Rain Sound
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Marco abriu e fechou a boca umas três vezes antes de conseguir falar qualquer coisa e perguntar o que ele realmente queria.
'O que você faria se o seu pai voltasse pra sua vida?'
~~
A atitude mais infantil que alguém pode ter na vida é fingir que não ouviu o que a outra pessoa disse. Seja tapando os ouvidos e cantarolando por cima do que estão dizendo ou simplesmente ignorando e mudando de assunto. Isso é extremamente infantil. Portanto Jean Kirschtein é uma pessoa infantil.
A primeira coisa que pensei foi que eu deveria responde-lo, mas se eu o fizesse eu teria de entrar em assuntos complicados, falar sobre como eu me sentia com relação ao meu pai e esse tipo de coisa. Não eram assuntos que eu gostaria de abordar naquele momento, até porque não era assuntos sobre os quais eu pensava muito para tentar evitar de ficar pior do que eu ficava geralmente. Naquele momento eu estava bem, estava feliz com tudo o que havia acontecido no dia e não queria estragar o modo como me sentia. Então resolvi mudar de assunto. Resolvi ser infantil. Marco não ficou nada feliz com aquilo, mas não voltou a perguntar nada.
Conversamos sobre o fato de estar chovendo, sobre como aquilo me deixava ainda mais alegre, como dava um toque a mais de magia na a situação no meu ponto de vista e, depois, ambos pegamos no sono, abraçados.
Por mais clichê e meloso que isso soe, acordar no dia seguinte e, imediatamente, ver Marco ao meu lado me deixava radiante. Se bem que: o que não era clichê ou meloso em nossa relação? De qualquer maneira, era bom vê-lo lá comigo. Seus fios de cabelo todos bagunçados e sua boca entreaberta deixavam Marco completamente adorável. Até o filete fino de baba seca em um dos cantos da boca ajudava a compor a cena — não, eu não achava aquilo nojento, afinal: todo mundo baba enquanto dorme pelo menos uma vez na vida.
Seus olhos ainda estavam fechados e sua respiração estável e baixa, presumi que ele ainda estivesse dormindo então fiz de minha missão não acorda-lo. Comecei a contar suas sardas desde a bochecha esquerda até a direita, me perdi duas vezes nos cento e poucos, recomecei e consegui ir até o outro lado totalizando mais ou menos duzentas e noventa, subi meu olhar para contar algumas que ele tinha mais para cima e me deparei com seus olhos cor de chocolate ao leite me encarando. Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação ele me surpreendeu com um selinho demorado, que acabou se transformando em um beijo mais aprofundado.
'Bom dia.' disse meio ofegante ao nos separarmos. 'Você estava com uma cara engraçada olhando pra mim, o que foi?'
'Nada de mais.' balancei a cabeça sorrindo de novo. 'Mas que animação toda logo cedo, Bodt… Não sei como você consegue ser sempre tão bem humorado.'
'Ah, você também tá de bom humor. E nem deve ser tão cedo assim.' eu ri baixinho, concordando.
'Acordando com você do meu lado não tem como estar mau humorado. Mesmo sendo eu.' Marco gargalhou com o que eu disse, isso fez meu sorriso aumentar. 'Nossa, como a gente é cheio de mimimi, cara.' ri com ele.
'A gente é fofo, normal isso entre casais. Você tá bem? Tá doendo?' balancei a cabeça negando.
'Tem um leve incômodo, mas nenhuma dor. Logo logo passa, com certeza.' Marco sorria, satisfeito, acreditando no que eu havia dito. Voltamos a ficar calados, eu observava cada traço de seu rosto.
Já que ele estava acordado me permiti levar minha mão até sua face, percorrendo sua pele com a ponta dos meus dedos. Marco tinha o maxilar bem mais definido do que o meu, seu formato de rosto era um pouco mais quadrado do que o meu, reparei. A maior parte de suas sardas do rosto ficavam na região entre as duas orelhas, mas haviam algumas, bem poucas, mais distantes de lá. Além de em sua face, ele tinha outros lugares com concentrações de sardas por seu corpo: na nuca, nos braços, um pouco nas costas. Queria decorar cada uma delas, queria saber Marco por inteiro. Depois de contornar seu maxilar e tocar suas sardas, movi meus dedos para a ponte de seu nariz, percorrendo até embaixo — na ponta — e descendo mais até a boca.
Ele estava mordendo o lábio inferior — era uma mania dele morde-lo ou morder o interior de sua boca quando estava se segurando para não fazer alguma coisa — e isso me fez soltar um risinho baixo. À medida que meu indicador se aproximava de seu lábio superior ele soltava o inferior, entes presos por seus dentes. Senti sua boca com minha mão por um instante e logo a substituí por meus lábios, dando um selinho bem demorado nele. Me afastei antes do beijo se aprofundar.
'Muito clichê dizer que te amo agora?' perguntou, eu assenti. 'Muito clichê dizer que eu poderia repetir a noite passada agora?' senti meu rosto queimar. Notei que ele também estava vermelho de vergonha pela pergunta que havia feito — naqueles momentos eu queria ter uma câmera para fotografar o instante porque era raro Marco erubescer por conta de alguma pergunta daquele gênero.
'Talvez.' respondi desviando o olhar de seu rosto. Seus braços me envolveram e ele me puxou para mais perto de si, não lutei, não me movi só fiquei lá, sentindo o calor dele, ouvindo seu coração batendo forte, percebendo o movimento de sua respiração, notando todos os pequenos detalhes que gritavam “estou vivo, estou aqui com você, isso é tudo real”. 'Tá super gostoso aqui, mas eu to bem afim de ir tomar café…' suspirei, não me afastando. Marco riu.
'Então vamos, eu confesso estar com um pouco de fome.' ele me soltou e eu olhei para ele com cara de quem não estava nada feliz. 'Se quiser posso te levar no colo.' sorriu, levantando e já fazendo menção de me pegar em seus braços. Rapidamente me esquivei e levantei sozinho. Marco sorria de maneira dócil para mim.
Descemos as escadas sem conversar. A porta do quarto de minha mãe estava fechada, supus que ela tivesse voltado de seu encontro e ido dormir. Em oposição à primeira vez que Marco dormira aqui, com exceção das vezes que eu tentava preparar alguma coisa para nós dois comermos, agora ele havia criado a liberdade de abrir a geladeira e o armário e pegar o que quisesse. Isso era bom porque, em primeiro lugar, eu era muito preguiçoso e, também, porque dava bem menos trabalho do que ficar colocando todas as comidas e bebidas possíveis na mesa o tempo todo e depois tirando tudo sozinho por não querer que ele tivesse trabalho algum já que era uma visita. Era libertador, na verdade. Dava até uma sensação de maior intimidade.
'Jean…' disse cantarolando, levantei o olho de minha tigela de cereal com leite para encara-lo com uma de minhas sobrancelhas arqueadas. 'Nada, nada, deixa quieto.' ele estava vermelho.
'Ah não, você sabe que eu sou curioso, fala o que foi.' ele negou, bufei. 'Marco, eu sei seus pontos fracos. Posso fazer você falar.' ameacei brincando, ele mordeu o lábio e balançou a cabeça. 'Ah, e o que aconteceu com sem segredos?’ o anterior sorriso dele se dissipou e eu percebi que havia sido uma péssima ideia ter trazido aquilo à tona, mesmo que em tom de brincadeira.
'Ótima pergunta, Jean. O que aconteceu?' afastei minha tigela de mim, agora também sério e cruzei os braços. Nossos olhares se sustentando por algum tempo, ambos em silêncio. O clima na cozinha começara a ficar bastante tenso e foi interrompido pelo barulho de alguém bocejando na porta.
Ambos olhamos naquela direção e nossos olhares encontraram minha mãe, já sem seu pijama, um pouco confusa.
'Não sabia que vocês ainda se falavam.' foi as primeiras palavras que ela disse, abaixei a cabeça. 'Bom dia.' completou num tom mais baixo. Percebi que sua voz não estava no tom normal, aquele tom frio e sem expressão alguma que ela geralmente usava com os outros. Parecia um pouco mais alegre, quiçá com a intenção de socializar conosco.
'Bom dia, senho -'
'Louise.' ela o interrompeu. 'Pode me chamar de Louise.' eu ainda não olhava para seu rosto, acompanhava apenas seus movimentos pela cozinha. Ela foi até o armário, pegou uma caneca e um prato e os deixou na mesa onde eu e Marco estávamos sentados. 'Algum dos dois quer café?' meu namorado negou de cara, eu demorei um pouco mais, mas acabei aceitando. 'Então… Marco, certo? Você parece ser um bom garoto.'
'Obrigado…' eu podia claramente ouvir em sua voz o sorriso falo que ele estampava no rosto.
Minha mãe colocou mais uma caneca na mesa e voltou para a pia, para pegar o café pronto. Levantei minha cabeça finalmente, olhando para Marco. O arrependimento foi quase que instantâneo. O fato de ele ainda estar bravo comigo não era o que me deixara mal e sim um brilho triste em seus olhos. Eu sabia o porquê. Marco era, de fato, um bom garoto e, por isso, ele ficava mal de ver minha relação com minha progenitora. Nada que eu falasse para ele faria com que aquele brilho sumisse.
Ela serviu o café em nossas canecas, pegou dois pães do pacote que estava na mesa e a margarina. Parei de prestar atenção no que ela estava fazendo quando senti o pé descalço de Marco tocar o meu e acaricia-lo. Por mais estranho que aquilo fosse, fazia eu me senti melhor de certa maneira.
E é assim que você faz um clima pesado ficar pesado e esquisito.
Ficamos os três completamente em silêncio e quase que estáticos até eu levantar para colocar minha tigela e minha caneca vazias na pia. Foi quando Marco decidiu puxar algum assunto e eu me encolhi por dentro.
'Posso perguntar o motivo pelo qual a surpresa de eu e Jean ainda nos falarmos?' ele fez questão de ressaltar meu nome na frase. Minha mãe levantou uma sobrancelha — foi dela que eu havia adquirido a mania — e respirou fundo.
'Não é normal ele manter amizades, só isso.' ela tirou do bolso da calça de moletom um maço de cigarros e um isqueiro, meus punhos cerraram com força.
'Você tinha parado.' disse sem olhar em seus olhos, antes de ela acender o que havia colocado entre os dentes. Eu não precisava olhar para minha mãe para saber que sua sobrancelha estava arqueada e que seus olhos me sondavam. Sua mão desceu e com ela o cigarro que estava em sua boca anteriormente. Ela guardou de volta no maço e o colocou, junto do isqueiro, em cima da mesa.
'Bom, senhora…' Marco fez uma pausa hesitante. 'Louise, Jean e eu não temos intenção alguma de parar de nos falar tão cedo. Talvez o motivo pelo qual ele não mantivesse amizades antes fosse porque os amigos antigo dele o tratavam como se ele não fizesse diferença alguma. O que é bem diferente de como eu e o resto de nosso grupo o vemos.' Marco mantinha o sorriso no rosto, mas sua voz era firme. Era impressão minha ou ele estava tentando dar uma lição de moral em minha mãe?
'De qualquer maneira…' ela suspirou e balançou uma das mãos, ignorando o que ele havia dito. 'Se precisarem de qualquer coisa estarei em meu quarto.' minha mãe se retirou da cozinha e o clima começou a ficar mais leve.
Ficamos calados, nenhum de nós pretendia retomar o assunto anterior. Era melhor esquecer do que nos confrontarmos com aquilo. Marco, que estava sentado na minha frente, colocou sua mão sobre a minha em cima da mesa. Levantei meu olhar para encara-lo. Em seus olhos o mesmo brilho triste. Aquilo me matava um pouco por dentro. Pena era o último sentimento que eu queria que qualquer pessoa tivesse por mim.
'Acho que eu quero tomar um banho.' fui eu quem quebrei o silêncio. 'Eu suei um pouco de noite. Você pode me esperar no meu quarto enquanto isso, se quiser.' ele assentiu, sem dizer nada. Arrumamos as coisas na cozinha, eu peguei o maço e o isqueiro de minha mãe e subimos as escadas.
Guardei o dois objetos na gaveta de meu criado mudo, peguei uma muda de roupa no armário, fui para o banheiro e fechei a porta, mas não sem antes dar um selinho em Marco — o que fez seu sorriso se alargar.
Creio que não há ninguém nesse mundo que demore mais no banho do que eu. Principalmente quando eu começo a pensar na vida, fazer diversas digressões, cantar ou qualquer outra atividade que me tire o foco do banho em si. A noite anterior e essa manhã inundavam minha mente enquanto a água fria caia em mim. Por pura precaução, claro. Enquanto eu ensaboava meu corpo eu lembrava de cada toque de Marco, o que fazia meu coração bater mais rápido.
Seria muito patético eu bater uma no banho enquanto meu namorado estava no quarto ao lado me esperando, por isso havia optado pela água fria.
Não sei o quanto demorei dentro do banheiro, provavelmente muito porque quando saí Marco não estava mais lá. As roupas que ele havia pegado emprestadas para dormir dobradas em minha cama, menos a cueca, e um bilhete em cima da pequena pilha.
"precisei ir pra casa pra rolar uma importante conversa mãe-e-filho. mais tarde te chamo no whatsapp. te amo, jean."
Achei um pouco estranho e me atrevo a dizer que fiquei um pouco preocupado, mas achei melhor esperar ele vir falar comigo. Se a mãe dele precisava conversar com ele naquele momento eu preferia não atrapalhar. Sentei na frente do meu computador e comecei a fuçar na internet. Coloquei meu iTunes no aleatório e não me preocupei em colocar os fones — minha mãe já estava claramente acordada, mesmo. Pra minha surpresa o som estava extremamente alto e eu quase caí da cadeira de susto quando as primeiras notas tocaram.
Pulei em sobressalto e abaixei o volume. Quando o susto passou percebi um Akon cantando I Just Had Sex saindo do auto falante do meu computador e senti meu rosto enrubescendo. Mudei de música mais rápido do que havia abaixado o volume e me contentei com a próxima sendo Happy Little Pill. Tive que ficar um tempo respirando fundo porque meu coração estava a milhão.
Cada dia que passava eu me surpreendia mais com o quão patético eu conseguia ser. Ninguém estava por perto e, mesmo assim, eu ficara morrendo de vergonha de uma música. Se bem que o universo tinha conspirado para que aquilo acontecesse… Respirei fundo e voltei ao normal. Entrei no Facebook e chequei minhas notificações. Eu havia sido marcado em uma foto. Havia sido postada por Ymir. Lembrei que havíamos tirado uma foto na sorveteria, sorri.
A legenda era "we’re broken and damned but together we’ll find a way and no longer shall hell awaits”. Meu sorriso se alargou. Era Volbeat, a banda que ela tinha me apresentado e havia se tornado uma das minhas favoritas desde então. Aquela parte da música tudo a ver conosco. Percebi que Armin havia curtido a foto e minha risada saiu em voz alta.
'Você parece feliz.' levei outro susto com a voz vinda da porta. Me virei com o coração na boca e uma provável cara de pavor e encontrei minha mãe parada lá. 'Desculpa, eu esqueci de bater… Posso entrar?' eu assenti rapidamente. Ela sentou na cama. 'Seu amigo Marco é uma pessoa estranha. Um bom menino, ele é, mas estranho.' fiquei em silêncio. 'Obrigada. Pelas compras. Você sempre acaba fazendo quando percebe que eu não terei tempo e também sempre repõe meu chiclete…' abri a boca, mas não sabia o que dizer. 'Faz algum tempo que não conversamos de verdade, não é? Acho que a culpa é minha, afinal…' ela riu triste e olhou para o chão.
'É.' a resposta seca simplesmente saiu de mim, não foi de propósito. Levei a mão à boca depois disso, ela me olhou um pouco triste.
'Eu sei… Sei que tenho sido uma mãe péssima… Eu não espero que você entenda…' eu estava irritado. Pela primeira vez eu estava irado com minha mãe.
'Tenta explicar então.' ela ia começar a falar, mas eu a interrompi. 'Você acha que eu não fiquei mal quando ele foi embora? Eu me culpei por aquilo, eu me culpei por tudo. Me culpei por você ter ficado tão mal, por ter começado a fumar essas merdas desses cigarros. Desde o começo, Louise. Ele falava que a culpa era minha e eu acreditava, ele foi embora e você sumiu, você se fechou em um mundo só seu e ignorou a minha existência e eu me culpei por isso.' percebi que estava gritando com ela, percebi que toda a minha paciência estava mascarando uma mágoa muito maior. Eu estava extremamente magoado e não havia me dado conta até aquele momento. 'Eu não estou falando que você devia ter superado aquilo tudo fácil, não me entenda errado. Eu sei como funciona a depressão, mas… Você podia ter voltado quando melhorou. Você…’
'Eu pensei que você tivesse raiva de mim.' foi a vez dela me interromper. 'Por nunca ter feito nada, por nunca ter parado ele, por ter pensado que ele ia melhorar, por ter tido tando medo dele.'
'Mãe, pelo amor, eu me coloquei tantas vezes entre vocês quando ele foi pra cima de você. Pensei que sempre havia deixado claro que preferia que fosse comigo do que com você, mas… Eu precisava de você comigo, porra.' eu havia voltado a gritar. Estava difícil controlar minha voz, mas eu estava tentando. Eu soava muito como ele quando gritava.
'Jean…' sua voz falhou. Ela estava chorando. Eu havia feito minha mãe chorar. A culpa tomou conta de mim. Praticamente pulei da cadeira para o lado dela e a abracei, fechando meus olhos. 'Me perdoa por ter sido a pior mãe do mundo, Jean.' eu acariciava suas costas enquanto ela soluçava.
'Shh… Calma, já foi, já foi.' minha raiva havia se dissipado completamente. Ela tentava falar e se desculpar, mas eu continuava repetindo que estava tudo bem, que já havia passado.
Quinze minutos.
Quinze minutos de eu me segurando para não sucumbir às lágrimas junto com ela. De eu tentando acalmar a mulher que me ignorara por um bom tempo sem sentir um pingo de raiva dela naquele momento.
Quinze minutos.
Eu sabia que quando minha mãe chorava por mais de um minuto sem parar tinha dor de cabeça, então imagine como ela estava depois e quinze. Desci e peguei um copo de água e a cartela de comprimidos para dor de cabeça. Ela tomou um e terminou o copo d’água rapidamente.
Era estranho não estar mais com raiva. Como se ela toda havia saído junto com meus gritos. Como se eu estivesse na pele da mulher sentada à minha frente, entendendo os porquês de ela ter feito — ou deixado de fazer — o que fez, entendendo como doeu nela ter ignorado o filho e pensado esse tempo todo que ele a odiava. Afinal, eu meio que passei pelo sentimento de “acho que minha mãe me odeia”.
Na minha cabeça ela se culpava pelas coisas assim como eu havia me culpado também. Por ele ter ido embora, por eu ter sofrido o quanto ela pensava que eu tinha sofrido — porque vamos encarar os fatos: era impossível qualquer um de nós dois saber o quanto o outro havia sofrido com toda a situação gerada desde o início do comportamento abusivo dele -, por tudo.
De qualquer maneira: eu não estava com raiva. Não estava com ódio. Eu estava determinado a esquecer o passado a fim de recomeçar com minha mãe.
'A gente pode colocar tudo isso pra trás e começar de novo. Você é minha mãe e eu te amo incondicionalmente, sabe… Não to falando que você não errou, mas sim pra você não errar de novo.' eu segurava sua mão, seus olhos inchados de chorar me olhavam como se tentando ver minha alma — se existe ou não uma são outros quinhentos.
'Ele tava certo. Você cresceu um menino maravilhoso, Jean.' arqueei uma sobrancelha interrogativamente. 'Seu amigo Marco… Ele pediu para falar comigo antes de ir embora… Disse que eu não conhecia meu filho, pediu desculpas pela intromissão na nossa vida, mas que ele, por você ser tão importante para ele, conseguia perceber que você se sentia mal com nossa relação, por mais que você mentisse dizendo que não.' pensei no bilhete de Marco e percebi que não era sobre a mãe dele. ‘Um bom menino, ele é…’ respirou fundo. ‘Acho bom você estar cercado de pessoas como ele. Nunca fui muito com a cara daquele seu outro amigo… Eren, certo?’ eu ri e assenti. Ah, ela não fazia ideia dos motivos pelos quais ele era um cuzão de verdade. ‘Seria bom se você arrumasse uma namorada assim…’ mordi o lábio inferior.
'Sobre isso…' respirei fundo, ela esperou pacientemente que eu completasse a frase. 'Não sei se eu to interessado em alguma menina por enquanto.' talvez não fosse a hora de contar a ela. Eu não sabia onde estava pisando, ela muito menos. Em uma sociedade heteronormativa como a em que vivíamos era natural que minha mãe pensasse que eu, homem, arrumaria uma mulher para namorar.
'E aquela Mikasa?' ri novamente. 'O que foi? Vocês não se falam mais? Ah, tem tanta coisa que eu perdi…' sua voz falhou novamente, tratei de não deixar que ela voltasse a ficar mal.
'Eu nunca gostei dela, mãe. Não sei de onde todo mundo tirou isso, caralh…' me parei antes de terminar o palavrão. Modos, Jean. 'Caraca.' me corrigi, o que a fez sorrir.
'Bom, acho que você tem razão… Não tem nenhum motivo concreto pra eu ter achado isso, na verdade. Então não tem ninguém na sua mira?' mordi o lábio novamente. 'Se você não se sentir confortável pra falar disso comigo eu vou entender. É minha culpa, afinal…'
'Não é bem isso…' passei a mão esquerda pelo meu cabelo. 'Só acho que não é bem o momento da gente falar disso. Tudo a seu tempo e tal…' ela assentiu. 'A gente vai precisar construir uma relação de mãe e filho, sabe… Acho que ia ser legal se a gente conseguisse fazer isso puxando bastante pro lado da amizade, mas pra isso tem que ser cada coisa a seu tempo. Até porque não é como se você pudesse muito ser a mãe mandona a essa altura do campeonato, né.' rimos timidamente.
'Mas vão ter momentos em que eu vou ter de fazer o papel de mãe. Pra compensar todo esse tempo de negligência.' eu assenti. 'Jean, meu querido, você realmente cresceu uma pessoa maravilhosa…' Louise sorriu para mim, com um olhar diferente. 'Bom, eu vou dar uma saída, tenho uns assuntos pra resolver e volto só mais tarde. Se quiser chamar seu amigo aqui tudo bem, só se comportem.' ela brincou.
'Falou, mãe. Eu sempre me comporto, sou uma pessoa maravilhosa, lembra?' ri para ela. Minha mãe, ao chegar perto da porta virou para olhar para mim.
'Não fique bravo com seu amigo, por favor…' eu assenti.
'Não to bravo. Eu entendo o motivos dele, não to bravo mesmo.’ ela sorriu e saiu do quarto, fechando a porta atrás dela. Deitei na cama, onde estávamos sentados anteriormente, e peguei meu celular de cima do criado mudo.
Desbloqueei a tela e abri o whatsapp, indo direto nas mensagens com Marco. Mandei o emoji que os olhos e a boca são representadas como segmentos de reta. Mais comumente conhecido como o com cara de bosta. Achei que fosse o emoticon perfeito para deixa-lo confuso sobre tudo, principalmente sobre se seu plano havia dado certo ou não. Larguei o celular no móvel novamente e coloquei ambos meus braços embaixo de minha cabeça, encarando o teto.
Parei um momento para pensar em minha mãe. Não no que acabara de acontecer, mas na figura Louise Kirschtein — que, por algum motivo por mim desconhecido, ainda usava seu nome de casada para se identificar. Comparei a imagem que tinha de minha mãe antes com a que tinha dela agora. A mulher meio cheinha que cuidara de mim quando eu era mais jovem agora estava bastante magra, talvez até um pouco mais do que deveria. Seu cabelo castanho, outrora enorme, havia sido cortado recentemente — de fato a mudança era bastante recente, tinha duas ou três semanas que ela o havia cortado. O vício no cigarro adquirido quando o comportamento dele começou a ficar abusivo. Não fora só sua atitude comigo que havia mudado muito, ela havia mudado muito. compreensível.
Levantei da cama e sentei na cadeira, para voltar a usar o computador. Mais comentários e curtidas haviam aparecido naquela foto. Os parentes alguns de meus amigos comentando coisas do tipo “turma bonita” ou “que amizade gostosa” me fizeram rir. Além disso, os próprios comentários dos presentes na foto eram engraçados. Reiner, por exemplo, estava zoando Bertholdt dizendo que ele só tinha aparecido na foto porque estávamos todos sentados.
O resto do meu dia se baseou em ouvir música e ficar mexendo no Facebook e em outros sites. Em algum momento acabei revendo um episódio de Doctor Who por puro tédio e lembrei não ter visto se Marco havia me respondido. Na verdade eu coloquei o episódio e pensei “ah, seria legal eu e Marco assistirmos a série juntos” e peguei meu telefone para propor que um dia fizéssemos aquilo, mas no meio do caminho acabei me recordando de ter mandado algo para ele e não ter visto a resposta.
marco: ?
marco: jean?
J.K.: Mal, acabei me distraindo com o computador. Você um idiota.
J.K.: Algum dia vou te forçar a ver DW comigo por motivos de sim.
marco: por que eu sou idiota?
J.K.: Conversa mãe-e-filho. Sutil.
marco: sou a+, pode falar xD vou te ligar no skype pra você me contar direito.
Alguns segundos depois o barulho do Skype se sobrepôs à música que tocava. Atendi a chamada e pausei o episódio.
'Oi.' ele estava sentado com os pés na cadeira e a cabeça entre os joelhos. 'Você tá bravo?' sorri para ele.
'Não. De verdade, eu to feliz. Se tivesse sido outra pessoa eu ia ter ficado puto, né, porque minha relação com minha mãe não diz respeito aos outros. Mas não você. Eu acho que teria feito o mesmo, então…' o garoto do outro lado da linha sorriu para mim, aliviado. 'A gente conversou, né, e foi tipo meio conturbado no começo… Eu fiquei puto, gritei com ela, mas depois passou. Acho que eu entendo minha mãe um pouco, sei lá… A gente se propôs a esquecer tudo e recomeçar, sabe? Reconstruir essa relação do zero com um toque maior de amizade e tal, mas não sei como vai ser…'
'É, essas coisas são meio incertas mesmo, né… Fico feliz de ter ajudado. Um pouco triste porque você nunca chegou a me dizer que aquilo te fazia mal, eu quem tive que ler isso em você, mas fazer o quê…' ele suspirou.
'Eu não consigo me abrir tanto assim, Marco, eu tenho meus momentos. Não quero ser um fardo pra você, sabe? Não quero te deixar preocupado, também… É foda, sei lá.' apoiei meu braço esquerdo na escrivaninha e meu queixo em minha mão, sem deixar de olhar para a imagem dele na minha tela em momento algum.
'Jean… O que você faria?' arqueei uma sobrancelha, interrogando-o. 'Você sabe… Se o seu pai -'
'No dia que você me viu na janela,quando você escreveu a carta -' comecei a interrompe-lo, mas ele fez o mesmo comigo.
'Jean, responde a -'
'Me escuta, por favor. Só escuta.' minha voz saiu mais falhada do que eu imaginei que sairia. Ele assentiu. 'Ele tinha batido em mim naquele dia, ele tava muito louco, completamente fora de si. Eu nem lembro o motivo, só sei que ele bateu em mim e depois me desejou um feliz aniversário com a voz mais cínica possível…' respirei fundo antes de continuar. 'Aí eu fui pra janela e eu lembro que tava tendo uma tempestade muito forte lá fora, eu lembro que eu tava chorando e que eu não tava conseguindo enxergar direito, mas que eu conseguia ver uma silhueta na sua janela. Aí trovejou. Eu tenho medo de tempestades e trovões e raios porque eles destroem. Tanto como figuras metafóricas quanto na real. Ok, no trovão não, mas ele assusta, isso é inegável.' o único som além da minha voz era o do computador funcionando, isso me dava uma certa agonia, mas continuei. 'Enfim, eu acabei me assustando com o trovão. Ele foi como se a gota d'água pra mim, foi o que me fez cair com tudo no chão e que fez minha máscara forte cair pela primeira vez. Eu me acabei de chorar. Essa é minha última memória concreta do meu pai.' fiquei em silêncio, o observando apenas. Seu rosto triste, de certa forma também um pouco horrorizado.
Era natural que Marco ficasse em choque com aquela descrição ou com o fato de eu ter apanhado de meu progenitor. A relação de meu namorado com sua família era ótima apesar dos problemas que todo mundo tem. Ele vinha de um núcleo familiar de comercial de margarina: perfeito. Seus pais eram compreensíveis, eram tolerantes, pacientes. Ele era reflexo daquela criação. Apesar de seu pai ser mais conservador, com certeza Marco não conseguiria entender um relacionamento abusivo entre familiares como o que eu tive com meu pai por algum período de tempo.
Digo algum período de tempo porque nem sempre havia sido daquele jeito. Eu era novo, então nunca entendi direito como funcionou essa mudança de comportamento dele, mas eu tinha memórias claras de ter vivido uma família-margarina como a de Marco enquanto eu era criança.
'Por isso, Marco, eu não posso te responder. Eu não posso afirmar nada, entende? Não posso falar como eu agiria nessa situação hipotética porque eu não o faço ideia de como seria. Eu não sei nem como me sinto com relação a esse cara. E eu não quero que você fique mal com isso, nem que você o odeie, mas quero que você entenda que essa é uma pergunta pra qual eu não tenho uma resposta pronta.' ele assentiu. 'Eu vou tentar me abrir mais, tá? Mas se acontecer isso de novo não fica bravo comigo…'
'Não vou ficar… Só peço que você fale que não quer falar sobre o assunto que eu perguntar ao invés de me ignorar, tá?' balancei a cabeça em afirmação. 'Bom, eu preciso desligar, minha mãe tá pedindo ajuda pra limpar a casa. A gente se fala mais tarde. Eu te amo.'
'Eu também, Marco. Vai lá. Beijos.' a chamada foi encerrada, eu volte para minha série e tentei assistir o episódio todo sem pensar em questões complicadas ou tensas, pelo menos por um dia, pelo menos por quarenta e cinco minutos.
A missão foi um sucesso.
Depois disso voltei a ouvir música e fuçar pela internet e redes sociais no geral. Reiner me mandou um vídeo hilário do Youtube pelo chat e eu fiquei repetindo ele por algum tempo. A musiquinha do vídeo com certeza ficaria na minha cabeça no dia seguinte, mas valia a pena porque ele era, de fato, muito engraçado.
Minha mãe voltou umas seis da tarde e perguntou se eu queria jantar fora com ela. Aceitei sem hesitar, seria um bom jeito de conversar em um ambiente mais leve. Saímos para comer juntos — ela me levou no Burger King e depois eu lhe apresentei nossa sorveteria. Chegamos em casa em torno das dez da noite e, após nos despedirmos, fomos cada um para seu próprio quarto. Chequei se não havia nenhuma mensagem importante no para mim, respondi Armin, meu amigo nerd apaixonado, e dormi muito mais leve do que eu costumava dormir antes.
Aquele fim de semana foi extremamente positivo em minha vida. Eu sentia como se eu estivesse começando a ficar melhor. Me sentia como se, citando um livro chamado “A Culpa é das Estrelas” — que Christa me obrigara a ler -, eu estivesse em uma montanha-russa que apenas ia para cima.
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