Rain Sound

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Minha primeira fanfic de SnK no site, minha primeira fanfic JeanMarco da minha vida, espero que vocês gostem. É uma fanfic pesada....... E yaoi.... Não me matem pfvr e-e

Sempre achei peculiar — eu diria engraçado, mas talvez não seja a palavra certa — como em filmes, seriados, livros, etc, a chuva sempre acompanha os momentos tristes. Talvez seja algo sobre a paisagem cinzenta, a falta de cores... Talvez os pingos de chuva lembrem as pessoas das lágrimas... Só sei que sempre gostei da chuva. Desde que me lembro. Ela me acompanhou por momentos ruins, mas por bons também. Pra mim a chuva é um modo de limpar a alma. O que sempre me preocupou mesmo foram as tempestades e delas minha vida sempre foi cheia. Naquele momento chovia e eu observava as gotas caindo do céu no chão lá do lado de fora da janela, o barulho quase formando uma melodia, uma cantiga de ninar. Tive que me vigiar para não cair no sono no meio da aula.

O professor falava sobre alguma forma geométrica que não me interessava nem um pouco e suas propriedades, sabia que ia me arrepender de não estar prestando atenção, mas eu conseguia me virar depois. Mesmo que eu ficasse na média, eu sempre me virava de um jeito ou de outro para recuperar o tempo perdido e a falta de atenção. O sinal tocou para a hora do almoço, juntei-me com o mesmo grupo de pessoas de sempre para sentar na mesma mesa de sempre e comer a mesma comida de sempre e ouvir a mesma conversa de sempre. Lembrei-me de levar meu iPod e meus fones comigo, por precaução.

Após pegar a comida sentamos no lugar costumeiro, no canto do refeitório, perto da janela. Fato curioso: fora eu quem escolhera aquela mesa no primeiro dia de aula para poder observar o lado de fora do prédio e não ter de prestar atenção em qualquer outra coisa. Eles aceitaram minha escolha porque, após a primeira semana, perceberam que quando estava quente vinha uma brisa boa da janela e quando estava frio bastava fecha-la para resolver todos os problemas.

Depois de tentar participar da conversa umas três ou quatro vezes e falhar miseravelmente decidi colocar os fones de ouvido. Geralmente eu apenas colocava os fones, mas continuava prestando atenção na conversa deles. Às vezes Eren reclamava.

'Oi, Kirschtein!" quase gritava. Ele costumava pensar que conseguiria tudo na base do berro, no começo isso me tirava do sério, mas aprendi a ignorar. 'Se você tá com a gente não é pra ficar com essa merda enfiada no ouvido!' eu apenas dava de ombros.

Os outros não pareciam se importar muito. Às vezes eu percebia Mikasa olhando como se me repreendendo, mas também ignorava. Ela era a mais responsável da mesa, cuidava como uma mãe de Eren e Armin (o garoto mais inteligente da nossa série), eram o trio inseparável. Por algum motivo as pessoas pareciam pensar que eu era apaixonado por ela porque em algum momento da vida eu havia elogiado seu cabelo por ser tão macio. Além dos três nosso grupo contava com Connie e Sasha, o casal de bobos, apesar de alegarem que eram apenas amigos era bem comum encontrá-los pelos cantos se pegando. Ambos extremamente brincalhões, às vezes me irritavam quando beiravam a infantilidade. Éramos os "losers" do sistema super maduro de panelinhas colegiais em que vivíamos.

Olhei para o canto do refeitório e lá estavam elas: as únicas pessoas com quem eu realmente conseguia conversar. Ymir e Christa eram taxadas de "o casal cola velcro" da escola. Gostava delas porque cada vez que algum otário fazia algum comentário homofóbico perto delas ou sobre as duas Ymir simplesmente beijava sua namorada, deixando uma Christa envergonhada e um grupo de idiotas com cara de merda. Ao perceber meu olhar a loira sorriu e acenou me chamando para sentar com elas, levantei e fui em direção às duas — uma quebra da rotina total, mas ninguém na minha mesa pareceu perceber que eu não estava mais lá.

'Yo.' cumprimentei sentando ao lado de Ymir. O único problema das duas era o ciúme que Ymir tinha de Christa e de qualquer pessoa que se aproximasse dela, mas eu já estava me acostumando com isso e ela com minha amizade com sua namorada, então estávamos nos dando bem. Tirei meus fones de ouvido, a morena percebeu que não havia música tocando.

'Você sabe que você tem que apertar play, certo?' ela riu, eu apenas assenti ignorando o comentário. 'Por que é que você não começa a sentar com a gente, cara? Você não parece muito feliz lá naquela mesa.' a outra concordou, eu fiquei em silêncio, apenas encarando meus "amigos" e como eles pareciam estar se divertindo. Eu não fazia nenhuma diferença. 'De qualquer maneira... Você vai na festa sexta?' olhei confuso. 'Na casa do Eren, cara. Aparentemente ele vai dar uma festa, chamou todo mundo da escola. Quem sabe ele não quer ascender socialmente no nosso sistema de castas.' zombou.

'Todo mundo da escola?' perguntei tentando esconder que estava me sentindo mal, elas confirmaram. 'Mas tipo por algum evento no Facebook ou...'

'Alguns no chat, outros pessoalmente.' Christa respondeu, engoli em seco. 'O quê? Vai dizer que você não foi chamado?!' perguntou espantada, eu apenas assenti tentando parecer como alguém que não se importava com nada disso, ela pareceu ficar triste por mim. 'Oh, Jeannie...'

'Ei! Já pedi pra não me chamar assim... E eu não me importo, sério. Ele deve só ter esquecido, vai ver ele esqueceu de falar com a gente sobre isso, ué. É normal, né?' ri tentando disfarçar. Mas elas me conheciam, elas sabiam sobre mim, coisas que meus amigos não sabiam. Formou-se uma lágrima nos olhos de Christa, Ymir parecia visivelmente irritada olhando para o meu grupo. 'Ei, gente, sério, não se preocupem com isso. Não é nada de mais.' recebi um tapa da colega que sentava ao meu lado.

'Cala boca, cara. É claro que é. Você realmente devia parar de falar com aqueles idiotas, você sabe muito bem que não é a primeira vez que isso acontece.' eu abaixei a cabeça para o que a morena falava. 'O aniversário de Mikasa, em que você foi o único que não foi chamado de todos eles, lembra disso? Ou então quando eles decidiram fazer aquele passeio na exposição que você tinha dito que queria muito ir e eles nem comentaram contigo. Esqueceu de tudo isso?' não respondi, não queria lembrar. 'Para de ser otário, para de deixar eles pisarem em você, porra!' eu levantei da cadeira, pedindo licença. Christa perguntou onde eu estava indo, mas eu simplesmente ignorei e continuei andando até o banheiro.

Chegando lá me tranquei na última cabine, como às vezes fazia, peguei do bolso aquilo que eu sempre carregava comigo e fiquei apenas apertando na minha mão. Não era seguro faze-lo em um local onde alguém pudesse ver e isso era a última coisa que eu queria, ninguém podia perceber se não meus problemas aumentariam. Mas doía tanto, precisava de algo que fizesse parar, precisava do êxtase que sentia quando fazia aquilo. Senti lágrimas correndo pelo meu rosto. 'Merda!' pensei, socando a parede ao meu lado. Esperei até elas pararem de rolar para sair da cabine, ouvi algumas vozes do lado de fora e torci para não estar com cara de quem chorou.

Fui até a pia, lavei minhas mãos, como se tivesse usado o banheiro e me encarei no espelho, estava com uma cara decente, passei uma água no rosto — o que era normal na escola, os alunos faziam isso quando queriam acordar — me olhei mais uma vez. Minha clavícula e meu maxilar protuberantes por causa da minha má alimentação, meu rosto de quem não dormia direito há tempos, respirei fundo e decidi ir na enfermaria, arrumar uma desculpa para ser liberado pelo resto do dia. Quando virei para sair me deparei com alguns membros do time do basquete: Marco Bodt, Reiner Braun, Bertholdt Fubar e Thomas Wagner. Isso sempre dava errado, sempre que eles me encontravam falavam alguma coisa ofensiva e eu, ao contrário do resto dos meus amigos, não conseguia manter a boa, sempre retrucava. Talvez fosse por isso que eu era sempre quem apanhava.

'Kirschtein, você tá andando com as cola-velcro, agora? É fetiche ou você é igual a elas?' Reiner riu, eu não estava no humor pra discutir então apenas sorri e mostrei meu dedo do meio. Fui empurrado e logo caí no chão. 'Será que seu pai não ensinou a responder as perguntas dos outros com educação? Bom, aparentemente nós vamos ter que fazer isso por ele.' os garotos riram com ele, menos Marco, ele apenas observava, sua expressão dava a impressão de que ele estava com dor. O primeiro chute veio de Reiner, mas logo os outros também me atingiam. Em algum momento tentei levantar, mas Thomas e Bertholdt me seguraram para impedir que eu saísse correndo ou tentasse revidar — se bem que não era necessário que dois o fizessem, Bertholdt tinha uma força colossal, podia me segurar sozinho se quisesse. Reiner me deu um soco que finalmente rachou meu lábio e me um chute na boca do estômago que me fez cuspir sangue, mas eu não tentei me debater ou qualquer coisa, eu só sorri. 'Ainda tá com esse sorrisinho babaca no rosto?' me lembro vagamente do que aconteceu depois disso. Senti os braços me soltando, caí no chão, ouvi uma voz dizendo com um tom desesperado que já era o suficiente, uma mão empurrando minha cabeça contra o chão e acordei na enfermaria.

Abri os olhos lentamente, minha cabeça doía muito, mais do que o normal. O resto do meu corpo também, mas estava acostumado a levar essas surras, era um evento semanal. A primeira coisa que me perguntei foi como cheguei até ali, depois quis saber quanto tempo fiquei desacordado, mas eu optei por não me mover, ficar com os olhos semi cerrados tentando me concentrar em algo que não fosse a minha dor.

Ouvi o barulho da chuva lá fora e decidi que seria aquilo, fiquei tentando imaginar como estaria o lado de fora do prédio, eu sabia que a janela dava direto para o estacionamento e fiquei tentando imaginar o cenário, pensar quais carros estariam estacionados lá, seus modelos, cores, depois tentei imaginar só a chuva. Depois de algum tempo a dor na minha cabeça havia diminuído para um nível suportável, não que o nível suportável não fosse alto, mas era suportável. Abri os olhos de vez e tentei sentar.

'Ah, você acordou...' ouvi um homem dizendo com um tom de voz triste. Xinguei por conta da dor que senti ao tentar sentar, mas ele me ajudou a faze-lo e foi então que pude ver quem a pessoa era. 'Não faz muito esforço, pode acabar se machucando mais. Por sorte todos os seus ossos estão intactos dessa vez, mas a enfermeira quer conversar sobre o que houve. Aparentemente eles não sabem nada sobre você apanhar toda semana. Achei estranho, mas não falei nada. Você deve ter algum motivo pra não ter contado nada até agora.' eu não o olhava, apenas encarava o lençol que me cobria na cama da enfermaria. 'Você... Tá com raiva de mim, certo? Me desculpa, quando eu vi eles te batendo eu não consegui fazer nada, eu paralisei.' eu balancei a cabeça.

'Tudo bem. Não é da minha conta o motivo pelo qual você age como age.' falei rindo cinicamente. 'Não to com raiva, só acho que não precisa ficar dando uma de bonzinho pra cima de mim, cara. Eu não vou dedurar vocês, você mesmo percebeu isso. Pode ir embora agora.' cerrei meus punhos visivelmente irritado, a dor na minha cabeça aumentou um pouco pelo esforço. Ele não se moveu. Ficamos em silêncio por algum tempo. 'Como eu cheguei aqui?' olhei confuso para Marco — o dono da voz-, ele apontava pra si mesmo. 'Entendo. Quanto tempo eu fiquei desacordado?'

'Duas horas, mais ou menos. Talvez uma meia hora a mais do que isso, eu acabei perdendo a noção do tempo, desculpa.' acho que meu olhar de confusão ficou mais acentuado porque ele explicou a situação logo em seguida. 'Eu trouxe você aqui e pedi permissão pra ficar com você, tava preocupado. Então acabei perdendo a noção de quanto tempo tinha passado, isso acontece quando eu fico muito tempo só observando alguma coisa.' provavelmente eu devia estar olhando pra ele com uma cara de bunda impressionante porque ele corou levemente e continuou pedindo desculpas por me observar e alegando que realmente estava preocupado.

Aquela situação era problemática por diversos motivos. Em primeiro lugar: alguém alegando se importar comigo, era algo impossível então eu fiquei confuso com isso. Em segundo lugar o fator de ser ele preocupado comigo. Não só porque ele assistiu a cena, porque era amigo de quem me bateu, porque ele sabia que isso acontecia toda semana, mas porque era ele.

Tinha um motivo para eu ter apenas rido quando Reiner insinuou que eu tivesse "me tornando" gay e não era o quão ridícula aquela insinuação era porque ninguém se torna gay. Eu era apaixonado por Marco desde o ensino fundamental. Sempre estudamos juntos, mas nunca havíamos conversado antes. Desde a quinta série eu o observava em silêncio — até porque até eu conhecer Christa e Ymir no primeiro colegial ninguém sabia que eu era gay -, ficava escondido nos jogos de basquete só pra poder vê-lo jogar, comemorava quando estávamos numa mesma aula juntos, era uma obsessão de criança que me acompanhou até os anos de ensino médio. E agora ele dizia que estava preocupado, que tinha me observado inconsciente por preocupação, que havia me levado até a enfermaria por preocupação. Nada fazia sentido. A porta da enfermaria abriu e a Srta. Hanji apareceu no recinto.

'Ora, ora, nosso paciente finalmente acordou.' sorriu. 'Se sente bem?' assenti silenciosamente, vi de canto de olho a expressão no rosto de Marco, ele realmente parecia preocupado e até um pouco triste. 'Então por que não nos conta o que aconteceu? Seu amigo parecia não sabe também. Ele disse que te encontrou assim no chão do banheiro no fim do horário de almoço.'

'Ele não é meu amigo.' foram as primeiras palavras que disse a ela, vi Marco morder o lábio inferior e abaixar a cabeça. 'Eu caí. A descarga da penúltima cabine ainda tá vazando, vocês realmente deviam consertar aquela merda.' menti usando o problema da cabine como uma desculpa, agradeci mentalmente aos mantenedores da escola por estarem pouco se fodendo pra qualidade e o funcionamento da penúltima cabine do banheiro masculino do refeitório. Aquela descarga vaza água há quatro anos e a única vez que foi consertada quebrou dois meses depois de novo. 'Só que conserta direito dessa vez, por favor.' Hanji me olhou desconfiada, mas assentiu.

'Se você diz... Nunca tinha ouvido falar de alguém que se machuca tanto assim de ter escorregado, mas... Enfim, os dois estão liberados, vou pedir pro seu não-amigo aí te levar pra casa porque acho que você não está em condições de dirigir considerando que você bateu a cabeça bem feio na queda.' tentei retrucar, dizendo que estava bem, mas ela não me deixou falar.

Quando percebi, estava me dirigindo ao estacionamento apoiado em Marco porque não tinha forças para andar sozinho direito. Xinguei mentalmente. Aqueles babacas realmente tinham caprichado daquela vez. Parei e peguei meu celular, mandando uma mensagem para Ymir, explicando que havia apanhado de novo e estavam me levando pra casa, pedi que ou ela ou Christa levasse meu carro em casa quando a aula e as atividades extras acabassem. Disse também que ia deixar a chave na roda esquerda dianteira do carro e que ela devia deixa-la lá quando estacionasse na minha casa. Pedi a Marco me ajudar a ir até meu carro enquanto mostrava a ele o sms que havia enviado e ele assentiu.

Depois disso fomos até o carro dele, ele abriu a porta do carona e me posicionou com muito cuidado no banco, colocou o cinto de segurança em mim e fechou a porta, indo para o lugar do motorista. Aquela proximidade toda me fez corar um pouco, meu coração batia rapidamente. Fiquei lá me xingando mentalmente, me mandando ficar calmo, mas a presença dele mexia comigo.

'Você precisa me contar onde é sua casa, sabe...' ele riu, envergonhado. Expliquei a ele o caminho e ele assentiu no fim da explicação. 'É perto da minha, moro na rua de trás da sua.' eu quase disse que sabia, mas era melhor ficar calado, ele estava sendo legal comigo e não queria que tudo fosse pelo ralo. 'Eu te devo desculpas.' esse cara gostava de me fazer ficar confuso, impressionante. 'Eu sempre soube que eles batiam em você, que você sofria por causa do time, mas eu nunca fiz nada. Eu nunca tinha visto acontecer e... Olha, você pode me odiar, sabe? Se quiser revidar tudo o que eles fazem com você, pode fazer qualquer coisa. Eu mereço.' fiquei em silêncio, peguei meu iPod e coloquei os fones, não queria responder, não queria conversar, tinha de pensar no que tudo aquilo significava.

Será que era mais um jeito de o time de basquete me importunar, me zoar? Será que eles tinham convencido Marco de participar da brincadeira, finalmente? Mas ele não parecia alguém que faria esse tipo de coisa. Eu vi que ele falava alguma coisa porque seus lábios de mexiam, mas eu preferi aumentar o volume no máximo deixando claro que eu não estava afim de conversar nem de ouvir, ele entendeu e ficou quieto. Ao chegar em casa Marco estacionou do outro lado da rua, tirei meu cinto e fui abrir a porta, mas ele colocou a mão no meu peito me parando, nesse processo um lado do fone caiu do meu ouvido.

'Eu faço isso, eu te levo.' Marco disse e apressou-se em sair do carro, eu o ignorei e abri a porta mesmo assim saindo dele, mas minhas pernas bambearam, eu ainda estava fraco, e caí em seus braços. 'Ei, você tá bem?' apenas assenti. Abrimos a porta e entramos, olhei para a escada que levava até meu quarto e disse que ele podia me deixar na sala mesmo, mas Marco me pegou no colo e começou a subir.

Eu me debatia enquanto meu rosto queimava de vergonha, ele entrou no segundo quarto do corredor, me perguntei como ele sabia que esse era meu quarto e a possibilidade dele ter me visto observando-o pela janela apareceu em minha mente e me aterrorizou. Marco me colocou na cama com cuidado e supondo, corretamente, que eu preferiria ficar sentado, arrumou meu travesseiro para que eu encostasse nele. Perguntou se podia pegar as almofadas que tinha visto no sofá da sala e eu assenti, ele voltou pouco depois, me afastou do encosto e colocou-as atrás de mim tentando me deixar o mais confortável possível. Ficamos em silêncio, Marco de pé ao lado da minha cama, eu lá sentado sem me mover muito para não sentir tanta dor.

'Obrigado.' agradeci sem encara-lo. Ele não respondeu, só ficou lá, parado. Ficamos em silêncio. 'Você não precisa ficar aqui.' silêncio. 'Também não precisa ficar de pé.' ainda nenhuma resposta, olhei pra cima e vi um Marco diferente. Sua expressão era de terror, mas também de irritação, estava me perguntando o que eu tinha feito para deixa-lo bravo quando olhei o objeto que estava em sua mão. Tentei levantar para tirar aquilo dele e inventar uma desculpa qualquer, mas eu caí aos pés dele. Dessa vez ele não me ajudou a me levantar, ele não se moveu, ficou lá, me olhando com aqueles olhos de quem estava me julgando enquanto eu sentia vontade de chorar no chão. 'Qual o problema de um cara gostar de se barbear com as lâminas avulsas e não com as que você compra no supermercado?' eu ri, mas ele não disse nada, não se moveu. Levantei me apoiando no meu braço, apesar da dor e voltei pra cama, ele apertava o objeto entre os dedos com raiva.

'Você se barbeia na escola também?' fiquei fitando-o confuso. 'Porque tinha uma igual no chão do banheiro hoje. Eu achei que fosse de qualquer outra pessoa e fiquei com pena, mas era sua, não era?' eu abaixei a cabeça. 'Olha pra mim.' disse como uma ordem, mas eu não podia. 'Eu disse olha pra mim.' seu tom de voz duro fez um arrepio percorrer minha espinha, que merda, não era hora de achar Marco sexy, olhei nos olhos dele novamente. 'Muito bom. Agora me mostra.' eu neguei. 'Não me faz obrigar você por mal. Me mostra.' eu tirei meu braço direito da vista dele, mas Marco foi rápido e o segurou fortemente e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa minha manga tinha sido levantada o máximo possível, deixando meu braço enfaixado à vista. Ele foi, lentamente, desenfaixando meu braço, provavelmente com nojo do que estava por vir, até que os cortes e cicatrizes ficaram a vista. Ele foi tocando com a ponta dos dedos um por um, primeiro os cicatrizados antigos, como se estivesse contando, depois os mais rosados, mais novos, em seguida os quase cicatrizados e, por último, os cortes recentes. Nesse momento ele pressionou levemente cada um dos mais abertos, mas a dor não me incomodava tanto quanto a vergonha que eu sentia. 'Eu vou ficar aqui. Não só isso: eu vou dormir aqui essa noite e nós vamos conversar seriamente.' Marco levantou e saiu do quarto com o celular em uma mão e minha lâmina em outra.

Antes que ele pudesse voltar peguei outra lâmina debaixo do meu abajur e cortei meu braço uma vez, as lágrimas que escorriam pelo meu rosto caíam em cima do sangue que saia da nova ferida. Encarei meu pulso e decidi fazê-lo. Eu já tinha decidido que se, em algum momento, eu fosse realmente me matar eu não faria isso cortando meus pulsos porque as chances de não morrer eram altas, mas naquela hora eu não pensei, nada fazia mais sentido. Aquilo era tão meu e somente meu, só eu sabia sobre aquilo, ninguém mais. E ninguém podia saber. Se ele sabia qualquer outra pessoa poderia saber e doeria tanto, mas tanto porque ninguém se importaria. Iam pensar, como ele devia estar pensando, que sou fraco, dramático, que quero chamar atenção. Eu não podia com esses pensamentos todos, eu não podia com eles, nem com minhas dores e frustrações, eu era fraco, afinal. Fui atingido com um tapa na cara antes de poder cortar pela segunda vez, antes de concretizar um dos meus maiores desejos.

'Para com isso!' olhei pra cima e vi Marco começando a chorar. Por mim? Não, não podia ser... 'Por favor, para com isso!' ele me abraçou, eu não me movi. Senti as lágrimas dele caindo em mim, os dedos dele acariciando minhas costas. 'Por favor...' ele soluçava, as lágrimas continuaram a rolar dos meus olhos, sem som. Mas haviam os sons dos soluços de Marco, de suas lágrimas pesadas. Eu estava chovendo, mas ele estava sendo uma tempestade e aquilo me assustava. Me assustava porque eu tinha medo delas, dos trovões, dos raios, da ventania, eu tinha tanto medo. 'É só isso que eu peço...' ele me afastou um pouco e olhou no fundo dos meus olhos, uma de suas mãos tirou a lâmina de mim enquanto a outra acariciava minhas costas. Depois de joga-la longe, sua mão foi até meu braço direito e seus dedos procuraram o corte recém feito. Ele olhou para baixo aterrorizado. 'Eu vou pegar algo pra limpar essa bagunça, mas, por favor não faz nada até eu voltar. Se você for fazer isso eu quero... Não, eu preciso estar com você enquanto você faz. Promete pra mim, por favor...' eu assenti, ele deu um beijo na minha testa, expliquei pra ele que guardava meu kit de primeiro socorros no banheiro e ele foi buscá-lo.

Voltou rapidamente, não queria me deixar sozinho por muito tempo. Ele limpou com um pano úmido o sangue do meu braço e ficou pressionando outro pano para tentar estancar o sangramento. Me movi para tentar ajudar, mas seu olhar me assustou, então encostei novamente no travesseiro e joguei a cabeça para trás. Ele sabia bem como lidar com isso, no basquete eles devem se machucar bastante, pensei.

Marco era o capitão do time, não só por ser realmente bom, mas também porque ele cuidava muito bem das pessoas, era um ser humano bom e gentil, o único de todos que não batia em mim ou praticava qualquer outro tipo de bullying com ninguém. Também porque ele conseguia dar ordens muito bem e ser obedecido, como eu pude perceber mais cedo. Ele desinfetou meu corte e isso ardeu bastante, como se me punindo ele fez questão de aproveitar e desinfetar todos os outros mais recentes, mas eu não disse nada, apenas gemi de dor bem baixinho. Depois colocou alguns band aids grandes no meu braço e enfaixou com a faixa antiga.

'Eu quero ver o outro.' não me movi. 'Já passamos por isso, não? Se você não me mostrar o outro braço eu vejo por mim mesmo.' levantei a manga e não precisei desenfaixar. Eu só colocava a faixa no braço quando havia algum corte recente, para esconder bem e para que, caso sangrasse, não manchasse minha blusa. Fez o mesmo que tinha feito no braço direito. 'Onde mais?' eu desencostei dos travesseiros e levantei minha blusa, Marco olhou minhas costas e repetiu a ação pela terceira vez. Ele me empurrou delicadamente para encostar na pilha de almofadas novamente, eu não queria olhar para ele, mas ainda o fazia, obedecendo às ordens anteriores. 'Ano passado... Quando teve aquele temporal enorme que derrubou árvores e postes... Você não deve ter percebido, mas... Eu passei um mês e meio sem ir nas aulas. Todo mundo sempre achou que fosse porque uma das árvores tinha caído em cima da minha casinha de cachorro e o Bud tinha morrido. Ok, isso realmente aconteceu, mas não foi por isso, sabe...' eu não entendi nada. Em primeiro lugar não entendi como esse idiota pensa que alguém não reparou a ausência dele, ele é simplesmente a pessoa mais perfeita daquela escola, qualquer um notaria isso, mas também não entendi o motivo de ele estar me contando isso agora. 'Meu tio foi internado, irmão da minha mãe. Sabia que cortar os pulsos não é um método muito eficaz de suicídio? Porque minha família inteira sabe. Agora meu tio mora com meus avós e é vigiado quase sempre, mas eu questiono se essa decisão é a correta. Mesmo vigiado ele pode encontrar um jeito, sabe... Como você fez agora, você encontrou uma brecha e aproveitou. Ele pode fazer isso também.' Marco respirou fundo. 'Eu tive raiva da escolha dele. Ele fez a automutilação parecer intimamente conectada ao suicídio, quando na verdade não é assim. Não necessariamente alguém que se mutila, seja do jeito que for, pensa no suicídio. Mas, ao mesmo tempo foi bom, foi o que fez meu irmão parar. Porque meu irmão não queria morrer, sabe. Ele só queria extravasar a dor. Foi aí que ele começou a pintar.' ele riu levemente. 'Eu nunca tinha contado isso pra ninguém. Mas acho que não há nada mais justo já que eu descobri seu segredo, certo?'

'Não precisava ter contado.' falei baixo, ele assentiu.

'Mas eu quis.' Marco se aproximou mais de mim. 'Se você quiser fazer isso faz na minha frente. Acredito que seja minha culpa. Eu podia ter mandado eles pararem há anos, mas eu nunca o fiz. Eu gostaria de pedir que você não fizesse mais isso, mas eu não posso. E dizer que você pode me punir como quiser menos fazendo isso seria egocêntrico e eu não consigo fazer isso. Então se você decidir continuar com isso prefiro que seja minha punição por tantos anos de passividade quanto à sua situação. Porque se eu estiver por perto eu posso garantir que nada vai acontecer com você, que você não vai passar dos limites e que eu vou poder continuar acordando todo dia e vendo você pela janela do meu quarto.' fiquei calado, não sabia como responder a nada daquilo, eram muitas informações pra mim. 'Sei que já estou pedindo muito, mas...'

'Eu não vou te punir, a culpa não é sua. Eu não me corto só por causa de um bando de idiotas do time de basquete.' o interrompi antes que ele continuasse a falar. 'Você não tem culpa, se mandasse eles pararem era capaz de eles começarem a te encher o saco junto então deixa quieto. Só... Não conta pra ninguém, por favor.' ele assentiu. Marco estava sentado na minha frente na cama, mas se aproximou de mim um pouco. Meu coração acelerado, tentei não reparar que daquela distância eu podia ver suas sardas com uma definição sensacional ou que seus lábios pareciam macios ou que ele parecia estar cada vez mais perto.

'Quero confiscar todas. Você deixa?' disse quando estava tão perto que fui obrigado a fechar os olhos para não ter nenhum impulso imbecil. 'Você pode comprar outras ou usar facas, sei disso, mas... Se você deixar já é um grande primeiro passo.' sentia nos meus lábios o ar que saía da boca do garoto parado na minha frente, abri os olhos um pouco e me deparei com um Marco de olhos cerrados e uma expressão de dor no rosto. Ele inclinou um pouco mais, fazendo nossas testas se tocarem, sua expressão se intensificou. Abri a boca para falar, mas não pude fazer nada porque senti a mão dele do lado esquerdo do meu peitoral, bem onde ficava meu coração, engoli em seco, vi um sorriso em seus lábios, sua mão foi retirada de lá, fechei os olhos novamente, ele se afastou. 'Vou considerar isso como um sim.' levantou-se e pegou as lâminas que estavam no chão.

'Uma no armário do banheiro, bem no fundo, e uma na minha gaveta, mas eu pego essa.' ele balançou a cabeça, levantando uma sobrancelha para mim. 'Na última gaveta... A de cuecas. Bem no fundo.' senti que havia corado, Marco apenas sorriu e foi para o banheiro dizendo para eu não sair do lugar. Voltei à posição de encostado na pilha de almofadas e a cabeça largada para trás, fechei os olhos, sentia vontade de chorar, mas me sentia vivo. Eu estava extremamente triste, extremamente mal, mas eu estava. Sensação que não tinha havia anos. Quando Marco chegou no meu quarto me certifiquei de manter os olhos fechados. Ele demorou algum tempo para anunciar que tinha achado a última lâmina, mas só tornei a abrir os olhos quando ele sentou perto de mim na cama novamente. 'Por que você tá fazendo tudo isso? Se preocupando tanto...' ele apenas sorriu. 'Me desculpa. Por causar problemas...'

Marco apenas tocou minha coxa, me fazendo automaticamente levantar a cabeça para encará-lo. Ficamos nos olhando em silêncio, meus olhos estreitos. Eu estava tentando pensar e me focar em manter meu corpo sem reações indesejadas. Marco se aproximou mais uma vez, mas não tanto quanto antes e, quando percebi, estávamos brincando de quem conseguia encarar por mais tempo sem piscar. A pressão da brincadeira me fez perder e Marco gargalhou, sua risada tão verdadeira e contagiante que comecei a rir com ele. Ele conseguia ser uma tempestade e minutos depois uma tarde colorida, sorri pensando isso.

'Eu quero você feliz.' disse parando de rir, mas ainda sorrindo. Eu paralisei olhando para ele incrédulo. 'A partir de amanhã eles não vão mais te importunar, eu juro. Mas quero você feliz, quero que conte comigo sempre que precisar. Ok?' assenti sem pensar, mas obviamente as coisas não seriam assim.

O time de basquete ia continuar me importunando e eu não confiaria em Marco. Estava decidido a aproveitar sua companhia no momento e depois voltar ao normal. Percebi que sua mão ainda estava parada na minha coxa quando ela foi retirada de lá, mas não tive muito tempo para reagir porque quando eu menos esperava os lábios de Marco estavam colados nos meus.

Notas finais
Comentem com feedback, pfvr. Seja positivo e negativo! Espero que eu consiga postar o próximo capítulo logo!chu ~