Rain Sound

5 Capítulo 5


Notas iniciais
Fanfic Yaoi - significando moço com moço. Se não curte é melhor não ler, né, não sei, mas aí vai de cada um mesmo rs. Ok, demorei milênios para atualizar, de novo, mas atualizei. Esse capítulo tem mais palavrões do que o normal, além de ter mais uma cena de self harming - que eu tentei deixar o mais leve possível, mas ainda sim é importante dar o trigger warning, né... Enfim, lá vamos nós:

"Deitamos juntos, um de frente para o outro, segurando nossas mãos, conversamos até ele parar de responder, acabei pegando no sono algum tempo depois"

~~

Eventualmente acabamos formando um grupo novo. Eu, particularmente, demorei um pouco para me acostumar com tudo. Às vezes eu me questionava, gratuitamente, sobre a sexualidade de Annie, já que nossa panelinha era formada quase inteira por não-héteros — apesar de apenas Ymir e Christa terem se assumido perante à sociedade -, o que era estranho pra mim, que havia saído de um grupo extremamente heterossexual. Pelo menos até onde eu sabia, já que não era como se eles me contassem muito sobre si — com exceção de, em tempos mais recentes, Armin, que me contava sobre uma garota misteriosa, sem contar quem.

Digressões à parte, éramos um grupo bastante peculiar, mas até combinávamos. Tínhamos criado uma espécie de rotina, mas não aquela massante em que me encontrava previamente. Depois de todo jogo de basquete íamos à mesma sorveteria comemorar vitórias ou lidar com derrotas e, cada vez mais, nos entrosávamos. Estávamos em um nível de amizade tão alto que já conseguíamos manter diálogos sobre qualquer assunto com Annie — o que era extremamente difícil no começo. Marco contara a Reiner e Bertholdt que eu sabia sobre a relação dos dois. O moreno relaxou um pouco mais na minha presença, percebi que ele ficava menos nervoso de agir normalmente, o que me deixava satisfeito. O loiro havia começado a me tratar melhor — não bem, mas melhor. Seus olhares e atitudes continuavam hostis, especialmente quando eu e Bert estávamos próximos.

Quanto a relacionamentos: meus encontros com Marco começaram a acontecer todos os sábados. Isso oficialmente — tipo ir no cinema, no parque -, porque extraoficialmente nos víamos quase todo dia na casa um do outro depois da escola. Sou obrigado a confessar que, no começo, eu fui praticamente obrigado a sair com Marco. Não porque eu não quisesse passar tempo com ele, de maneira alguma, mas eu preferia ficar dentro de casa, eu gostava de privacidade. Acabei me acostumando com a situação e, depois de umas duas ou três saídas, comecei a agir com naturalidade no mundo exterior. Toda essa felicidade durou cerca de dois meses ininterrupta, antes de meus antigos amigos ressurgirem das cinzas.

Dizer "antigos amigos" me parecia cruel, como se eu houvesse os substituído — o que não era exatamente o caso, afinal, eu ainda mantinha contato com Armin. A verdade era que eu sabia que eu era substituível para eles, mesmo que inconscientemente, e isso fazia eu me sentir bem menos cuzão de "troca-los" por outras pessoas do que eu provavelmente deveria. Me julgue por isso se quiser. Além disso, quando eu estava com eles eu era tratado mal, de um modo geral, então eu não era tão mal assim. Marco fazia questão de dizer que eu não estava sendo um merda sempre que esse tópico aparecia em alguma conversa nossa. E dizer "renascer das cinzas" me parecia errado porque dava a impressão de fênix e ela é o símbolo da esperança e de coisas boas e, acredite em mim, a volta deles na minha vida traria tudo menos coisas boas.

Um dia Eren apareceu em nossa mesa no almoço e disse querer conversar comigo de tarde. Assim que propôs que eu fosse em sua casa Marco apertou minha coxa por baixo da mesa. Virei o rosto para olha-lo, ele sorria, mas não parecia nada feliz. Desconversei, tentei dispensar Eren dizendo que não podia, que tinha algo para fazer, mas ele continuou insistindo. Sabe aqueles traços de personalidade que cria uma dúvida nos outros sobre ser uma qualidade ou um defeito? A insistência de Eren Jaeger era um desses. E ela me irritava. Muito. Talvez fosse porque eu, muitas vezes, simplesmente me conformava com situações e não insistia, só permanecia razoavelmente passivo. Não que isso venha ao caso, não vem. O fato era que Jaeger me dava nos nervos. Porque ele gritava o tempo todo, porque ele só sabia brigar, porque ele enchia o saco, por tantos motivos... De qualquer modo, ele insistiu tanto que acabei ficando com o saco cheio e concordando em conversar só para que ele fosse embora, ignorando a força com que Marco fincava suas unhas em minha perna. Só então, depois de ter cedido — visivelmente contra minha vontade -, Eren foi embora, mas não sem antes lançar a Marco um sorriso estranho, me atreveria a dizer que parecia vitorioso — sorriso que fez minha perna ser esmagada com mais força, arrancando de mim um gemido baixo de dor.

'Não quero que você vá.' seu sorriso havia sumido por completo, seus olhos semi cerrados observando Jaeger se afastar de nós. Na mesa todos encaravam seus pratos ou celulares, sem dizer uma palavra sequer. Tentei protestar, mas ele não deixou. 'Não quero.' pedi ajuda com o olhar, mas ninguém se atreveu a falar. Grandes amigos, pensei ironicamente. 'Você não vai. Não quero você sozinho com ele. Se ele quiser falar contigo vai fazer na escola e comigo perto. Ponto final.'

'Solta minha perna.' meu tom de voz saiu mais sério e bem mais grave do que o que eu esperava ou planejava. Ele o fez, mas seu olhar para mim perfurou minha alma com a mesma intensidade que suas unhas perfuravam minha coxa anteriormente. 'Para com isso. Eu vou. Não tem nada de mais." Marco bateu com força na mesa, o que fez todos na mesa se sobressaltarem e nossos músculos todos tensionarem. Ele abriu a boca para falar, mas Christa acabou por nos interromper.

'Vocês têm certeza de que aqui é o lugar certo pra discutir?' ela mordeu o lábio inferior, a tensão entre todos da mesa era grande. 'Desse jeito o refeitório inteiro vai escutar vocês...' Marco levantou bruscamente, quase derrubando sua bandeja pela falta de delicadeza, e saiu do refeitório. Fiz menção de que iria atrás, mas ela me parou. 'Deixa ele esfriar a cabeça... Se você for agora vocês vão brigar e vai ser feio. É melhor esperar...' todos concordaram, assenti os observando. Ymir e Annie estavam mais sérias do que o comum, Bertholdt sorria nervosamente e suava em frio um pouco e Reiner me encarava com ódio, para variar um pouco. Ótimo! Eu não havia feito absolutamente nada de errado e, ainda sim, ele me odiava. Que maravilha! Bufei, impaciente. O sinal bateu e seguimos para nossas aulas.

Não conseguia parar de pensar no que acontecera, aquilo me consumia de maneira que eu não conseguia me acalmar. Também não conseguia prestar atenção em absolutamente nada do que qualquer pessoa dizia. Depois do período de aula fui direto para a casa de Marco. Esperava, honestamente, que ele houvesse se acalmado, porque eu não havia. Nem um pouco, por sinal. Apertei a campainha e esperei. Uma, duas, três vezes. Nada. Comecei a gritar seu nome. Nada. Estava ficando cada vez mais irritado. Algumas crianças na rua começaram a parar o que estavam fazendo para formar um bloco e assistir meu alvoroço na frente da casa de Marco. Comecei a bater forte na porta, praticamente ordenando que ele a abrisse, gritando e sendo ignorado..

'Jaeger não mora aqui.' quinze minutos. Quinze minutos foi, aproximadamente, o tempo que ele demorou para abrir a porra da porta. Quinze minutos sendo observado. Ele me olhava de modo cínico. Cerrei os punhos e respirei fundo para não bater nele. Marco tentou fechar a porta, mas coloquei meu braço no caminho, tentando impedi-lo — o que foi uma péssima ideia porque ela bateu com bastante força em mim. Xinguei baixo. 'Sai.' não respondi, apenas sustentei seu olhar e aquela situação até ele desistir e largar tudo. Começou a andar para seu quarto, tentei ser mais rápido para não ser trancado para fora. Fechei a entrada da casa e corri na frente dele para o quarto. Marco se jogou na cama, deitando. Fechei a porta do quarto com cuidado, encostei as costas nela, cruzei os braços e fiquei calado, de pé, com uma sobrancelha levantada. 'Fala logo o que você quer pra eu poder voltar a dormir.' respirei fundo mais uma vez.

'Por que você tá agindo assim?' Eu não fiz nada errado.' ele sentou, claramente irritado. 'Você sempre fala que preciso resolver esses problemas todos, que preciso acabar com o que me faz mal e quando tenho essa chance você age assim, não me apoia nem nada? Caralho, Marco, eu não entendo isso! Qual é?' ele semicerrou os olhos. Nunca o havia visto daquele jeito, era um pouco assustador, diga-se de passagem.

'Você é burro?' cuspiu as palavras com desprezo, quase voei em cima dele de raiva, mas me segurei, respirando fundo mais uma vez. A quantidade de vezes que estava fazendo aquilo estava começando a tornar aquela ação bastante irritante em si. 'Eu não quero você sozinho com ele. Não é difícil de entender.'

'Marco, a gente vai conversar, pelo amor! Desse jeito vou achar que você não confia em mim. Parece até que tá com ciúme.' sua expressão mudou um pouco, agora ele parecia levemente ofendido com o que eu havia dito.

'Eu to com ciúme, seu idiota!' ele levantou a voz. 'O jeito que ele te trata... Não é ódio, não é desdém. Você só não percebe porque é uma porta!' por um instante não soube como nem o que responder. Marco estava com ciúme, isso significava que eu era importante para ele. Ok, eu sei que eu já deveria ter percebido isso antes, mas... De qualquer maneira, algo no modo que ele falou aquilo me irritou — talvez não tenha sido nem o jeito que ele falou, talvez tenha sido porque eu estava tão puto que qualquer coisa estava me irritando muito -, então não tive muito tempo de pensar sobre eu ser importante para Marco. Não tive tempo algum porque assim que ele terminou de falar entrei em um breve conflito comigo mesmo. E o lado irritado, o lado Kirschtein, venceu. O lado Kirschtein sempre vencia.

'Você tá imaginando coisa.' fui bastante grosso. 'De qualquer maneira, eu vou. Vou e ainda vou provar que você tá errado.' virei as costas para ele.

'Se você for...' eu congelei. Tentando mascarar sua voz trêmula Marco respirou fundo antes de continuar a falar. 'Se você for me esquece.' disse num tom sério, extremamente sério. Assenti, sem me dar ao trabalho de virar para olhar em seus olhos, e fui embora.

Sim, fui embora. Porque eu estava puto, porque eu era uma criança idiota no corpo de um adolescente babaca que se deixava levar por ondas de raiva. Assim que fechei a porta do quarto atrás de mim ouvi Marco cair, ouvi Marco tempestuar por detrás da porta. E continuei rumo a meu carro. Não por falta de vontade de voltar atrás, não por falta de amor, mas por orgulho. E por medo. Porque tempestades me deixavam aterrorizado e eu fazia qualquer coisa para tentar fugir delas. Assim que entrei em meu carro a tempestade me alcançou. Chorei o caminho inteiro, soluçava como um recém nascido que acabara de sair do ventre quente de sua mãe. Meu celular vibrou três vezes, indicando três mensagens, mas preferi não olhar naquela hora, preferi tentar fugir dos trovões.

Em algum momento da vida a gente acaba percebendo que não há como fugir das tempestades. Elas existem, elas nos acompanham a vida toda. Elas acontecem, você querendo ou não. Claro, há como se proteger delas. Há como se cobrir de modo que os raios não te atinjam, de modo que os trovões pareçam mais baixos, de modo que a água não te molhe tanto, mas não há como impedi-las. Correr é inútil, você vai se molhar de qualquer jeito. Isso foi algo que aprendi com o passar dos anos, mas naquele momento, no momento em que Jean Kirschtein tinha apenas 16 anos e não sabia lidar com a vida, esse fato me era desconhecido. Após estacionar na porta de Eren minha curiosidade me fez checar os sms.

Marco: Por favor...

Marco: É isso?

Marco: Acabou?

Fiquei algum tempo encarando a tela da última pergunta. Enquanto tentava fazer as lágrimas pararem de correr pelo meu rosto não pude deixar de questionar "o quê?". O que tínhamos para acabar? O que eu e Marco eramos de verdade? Depois de bons dez minutos comecei a realmente me recompor, afastar os pensamentos, os questionamentos, tinha de fazer o que havia ido fazer. Só saí do carro quando minha imagem no espelho parecia razoavelmente apresentável. Na primeira vez que toquei a campainha Eren abriu a porta de prontidão, em contraste com mais cedo.

'Você veio.' sorriu. 'Entra, entra. Quer uma água ou qualquer outra coisa?' balancei a cabeça, negando, e o segui até a sala de estar. O moreno sentou no sofá e apontou para seu lado. 'Senta, senta.' sentei no lado oposto ao dele. 'Você tá bem? Tava chorando?' neguei, forçando um sorriso. Ele não precisava saber, ninguém precisava. 'Se quiser conversar...'sua voz parecia preocupada, mas não genuinamente. Não tinha certeza se era noia minha ou não, mas resolvi assumir que ele estava apenas sendo educado. Até porque tinha algo estranho em seus olhos. 'Bom, eu queria saber o que aconteceu. Tipo, o porque de você ter sumido tão do nada...' envolveu minhas mãos com as dele, fiz questão de recua-las rapidamente. 'E aí você começou a se aproximar do...' hesitou. 'Deles." encarou no fundo dos meus olhos. 'Você parece feliz com eles. Com Bodt.'

'Ele não tem nada a ver com eu estar feliz ou não.' entrei na defensiva. Eren levantou uma sobrancelha, como se soubesse que eu escondia alguma coisa.

'Bom, ele te curte.' disse diretamente, engoli em seco. 'Sério que você é tão lerdo assim? Ok, agora você sabe então se não quiser nada tem que parar de fazer parecer que quer.' ele estreitou os olhos. 'A não ser que você queria. Você não quer... Quer?' neguei rapidamente. Eu me surpreendi com a rapidez que neguei minha sexualidade, não imaginava que me assumir seria algo tão problemático pra mim. 'Com ninguém?' ok, aquilo estava começando a seguir por um caminho não muito normal, não muito desejado. Principalmente porque notei que o espaço entre nós dois estava ficando cada vez menor.

'Jaeger, você tá sendo estranho.' ele se inclinou levemente mais para perto de mim. Tentei empurrado um pouco. 'Que que te importa se eu quero alguma coisa com ele ou com qualquer pessoa? A gente não tá aqui pra discutir isso.' ele assentiu.
'Eu só estava curioso.' acariciou minha bochecha com seu polegar, dei um tapa em sua mão, ele me forçou para baixo, ficando em cima de mim e prendendo meus braços a cima de minha cabeça. Nota mental: fazer exercícios físicos porque se Eren Jaeger estava mais forte que eu tinha algo de errado na vida. 'Olha, eu to tentando ser legal aqui, você pode colaborar, certo?' aquele brilho estranho em seu olhar se intensificou. Merda, merda, merda, merda! Se Marco estivesse certo eu me culparia tanto.

'Sai, velho!' me debati levemente, ele me prendeu entre suas pernas, ficando ajoelhado no sofá. 'Jaeger, caralho!'

'Ok, Kirschtein, cansei. Eu tava tentando falar com você de um jeito mais delicado, mas se você vai ser difícil vou ter que ser mais duro contigo. Você não quer nada com Marco? Se afasta. Ou eu afasto vocês.' minha cabeça deu um giro. Quê? Seu semblante meio sombrio, ele parecia bastante irritado — mais do que o normal. 'Vai embora da vida dele, deixa o caminho livre. Se você não quer tem quem queira. E não gosto nada de pessoas perto do que é meu, sabe? Eu sou meio possessivo, por incrível que pareça.' Eren sorriu para mim quando a campainha tocou. Esperei que ele saísse e fosse abrir a porta, mas, obviamente, ele não o fez. 'Minha chance.' disse quando ouviu Marco pedindo que ele abrisse a porta. 'Você não merece ele.' consegui derruba-lo do sofá. 'Ele é meu, Kirschtein!' gritou antes de vir para cima de mim. O primeiro soco veio dele, mas não deixei barato. 'Você acha que é o único? Você realmente acha que ele só se importa com você? Você não é o único, nunca foi. E não vai ser o último!'

'Cala a boca! Não fala dele. Você não tem o direito de falar dele, não tem o direito de pensar no Marco. No meu Marco!' Eren mordeu minha clavícula com força, segui socando sua cabeça.

'Seu Marco?' ouvi um estrondo alto e vi Armin e Marco entrando na casa. 'Você acabou de falar que ele não tem nada a ver com sua felicidade e quando perguntei se teria algo com ele não demorou nem um segundo antes de negar.' senti um par de braços me envolver e fomos separados por nossos amigos, que tentavam nos impedir de matarmos um ao outro.

'Foda-se o que eu falei, não quis dizer nada do que eu disse. Ou você cala a boca ou eu quebro sua cara.' tentei chuta-lo, mas os braços atrás de mim me apertaram com mais força.

'Você é substituível. Vai perceber isso mais cedo ou mais tarde. Marco não pareceu ter problema nenhum em te substituir por mim um tempo atrás, ninguém tem problema em substituir você. Quanto mais rápido você perceber isso melhor.' o som de Armin lhe dando um tapa ecoou bem alto, Eren ficou quieto. Marco começou a me arrastar para fora da casa rapidamente. Assim que chegamos perto de meu carro o empurrei para longe. Percebi sangue na minha blusa, bufei.

Mais um fato sobre mim: sou extremamente cabeça dura. Se Marco havia dito para eu esquece-lo é o que eu faria. Por pura birra. Porque eu sou esse tipo de cara. Mais um fato: qualquer coisa que disserem para mim vai ficar marcado na minha cabeça. Principalmente se for algo ruim. Então naquele momento "você é substituível" e "se você for me esquece" martelavam em minha cabeça com toda a força. Naquele minuto o que eu mais precisava era ficar sozinho, no meu banheiro, na minha privacidade. Abri a porta do carro, ele me parou.

'Você tá sangrando. Deixa eu te levar no hospital.' neguei, tentei entrar no carro novamente. 'Por favor. Deixa eu te ajudar, a culpa foi minha, preciso concertar a merda.' acabei cedendo porque estava me sentindo tonto. Marco me levou até o outro lado e me colocou no banco do passageiro.

'Me leva pra casa.' ele assentiu, claramente não queria pressionar muito minha concessão de receber ajuda. O silêncio reinou entre nós o caminho inteiro. Mas só no exterior. Porque minha cabeça funcionava a milhão, muitos pensamentos me ocorriam naqueles minutos. 'Por que você foi lá?'

'Porque não confio nele.' respondeu rapidamente. 'Aparentemente Armin também não, então fomos juntos para impedir que algo acontecesse...'

'Você foi meu?' ele arqueou a sobrancelha. 'Só responde.' ele estacionou em frente à minha casa e ficamos em silêncio mais uma vez. Marco me encarava, mordendo o lábio. 'Eu preciso saber, preciso ter certeza que sou...' fechei os olhos com força. 'Que era só eu.' me corrigi, abrindo os olhos novamente.

'Eren e eu... Foi há tempos.' meu peito de apertou. Imaginei eles juntos e, como em um passe de mágica, todas as minhas memórias com Marco foram substituídas por imagens dos dois juntos. Senti as lágrimas começarem a voltar. 'E acabou. Agora é você. Com ele... Não foi sério. Sempre foi você, esse é o ponto.'

'E você não queria que eu fosse porque sabia que ele ia me contar?' ele tentou negar, mas não deixei. Eu estava agindo completamente por impulso, meu corpo não estava respondendo como eu queria. Eu estava com raiva do mundo e descontando em Marco, mesmo sabendo que ele não tinha culpa. Não diretamente. 'Me conta, Marco...' eu cuspia as palavras. 'Como é quando Jaeger te toca?' ele me corrigiu, dizendo "tocava", mas continuei agindo com desprezo, ignorando qualquer coisa que ele dizia. Saí do carro, puto, sem querer olhar para Marco.

'Me escuta, eu falei que é você. Por que você não escuta?' ele veio atrás. ' Por favor! eu amo você, mas se você não acreditar...'

'Cala a boca!' virei dando-lhe um soco. 'Eu sabia desde o começo. Eu sabia que ia virar piada. Eu pedi pra você não fazer isso, mas você insistiu, insistiu que não. Eu sabia que não tinha como dar certo. Sou eu, afinal. Quem caralhos ia realmente gostar de mim? Eu sou dispensável, eu sou pequeno, eu sou...' uma dor aguda em meu peito latejava. 'Substituível.' arranquei minhas chaves das mãos de Marco e entrei em casa. Fui direito para o banheiro, tancando a porta do quarto.

Me olhei no espelho após pegar tudo o que usaria. Uma bagunça. Uma bagunça sem solução. Quando olhava naquele pedaço de superfície refletora via uma bagunça completa. Olhos vazios, geralmente tão mortos, um sorriso falso, tão falso, mas que dava uma impressão de superioridade — ele era minha auto defesa. Via cada parte de mim que queria ignorar, via cada problema emocional, cada problema, via um problema. Eu era um problema. Quando olhava no espelho eu via tudo. E odiava cada pedaço.

Um, a primeira vez que estivemos juntos. Dois, o dia da sorveteria. Três, quando fomos ao cinema pela primeira vez e ele pagou minha pipoca. Quatro, quando fomos ao parque e ao zoológico. Cinco, quando minha mãe viajou. Foram quatorze no total. Dividi sete em cada braço. Quatorze, um para cada memória que minha cabeça me substituiu por Jaeger. Até eu mesmo fazia isso. Minha pia brilhava vermelha, meu braço também. Tentando não sujar muito mais meu banheiro me arrastei até o box e me permiti cair no chão e ficar. Caído em desespero.

Marco estava em frente a mim, minhas lágrimas aumentaram. Provavelmente a última coisa que eu queria no mundo inteiro era ser visto naquela situação, ser visto depois de fazer aquilo. Era humilhante, além de extremamente pessoal. Mas lá estava ele. Um nó se formou em minha gargante, num ato involuntário de desespero abaixei minhas mangas e coloquei os braços atrás do corpo, forçando um sorriso. Como se houvesse qualquer modo de engana-lo, de mentir. Ainda me atrevi a sussurrar um baixo "estou bem". Patético. Aquilo o quebrou, eu pude ver o quanto aquilo o quebrou. Como se não bastasse eu ser um problema agora eu também era um problema para ele.

'Não...' sua voz estava fraca, quase inaudível. Ele veio até mim e me abraçou. 'Não, não.' ele repetia, beijando minha cabeça. 'Fala que não foi fundo, por favor...' pedia baixo, tentei afasta-lo de mim para que ele não se sujasse. 'A culpa é minha... Eu pensei que você não fizesse mais isso... Eu achei que eu estivesse te ajudando a parar.'

'Para.' disse em um tom duro. 'Já fiz pior do que isso. Só para.' ele se calou. 'A última coisa que preciso agora é da sua pena.' ele me soltou. 'Eu consigo me virar, fiz isso a vida inteira.' ah, a mania de querer aparentar ser forte o tempo todo. 'Eu não me corto por atenção. Não faço isso porque quero que vejam. Não me corto por falta de um relacionamento estável. Um príncipe encantado não vai me fazer parar com esse péssimo hábito, com esse meu vício.' levantei e comecei o processo de curativo. 'Parar não depende de ter um alguém, não depende de nada do tipo.' Marco permanecia de cabeça baixa. Acabei minhas bandagens em silêncio e fui para meu quarto. Suspirei ao ver minha porta no chão, ele pediu desculpa. Como se eu não estivesse com problemas o suficiente ele ainda tinha derrubado minha porta... Peguei meu iPod e deitei em minha cama. 'Você vai pagar. É a segunda porta hoje, qual é o seu problema?' ele assentiu e ficou parado, me observando encostado no batente.

'Deixa eu explicar...'

'Você acabou. Não tem o que explicar. Eu fui e agora eu to te esquecendo. Foram os seus termos.' enfiei meus fones de ouvido e virei de lado, ficando de costas para Marco.

Tentei segurar minhas lágrimas. Por que eu era tão infantil? Por que eu era tão orgulhoso? Por que eu não conseguia agir como uma pessoa normal ao invés de um idiota escroto? O meu volume no máximo para tentar afastar todo e qualquer pensamento de mim. Nada mais importava. Depois de umas cinco músicas senti ele beijando minha cabeça e um vazio. Naquela noite não havia chuva que acalmasse a tempestade. E eu sonhei com ela toda.

Notas finais
Ok, esse é o menor capítulo até agora... Ele ficou curto, muito curto....... É que eu escrevi à mão porque tava sem ter como escrever digitalmente por algum tempo, então quando começa a doer eu desisto. Isso que eu ainda tentei aumentar passando pro Nyah!... Ai, shisus... Desculpem por isso, não me matem ;-; Sei que não é uma boa justificativa, mas eu demorei pra postar porque eu escrevi à mão e é o rolê passar pro pc. Geralmente eu escrevo no bloco de notas do celular e vou me mandando por email, aí quando passo pro computador já vou editando e mudando algumas coisas. Só que eu fui assaltada faz um tempo, então eu to sem celular pra escrever, aí tive que escrever à mão. E eu fiz três versões desse capítulo à mão e dei mais uma editada aqui, então... Enfim... Reviews e feedback sempre são bem vindos, relembrando, mesmo se for um "lgl" hahahaha. E quero agradecer você por terem paciência de esperar os capítulos e etc, sério. No meu perfil tem os links dos meus twitters e tem o link do meu tumblr, se vocês quiserem conversar comigo podem falar comigo por lá. Ou peçam meu email, também pode ser. Já vou deixar um aviso prévio de que, provavelmente (e infelizmente, i guess), o capítulo 6 vai demorar um pouco pra sair porque estou com vários problemas pessoais e isso afeta minha produtividade numa escala colossal (inclusive afeta bem mais do que eu gostaria... mas a/w...). Espero que tenham gostado. Mais uma vez agradeço. Beijos mil ~