Rain Sound
9 Capítulo 9
Notas iniciais
"Eu sentia como se eu estivesse começando a ficar melhor. Me sentia como se, citando um livro chamado “A Culpa é das Estrelas” — que Christa me obrigara a ler -, eu estivesse em uma montanha-russa que apenas ia para cima."
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É um mal do ser humano pensar que “comigo não vai acontecer”. É um mal dos mais jovens não ouvir os mais experientes. Nós escutamos os ditos populares, as crenças dos mais velhos, e rimos. Nós pensamos que conosco não há de acontecer, que conosco nada há de dar errado.
Há dois ditados de extrema importância, que devem ser mantidos em mente e que são extremamente verdadeiros para o momento da minha adolescência. Tudo o que sobre, desce. E quanto maior a altura, pior a queda. Claro que eu não sou diferente de todo mundo, eu também pensava — e ainda penso em muitos casos — que sou inatingível.
Quando você começa a sair da merda você acha que tudo só tende a melhorar. Que se você fosse representar sua vida a partir daquele momento em um gráfico, ela seria uma reta que apenas englobasse os números positivos e que, no pior dos casos, pararia de crescer para ficar constante. De qualquer maneira: a gente não projeta voltar à merda no futuro.
A vida não é uma função afim. A vida não pode ser representada por retas ou segmentos de retas em gráficos. A vida, às vezes, consegue chegar a ser completamente sem sentido.
De qualquer maneira, a representação em gráficos da vida não é o importante. O importante é que há momentos em que os ditados populares que nós usamos, muitas vezes, de piadinha são verdades — mesmo que parciais.
Eu devia ter imaginado, na verdade. As coisas nunca estavam tão perfeitas. Na vida de ninguém. Todo mundo sempre tem um problema, mesmo que seja pequeno.
As coisas começaram quando Marco e eu fizemos sexo pela primeira vez. Depois disso comecei a me acertar com minha mãe. Um mês depois nós estávamos de volta ao que éramos antes. Quase que unha e carne. Foi numa sexta feira que decidimos que contaríamos a ela sobre nós dois.
O dia passou lento, na verdade. A ansiedade tomava conta de mim, me corroía por dentro. E se ela não aceitasse? E se ela tentasse me proibir de ver Marco? Todas as piores possibilidades passavam por minha cabeça. Meu namorado tentava me acalmar, mas sem muito sucesso. Minha mãe chegou em torno das seis horas, estávamos na sala esperando por ela.
'Olá, meninos.' disse de porta da sala. Agora minha mãe usava o tom que eu me recordava de ouvir quando menor. Ela havia ganhado um pouco de peso e estava lutando para parar de fumar novamente. 'Marco, faz tempo que não nos vemos.' um mês, adicionei mentalmente.
'Sim, sim. A senhora está bastante bonita, parece mais saudável do que antes. Fico feliz.' ela sorriu para ele, colocou o molho de chaves em cima da mesinha do corredor que ligava a porta principal, a sala, a cozinha e a escada e agradeceu.
'Bom, vou tomar um banho. Ia sugerir de Jean e eu jantarmos fora, você é mais do que bem vindo pra se juntar se quiser, Marco.' eu gelei.
'Se não for incômodo…' disse após pensar por alguns instantes.
'Incômodo nenhum. Pensei em irmos em alguma pizzaria, um ambiente mais descontraído, então não precisam se trocar.' seu sorriso permanecia intacto. 'Bom, eu já volto.' ela subiu as escadas e sumiu de vista.
Coloquei as mãos no rosto, respirei fundo e mordi a parte de dentro das bochechas para suprimir um grito. Eu estava com medo.
'Ei, calma. Olha: se a gente falar num lugar público e ela não gostar, a reação que ela tiver vai ser menor pior do que se fosse aqui.' olhei para meu namorado um pouco receoso. 'E eu tenho certeza absoluta de que ela não vai reagir mal, Jean. Confia em mim.'
'Toda certeza é absoluta, Marco.' tentei brincar, mas meu tom saiu sério por conta do meu sentimento de nervoso. 'Ai, que merda, eu to suando frio!' arremessei a almofada que estava no meu colo do outro lado da sala, rosnando. Marco riu e me abraçou, dando beijos em minha cabeça. Eu o abracei de volta. 'Não importa o que aconteça…' sussurrei, mais para mim mesmo do que para ele.
'A gente vai continuar juntos, eu sei, você falou isso um milhão de vezes só na última hora, amor.' falou entre beijos. 'Eu não vou deixar nada separar a gente, confia em mim.' eu assenti e ficamos em silêncio.
Eu sentia o calor dele, ouvia seu coração e era acalentado por tudo aquilo e também por seus lábios encostados em mim e por suas mãos acariciando minhas costas. Assim que ouvimos passos descendo a escada nos separamos e fingimos estar conversando sobre física.
Minha mãe estava simples, porém linda. Com uma jeans clara, uma sapatilha vermelha, uma blusa branca lisa e um casaquinho leve vermelho. Sorri ao vê-la. Levantamos e fomos direto para o carro.
O trajeto foi uma bagunça com Marco reclamando da minha escolha de músicas e minha mãe rindo de nós dois, até decidir que o motorista era quem deveria escolher a música e colocar uma rádio aleatória. Estava tocando “September” do Earth, Wind and Fire, sorri ao perceber que havia me dado bem. Eu adorava aquela música. Cantando alto fiz minha mãe rir até o fim da música. Acabamos por ir a uma pizzaria pequena, um negócio familiar que tinha perto de casa. Marco e eu sentamos lado a lado, com minha mãe em frente a nós.
‘O que vamos pedir?’ ela olhava o cardápio com um olhar e interrogação. Perguntava-me se era aquela a expressão que Marco alegava que eu fazia quando havia muitas opções e eu não conseguia escolher entre elas.
‘Eu como qualquer coisa, vocês sabem...’ dei de ombros. ‘Que tal Marco escolher?’ sorri jogando a responsabilidade para ele. Meu namorado ficou sem reação e seus olhos praticamente gritavam me chamando de cuzão. ‘Ou pode ser, sei lá, portuguesa. Todo mundo gosta, né?’ os dois assentiram. ‘Decidido então.’ chamei o garçom e fiz o pedido educadamente. Cada um pediu sua bebida e ele foi embora. ‘Como foi no trabalho hoje?’ perguntei, puxando papo. Queria deixar o clima completamente alegre a agradável antes de contar a ela.
‘Ah, a mesma coisa de sempre... Hoje foi especialmente tranquilo, por algum motivo... Não tinham muitos processos acontecendo, eu adiantei a maior parte do trabalho durante a semana.’ ela suspirou, parecendo um pouco cansada. Minha mãe trabalha em uma firma de advocacia, não tinha certeza do que ela fazia lá. Sei que ela havia começado como arquivista, mesmo tendo feito direito e não biblioteconomia.
‘No que você trabalha? Acho que eu e Jean nunca conversamos sobre os trabalhos de nossos pais.’ Marco era tão melhor em puxar papo do que eu, ficava aliviado por ter ele ao meu lado nesses momentos.
‘Atualmente sou gerente jurídica em uma firma. Eu faço atualizações processuais, consultas de processos na internet e em sistemas internos e lanço andamentos dos processos nos sistemas dos nossos clientes. Nada muito divertido, na verdade, mas eu prefiro trabalhar nessa área do que advogar, sendo sincera.’ ela tomou um gole da água tônica que o cumim havia trazido. ‘E os seus pais, Marco?’
‘Meu pai é dentista e minha mãe é psiquiatra. Eles trabalham na mesma clínica, fica uma hora daqui, na cidade da minha mãe. Foi assim que eles se conheceram, inclusive.’ minha mão procurou pela dele em baixo da mesa discretamente.
‘E você já tem algum projeto pro futuro, Marco?’ ele sorriu para a pergunta dele e apertou minha mão mais forte.
‘Ah, nenhum concreto. Eu quero fazer alguma coisa relacionada a desenho. Acho que o mais viável é arquitetura.’ me dei conta de nunca ter tido aquela conversa com ele. A gente nunca tinha falado sobre planos para o futuro. Talvez porque eu sempre fui tão pessimista que nunca havia projetado nada para muito além do ensino médio. Sair da cidade, começar uns bicos em algum lugar, talvez trabalhar em alguma loja como vendedor, qualquer coisa estava de bom tamanho para mim, mas isso fora antes. Naquele momento comecei a pensar mais naquilo. ‘O que eu quero mesmo é vender meus desenhos, sabe... Ter eles expostos em algum lugar, mas esse é só um sonho...’
‘Você devia tentar.’ falei animado. ‘Você desenha muito bem, seu traço é lindo. Eu já vi alguns dos seus desenhos e posso afirmar que você tem chance com isso.'
‘O que me preocupa disso é meu projeto pro futuro mais distante.’ ele corou levemente. Arqueei uma sobrancelha. ‘E-eu sempre me imaginei... Casado...’ sua voz saiu um pouco mais fraca.
‘Ah, isso não é motivo de se envergonhar, querido. Muitas pessoas tem isso como um dos planos pra vida.’ Minha mãe soava delicada. Ele havia soltado minha mão. Eu estava um pouco confuso. Ele estava querendo dizer que se imaginava casado comigo? ‘E sobre seguir caminho na arte: você pode fazer uma faculdade e levar isso em paralelo. Se der certo você segue esse caminho, se não você segue a sua formação superior. Foi o que o...’ ela parou de falar e hesitou. Sabia que se terminasse aquela frase a noite acabaria naquele instante, então se corrigiu antes de prosseguir. ‘Um colega meu de faculdade fez... Ele queria ser músico, mas fez direito por conta da pressão de seus pais.’
‘Talvez eu faça isso sim.’ meu namorado sorria, ainda envergonhado. ‘E você, Jean?’ ambos se viraram para mim. Ótima pergunta, Marco, estava a fazendo agora mesmo para mim.
‘Eu não faço ideia...’ acabei confessando. ‘Eu lembro que quando eu era menor eu queria ser cantor. Meio que foi por isso que eu me aproximei da turma do Eren. Ele, Armin e Connie tinham uma banda de brincadeira. Connie era o único que tocava alguma coisa, aí um dia eles me chamaram pra participar porque eu tocava violão e gostava de cantar. Mas agora eu não faço ideia. A vida de música não me atrai mais nem um pouco.’
‘Ah, eu consigo te ver como músico, com certeza.’ foi a vez de Marco de ficar animado, o olhar de minha mãe um pouco triste. Ela sabia o porquê de eu ter desistido daquela carreira. Não que aquilo em incomodasse. O fato de eu ter desistido, eu quero dizer. Mais cedo ou mais tarde eu teria de cair na real, de qualquer maneira, então aquilo realmente não fazia diferença. ‘Você canta muito bem. Nunca te ouvi tocar, mas você canta bem quando canta sério, eu já te disse isso.’
‘Sei lá...’ tomei um gole longo de minha Coca. ‘Se eu for fazer faculdade eu sei que vai ser alguma coisa da área de humanas, com certeza. Exatas vão passar bem longe de mim. Mas a gente ainda tem tempo pra decidir. Esse ano inteiro e mais, pelo menos, metade do ano que vem, então to suave.’
Nosso diálogo continuou leve. Falamos da escola, Marco comentou que era capitão do time de basquete, ela ficou fascinada por aquela informação. Eu e meu namorado comemos três pedaços de pizza cada um e ela dois. Ainda sim decidimos pedir uma sobremesa.
O tempo estava acabando e ainda não havíamos trazido à tona o assunto que tínhamos como foco naquela noite. Marco havia concordado em deixar que eu falasse, então estava em minhas mãos achar o timing perfeito para começar o assunto. Aquilo não ia dar certo. Comecei a ficar nervoso novamente e pedi licença para ir ao banheiro.
‘Ah, eu também preciso ir... Com licença.’ Marco se levantou logo após a mim e me seguiu. Chegando lá eu joguei água no meu rosto e lavei as mãos, estava suando de nervoso. ‘Jean...’
‘Eu sei, eu sei... Eu vou falar, a gente vai falar. Só me deixa ficar calmo.’ minha voz saiu baixa, mas ainda sim ecoou no banheiro vazio. Ele me abraçou por trás. ‘Eu não vou conseguir...’ fechei os olhos, sentindo os lábios de Marco em meu pescoço, deixando um beijo suave lá.
‘Quer que eu faça?’ ele sugeriu. Parei por um tempo para analisar a proposta. Eu tinha quase certeza de que se dependesse de mim nós iriamos embora sem contar a minha mãe que namorávamos. Acabei assentindo. ‘Eu vou puxar o assunto então, mas acho importante que seja você quem realmente conte, ok?’ assenti novamente. Marco me virou e depositou um selinho em meus lábios, eu abri os olhos e o encontrei sorrindo para mim. ‘Não importa o que aconteça.’ assenti novamente. ‘Vai na frente, eu já vou, tá bom? Realmente preciso usar o banheiro.’ Marco riu, fiz o mesmo.
‘Obrigado.’ o beijei novamente. ‘Eu amo você.’ nos separamos e eu voltei para a mesa um pouco mais calmo.
Minha mãe não estava lá, presumi que ela tivesse ido atender ao telefone ou alguma coisa do tipo. Esperava que ela não tivesse ido fumar. O fato de ela não estar lá era bom para eu me acalmar. Não que eu tivesse tido muito tempo porque ela chegou logo. Sem nenhum cheiro de cigarro, o que me fez sorrir.
‘Desculpa, recebi uma chamada urgente.’
‘Sem problemas. Fiquei com medo que você estivesse fumando...’ ela sorriu para mim e pegou minha mão.
‘Não mais. Eu prometi pra você, não prometi?’ assenti. ‘Esse Marco é realmente um ótimo menino. Ah, Jean, fico tão feliz por ver que você está andando com pessoas tão doces atualmente.’
Andando com, dormindo com, namorando com... Foi o que passou pela minha cabeça, mas não foi dito em voz alta. Eu apenas sorri para ela. Marco e a sobremesa chegaram ao mesmo tempo na mesa. Três petit gateaus lindos e deliciosos. Era, sem sombra de dúvidas, minha parte favorita de comer naquela pizzaria. Eu costumava ir muito lá quando era criança, era um estabelecimento velho, de antes de eu nascer.
‘Louise...’ Marco começou a falar bem quando eu estava levando um pedaço do doce à minha boca. Paralisei instantaneamente e deixei o pedaço cair de volta no prato, o que o fez rir. Ele tinha feito de proposito, com certeza. ‘Jean e eu queríamos conversar sobre uma coisa com você.’
‘Claro, claro, o que foi? É algum problema?’ ela parecia um pouco preocupada. Pobre minha mãe... ‘Não me diga que Jean engravidou uma garota!’ o terror em seus olhos era gritante.
‘Não!’ eu quase berrei, balançando as mãos no ar em desespero. ‘Não, definitivamente eu não engravidei ninguém!’ meu namorado ria da minha reação e minha mãe pareceu aliviada. ‘Nem tem como...’ falei quase sussurrando só para ele ouvir, Marco teve de conter uma gargalhada. Eu abaixei minha mão e peguei na dele, colocando-as em cima da mesa, e desviei o olhar do rosto da minha mãe para o dele. Seus olhos se arregalaram um pouco. ‘Mãe, eu e Marco...’ mordi o lábio inferior, ele gesticulava com a cabeça para que eu olhasse pra ela. ‘Nós dois estamos juntos.’ virei o rosto e ela estava sorrindo.
‘Vocês quase me mataram do coração, meninos!’ ela suspirou, rindo baixo. ‘Mas juntos no sentido de namorados?’ eu assenti, ela mexeu a boca, em biquinho, de um lado para o outro, respirou fundo e soltou todo o ar. ‘Bom... Nem todo mundo é hétero nesse mundo...’ arqueei uma sobrancelha.
‘Pera. Não sei se você entendeu: a gente namora. Tipo, a gente se beija e anda de mãos dadas e ambos temos o mesmo órgão reprodutor e-‘
‘Eu tenho certeza de que o resto dessa frase não diz respeito a mim, filho.’ sua interrupção arrancou uma risada de Marco. ‘Você quer que eu fique brava? Jean, querido, você é meu filho, eu vou aceitar você do jeito que você for.’ seu sorriso não se abalou em momento algum. ‘Eu ficaria brava se você tivesse um filho aos dezesseis anos de idade, eu ficaria brava se você estivesse usando drogas, mas nunca por você gostar de alguém.’
A reação ideal. A reação e a resposta que eu e Marco mais queríamos receber. Era perfeito. Muito perfeito.
Depois da aceitação total de minha mãe foi a vez de assumir para a família de Marco. Seu pai demorou um pouco para aceitar. Ele e Marco ficaram em torno de uma semana sem se falar, mas, eventualmente, o senhor Bodt acabou cedendo e dizendo a Marco que ele aceitaria o filho dele independentemente de sua opção sexual. Marco não se deu ao trabalho de corrigir o termo, tê-lo aceitando nosso relacionamento já era o suficiente por hora.
Na escola as coisas estavam tranquilas. Tirando o fato de Reiner estar quase matando alguém por eles terem perdido um jogo das semifinais, tudo estava pacífico. Continuávamos saindo juntos quando conseguíamos um tempo livre.
‘Que que o cabeça de coco tá fazendo aqui?’ Reiner bufou, Bertholdt segurou seu ombro para que ele não se exaltasse.
‘Eu chamei ele.’ Annie respondeu com indiferença. Reiner cerrou os punhos com força. ‘Depois os homens reclamam da nossa TPM.’
‘E-eu posso ir embora se estiver incomodando...’ disse Armin envergonhado. Eu o puxei perto de mim e baguncei seu cabeço.
‘Fica de boa, seu nerd.’ sorri para ele. ‘Eu quem sugeri que a Annie convidasse ele, cara. Ele é gente boa, sério.’ Reiner semicerrou os olhos. “Ele curte ela.” Tentei fazer Reiner ler meus lábios. Ele, aparentemente, entendeu, porque mudou sua postura quase que instantaneamente.
‘Não custava avisar, né... Mas tudo bem. Vão comprar seus ingressos logo, a sessão começa em quinze minutos.’ eles assentiram. ‘Cara... A Annie e o cabeça de coco?’ balancei a cabeça afirmando. ‘Porra, que inusitado.’
‘Não sabia que você ainda falava com ele...’ Ymir, que abraçava Christa por trás, pareceu surpresa.
‘Ah, eu nunca me afastei dele. Como eu disse: ele é gente boa. E ele me ajuda bastante em biologia. A única pessoa com quem eu tenho problemas naquele grupo é o Jaeger.’ todo o desprezo do mundo não basta para descrever o modo com o qual eu falei aquelas palavras.
Na verdade Eren já havia tentado se desculpar comigo e com Marco mais de uma vez, mas eu não conseguia não odiar o cara. Tinha sido ele quem espalhara o boato de eu gostar Mikasa – o que fez com que ela se afastasse de mim e com que Marco não tentasse falar comigo antes. Além disso, ele era irritante no geral e eu nunca ia esquecer o fato dele ter tentado me separar de Marco. Em oposição a isso, Marco o havia perdoado após a quinta vez que ele havia vindo tentar se desculpar. Confesso que aquilo me deixava um pouco irritado. Até porque ele ainda continuava tentando socializar conosco, mesmo eu deixando bem claro que não queria ele perto do meu namorado.
Connie e Sasha eram completamente perdidos e, um dia, vieram falar comigo para perguntar o motivo de eu estar distante. Perguntar se eles tinham feito algo para me afastar. Tive pena dos dois, então acabei contando o que havia acontecido. Connie concordou comigo que Jaeger era um babaca. Sasha ficou extremamente feliz de eu ter arrumado alguém, finalmente. Ambos concordaram que Marco e eu formávamos um casal muito bonito – o comentário de Sasha, na verdade, foi algo nos termos de “vocês são meu OTP”. Às vezes algum dos dois vinha falar comigo para jogar papo fora.
Mikasa era fechada. Aquele era seu estado natural. Não era como se ela não se preocupasse comigo, como se ela jogasse fora toda a amizade que já havíamos tido um dia, mas ela nunca fora muito aberta. As poucas vezes que conversava comigo era para perguntar se eu havia visto Eren ou Armin em algum lugar.
De qualquer maneira, Armin se juntou a nós para o filme. Eu, como sempre, dormi o filme todo encostado em Marco e no final pedi um resumo do filme para eles não acharem que eu tivesse pegado no sono. Depois fomos para nossa sorveteria. Armin e Annie extremamente constrangidos, eu tentava descontrair o ambiente para os dois, mas o mau humor de Reiner estava um saco. Marco teve de se encarregar de puxar assunto, eu não estava dando conta. Ele, Ymir e eu começamos uma brincadeira que resolveu todos os nossos problemas.
Ela consistia em colocar o máximo de sorvete possível na boca e ficar com ele na boca até o último rir. Pegamos três potes a mais para cuspir o sorvete lá dentro. Além de nós podermos fazer gracinhas um para os outros, Reiner e Bertholdt ficavam contando piadas ou coisas do tipo. Christa e Armin seriam os jurados. Annie preferiu não se juntar a nós e ficou apenas observando e ajudando Armin.
Marco foi o primeiro a cuspir todo seu sorvete. Era muito fácil fazê-lo rir. Tudo o que Reiner teve de fazer foi contar a piada da fumiga e ele quase morreu engasgado.
‘Não é justo!’ ele dizia quase sem fôlego. ‘Vocês sabem que eu acho essa piada hilária!’
‘Contente-se no lado dos perdedores, Bodt.’ o loiro ria com ele. ‘Escolha pra quem você tá torcendo e ajuda a gente a fazer eles rirem.’ a risada de Marco inundava minha orelha e me fazia querer rir com ele, mas eu me segurei o máximo que pude.
Três minutos, diversas piadas sem graça e o sorvete completamente líquido em nossas bocas depois, Christa propôs um empate. Claro que Ymir e eu não aceitamos a proposta. Éramos ambos extremamente competitivos. Marco e Bertholdt haviam desistido de nos fazer rir. Foi quando Reiner pegou seu celular do bolso e mexeu em alguma coisa lá. Depois de um tempo ele apertou play e todo o sorvete da minha boca voou. Grande parte caiu no pote de fato, mas uma parte dele acertar Ymir, o que a fez rir também e me acertar um pouco. Reiner começou a cantar junto com a voz de seu celular.
'Desce, sobe, empina e rebola, toda delícia, toda gostosa.' eu não conseguia parar de rir. Quase todo o resto da mesa estava com a mesma expressão de Annie. Aquela cara de "vocês são uns idiotas" que ela sempre fazia para mim e para Reiner. 'Eeeeita Giovanna.' nós dois e Ymir dissemos ao mesmo tempo, voltando a rir.
'Vocês têm um senso de humor muito parecido e muito ruim, isso é tão bizarro.' Annie revirou os olhos. 'Só falta vocês gostarem dos vídeos das cabras...'
'A melhor versão de cabra é a de Earth do Michael Jackson!' Marco disse animado. Reiner, assim que o vídeo do forninho acabou, colocou um vídeo com as melhores versões de músicas com cabra. Annie e Bertholdt ficaram sérios, mas o resto de nós começou a rir muito. 'Ah, você nunca ri de nada Annie. Duvido que não tenha algo que você ache engraçado.'
'Claro que tem. Só não são esses vídeos virais. Gosto de vídeos de pessoas levando susto.' ela confessou. 'Tem um hilário que é um funcionário de uma cozinha ou algo do tipo que leva susto muito fácil.'
'Eu já vi esse! É muito bom.' Armin riu lembrando do vídeo. 'Você quem me mandou, Jean, lembra?' eu assenti. Aquele vídeo havia realmente me feito rir muito.
'Parece que nosso senso de humor também não difere totalmente, Annie.' a provoquei, ela revirou os olhos. Armin segurou sua mão, fazendo-a encara-lo, e sorriu para ela. Aquilo a fez corar e sorrir quase que imperceptivelmente.
Eu estava orgulhoso de Armin por, finalmente, ter tido coragem de dizer a ela como ele se sentia. Ele sempre falou bem dela para mim, sempre elogiou sua beleza, coisas do tipo. Depois de eu começar a andar com ela Armin ficou ainda mais obcecado e pode-se até mesmo dizer que obstinado a falar com ela. Em algum momento ele havia realmente falado. A garota veio conversar comigo quando ele o fez, veio perguntar se eu sabia se era verdade ou só uma brincadeira de mal gosto e acabou confessando se interessar por ele também. Foi quando eu sugeri que ela o levasse em algum rolê de nosso grupo e, de tanto eu insistir, ela acabou acatando a ideia.
Aquele era o primeiro encontro dos dois. Me sentia como se estivesse tendo um déjà vu. Torcia para que a relação dos dois superasse quaisquer dificuldades que encontrasse porque Armin merecia toda a felicidade do mundo. Ele era uma pessoa extremamente boa — por mais que insistisse em que eu não o qualificasse daquela maneira porque, segundo ele, não existiam "pessoas boas" e pessoas ruins".
O resto do dia seguiu tranquilo, com nós todos rindo e fazendo piadas idiotas, cantando músicas babacas e passando vergonha.
Na semana seguinte combinei de ir na casa de Reiner. Ele queria minha ajuda com Filosofia porque, palavras dele e não minhas, ele era muito tapado para esse tipo de matéria. Fomos direto da escola para não perder tempo de estudo, já que pretendíamos também estudar um pouco de Física no mesmo dia.
'Só não senta na minha cama ainda. Bert dormiu aqui essa noite e eu não troquei o lençol.' ri da cara de vergonha que ele fez. Era engraçado ver Reiner envergonhado porque não era comum. Rapidamente ele trocou a roupa de cama e a estendeu para que pudéssemos nos sentar.
O quarto de Reiner era bem mais arrumado e maior do que o meu, reparei enquanto ele organizava as coisas. Três das quatro paredes eram creme e uma — a da cama — era laranja. Ele tinha uma TV e vários consoles de videogame lá.
'Ok, por onde você quer começar?' perguntei depois de estarmos prontos para estudar. Ele não respondeu. 'Mano. Você quer ajuda no que exatamente?'
'O que é filosofia?' perguntou coçando o queixo para parecer reflexivo, dei um tapa em seu ombro. 'Eu tenho, no mínimo, quinze vezes a sua força, cara, você não vai gostar de eu revidar isso.'
'Eu já sou praticamente imune aos seus socos, Braun.' sorri para deixar claro que era uma piada, ele me deu um soco leve no braço.
'Nada engraçado, otário.' sorriu também. 'Ok, pode começar por qualquer lugar, eu não entendo nada mesmo...' bufei e revirei os olhos.
'Tá, deixa eu ver o seu caderno.' ele me entregou o objeto e eu o folheei, em busca de anotações que me indicassem qual o último conteúdo que ele havia tido. 'Talvez se você anotasse alguma coisa você aprenderia Filosofia...' ele revirou os olhos. 'Qual foi a última coisa que você lembra de ter visto?'
'Não sei... O mito da caverna talvez?' passei as mãos pelo meu rosto e inspirei fundo.
'A última vez que a gente viu isso foi ano passado, mano... Ok, vamos falar de Sócrates então, tá?' o loiro assentiu e pegou seu caderno para anotar. 'Não precisa, só presta atenção. Ele foi um filósofo grego, tinha como aluno Platão, um cara famoso que você deve ter ouvido falar sobre já. O Sócrates é considerado um dos criadores da filosofia ocidental. Ele é o cara da maiêutica, sabe? Esse nome é familiar pra você?' Reiner assentiu novamente.
Comecei a falar de Sócrates e seus pensamentos, já fazendo alguns adendos e comparações com outros filósofos no meio para ver se ele tinha algum "clique" e lembrava de onde ele realmente tinha parado de estudar, mas nada. Tentei resumir Sócrates o máximo possível sem ser muito breve. Era estranho dar aula para ele porque muitas vezes eu tinha que olhar meu próprio caderno para checar se estava falando a coisa certa ou não. A gente tem que dar muito crédito aos nossos professores, eles são foda...
Pulei depois para Platão, de maneira meio que comparativa. Até que ele começou a fazer perguntas diversas sobre os dois citados e sobre outros filósofos que não necessariamente se relacionavam com o que eu estava falando. Aquilo era bom, ele estava começando a se achar pelo caminho.
Depois de uma hora falando de filosofia Reiner se deu por satisfeito e achou melhor fazermos alguns exercícios de física para "descansar a mente". Porque, segundo ele, esse tipo de assunto muito denso o deixava irritado.
Foi no meio de um exercício quase impossível que ele desistiu e começou a puxar outro assunto.
'Ow, deixa eu falar...' levantei meus olhos do livro e o vi olhando fixamente para suas mãos. 'Lembra que eu disse, faz um tempo já, que a gente tinha que conversar um dia sobre o motivo de eu ser um escroto contigo?'
'Mano, a gente realmente não precisa... Não por mim, pelo menos...'
'Não, eu quero. Se não for incômodo. Eu acho que eu te devo pelo menos isso...' assenti. 'Agora que você me conhece você sabe como eu sou e tal. Que quando eu pego implicância com alguém aquilo gruda em mim até alguém — geralmente Marco ou Bert — me convencer do contrário, né...' ele coçou sua cabeça, como se buscando as palavras certas. Fiquei em silêncio, apenas ouvindo. Não porque eu precisava daquilo, mas porque Reiner precisava. 'Um dia a gente ganhou um jogo e ficou muito louco. O time inteiro, as líderes de torcida e todo mundo que tava assistindo foi pra casa do Franz e rolou uma festa enorme lá. Eu não sei se você já viu Marco bêbado, mas eu te digo que ele é oito ou oitenta. Ou ele fica feliz a ponto de você querer dar um soco na cara dele ou ele não para de chorar. O caso foi o segundo.' ele me olhou. 'Ele entrou em um quarto em que tava eu e Bert junto, quase fazendo o que a gente tinha pra fazer...'
'Me poupa dos detalhes dessa cena, por favor.' zoei colocando a língua para fora e fazendo cara de nojo, ele me mostrou o dedo do meio e riu.
'Enfim... Ele entrou chorando, trancou a porta atrás dele e ficou por horas, literalmente horas, falando sobre você. Falando sobre o vizinho dele de dois tons de cabelo que ele nunca ia conseguir falar com e que gostava de outra mina e que o fazia sofrer muito.' respirou fundo. 'Se alguém faz Marco sofrer essa pessoa tem de pagar. Ele é praticamente Jesus com sardas, acho que você entende o que eu quero dizer? É tipo fazer a Christa chorar, só que ela ainda tentaria se defender sozinha. Ele não.' aconteceu uma pausa longa, fiquei confuso se deveria dizer algo ou não. Aquela história realmente não tinha muito importância para mim no momento... 'E você continuava sua vida, você continuava andando por aí sem parecer que dava a mínima para os outros. E eu com minhas frustrações e morrendo de medo de alguns antigos membros do time, que eram uns babacas homofóbicos e escrotos, descobrirem sobre mim. E em casa as coisas não tavam indo lá muito bem, meus pai se separando justamente porque meu pai se apaixonou por um cara... Eu precisava extravasar e não havia alvo melhor do que o garoto sem muitos amigos que parecia não ligar pra ninguém e pra nada e que havia magoado Marco sem saber...' respirou fundo.
'Eu lembro do primeiro soco que você me deu até hoje. Vai ficar na história, cara, foi icônico.' sorri novamente, Reiner fez o mesmo. 'Mano, eu vou ser bem sincero contigo. Eu não me importo com seus motivos. Porque já passou e não volta mais. Agora a gente é amigo, a gente é brother, sabe, e é isso que importa. Não tem motivo pra ficar voltando no passado, desenterrando essas coisas ruins.' toquei seu ombro com todo o afeto que eu pude, tentando aparentar ser tão sincero quanto eu pretendia ser. 'Não to legitimado seus erros. Seus motivos foram toscos, na verdade, mas eles eram importantes ou legítimos ou sei lá pra você na época, até porque foi tudo auto defesa... Deixa quieto, cara.' ele assentiu e me abraçou.
'Você é um cara decente, Kirschtein. Não pode deixar ninguém tirar isso de você. Estou dando minha benção de pai para namorar Marco.' me soltou e fez o sinal da cruz em mim, eu empurrei sua mão no final e ambos rimos.
'Você e o Bert são muito pais do Marco mesmo.' encostei na parede atrás a cama. 'Eu só tenho uma pergunta...' cerrei meus punhos e encarei-os, hesitando se devia perguntar aquilo ou não. Decidi fazê-lo. 'O Marco sabia que vocês me batiam... Por que ele nunca fez nada?'
'Isso foi culpa minha também... Eu mentia pra ele falando que você me provocava sempre. Bert era o meu maior problema. Pra convencer ele de não dedurar minha mentira pro capitão eu tive de falar que você zoava Marco pelas costas, aí isso fazia ele, mesmo com pesar porque ele é contra violência, não ir contra os meus planinhos.' ele abaixou a cabeça, segurei sua mão e sorri, assegurando-lhe que estava tudo bem. 'Eu também tenho uma pergunta...' assenti, ele apertou minha mão. 'Aquela lâmina no banheiro, que Marco tentou esconder da gente, era sua, não era?' gelei.
'Não, cara, como assim. Quem leva uma lâmina pra escola?' o soltei e, involuntariamente, tentei tirar meus braços de seu campo de visão. Reflexo maldito.
'Jean...' só para constar: aquela foi a primeira vez que alguém que não Marco e minha mãe havia dito meu nome de fato falando comigo. 'Você não precisa falar disso se não quiser, só não mente, por favor. Todo mundo já percebeu que depois de alguma coisa ruim ou alguma briga com alguém, não importando o calor que estiver, você tá de manga comprida. Todos nós já percebemos seu hábito de deixar seu braço sempre o menos visível possível... Marco se recusa a falar sobre esse assunto com a gente e a gente tá preocupado.'
'A gente?' perguntei confuso.
'É. A gente. Seus amigos que prestam atenção em você e que gostam de você, sabe de quem eu to falando?' riu me dando um soquinho leve no ombro. 'Enfim, eu já tenho minha resposta. Só promete que se a gente puder fazer qualquer coisa pra ajudar você vai pedir nossa ajuda?' hesitei um pouco, mas acabei concordando. Ele não estava pedindo que eu parasse, nem que eu tentasse. Só que eu pedisse ajuda se eles pudessem me ajudar. Aquilo eu podia fazer.
O resto do ia seguiu conosco estudando um pouco mais. Quando fui para casa eu tinha certeza de que havia ajudado meu amigo a entender melhor filosofia. Também tinha a certeza de que as coisas estavam bem, de que estava tudo se acertando. Aquela conversa havia me deixado extremamente feliz. A vida estava perfeita.
Cheguei em casa e Marco estava sentado em frente à porta. Saí do carro confuso.
'Você não quer dormir na minha casa hoje?' levantou e ficou na minha frente, bloqueando a passagem da porta.
'Oi, tudo bom? To bem sim e você? Como foi o dia? Foi bom e o seu?' tentei abrir a prta, ele se colocou em minha frente. 'Marco, primeiro você nem me cumprimenta e agora não quer deixar eu entrar na minha própria casa. Que que tá rolando?' cruzei os braços, esperando por uma explicação plausível para aquelas atitudes estranhas e sem sentido.
'Eu... Confia em mim... Só vamos dormir em casa hoje, tá?' bufei. 'Por favor...'
'Preciso pegar minhas coisas, então.' retruquei tentando passar, ele ainda não saiu do meu caminho.
'Eu te empresto roupa e caderno pra amanhã, não precisa se preocupar. Você já tem uma escova de dentes em casa, até, olha só!' pegou minha mão. 'Jean, vem comigo, por favor.' tirei minha mão da sua.
'Vou assim que você me explicar o que tá acontecendo.' respondi grosso. Ele fechou os olhos, com um semblante preocupado. 'Sem segredos, Marco.' meu namorado abriu os olhos e saiu de minha frente. 'Vou pegar minhas coisas e a gente vai, ok?' ele assentiu, pegou minha mão e me deu um beijo na bochecha. Enquanto eu abria a porta de casa sentia ele apertar minha mão com força, ele estava suando e nervoso e eu estava ficando preocupado. Não era normal Marco agir daquele jeito.
Assim que abri a porta me arrependi de não ter acatado o pedido dele logo de cara e de ter insistido em entrar naquele lugar. Arregalei meus olhos por um instante, mas logo meu rosto expressou toda a raiva que eu sentia. Marco me abraçou fortemente para que eu não pulasse em cima daquele homem que estava parado lá, com uma cara tranquila, sorrindo para mim. Minha mãe aterrorizada, olhando Marco me segurar e eu me debater em seus braço.
Tudo estava perfeito, tudo estava tão perfeito e a última coisa que eu precisava era daquele homem de volta para estragar minha vida e a de todas as pessoas que eu amava. A última coisa que eu precisava era voltar para a merda.
'Bem vindo de volta, filho.' seus olhos pareciam mortos, mas ele sorria. Eu quis socar a cara dele até aquele sorriso cínico sair de lá e nunca mais voltar.
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