem do tempo. Cada feixe de luz que se aventurava através das fendas nas tábuas cerradas acrescentava uma aura misteriosa à câmara. O chão de pedra fria exalava um eco melancólico que reverberava pelo espaço confinado.

Com um gemido doloroso, Di tentou mover-se. A resistência da corrente arrastou seu corpo para uma realidade mais nítida. A sensação do metal contra seu tornozelo era inescapável. Os elos pesados prendiam-na ao solo de maneira impiedosa. Seus olhos percorreram a extensão fria do templo até encontrarem o olhar de Lea, também acorrentada e sentada em um silêncio que parecia compartilhar a mesma dor e confusão.

"Lea..." Di murmurou, a voz rouca e fraca. A resposta de Lea foi um olhar de dor e compreensão. Não era necessário dizer palavras; a situação desoladora estava gravada em seus rostos feridos.

As emoções tumultuavam como um oceano tempestuoso dentro de Di. O último fragmento de memória antes do desmaio emergiu como um espectro doloroso. Jun, o homem em quem começara a confiar, a traição explícita que a deixara indefesa e acorrentada.

"O que... o que aconteceu?" Di questionou o universo silencioso ao seu redor.

Lea respondeu com uma mistura de desalento e fúria contida. "Jun... ele nos traiu. Ele é o stalker."

O impacto da revelação atingiu Di como um raio, dissipando qualquer esperança restante. Seus olhos se estreitaram de dor, e ela sentiu a raiva crescer em seu peito. O homem que havia se infiltrado em suas vidas, que parecia ser a resposta para sua segurança, era o próprio arquiteto de seu tormento.

"Onde está Jun agora?" Di rosnou, seus punhos cerrados.

Lea hesitou antes de responder. "Ele se foi, Di. Desapareceu depois de nos acorrentar aqui."

Di rangeu os dentes, uma mistura de desespero e determinação ardendo em seu olhar. "Ele não escapará impune. Vamos sair daqui, Lea. Juntas."

Di fechou os olhos por um momento, tentando reunir suas forças enquanto o impacto da traição ainda reverberava em seu ser. Seus dedos se fecharam ao redor dos elos de metal que a aprisionavam, mas mesmo com toda a força que podia reunir, as correntes resistiam. O som metálico ecoava pelo templo, uma sinfonia sombria de impotência.

"Não posso acreditar que ele nos fez isso", murmurou Di, as palavras sibilando através de dentes cerrados.

Lea assentiu, sua expressão uma mescla de dor e resiliência. "Precisamos pensar em uma maneira de sair daqui, Di. Não podemos ficar presas neste lugar."

Di franziu a testa, seus olhos varrendo o interior do templo em busca de qualquer brecha na fortaleza improvisada. "Há algo estranho nesse lugar. Não sei quanto tempo estamos aqui, mas as janelas estão bloqueadas, e mal consigo saber qual é a hora do dia. Estamos presas aqui a quanto tempo?"

Lea soltou um suspiro pesado. "E o que faremos em relação a Jun? Ele sabe que estamos aqui. Estamos completamente vulneráveis."

A líder destituída das Rainbow 5 fez uma careta de frustração. "Não posso acreditar que fui tão ingênua. Confiei nele."

"Não se culpe, Di. Ele soube jogar bem esse jogo", Lea tentou consolar, mas suas palavras não eram suficientes para dissipar a tormenta emocional que assolava sua amiga.

Di fechou os olhos, concentrando-se na respiração lenta para acalmar a tempestade dentro dela. "Precisamos encontrar uma maneira de quebrar essas correntes. Não podemos esperar por um herói. Somos nossas próprias heroínas, Lea."

A telepata assentiu, compartilhando a determinação de Di. "Concordo. Então, ideias?"

Di olhou para as correntes, uma centelha de pensamento iluminando seus olhos. "Posso tentar congelá-las. Se o gelo ficar forte o suficiente, talvez possamos quebrá-las."

Lea assentiu, encorajando a tentativa. "Vale a pena tentar."

Di concentrou-se, sentindo o poder gelado fluir através dela. Seus dedos estenderam-se para as correntes, liberando uma onda de frio. O metal reagiu, cobrindo-se de uma fina camada de gelo, mas mesmo antes que Di pudesse se animar, as correntes permaneciam firmes, resistentes ao abraço congelante.

"Isso não está funcionando", murmurou Di, desapontada.

Lea colocou uma mão no ombro de Di, oferecendo conforto. "Não desista, Di. Precisamos de algo mais forte para quebrar essas correntes."

A frustração da idol de cabelos brancos reverberava no ar, seus poderes de gelo não sendo suficientes para libertá-las da prisão de metal. As correntes, embora cobertas por uma fina camada de gelo, permaneciam tão inflexíveis quanto a determinação que as unia. Di soltou um suspiro, olhando para as mãos como se elas fossem traiçoeiras.

Lea, entretanto, estava alerta, sua mente captando algo além do alcance de seus olhos. Seu rosto se contraiu enquanto lutava para focalizar seus poderes telepáticos. "Di, há alguém lá fora. Seus pensamentos estão invadindo o templo."

Di ergueu os olhos, sua frustração dando lugar à tensão. "Quem seria louco o suficiente para entrar aqui? E como eles encontraram este lugar?"

Antes que Lea pudesse responder, a grande porta do templo gemeu ao ser empurrada. A luz do lado de fora inundou o interior, ofuscando a visão das garotas. Di ergueu um braço para se proteger da súbita luminosidade, seus olhos piscando para se ajustar.

Uma figura adentrou, uma silhueta obscurecida pela luz intensa. Di estreitou os olhos, tentando discernir quem estava ali. A tensão preenchia o ar quando a figura se aproximou, revelando uma mulher de estatura média, caminhando com o auxílio de uma bengala.

"Quem... quem é você?" indagou Di, sua voz uma mistura de cautela e desconfiança.

A recém-chegada sorriu, suas feições femininas se revelando. "Ah, queridas, vocês podem não me reconhecer imediatamente, mas não precisam ser hostis. A luz deste templo é realmente intensa, é um desperdício fechar essas janelas."

Lea, ainda fraca e lutando contra as ondas de dor, arregalou os olhos quando a voz atingiu sua consciência. "Madame Celestia?"

A estilista assentiu, satisfeita por ser reconhecida. "Sim, sou eu. Ou, pelo menos, a última vez que verifiquei meu passaporte, era assim que me chamavam."

Di e Lea trocaram olhares confusos, sem entenderem como a estilista das Rainbow 5 estava ali, especialmente considerando o caos que se desenrolava ao redor delas.

"Madame Celestia, o que está fazendo aqui?" questionou Di, mantendo a desconfiança em sua voz.

A estilista riu suavemente. "Bem, parece que eu tenho algumas explicações a dar. Mas antes de entrarmos nesses detalhes, acho que seria prudente libertá-las dessas correntes. Vocês concordam?"

Madame Celestia aproximou-se das garotas com uma calma quase sobrenatural. Seu rosto era um quadro de serenidade, contrastando com a tensão que preenchia o templo. Ela estendeu a mão e, com um gesto gracioso, jogou uma pequena bolsa para Di, que a pegou no ar.

"Dentro encontrarão algo para a dor e curativos", disse a estilista, seu olhar perscrutador fixo no rosto inchado de Di. "Parece que você levou um golpe considerável."

Di abriu a bolsa, encontrando um pequeno frasco de analgésicos e alguns curativos. Ela tomou um comprimido sem hesitar, sentindo o alívio imediato que a medicação proporcionava. Lea observava com preocupação, seus olhos revelando a ansiedade silenciosa.

"Madame Celestia, como nos encontrou aqui?" perguntou Lea, enquanto Di aplicava um curativo em seu rosto.

A estilista sorriu enigmaticamente, como se estivesse prestes a compartilhar um segredo muito antigo. "Minhas queridas, eu vivi muitas aventuras quando era jovem, antes de me tornar a respeitável Madame Celestia que vocês conhecem. Aprendi a reconhecer os efeitos de poderes especiais a quilômetros de distância."

Di ergueu uma sobrancelha, curiosa. "Você sabia sobre nossos poderes?"

Celestia assentiu com seriedade. "Há semanas venho observando vocês. Eu sou capaz de perceber padrões únicos, e os seus não passaram despercebidos. Sabendo disso e, com algumas das informações de suas fichas, era bem óbvio que vocês estariam aqui neste vilarejo, o resto da história vocês podem deduzir."

Lea franziu a testa, intrigada. "Por que nos observava?"

A estilista caminhou até as correntes que prendiam Di ao chão, estudando os elos robustos e os parafusos que a mantinham cativa. Seus olhos experientes analisaram cada detalhe. "Há mistérios que pairam sobre todos na Soul Music, e vocês, minhas queridas, parecem estar no epicentro deles."

Di e Lea trocaram olhares, percebendo que a velha senhora sabia mais do que estava compartilhando. Celestia permaneceu ao lado das correntes, como se intrigada pela engenharia que as mantinha inabaláveis.

Madame Celestia permaneceu junto às correntes, sua expressão concentrada enquanto examinava o elo que as mantinha firmes no chão. Seus dedos delicados traçaram o contorno do metal, como se lessem uma narrativa secreta escrita ali.

"Di," ela começou, com a voz suave ecoando pelo templo, "congele a base das correntes, não os elos."

Di piscou, surpresa pela estilista estar ciente de sua habilidade única. "Como você sabe que os meus poderes estão relacionados com gelo?"

Celestia sorriu misteriosamente. "Há muitas coisas neste mundo que permanecem ocultas, mesmo para aqueles que pensam conhecer todos os segredos. Você me lembra muito de uma amiga da minha adolescência, uma jovem com poderes extraordinários."

Intrigada, Di decidiu não aprofundar a questão. Em vez disso, concentrou-se em sua habilidade. Estendendo a mão para a base das correntes, sentiu o poder gélido fluir de seus dedos. A área imediatamente ao redor da base começou a congelar, formando uma fina camada de gelo, mas que rapidamente tornava-se um bloco sólido e parecia entrar no chão poroso.

Celestia levantou sua bengala e, com uma batida precisa, atingiu a base congelada das correntes de Di. O gelo estalou e se desfez em fragmentos, revelando uma parte do chão de mármore. A jovem, agora livre, correu em direção a Lea.

"Rápido, Lea! Podemos fazer o mesmo com as suas correntes!" Di gritou, sua voz ecoando no templo.

A tensão que se acumulara começou a ceder à esperança quando Di replicou o processo com as correntes que prendiam Lea. O gelo envolveu a base, e, mais uma vez, Celestia usou sua bengala para libertar a telepata. As correntes se romperam, e Lea se levantou, esfregando os pulsos.

"Obrigada, Madame Celestia," disse Di, expressando sua gratidão.

A estilista acenou com um gesto de desdém. "Vocês estão envolvidas em algo muito maior do que imaginam. Agora, apressem-se. Há mais desafios à frente, e o tempo é precioso."

A luz do sol começava a penetrar as barreiras improvisadas do templo, conforme a manhã avançava, dissipando as sombras que haviam envolvido Di e Lea. As duas seguiram Madame Celestia, ainda um tanto atordoadas pelo ocorrido, mas determinadas a enfrentar o que quer que estivesse pela frente.

Enquanto caminhavam pelo corredor frio do templo, Madame Celestia lançou um olhar crítico para Di, cujo rosto exibia sinais evidentes do golpe que recebera.

"Você tem sorte, jovem, de que seu nariz não esteja quebrado. Uma deformidade facial poderia encerrar sua carreira de idol antes mesmo de decolar," comentou a estilista com uma mistura de severidade e sabedoria.

Di tocou delicadamente o rosto dolorido, apreciando a sorte que, de alguma forma, havia lhe poupado de um destino pior.

Ao chegarem ao lado de fora, um feixe de luz do sol iluminou o chão em frente a Madame Celestia, revelando uma grande mala. A estilista, com um gesto teatral, indicou para Lea abrir.

Ao levantar a tampa, Lea se deparou com dois uniformes de heroínas cuidadosamente dobrados. Madame Celestia sorriu, um brilho de nostalgia em seus olhos.

"Há trinta anos, conheci um grupo extraordinário de heróis. Ajudei-os no início de suas jornadas, assim como estou fazendo por vocês agora," disse ela, seu tom carregado de memórias.

Di e Lea olharam para os trajes diante delas, um símbolo de sua transição de ídolos do K-pop para algo muito maior. Rapidamente, trocaram-se nos uniformes, sentindo-se conectadas a uma tradição de heroísmo que ultrapassava gerações.

Madame Celestia observou as jovens com um olhar satisfeito. "Agora, vão. O mundo lá fora está à espera, e vocês têm um destino a cumprir." Com essas palavras, Di e Lea partiram correndo em direção ao desconhecido.