Rain Sound
3 Capítulo 3
Notas iniciais
"Parecia que íamos nos dar bem e eu rezava para que no dia seguinte, quando eu acordasse, as coisas continuassem seguindo aquele caminho insano e sem sentido que estavam começando a seguir."
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Meu celular tocou na manhã seguinte o alarme de sempre, eu costumava acordar mais cedo do que o normal porque tinha problemas com pesadelos durante a noite e suava muito então tinha sempre que tomar banho, enfaixar um dos braços ou os dois, me encarar no espelho por algum tempo para contemplar a bagunça que eu era, mas naquela noite eu não havia tido um pesadelo sequer. Os braços de Marco me envolviam, estávamos dormindo de conchinha, sorri para mim mesmo, tinha sido por isso que minha noite fora tão tranquila, ouvi ele reclamando atrás de mim enquanto eu me desenrolava de seus braços para começar a me arrumar. Pratiquei todo meu ritual diário como de costume, quando acabei de me trocar percebi que Marco estava sentado em minha cama, sorri para ele, sua expressão um tanto quanto infantil, ele esfregava os olhos com as mãos, soltou um longo bocejo e finalmente sorriu de volta, levantou-se, pegou sua escova de dente e pasta da mala e foi para o banheiro.
Decidi checar se estava aparentando estar decente enquanto ele se arrumava, olhei no espelho de corpo inteiro que ficava do lado de dentro da porta de meu armário, meu jeans favorito estava um pouco largo por minha má alimentação, meu agasalho era um moletom vermelho de zíper, por baixo minha blusa de Doctor Who — uma série que eu gostava muito -, meu all star preto todo rasgado no pé. Suspirei, estava aceitável.
'Bom dia.' Marco saiu sorrindo do banheiro. 'Deixei minha escova lá para usar depois, ok?' assenti. 'Você toma café da manhã? Se não eu guardo agora mesmo.' sorri para ele e peguei sua mão, o guiando até a cozinha. Eu fiz com que ele se sentasse e fiz diversas perguntas sobre as coisas que ele gostava de comer no café, queria que as coisas fossem perfeitas, ele me disse que qualquer coisa estava bem então decidi fazer ovos mexidos, mas também coloquei pão, manteiga, queijo, presunto e esse tipo de coisa na mesa, além de água, suco, chá, café e leite. 'Não precisa de tudo isso...' apenas o encarei arqueando uma sobrancelha, Marco riu baixinho. 'Ok, ok... Como quiser.' Quando terminamos de comer disse para ir terminar de se arrumar na frente, ia organizar a cozinha e já subia. Ele me deu um selinho, ruborizei de leve e sorri. Quando eu estava subindo ele estava descendo. 'Eu vou indo na frente, tudo bem?' assenti tentando sorrir, mas provavelmente não consegui esconder que estava um pouco triste. Aquela noite maravilhosa tinha acabado, voltaríamos ao normal. Marco percebeu, tocou meu rosto e acariciou minha bochecha com o polegar. 'Lembra de sentar comigo no almoço, ok?' beijou a ponta do meu nariz antes de sair da minha casa, prossegui com meu cotidiano.
Na escola as coisas estavam iguais, encontrei Ymir e Christa antes de ir para a primeira aula. Não comentei nada do que havia acontecido, tinha medo de Marco ficar bravo comigo se descobrisse. Nos cumprimentamos brevemente, agradeci pelo favor do dia anterior, as duas apenas sorriram. Era engraçado como elas eram tão diferentes, aparentemente, mas mesmo assim se davam extremamente bem.
Ymir era alta, morena, estressada, de certo modo interesseira, briguenta, um pouco egocêntrica, Christa era baixa, loira, calma, se preocupava com os outros, pacífica, aparentemente completamente altruísta — mas Ymir havia me contado que aquele altruísmo tinha um quê de alimentação de ego. Depois disso foi cada um para seu canto, na minha primeira aula eu era da sala de Reiner, Bertholdt, Mikasa, Eren e Armin. Como de costume fui sentar perto do trio, mas diferente do normal os titãs do basquete não mexeram comigo, estranhei, mas dei de ombros, eles deviam estar com medo de se darem mal perante a Direção da escola depois do dia anterior, afinal: minha surra tinha sido mais pesada do que o normal.
'Você apanhou ontem.' Mikasa disse com o mesmo tom de sempre, assenti, mas diferente do normal não tentei me enturmar na conversa ou nada do tipo, ela estranhou. 'Você está quieto hoje.' novamente só assenti, continuei arrumando minhas coisas em cima da carteira enquanto eles prosseguiam conversando sobre algum assunto de Física que eu não queria prestar atenção. Eles ficaram em silêncio, percebi que me encaravam os três. 'Você não vai pedir minhas anotações das matérias que perdeu?' dei de ombros, realmente não queria conversar com eles, não queria estragar meu dia.
Ela estendeu os papeis, peguei e agradeci, guardando-os na mochila, o professor de Biologia entrou na sala e todos ficamos em silêncio. Importante notar que ficar em silêncio não necessariamente significa prestar atenção, porque eu não estava fazendo isso, estava pensando em Marco e na loucura que havia acontecido, estava pensando se realmente deveria sentar com ele ou não. Ainda tinha tempo para pensar sobre isso até o almoço. Minha segunda aula do dia era na mesma sala que o trio, Marco, Ymir e Christa e eu estava considerando mata-la quando senti uma mão segurando meu ombro para longe do banheiro. Olhei para trás e vi quem era.
'Você tem aula. Já sempre perde alguma coisa porque levou uma surra, não vou deixar você faltar, Kirschtein.' Ymir sorria debochando de mim, revirei os olhos, a figura loira ao nosso lado ria delicadamente. 'Você vai sentar com a gente nessa aula e no almoço.' abri a boca para protestar, mas ela não deixou. 'É uma ordem, eu até deixo você sentar do lado da Christa.' riu, tive de rir junto.
Sentamos na aula, vi Marco entrando com um garoto alto do time de basquete — Franz, se não estiver enganado, ele era meio simpático até, nunca me provocava. Marco sorriu para mim, bateu no ombro do colega rindo, Franz sorriu de volta e sentou perto de uma garota — que presumi que fosse sua namorada porque ele a beijou — e o garoto cheio de sardas veio na nossa direção e sentou ao meu lado.
'Sardas.' Ymir cumprimentou, ele sorriu. 'Não vai sentar com a sua namoradinha hoje, não?' cerrei os punhos na mesa, aquela insinuação de que Marco e Annie — amiga do time de basquete — namoravam me irritou, ele apenas desfez seu sorriso e levantou uma sobrancelha para minha colega, que, por sua vez, riu. 'Ok, não brinco mais!' gargalhou.
'Grato.' voltou a sorrir e tocou minhas mãos. 'Você tem que aprender a controlar esses impulsos.' virou-se para as garotas. 'Estou numa importante missão pra fazer esse cara aqui perceber que os amigos dele não dão valor pro que têm e fazer ele ter novos amigos bons como vocês duas.' ambas sorriram, Christa pegou nossas mãos e riu delicadamente mais uma vez. Eu apenas corei. Ouvi Mikasa falar meu nome e os encarei, eles estavam falando sobre mim e apontando, minha boca se curvou um pouco chateado, Marco apertou minha mão, encarei-o. 'Não vai pra lá, se não vou ficar bravo.' meus olhos voltaram para os três. 'Não.' o modo duro como disse me fez engolir em seco e voltar a olhar para ele.
Seus olhos semi cerrados, senti meu sangue fluir mais rápido no meu corpo, soltei um gemido baixo de dor quando as mãos de Marco apertaram forte as minhas, não tinha nem percebido que ele estava aumentando a intensidade do aperto nem que suas pupilas haviam dilatado, o professor entrou na sala, ele me soltou e a aula começou.
Mantínhamos-nos calados, mas podia sentir uma tensão vinda de Marco e olhares furtivos vindos do trio. Depois daquela aula decidi me isolar de qualquer pessoa conhecida até o almoço, então sentei isolado no período seguinte, ninguém tentou se juntar a mim, nem mesmo Marco. Na hora do almoço decidi sentar na mesa de Ymir e Christa, não tinha nem mais certeza de se ele ainda quereria sentar comigo. Cheguei antes dele no refeitório, o que facilitou muito as coisas, sentei na mesa delas de costume e esperei elas chegarem, mas os três chegaram juntos, logo atrás meu grupo de sempre e depois os esportistas.
Suspirei enquanto passava as mãos no rosto e no cabelo, fechando os olhos e levantando as sobrancelhas quando puxei de leve um tufo entre os dedos da mão esquerda e passando a língua nos lábios. Os vi se aproximando, Marco sentou ao meu lado e apontou que eu não tinha quase nada na bandeja — eu quase não tinha fome, mas menti dizendo que já tinha comido metade do que havia pegado para ele não se preocupar nem nada. Ymir fingiu tossir enquanto dizia "lorota", Christa a cutucou com o cotovelo fortemente pedindo para a namorada parar, a morena começou a rir e passar a mão no cabelo da loira, que tentava parecer emburrada, mas logo estavam se dando selinhos, felizes. Senti Marco tenso ao meu lado, seus amigos se aproximaram. Reiner me encarava com raiva, abaixei a cabeça, não queria brigar.
'Marco...' o moreno sorriu para o colega. 'Vai ficar aqui com eles mesmo?' ele assentiu. 'Tem certeza?' silêncio foi a resposta. 'Ok... Mas você vai no treino, certo?' Marco respondeu que sim, sentia o sorriso em seu tom de voz, olhei para os garotos, eles passaram a me encarar. 'Kirschtein.' me cumprimentou secamente. Eu acenei com a cabeça, cumprimentando de volta, vi Bertholdt sorrindo para mim, Reiner olhou para trás e lhe deu um tapa no ombro, o moreno riu de leve. Percebi Marco corando, Reiner também, e eles foram embora.
Arqueei a sobrancelha para Marco, ele apenas retribuíu com um sorriso, continuei questiona-lo com meu olhar, mas não obtive resposta alguma, ele simplesmente parou de olhar para mim e começou a conversar com Ymir, enquanto Christa encarava meu prato com um olhar de desaprovação. Decidi não participar da conversa, fiquei calado até terminar de comer em um ritmo extremamente lento. Às vezes eles me perguntavam uma coisa ou outra, respondia o mais monossilabicamente possível, na verdade não estava afim de conversar sobre nada do que eles estavam conversando, estava tentando entender o que havia acontecido entre Reiner e Bertholdt. De repente meus amigos apareceram onde estávamos, Eren e Mikasa me encaravam com os olhos semi cerrados, o resto deles mantinha a atenção em Marco, observando cautelosamente. Levei uma colherada de gelatina — era a sobremesa do dia — à boca e levantei a sobrancelha, esperando que eles iniciassem qualquer tipo de interação.
'Você não sentou com a gente.' Mikasa apontou. Pensei em fazer algum comentário cheio de ironía do estilo "muito bem observado, Sherlock", mas Eren provavelmente começaria a gritar comigo, irritado, e eu não tinha a mínima paciência para lidar com ele. 'De qualquer maneira, estamos organizando uma festa essa sexta, na casa do Eren, se quiserem aparecer... Estão todos convidados.' dei de ombros e voltei a dar atenção à minha gelatina, tentando encontrar qualquer traço de limão nela — sempre foi um mistério para mim como qualquer pessoa podia achar aquilo com um gosto parecido com o de limão ou de qualquer fruta. 'Vamos hoje mais tarde na sua casa pegar minhas anotações, copie rápido.' não levantei o olhar.
'Kirschtein, dá pra responder?' Eren gritou, revirei os olhos, larguei o que segurava e levantei os dois polegares, sorrindo em tom de deboche. 'Você é um merda, depois não sabe por que sempre apanha do time de basquete.' continuei naquela mesma posição, Mikasa revirou os olhos e fez algum comentário sobre como éramos maduros, fiquei sério novamente e voltei a comer, aquele moleque me irritava profundamente. 'Se ele incomodar muito vocês podem mandar ele voltar pra nossa mesa, a gente tá acostumado já. Vocês não precisam ficar aturando ele não.' Ymir cerrou os punhos em cima da mesa e se levantou, Marco levantou junto, mas com a expressão tranquila, sorrindo o mais simpaticamente possível, fez um gesto para a morena sentar-se novamente, ela o fez e bufou.
'Realmente não precisamos aturar ninguém e é por isso que vou pedir que vocês se retirem.' encarou Mikasa. 'Pode passar na casa dele a hora que quiser, ele já vai ter acabado de copiar com certeza, não precisa se preocupar.' Eren abriu a boca, mas Marco não permitiu que ele falasse. 'Eu já pedi de uma maneira educada, vou ter que pedir trazendo meu time aqui?' levantou uma sobrancelha, o menor xingou, Armin pediu desculpa por eles e o grupo se retirou. 'Viu? Sem violência e ainda sim efetivo. Vocês dois têm problemas sérios em controlar seus impulsos.' Ymir riu, eu continuei me focando na minha gelatina até acabar. 'Eu não vou na festa, vamos ter jogo na sexta e geralmente depois dos jogos eu fico cansado, não aguento viver. Querem vir assistir o jogo e depois sair pra tomar um sorvete ou alguma coisa do tipo?' Christa sorriu, as duas aceitaram a ideia, eu neguei. Não gostava muito de sair de casa, sempre corria o risco de encontrar pessoas conhecidas. 'Tem problema se alguns dos meus amigos forem com a gente? É que geralmente eu, Reiner, Bertholdt e Annie sempre fazemos isso depois dos jogos, só pensei em chamar vocês para irem junto porque vocês são legais.' as duas concordaram com a ideia logo de cara, Ymir falou o nome de Annie de uma maneira sugestiva, ignorei, Marco também. 'Você vem, certo?' disse tocando em meu braço. Balancei a cabeça em negativa. 'Ah, cara, vai, por favor! Ou você prefere ir na festa deles?' neguei mais uma vez, explicando que preferia ficar em casa.
Além do fato dele ter dito que as pessoas que me batiam iam junto, eu realmente não era muito fã de sair de casa. Eles mudaram de assunto e começaram a falar sobre qual sabor de sorvete eles mais gostavam. Descobri que o favorito de Marco era flocos, Ymir perguntou se era porque os flocos lembravam as sardas dele, Christa a repreendeu, Marco riu e disse que não tinha problema.
Depois do almoço voltei a sentar isolado, tentando evitar os olhares de todos os que conhecia. O dia estava sendo bastante estranho, nada estava fazendo sentido, até mesmo Marco estava diferente da pessoa que eu havia experienciado no dia anterior e eu não gostava daquilo. Em dias como aquele tudo ficava extremamente imprevisível e, na minha imaginação, tudo de errado podia acontecer. No fim do meu último período suspirei e criei forças para levantar da cadeira e andar até meu carro, decidi colocar os fones de ouvido no trajeto para não ter que socializar, foi tudo tranquilo até chegar no meu destino.
Enquanto estava abrindo meu carro senti uma mão tocar meu ombro, bufei irritado e virei dando de cara com Reiner, pulei de susto e tentei entrar no carro rapidamente, mas acabei derrubando as chaves. Me encolhi encostado no carro, fechei os olhos esperando por algum soco ou alguma provocação, mas ao invés disso ouvi uma voz o repreendendo por ter me assustado. Abri os olhos, o loiro estava com o cenho franzido, fazendo cara de irritado, engoli em seco.
'Vou ser bem direto. Eu vim em um tratado de paz.' disse rapidamente, tive dificuldade para entender, mas tentei acompanhar. 'Então é. Tratado de paz.' ele estendeu a mão, sem pensar duas vezes apertei, queria ir logo embora. 'Isso não é pra sempre, que fique claro.' assenti, ele virou de costas e começou a ir embora.
Bertholdt, que estava conosco desde o início, me pediu desculpa pelos modos brutos de Reiner e o seguiu. Era estranho como Bertholdt era tão mais forte que Reiner e mais alto também, mas Reiner parecia muito mais durão. Pensei ter visto o moreno segurar na mão do loiro por alguns segundos, mas ignorei aquele detalhe e entrei correndo em meu carro, estava realmente confuso com tudo, mas se Reiner oferecer um tratado de paz significava que eu não teria de apanhar ou algo do tipo por algum tempo, mesmo que fosse pouco, eu com certeza aceitaria a oferta de bom grado.
Liguei meu rádio, tocava Eminem, não era fã, mas reconhecia que ele era bom no que fazia, sabia algumas partes da música, mas a grande maioria era impossível de acompanhar. Por isso que ele era considerado o Deus do Rap, como a própria música sugeria. Esperei acabar, enquanto me acalmava um pouco do susto de havia tomado. Assim que me senti melhor dei a partida e fui para casa, o caminho foi monótono como normalmente, eu ouvia as músicas e cantarolava algumas, ia mais devagar do que o normal, mas naquele dia em especial eu inteiro estava mais devagar do que o normal, tudo estava diferente do normal. Subi direto para meu quarto a fim de tirar fotos das anotações de Mikasa para não ter problemas quando ela passasse para busca-las — havia me acostumado com aquilo porque antes era comum as coisas darem errado, ou eu perdia as anotações ou ela aparecia para pegar e eu não havia terminado, ou algo do tipo. Depois deitei em minha própria cama e fechei os olhos, ouvindo minha própria respiração, tentando me concentrar nos meus batimentos cardíacos e lembrar que havia uma pessoa ali, um ser humano como qualquer outro, que merecia uma vida e tudo o que um ser humano merece.
Algum tempo depois de falhar em tentar me convencer de que eu merecia felicidade tanto quanto qualquer outra pessoa minha campainha tocou, imaginei que fosse ela e desci com as folhas. Além disso levei minha carteira e as chaves do meu Honda Civic 1.6 Lx, ia comprar lâminas novas já que Marco havia confiscado as minhas no dia anterior. Abri a porta já entregando os papéis, ela pegou e tentou dizer alguma coisa, mas a impedi agradecendo e dizendo que tinha que fazer umas compras então não podia conversar. Ela assentiu e tocou meu ombro levemente, encarei-a confuso e ela apenas sorriu um sorriso fraco, era a primeira vez que via Mikasa sorrindo para mim. Sorri de volta, mas não um sorriso como os que eu dava a Ymir e Christa, muito menos como havia dado a Marco, nem um sorriso como dava a Eren ou Reiner, foi mais um sorriso de constrangimento, talvez confusão, mas logo corri para meu carro e ela para o de Armin.
As compras foram tranquilas, aproveitei e comprei sorvete de picolé para colocar no congelador, alguns itens para repor nos primeiros socorros e chiclete — eu e minha mãe costumávamos amar chiclete, às vezes eu comprava alguns e colocava nas coisas dela, sempre que eu o fazia não havia mais nenhum na gaveta, mas ela nunca comentou nada sobre o assunto comigo. Sempre supus que ela apreciasse o gesto então sempre que tinha a oportunidade o fazia. Sorri para mim mesmo na volta para casa. Em primeiro lugar porque havia algum tempo que não lembrava de como eu e minha mãe costumávamos ser unidos antes de todos os problemas começarem, mas também por reconhecer o quão patético eu, de fato, era e estava sendo, colocando memórias antigas e problemas recentes na mesma sacola do mercadinho — os chicletes e as lâminas.
Estacionei chegando em casa, desliguei o rádio — era regra ter música como trilha sonora de minha vida -, apertei a sacola nas mãos, fechei os olhos, respirei fundo e saí do carro. Abri a porta da casa e senti uma mão me agarrando pela cintura, minha primeira reação foi paralisar, mas rapidamente virei pronto para me defender de algum ladrão, fui recebido e desarmado com um selinho. Marco me abraçou pela cintura novamente, fazendo beijo de esquimó, fiquei parado, não podia derrubar aquela sacola nem podia deixar que ele visse minhas compras.
Ele percebeu que eu estava tenso, me soltou, parecendo um pouco triste, mas majoritariamente preocupado comigo, estendeu a mão para tocar em meu braço, mas com medo dele estar tentando pegar a sacola recuei, ele levantou a sobrancelha. Segurou meu braço e levantou minha manga, começando a desenrolar minha faixa, fiquei menos tenso, mas logo percebi que se ele visse que não havia nada novo lá ele tentaria ver a sacola, não queria que ele visse. Antes dele conseguir ver qualquer coisa tirei meu braço de suas mãos, virei de costas e entrei em casa, ameacei fechar a porta, mas Marco já estava lá dentro, bufei. Deixei a sacola atrás de mim no balcão da cozinha, ele se aproximou, colocou uma mão de cada lado da superfície, me prensando contra ela, levou os lábios até minha orelha, a proximidade já me fez ter um arrepio.
'Não quer me contar o motivo de estar estranho?' neguei, engolindo em seco, ele sorriu e beijou minha bochecha docemente. 'Posso ver seu braço?' não respondi, me debati para tirá-lo de cima de mim. Ele saiu após algum tempo, sentando na cadeira que havia sentado de manhã, bufando.
Comecei a guardar os sorvetes no congelador e pedi que ele me esperasse lá porque ia colocar coisas no quarto da minha mãe, ele assentiu. Corri para largar as lâminas e artigos para curativo bem escondidos em meu armário, depois coloquei os chicletes na gaveta de minha mãe e tornei a descer os degraus, Marco estava sentado na mesa mexendo com algo em suas mãos, tentei não tira-lo de seu devaneio e adivinhar o que era. Era um envelope, ele parou e olhou para mim com um sorriso fraco nos lábios.
'Eu vi Reiner, Bertholdt e você no estacionamento. Aconteceu alguma coisa?' neguei, sentando ao lado dele. 'Olha, é sério, você pode me falar.' neguei novamente, encostando a testa no ombro dele, sua mão começou a fazer carinho em minha cabeça, os dedos se enrolando um pouco nos fios do meu cabelo. 'Eu fiz isso pra você há alguns anos, mas eu nunca tive a coragem de entregar. Acho que agora eu não preciso de coragem, né.' ele riu levemente. Não levantei para olhar, só o abracei. 'Você fez de novo?' seu tom de voz parecia triste, eu balancei a cabeça em negativa, ele pegou meu braço direito e começou a desenfaixar, eu permiti. 'Então o que foi aquilo?' voltei a abraça-lo, sem responder, ele passou o braço livre em torno de mim. Ficamos em silêncio por algum tempo, eu sorri, era bom estar com Marco. 'Vamos sexta na sorveteria, por favor. A gente não precisa sentar com o pessoal.' neguei mais uma vez, parecia que era só aquilo que eu sabia fazer. 'Por favor. Pode ser tipo nosso primeiro encontro, que tal?'
'Não quero um encontro em que eles estejam, nem em que eu não possa encostar em você.' bufei, ele riu. 'É sério, Marco... E sobre o estacionamento: Reiner quis propor um tratado de paz, só isso.' levantei a cabeça, apoiando o queixo onde minha testa estava anteriormente, de modo que eu pudesse vê-lo e sorrir. 'Se você quiser um encontro podemos ter um, mas aqui em casa. Eu posso cozinhar, a gente pode ver algum filme, mas sem sair...' ele negou, suspirei, beijei sua bochecha. 'Por favor...'
'Não. Eu vou continuar insistindo até você aceitar.' revirei os olhos e sentei direito na minha cadeira, peguei o envelope que ele havia deixado na mesa e abri. 'Não enquanto eu estiver aqui, vou ficar com vergonha.' riu ruborizando um pouco, assenti, colocando-o de volta na mesa. A mão dele ainda percorria meu cabelo. 'Eu ainda quero que você vá na sexta feira...' bufei e ameacei a levantar, mas ele me segurou com a mão livre. 'Eu prometo que eles não vão te importunar. E prometo que, se você quiser, podemos agir como um encontro.' parei para pensar sobre aquilo, eu nunca havia saído em um encontro antes, não sabia o que exatamente significava agir como um. Segurar as mãos, talvez, e até mesmo se beijar, balancei a cabeça afastando o pensamento: obviamente não beijaria Marco em público, não queria causar nenhum problema para ele e com certeza os amigos dele agiriam feito espécimes primitivos privados de razão se nos vissem nos beijando. 'Por favor.' estendeu-se no último "o" e fazendo cara de cachorro sem dono.
'Eu sempre preferi gatos porque eles não fazem isso, sabia?.' revirei os olhos, Marco riu. 'Ok, ok, eu me rendo. Mas você vai ficar me devendo uma.' seu sorriso se alargou, sorri de volta. Era gratificante vê-lo feliz e saber que eu quem o havia deixado daquela maneira. Seu telefone tocou, ele atendeu, era Reiner, me soltou.
'Não, mas to perto. Onde? Na casa da frente, por quê?' esperou a resposta e aumentou o tom de voz. 'Não chama ele assim, Braun. Por que você quer saber onde eu to?' tentei ouvir o que o outro falava, mas o volume do celular de Marco era baixo. 'Ah, claro. Então eu vou praí.' desligou o telefone, me olhou pedindo desculpas, eu assenti, ele me deu um selinho e se levantou. O acompanhei até a porta, o carro de seu companheiro de time estava estacionado em frente à minha casa. 'O treinador acabou de pedir pra gente ir pra escola treinar um pouco mais, ele não gosta que a gente treine no dia anterior ao jogo então ele conseguiu que tivéssemos o treino hoje como extra ao invés de amanhã, desculpa, sério.' eu sorri, dizendo que não havia problema algum, vi Reiner passando por cima de Bertholdt — que estava no banco do motorista — para buzinar, Marco mostrou-lhe o dedo do meio e logo em seguida me abraçou. 'Te vejo amanhã.' sussurrou me dando um beijo no pescoço, mas logo foi em direção ao carro gritando. 'Calma, caralho, to indo, como você é impaciente, cara!' riu, eu fechei a porta logo, imaginando se eles haviam visto a cena direito, preferi pensar que não.
Peguei a carta de cima da mesa e fui para meu quarto, deitei na cama e a abri. Vi que no final da carta havia a data de quando fora escrita: 7 de abril de 2012. Sorri quando vi que ela começava com um parabéns. Comecei só passando o olho pelas palavras, sem realmente ler, só observando a caligrafia, o quanto ele pressionava a caneta no papel, percebi que às vezes o traço ficava mais forte, geralmente quando ele falava sobre algo que havia observado em mim no dia, mas não dei muita atenção.
Era uma carta não muito longa, mas ocupava frente e verso, tinha diversas rasuras, puladas de linhas desnecessárias e além disso sua letra não era pequena e os espaços entre as palavras um pouco maior do que o normal — apesar desse último detalhe ser quase imperceptível. Decidi ler a carta direito, tentando imaginar a voz dele falando tudo aquilo, era realmente um pouco vergonhoso, mas bonitinho. Em algum momento ele mencionava que estava chovendo, mas ele estava errado, naquele dia não havia chuva e sim uma tempestade, das fortes. Lembrava muito bem de como fora aquela data, na escola tudo havia corrido bem, Sasha havia levado um bolo — não de aniversário, só um bolo — e Armin a obrigara a dividir com todos nós por conta do meu aniversário. Fui poupado das brincadeiras babacas do time de basquete, mas em casa ser uma data diferente não me impediu de levar uma surra do meu pai como sempre. Minha memória não havia guardado o motivo, só conseguia lembrar que no fim ele disse um feliz aniversário e riu, saindo de casa — depois daquilo ele só voltara semanas depois para pegar suas coisas, mais nada — e havia uma tempestade do lado de fora da janela, me encolhia a cada trovão, lembro bem disso.
Lembro de ter tentado observar Marco, mas eu chorava de raiva, chorava de medo, chorava tanto que tudo o que eu podia ver era uma figura embaçada que parecia ser ele, com as luzes do quarto acesas. Lembro também de ter ficado bem perto do parapeito, de ter tocado o vidro e de um trovão muito alto ressoar e eu cair no chão, desabando em todos os sentidos da palavra.
Continuei a carta, me forçando a sair de minha digressão, não me fazia bem lembrar daquele dia, apesar de ser algo deveras frequente — pelo menos mais frequente do que eu gostaria. Mais tarde ele dizia que ele estava me olhando e se perguntando o porque de meu quarto estar sempre escuro, também citava o exato momento em que eu fui até minha janela e toquei o vidro. Era interessante ler aquilo de outro ponto de vista, e eu tinha de admitir que era um pouco embaraçoso ele ter visto aquela cena. Ao fim da carta ele questionava se era realmente são amar alguém com quem nunca tivera contato e concluía que não importava porque ele amava e ponto, não queria que tivesse nada de são ou racional naquilo. Mais uma vez me desejava um feliz aniversário e encerrava a carta algumas palavras depois assinando seu nome e colocando a data ao lado.
Guardei novamente aquilo dentro do envelope e o coloquei na minha cabeceira, decidindo o que faria pelo resto do dia e concluindo que provavelmente era melhor estudar, mas simplesmente virando de lado e dormindo mais um pouco. Sonhei algo completamente louco, uma realidade diferente da minha, onde eu usava um aparelho estranho que me locomovia pelo ar, Marco não estava lá. Acordei com um aperto no coração e decidi reler a carta para me acalentar.

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