Rain Sound
12 Capítulo 12
Notas iniciais
"’Ela viu tudo, Marco...’ ele chegou perto de mime ajoelhou na minha frente, me abraçando. ‘Ela viu as minhas cicatrizes todas.’”
~~
Tudo aconteceu muito rápido. Num intervalo de duas semanas.
Duas semanas repletas de chuvas e de tempestades. Duas semanas é um tempo muito curto, se você analisa bem. Muito pouco tempo.
Eu, sentado na cama de Marco, estava sem reação alguma, sem movimento algum. Estava sem. Não sabia o que pensar, o que sentir, o que dizer. Eu havia escondido aquele segredo do mundo por tanto tempo e mais alguém saber dele era devastador. Lembrei-me de quando Marco e eu começamos a nos falar, de quando ele descobriu.
O fato é: Marco Bodt me aceitou como eu era desde o principio. Ele sabia das dificuldades que teria ao se relacionar comigo, sabia que não seria um mar de rosas e, mesmo assim, se propôs a aguentar o que tivesse que e estar ao meu lado para o que desse e viesse. Minha mãe não.
Ela me conhecera desde recém-nascido, desde até antes disso. Desde a primeira vez que eu chutei dentro de sua barriga. Ela me viu nascer, todo cheio de sangue e placenta e qualquer coisa que saia junto com um bebê. Ela me viu cair as primeiras vezes, viu minha pele ser lentamente acostumada a machucados, viu minha cicatrização rápida agir desde o início. Depois viu todos os machucados causados por um bêbado. E mais nada.
Eu vi em seus olhos a imagem daquele bebê ensanguentado e o medo de um dia ela entrar em meu quarto e me ver ensanguentado por um motivo totalmente diferente.
Em algum momento — e tanto ela quanto eu sabíamos bem qual — ela havia parado de prestar atenção e eu havia começado a usar mangas compridas, a nunca mostrar nenhum centímetro de pele de meus braços ou costas. E ela não havia notado, não havia nem tentado, nem se preocupado. E ver minhas cicatrizes a fazia lembrar de todos os seus erros e dos motivos pelos quais ela estava se divorciando e de tudo o que ela queria esquecer. De tudo o que ela queria voltar no tempo e mudar.
A culpa era minha. Fora um descuido meu. Eu havia ficado tão confortável na presença de Marco — alguém que me aceitava com todos os poréns e todos os lados ruins — que acabei esquecendo de tomar cuidados que eu geralmente tomava. A culpa era minha.
'Ninguém tem culpa, Jean.' ele respondeu, me fazendo perceber que eu havia dito aquilo alto. 'Aconteceu, amor. Ela tava tentando não fazer você e seu pai se encontrarem e acabou errando ao não bater antes de entrar. E você tava no seu quarto, achando que ela não ia chegar tão cedo e foi pego desprevenido, só isso.'
’Não é só isso.’ disse de maneira dura. ‘Você não vai entender, você nunca teve um segredo que te deixava tão vulnerável. Nunca teve que esconder uma coisa tão grande. Não espero que você entenda…’
'Eu tive que esconder minha queda por você por muito tempo, Kirschtein.' respondeu de maneira dura, o que me fez olhar para ele. 'Eu entendo o seu lado. Meu irmão passou por isso, Jean, eu sei como você se sente. Eu sei o quão horrível é ter alguém que descubra isso e eu sei o quanto você vai sofrer até amanhã, até conversar com sua mãe. Mas depois dela dizer que te ama igual e pedir desculpas porque ela vai achar que a culpa é dela vai ficar tudo bem.' ele sentou do meu lado e me abraçou. 'Vai ficar tudo bem, Jean. Sua mãe vai te aceitar como você é. Se eu, um completo desconhecido, aceitei, como ela não faria o mesmo?' eu afundei meu rosto no ombro dele e o abracei de volta, fechando os olhos e agarrando o tecido de sua blusa.
'Eu não quero que as pessoas saibam, não quero que achem que eu sou idiota, fraco… Eu não quero isso.' seus dedos acariciavam minhas costas, bem onde ele sabia que haviam cicatrizes.
'Ninguém precisa ficar sabendo. E mesmo se ficar, nenhum dos nossos amigos vai pensar isso de você, Jean.' Marco me deu um beijo na cabeça. 'E se não ficar tudo bem você pode se refugiar aqui em casa. Certeza que meus pais vão aceitar você de boa.' sorri bem de leve e dei um beijo em seu ombro. 'Vai ficar tudo bem, tá?' eu assenti.
'Tem que ficar…' falei bem baixo. 'Eu não gosto dessa ideia de ele estar lá. Não era pra isso ter acontecido, não era o combinado.'
'Eu sei, amor, eu sei. Mas essas coisas acontecem às vezes. Olha pelo lado bom: eles tão se divorciando. Depois disso tudo você não vai correr risco algum de ver esse cara de novo na sua casa.' assenti mais uma vez. Marco não conseguiria entender o quão complicada a presença daquele homem era para mim.
Ele não conseguiria entender quanto medo eu tinha de deixar minha mãe sozinha com ele. Fora ele quem começara tudo. Minhas cicatrizes só existiam por causa dele, minha relação, por muito tempo, horrível com minha mãe e com o mundo lá fora só existia por causa dele. Aquele homem não havia colocado ou causado nada de bom nesse mundo e para esse mundo. Mas Marco não conseguia entender aquilo. Porque, graças a sabe-se lá o que, ele não havia passado por momentos como os que eu havia.
E ele não me entender nunca me fazia tão feliz quanto com relação a esse tópico.
'Posso te dar o desenho agora?' eu assenti. Marco me soltou para ir buscar o que queria. Ele era tão bonito. Senti um aperto forte no peito, uma vontade de beija-lo com toda a paixão que eu tinha e aceitar seu pedido maluco de casamento. Mas minha sanidade me impediu. Eu podia estar mal, mas ainda estava são o suficiente para saber que aquilo era loucura. Meu namorado me entregou o papel e eu sorri a ver o desenho. 'Espero que você goste.'
'Claro que eu vou gostar. Foi você quem fez, ou seja: tá lindo. E eu não to falando isso porque eu te amo e acho que tudo o que você faz é perfeito ou nenhum clichê desses. To falando porque você manda bem de verdade em desenhos.' ele revirou os olhos e sorriu para mim. Coloquei o desenho em cima de sua prateleira e o puxei para perto de mim. 'Obrigado.'
'Não precisa agradecer não. Você ter gostado já é gratificante pra mim.' ele sentou no meu colo.
'Não pelo desenho. Por tudo.' Marco abriu a boca para falar, mas acabou por apenas sorrir e assentir. 'Não sei o que seria da minha vida sem você… Às vezes tudo ainda parece muito irreal. Como se fosse um sonho e eu fosse acordar um dia sem você. Eu não quero acordar um dia sem você lá…' o abracei com força. 'Parece que tudo tá muito bom pra ser real.'
'E você fica todo instante com medo que algo dê errado, que tudo acabe de repente…' aquilo foi uma afirmação, não uma pergunta, mas assenti de qualquer maneira. 'Eu sei como é, Jean. Mas não vai acontecer. Eu acho que é um medo normal de começo de namoro. Principalmente quando você coloca expectativas muito grandes na relação, sabe… Pelo menos eu quero passar o resto da minha vida com você. E eu sei disso, eu tenho essa certeza em mim. Mas como a gente é muito novo é difícil fazer esses planos.' ele beijou o topo de minha cabeça. 'Tá tudo bem. E vai ficar tudo bem, ok?’ eu assenti. No fundo havia algo em mim que não cria no que ele dizia, mas o resto todo agarrou suas palavras com força.
Ficamos em silêncio. Havia algum tempo que aquele silêncio parara de nos incomodar. Era nele que mais nos sentíamos perto um do outro. Marco apendera a me confortar com só um olhar ou só um toque e vice-versa. Por mais certas que nossas palavras fossem – e costumavam ser quase sempre -, elas não eram mais tão necessárias.
Mas minha cabeça não estava com Marco naquele instante de silêncio e sim na preocupação insistente de deixar minha mãe e aquele homem sozinhos. Por mais que meu namorado e ela me insistissem que ficaria tudo bem, eu não gostava da ideia de correr o risco. Ele e, portanto, sua presença eram ameaçadores. Despertavam um medo irracional – talvez nem tanto – em mim.
Assim que Bruno chegou decidimos ver alguns episódios de Doctor Who para ocupar minha mente. Não que aquilo tenha surtido muito efeito.
Foi uma das noites mais difíceis que eu havia tido até então e desde que havia começado a dormir bem. Demorei duas horas para pegar no sono, enquanto Marco dormiu quase que instantaneamente ao deitar na cama e dizer boa noite.
Eu virei e revirei no colchão, incomodado. Bem mais incomodado do que o normal. Quando consegui dormir não tive sonho algum. Ou talvez aquele vazio tenha sido meu sonho. De alguma maneira bizarra, a possibilidade fazia todo o sentido do mundo..
O dia seguinte foi tenso para mim. Mas ninguém pareceu perceber.
Reiner e Bertholdt estavam felizes de terem se assumido para as famílias e todo de nosso grupo pareciam bastante orgulhosos dos dois. Marco disse, mais tarde, que os caras do time de basquete os aceitaram como casal tranquilamente e sem problema algum. Ymir e Christa não pararam de falar que o aniversário de namoro delas estava chegando. A morena afirmava estar preparando a maior surpresa do mundo para sua namorada, que só permanecia sorrindo, como que tem um segredo e sabe que não será descoberto.
Marco segurava minha mão por baixo da mesa com força, mas não dizia nada para mim. Nem me olhava direito. Ele sabia que eu estava tão estável quanto uma partida de Jenga. Bastava tirar a peça errada para que eu desmoronasse. E, assim como no jogo, a partida só acabaria quando isso acontecesse. E a cada espera por um próximo movimento, a tensão aumentava.
Foi daquele jeito o dia todo. E Marco ficou comigo o dia todo. Esperando minha mãe chegar em casa, esperando o momento que eu mais temia. Se eu pudesse adiar aquele momento para sempre eu o faria sem sombra de dúvida. Meu namorado e eu estudamos em silêncio a tarde toda. O máximo que falávamos era para tirar dúvidas quanto às matérias.
Ouvir minha mãe chegando foi horrível. A ansiedade e o medo me corroíam por dentro, eu queria que alguém fizesse logo o próximo movimento. Eu precisava daqueles segundos de alívio antes de uma próxima jogada ou, pelo menos, saber que aquela era a última e que eu desmoronaria logo. Que o jogo findaria logo.
Marco segurou minha mão com força. Minha mãe bateu na porta do quarto.
‘Entra.’ respondi o mais audivelmente que pude e minha mãe o fez, com um sorriso doce no rosto.
‘Vocês querem escolher um sabor diferente de pizza ou preferem o de sempre?’ o polegar de meu namorado acariciava minha mão, eu dei de ombros. ‘Então chamo vocês quando a pizza chegar, ok?’ ela virou-se para sair do quarto.
‘Mãe.’ a chamei sem pensar. ‘Acaba logo com isso, por favor.’ ela sorriu, novamente, olhando para mim.
‘Meu filho...’ ela respirou fundo, puxou minha cadeira da escrivaninha e sentou. ‘Vou só pedir a comida primeiro.’ eu assenti.
Minha mãe pegou seu celular e fez o pedido. As mãos de Marco nas minhas já não faziam a mágica costumeira, meu coração batia forte e descompassado. Eu não queria ter aquela conversa porque não fazia ideia de como ela aconteceria, muito menos sabia os possíveis resultados dela – o que me deixava mais aflito do que o necessário. Respirei fundo quando ela desligou o telefone.
‘Desde quando?’ ela era quase tão direta quanto eu, especialmente quando – assim como no momento – estava nervosa ou ansiosa.
‘Desde que ele começou a descontar sabe-se lá o que em mim.’ meu namorado soltou minha mão, o que me deixou um pouco desnorteado, mas entendi que ele queria que eu conseguisse revolver aquilo por mim mesmo. ‘Costumava ser frequente. Ou todo dia ou toda semana. Agora faz algum tempo que eu não faço nada. Não que eu não tenha vontade, mas Marco confisca todas as lâminas que ele encontra, então começou a ficar caro ficar repondo elas o tempo todo.’ ela assentia, escutando com atenção. ‘Eu não queria que ninguém visse.’
‘E eu não queria que tivesse algo para ver, mas as coisas não são assim...’ seu sorriso fraco me surpreendeu um pouco. ‘Bom, fico mais aliviada em saber que você teve algum amparo e ainda o tem, mesmo que seja recente. Eu não posso brigar com você nem nada do tipo, querido. Acho importante você saber que eu te amo, que estou aqui agora e que a única coisa que sinto é arrependimento de não ter estado do eu lado. Porque eu sei que podia ter impedido isso...’
‘Mas você sabe que a culpa não é sua, né? Tipo, que você não necessariamente podia ter me impedido.’ ela não olhava nos meus olhos. ‘Mãe, é importante você saber disso. Não é culpa sua. Tá?’ ela assentiu levemente, quase que de maneira imperceptível. Minha mãe deu uma risada baixa, arqueei uma sobrancelha.
‘Acho que pedir que você não faça mais isso não vá mudar muita coisa, certo? Eu só quero que você me garanta que eu vou saber se algo acontecer...’ ela respirou fundo. ‘O que você acha de fazer terapia?’ balancei a cabeça com força.
‘Jamais.’ respondi sem hesitar. Marco suspirou, olhei para ele. ‘Não, eu não preciso disso.’
‘Jean, às vezes é bom...’ minha mãe começou a falar, mas eu a interrompi bruscamente.
‘Não. E se essa conversa continuar indo por esse caminho eu prefiro parar agora do que gastar tempo e saliva repetindo meu claro não.’ meu namorado bufou atrás de mim. ‘Eu não garanto que vá dizer se eu fizer algo. Pra nenhum de vocês. Eu já to me esforçando pra não fazer nada, por que isso não pode ser o suficiente?’
‘É suficiente, Jean. Foi só uma ideia. Pra, quem sabe, você não precisar fazer todo esse esforço sozinho.’ minha mãe rebateu, eu abri a boca para retrucar. ‘Só uma ideia. Pronto.’ eu assenti, minha mãe esticou o braço e pediu minha mão, eu segurei a dela – de modo que a fez sorrir. ‘Vou deixar os dois sozinhos agora... Eu aviso quando a pizza chegar.’ eu assenti e ela saiu do quarto, sorrindo seu sorriso fraco.
Ficamos um tempo em silêncio. Marco sem tocar em mim, eu sem virar o rosto para olha-lo. A tensão anterior se dissipara quase que totalmente.
Eu sabia que ele diria algo sobre a ideia de minha mãe. Eu sabia que ele incentivaria aquilo E eu não queria discutir aquele assunto. Queria só que ele aceitasse meu não e fim de papo. Mas Marco não funcionava dessa maneira. Marco não deixava de lado aquilo que considerava importante. Respirei fundo e olhei para ele, finalmente.
‘É uma boa ideia.’ revirei os olhos. Ele pegou minhas mãos, estendendo meus braços e arregaçando minhas mangas. Tentei para-lo, mas ele era bem mais forte do que eu. ‘Eu olho pros seus braços e eu penso que eu não posso te ajudar. Isso me mata, Jean. Por egocentrismo, que seja, mas também por medo de você entrar em algo que não vai conseguir sair de depois. Olha, só pensa bem. Não nega uma ajuda sem pensar bem. Se depois de pensar o seu “não” permanecer eu não toco mais no assunto. Que tal?’ ele mordeu o lábio inferior, não respondi imediatamente, fiquei observando enquanto ele esperava – claramente ansioso. ‘Por favor...’
‘Tá.’ respondi. ‘Eu vou pensar. Só não garanto nada.’ ele sorriu e apertou minhas mãos.
‘E minha outra proposta?’ perguntou dando beijos em minhas mãos e braços. Fiquei confuso por um instante, mas, ao entender, arregalei os olhos – surpreso por ele estar realmente falando sério. ‘Você não me levou a sério, né?’
‘Marco...’ ele me interrompeu.
‘Eu te amo, Jean Kirschtein. E eu quero viver contigo pro resto da minha vida. Eu quero estar contigo até o fim dos meus dias. Eu sei que a gente é muito novo e tudo o que a gente tem é muito recente, mas...’ ele respirou fundo. ‘Eu tenho medo, Jean. Eu às vezes olho pro seu braço e eu tenho medo... Porque eu sei que eu não curei você milagrosamente, meu amor. Eu sei que essas histórias de que o amor cura tudo são só histórias e isso me apavora. Porque eu amo você. Amo você e tenho medo...’ do andar de baixo minha mãe nos chamava, antecedida pelo barulho da campainha tocando. ‘Eu te dei quase vinte e quatro horas pra pensar nisso. Sei que foram horas conturbadas, mas... Por favor, me responde um sim ou um não.’
‘Depois da janta.’ disse sem olhar nos olhos dele. ‘Eu te dou uma resposta depois da janta.’ Marco me puxou para junto dele e me deu um beijo, que me arrepiou inteiro.
Aquele pedido era uma grande questão para mim. Ele me deixava em contato com os mesmos medos que Marco tinha. Me fazia entender e perceber o quão frágil e pequeno eu era. O quão fora da realidade esperada eu era às vezes.
Eu também, às vezes, olhava para minhas cicatrizes e me perguntava quanto tempo mais eu ficaria sem fazer uma nova. Eu também, às vezes, olhava pra mim mesmo e me perguntava quando seria o dia em que Marco ou até mesmo minha mãe abririam a porta do meu quarto e deparariam comigo, mas não comigo de fato. Deparariam-se com um corpo que já foi meu, que já fui eu, mas que estaria sem vida, sem pulso, sem ar, sem nada.
Todos os medos de Marco eram medos meus também. Todos eles. E parecia, para mim, que aceitar aquele pedido era me deixar mais próximo da realização daqueles medos todos.
Os dois conversavam sobre algo à mesa. Algo que eu não sabia o quê. Eu não estava prestando atenção nas palavras deles e sim neles dois. Minha mãe sorria agora. Ela via em Marco uma salvação, ela via em Marco uma segurança. Quando seu olhar encontrava o meu, ela sorria mais. Ela percebia minha força e minha luta, tanto quanto eu percebia a dela. Meu namorado estava rindo. Seus olhos brilhavam, como se de felicidade, mas eu sabia que tudo aquilo era ansiedade. Me percebi sorrindo com eles.
Ao contrário de no meu cotidiano anterior a Marco, aquela casa parecia mais iluminada agora. Parecia mais cheia de vida. Mesmo quando eu estava sozinho nela. Era tudo mais colorido, tudo mais tranquilo. Mas meu cérebro continuava trabalhando à milhão. Todo o turbilhão de pensamentos e preocupações continuava lá – talvez em momentos seletos, ao contrário de antes, que aquilo era tudo o que existia para mim.
Era razoavelmente comum colocar na balança o que eu fui e o que eu era no momento. Era comum eu fazer comparações do meu antes e depois. Não só desde que Marco e eu começamos a namorar, mas desde que eu consegui me desvencilhar dos meus amigos tóxicos. Eu havia percebido que toda a minha mudança começara em mim mesmo e por minha causa. Marco só havia potencializado isso. Fora eu quem escolhera começar a passar mais tempo com Ymir e Christa ao invés de com meus antigos amigos. Fora eu quem escolhera deixar Marco entrar em minha vida. Fora eu quem escolhera ser sincero sobre o que eu sentia e acreditar na sinceridade dele e de todos os que me cercavam. Fora eu quem escolhera – e conseguira – perdoar minha mãe depois de tudo. Era eu quem escolhia ligar para Marco ou dormir toda vez que sentia o meu controle se esvair e a vontade de rasgar minha pele aumentar. Era comum eu perceber que Marco e meus amigos me ajudavam muito e me davam força, mas que eu mesmo fazia as escolhas que melhoravam minha vida.
Olhei mais uma vez para meu namorado, eu tinha de decidir o que dizer a ele.
Marco segurava a pizza na mão. O queijo derretido escorria da massa e acabou caindo quase todo em seu prato, o que arrancou dele uma expressão de desespero misturado com irritação e de mim uma gargalhada. Ele olhou para mim e sorriu. E foi naquele momento que eu decidi minha resposta.
Naquele sorriso eu vi um futuro. Um futuro que mesmo se fosse curto, mesmo se durasse só mais um dia ou mais cinquenta anos, era um futuro o qual eu queria. Naquele sorriso eu não tive medo, então assenti e sorri de volta. Sabia que aquele gesto não teria para ele, na hora, o sentido que tinha para mim. E que, muito menos, teria para minha mãe qualquer sentido. Mas foi naquele sorriso que meu sim emergiu forte e para ficar. Porque eu não tinha mais medo, eu tinha certeza do que eu queria.
Com aquela decisão tomada, consegui sair de mim e prestar atenção de fato ao mundo que me cercava. À mesa farta e à família reunida. À conversa das duas pessoas que eu mais amava no mundo todo.
‘Eu não sei o que acontece... Eu só não consigo entender nada do que aquele cara fala!’ meu namorado bufou. ‘Mas se eu pego o livro pra ler eu entendo tudo! Então o problema não é a física e sim o professor.’
‘Ou você.’ apontei a possibilidade, zombando. ‘Eu, que sou eu, entendo o que ele fala. Quando eu presto atenção, claro.’ minha mãe riu baixinho, mas logo depois assumiu uma postura de reprovação. Ela ainda estava aprendendo a ser mãe, eu sorri para ela. ‘Mãe, nem tenta.’ ela riu mais uma vez.
‘Contanto que você continue conseguindo passar de ano.’ deu de ombros. ‘Mas talvez o problema seja esse professor ter um ritmo muito diferente do seu, Marco.’
‘É, ele é bem acelerado e o Marco é mais lerdo.’ meu namorado revirou os olhos. ‘Ué, é verdade. Você só é rápido na quadra, cara, porque na vida...’
‘Isso não é verdade, Jean!’ ele fez biquinho. Meu namorado encarou seu prato e todo o queijo derretido e escorrido por um instante e levantou o olhar para mim.
‘Mão.’ respondi seu olhar. ‘A não ser que você vá lavar a louça sozinho. Aí pode usar o garfo.’ ele sorriu. Minha mãe me deu uma bronca. ‘Ué, é assim que as coisas funcionam pra mim. Pra que dar trabalho extra só por regras idiotas de etiqueta? Sou super contra essas coisas. Eu comeria o queijo com a mão. Especialmente porque eu to em família e ninguém ligaria. E a gente vai ter que concordar que o Marco é família.’
‘Obvio que é. Mas se ele se sentir mais confortável usando o garfo ele não precisa se preocupar com o trabalho que será lavar a louça.’ minha mãe respondeu. Ela olhou para Marco, sorrindo docemente. ‘Se preferir comer com a mão não faz mal, querido. Eu mesma tenho dias que faço isso.’
‘Minha mãe, às vezes, é tão criança quanto a gente, né...’ brinquei. Ela revirou os olhos, sorrindo.
Marco acabou optando por comer com o garfo, depois de um tempo de claro conflito interno. Eu sabia que ele queria comer com a mão, mas meu namorado era bastante ligado a essas regras básicas de etiqueta e não conseguiria se desprender delas assim facilmente. Eu e minha mãe demos de ombros, nenhum de nós dois se importava com como Marco comia.
Ao acabar a janta, nós tiramos a mesa e nos oferecemos para lavar a louça, mas minha mãe nos dispensou. Normalmente eu insistiria até ela agradecer e, visivelmente cansada, dar um beijo em minha bochecha, um na de Marco e ir se jogar no sofá para assistir alguma coisa na televisão. Mas eu precisava subir logo, precisava falar com meu namorado logo. Eu acabara ficando tão ansioso quanto ele. E nós dois percebíamos isso. Então simplesmente agradeci, dei um beijo nela, peguei meu namorado pela mão e nos guiei de volta ao meu quarto.
Ele se jogou em minha cama e suspirou, fazendo algum comentário sobre como ele tinha comido bem. Marco fechou os olhos, sorrindo. Tranquei a porta, só por precaução. Me perguntava o que se passava em sua cabeça no momento. Ele começou a falar sobre como gostava de minha mãe, como ela sempre era amorosa e uma segunda mãe para ele. Mas, ao mesmo tempo, ele conseguia se conectar com ela de uma maneira que não conseguia com a própria mãe.
Ele não queria me pressionar. Queria que eu desse minha resposta no meu tempo. Deixei ele falar o tanto que precisava – sabia que ele estava tentando aliviar sua própria tensão – enquanto me aproximava dele. Sentei ao seu lado na cama. Marco abriu os olhos e também sentou, me encarando. Suas mãos buscaram as minhas e ele esperou.
‘Amanhã.’ eu disse.
‘Jean... Por favor... Eu sei que é um pedido complicado e você precisa pensar, mas...’ ele retrucou, mas eu o interrompi com um beijo.
‘Nós casamos amanhã.’ disse quando nos separamos. Marco sorriu um daqueles sorrisos maravilhosos. O mesmo sorriso que me fez decidir, o mesmo sorriso do qual lembrava quando algo ruim acontecia. ‘Você acha que o Bruno faria esse favor pra gente? Porque eu não quero que as pessoas todas saibam. Quero que seja algo reservado...’
‘Claro. Eu já falei com ele, na verdade...’ ele riu, desconsertado. ‘Sei que não deveria ter feito isso sem te pedir, mas... É que eu já estava pensando nisso tudo há algum tempo... Nessa possibilidade maluca...’ eu bati em seu ombro, brincando. ‘Eu te amo tanto, Jean.’ ele me beijou.
Nós dois estávamos mais aliviados, eu podia sentir isso. Mas, por algum motivo, ainda havia uma tensão em mim. Um medo. Um medo que eu ignorei, pensei que ele fosse sumir logo... Naquela noite Marco foi de volta para sua casa e, antes de dormir me mandou uma mensagem de boa noite me chamando de noivo.
J.K.: Otário. Eu te amo.
marco: te amo muito
O dia seguinte demorou a passar. É comum que isso aconteça quando estamos muito ansiosos para algo. Mas foi cheio de olhares envergonhados e animados. Marco e eu nos sentíamos como duas crianças que escondiam doces de seus pais para poder comer antes de dormir sem ter que escovar os dentes.
Aquela sensação de travessura, mesmo não estando fazendo nada de errado, era muito boa. Sentíamos nossos sangues correndo por nossas veias, nos sentíamos vivos. Mesmo sem nos tocarmos direito, nós dois conseguíamos sentir a presença um do outro, o corpo um do outro, a alma um do outro e nossos próprios corpos e almas também. E aquilo era incrível. Era uma espera agoniante, mas era uma agonia deliciosa.
Fomos cada um para sua própria casa, combinamos de nos encontrar perto do horário que Bruno chegava em casa normalmente. Havíamos chegado ao acordo de que nenhum dos dois precisava estar muito bem arrumado, seria tudo bastante simbólico. Mesmo assim, coloquei a roupa de nosso primeiro encontro. Queria que fosse especial. Mais especial do que já seria. Queria que fosse nosso, que fosse íntimo.
Cheguei junto com meu cunhado. Ele sorriu para mim.
‘Vocês dois... São malucos, isso sim.’ ele riu e me abraçou. ‘Você é a noiva? Por isso tá chegando junto comigo pro noivo não te ver?’ revirei os olhos.
‘Não tem noiva, cu.’ chamei ele pela primeira sílaba de “cunhado” em um trocadilho.
‘Mano, eu juro que se você for começar a me chamar assim eu não vou casar ninguém. E ainda paro de ajudar você a convencer o Marco de ver Doctor Who.’ nós dois rimos. Sabíamos que era tudo uma grande brincadeira. E, aparentemente, Bruno estava sentindo quase a mesma ansiedade que nós. Notei pelo jeito que ele sorria, mais largamente do que o comum. E pelo jeito que ele estava mais perto de mim do que normalmente. Ele estava feliz por nós dois.
Por algum motivo tudo aquilo parecia muito certo. Parecia o momento exato.
Foi uma “cerimônia” bastante simples. Bruno leu algumas palavras da tela de seu celular, se enrolando um pouco algumas vezes, Marco segurava minhas mãos e eu as dele. Nós dois falávamos quando Bruno podia pular alguma parte chata do discurso. Nenhum de nós havia preparado votos para dizer, então dissemos para ele pular, mas meu cunhado insistiu que improvisássemos, alegando ser uma parte muito importante do processo. Ele tirou uma caixinha do bolso, sorrindo e a abriu, mostrando dois anéis e duas correntes lá dentro. Ele entregou um de cada para cada. Marco foi quem começou a falar.
‘Ok... Eu não sei muito o que falar, na verdade. Acho que já deixei bem claro tudo o que sinto nesses últimos dias. Já disse meus motivos pra querer consumar um casamento com você, meus motivos pra achar que esse é o momento, já disse tudo... Eu amo você, Jean. Amo você com tudo o que eu sou, com tudo o que eu vou ser um dia. Te amo até o fim da minha existência. E eu digo existência porque se existir vida após a morte eu tenho certeza que meu amor por ti vai durar até lá e para todo o sempre.’ ele sorriu, um pouco ruborizado, abriu a corrente, colocou o anel dentro dela e a colocou em meu pescoço. Bruno assentiu, revirando os olhos – claramente insatisfeito com a simplicidade do que seu irmão disse – e apontou a cabeça para mim.
‘Marco, eu tive medo. Por quase toda a minha vida – não que ela seja muito longa – eu tive medo. Medo de chegar em casa um dia e não ver minha mãe lá. Medo de estar sozinho. Medo de não ter forças para sobreviver mais um dia. Medo de viver e medo de morrer. A minha vida toda eu tive medo.’ respirei fundo. ‘Eu tinha medo de amar. E eu acabei me apaixonando por alguém quem eu nunca pensei que teria... Por algum motivo as coisas deram certo. Mesmo tudo parecendo tão escuro no meu futuro. Desde a primeira vez que eu e você ficamos juntos, desde nosso primeiro beijo, eu sabia que era você. Eu sempre soube. E o meu medo foi indo embora. As coisas começaram a dar certo, a se encaixar. Eu ainda tenho medo, Marco. Eu tenho medo de não ser forte o suficiente. Eu tenho medo de um dia acordar e você não estar mais lá. Eu tenho medo de ficar sozinho. Mas enquanto eu estou com você eu não penso em nada disso. Eu só penso que eu não tenho medo de amar mais. E isso eu devo a você.’ peguei mais ar. Eu sentia meu rosto queimar. ‘Eu te amo pra sempre. Eu te amo mais do que tudo. Eu amo você mais do que eu me odiava. E eu não me odeio tanto porque você me ensinou a gostar um pouco mais de mim. Nós dois, Jean e Marco, somos pra sempre. Até nosso último suspiro.’ eu fiz o mesmo que meu namorado – agora noivo e em pouco tempo marido... – com o anel e a corrente e coloquei em seu pescoço.
‘É disso que eu to falando!’ Bruno comemorou. Marco e eu rimos. ‘Você precisa aprender com ele, mano. Mas enfim. Pelo poder a mim investido por mim mesmo, eu os declaro marido e marido. Podem se beijar, mas, por favor, lembrando que tem um menor de idade inocente aqui que não precisa ver pornografia do próprio irmão.’ nós nos demos um selinho demorado, em respeito a Bruno. Mas, sinceramente, minha vontade era jogar Marco na cama naquele momento e consumar aquele casamento.
Aquelas palavras todas – marido, noivo, namorado, casamento – não soavam pesadas, não soavam absurdas, não soavam como destoantes da realidade. Por algum motivo... Por algum motivo tudo aquilo parecia tão certo.
Eu e Marco havíamos casado. Não legalmente, mas nos sentíamos casados. Nos sentíamos eternos.
Jean e Marco era pra ser. Era pra ser eterno.
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