Rain Sound

13 Capítulo 13


Notas iniciais
Fanfic yaoi, ou seja: dois homens se amam. TW: morte Sem mais delongas, aqui vamos nós.

Dizem que quando você tá perto do fim você sabe. Simplesmente sabe. De algum jeito, por algum motivo, você sabe.

E aí vem o ímpeto de querer fazer todas as coisas que você não vai ter tempo de fazer. Vem a urgência de fazer todas as coisas que você quer, mas não vai viver o suficiente pra fazer “no tempo certo”. De alguma maneira você sabe — não conscientemente — que você não pode se dar ao luxo de esperar.

Dizem que quando você tá perto do fim você apressa sua vida. E que as almas que morrem cedo têm pressa porque não têm tempo. Eu nunca acreditei nesse tipo de coisa.

Chovia.

Amanheceu o dia chovendo, acabou o dia chovendo. Acabou o dia mais cedo e acabou chovendo.

Fazia duas semanas desde que Marco e eu falamos nossos votos e consumamos nossa união, acreditando na eternidade dela. Na eternidade de tudo.

No colégio ninguém questionou as alianças nos colares. Todos percebiam o quão apaixonados um pelo outro nós éramos. Ainda mais depois daquilo. Afinal, começamos a parar de nos importar.

Começamos a demonstrar afeto em público oficialmente. Nos chamar de amor em público, nos amar em público. Sentíamos como se ninguém nem nada pudesse nos parar, nos impedir, nos machucar. E, de fato, ninguém podia. Não psicologicamente, pelo menos. E com o time todo de basquete na nossa cola, ninguém do colégio se atreveria a botar as mãos em nós por conta de preconceitos idiotas e infantis. Por duas semanas nos sentimos no topo do mundo. Nada e ninguém podia nos derrubar.

Nós éramos invencíveis juntos.

Enquanto isso, em casa, o processo de divorcio de minha mãe e de meu progenitor ia bem. Havia aquela sensação de que as coisas dariam certo. Pela primeira vez na minha vida eu tinha a sensação de que tudo daria certo. Havia dentro de mim uma felicidade descomunal. Algo que eu nunca tinha sentido antes, algo que fugia de mim mesmo e acabava por contaminar todas as pessoas que me cercavam.

Eu não me importava mais com o passado. Quaisquer problemas de lá eu havia escolhido por deixar lá. Eren, meu pai. Tudo isso pertencia ao passado. A um passado onde havia só Jean Kirschtein e nada mais.

Naquele momento existia todo um mundo para além de mim mesmo. Existiam amigos, Marco, minha mãe.

Naquela semana tudo foi bom. Claro, houveram situações constrangedoras, houveram discussões em sala de aula, mas a diferença era que nada daquilo me afetava mais. Ou, pelo menos, não me afetava tanto. É obvio que toda essa mudança do mundo só existia para nós. O mundo ainda era o mesmo, éramos nós quem havíamos mudado. E é claro que, sendo assim, a sensação de que tudo era perfeito era só uma sensação. E eu sabia disso. Eu tinha essa consciência.

Sendo alguém extremamente racional, que raramente se deixava levar por felicidades, eu sabia daquilo. Mas pouco me importava. Nada disso significava algo relevante para mim. Porque eu estava bem.

Até não estar mais.

É algo bastante diferente decidir que o passado ficou no passado e ele realmente ficar.

Com relação a Eren havia sido fácil. Eu o via todo dia, mas aquele conflito fora resolvido. Aquele conflito fora pontual. Com relação a meu pai não era bem assim. O conflito com aquele homem não seria tão facilmente resolvido. Eu sabia que tudo só ficaria de fato bem quando o divórcio saísse. Quando eu tivesse a certeza de que ele era passado de fato.

Estava sendo um processo rápido, mas eu desejava todo dia que fosse mais rápido ainda. Porque aquela tensão que havia ficado dentro de mim estava latente e, portanto, podia ressurgir a qualquer instante.

E ela ressurgiu.

Dois dias antes da data final.

Faltavam dois dias....

Eu estava em casa, sozinho, sentindo algo estranho. Era como se um pressentimento – eu devia ter acreditado nesse tipo de coisa. Marco sempre me dizia que elas existiam e eu devia ter escutado ele... – tomasse conta de mim. Como se eu soubesse que algo ruim estivesse prestes a acontecer. E aquela tensão que estava adormecida desde então, se instaurou no ar. A campainha tocou. Eu não estava esperando por ninguém.

Desci os degraus lentamente, tentando não fazer barulho. Minha mãe estava trabalhando, Marco, Reiner e Bertholdt estavam treinando com o time, Ymir e Christa estavam no cinema, Armin e Annie haviam combinado de estudar juntos. Eren, Mikasa, Connie e Sasha não falavam comigo havia um bom tempo. Bruno estava na escola. Não havia qualquer outra possibilidade.

Olhei pelo olho mágico e tive que colocar a mão na boca e cerrar os dentes para conter minha náusea. A campainha tocou mais uma vez. Aquele rosto do outro lado da porta me enojava, me amedrontava. E eu estava sozinho. E eu estava vulnerável. Eu ouvi um trovão. Mas a chuva lá fora não era tempestade.

Notei que a porta havia balançado um pouco. E uma voz grossa, claramente embriagada, lá fora chamava meu nome.

‘Jean! Eu sei que você tá aí. A luz do seu quarto tá acesa.’ ele riu. ‘Abre a porta pro seu velho.’ eu quase conseguia sentir o cheiro do álcool no ar. Ele bateu na porta novamente, dessa vez não só uma, mas várias vezes. ‘Jean!’ ele gritava.

Fui me afastando da porta e subindo de volta para meu quarto, mas meus músculos demoravam para responder. Eu era, mais uma vez, o garotinho que chegava da escola todos dias e apanhava de um bêbado. Eu era, mais uma vez, todo o meu ser vulnerável e sozinho. Porque eu estava daquela maneira.

E aquele homem do outro lado da porta de entrada era muito maior, muito mais forte que eu.

‘Jean Kirschtein! Abre essa porra dessa porta ou eu vou arrombar ela!’ ele se enrolou nas palavras, eu senti minhas primeiras lágrimas. Mordi o lábio inferior forte, até sangrar, tentando segurar o choro. Eu não podia demonstrar fraqueza. Um gemido escapou da minha garganta. ‘Eu vou te dar dez segundos, Jean.’ a maneira que ele falava... Era a mesma...

‘Vai embora!’ gritei de volta. ‘Vai embora ou eu vou chamar a polícia!’ naquele momento a porta balançou mais do que o normal. Peguei o telefone fixo da mesinha que ficava na entrada e consegui arrancar até meu quarto. Tranquei a porta de lá e comecei a discar desesperadamente. ‘Puta merda...’ sussurrei com a demora do outro lado da linha para atender. Peguei, nesse meio tempo, meu celular da escrivaninha e uma lâmina do banheiro. ‘Mãe!’

‘Que foi, querido?’ ela perguntou um pouco alarmada. Não era normal eu ligar no meio da tarde

‘Mãe, ele tá aqui na frente. Batendo... Na porta...’ eu soluçava. ‘Eu to com medo, mãe. E se ele conseguir entrar?’

‘Como assim? Seu pai?’

‘É. Ele tá lá em baixo.’ ele continuou gritando, coloquei o telefone mais perto da porta do meu quarto para que ela pudesse ouvir as batidas e os berros. ‘Ele tá bêbado, tá segurando alguma garrafa na mão... O que eu faço?’

‘Jean, chama a polícia. Eu vou tentar ir pra casa o mais rápido que eu posso! Chama a polícia e tenta sair daí de algum jeito. Cuidado, filho. Te amo’

‘Eu te amo, mãe. Vou tentar.’ o barulho dos berros aumentou quando o outro lado da linha desligou. Disquei para a polícia. Uma mulher atendeu. ‘Moça, meu nome é Jean Kirschtein. Meu progenitor tá embaixo da minha casa, embriagado, tentando arrombar a porta. Nós temos um histórico de agressão por parte dele aqui. Moça, por favor, me ajuda.’

‘Moço, por favor, mantenha a calma. Eu preciso de um relato da situação, que você soletre seu nome e o seu endereço exato.’ ela pediu. Eu não tinha como manter a calma, sentia que a qualquer momento a porta seria arrombada e ele viria atrás de mim. Passei meu endereço para ela e soletrei meu sobrenome, mas foi o máximo que consegui antes de desabar a chorar. ‘Estamos enviando uma viatura com urgência para esse endereço, ok? Você consegue ficar na linha comigo enquanto isso?’ não respondi, eu não conseguia. ‘Jean, eu preciso que você me responda, você ainda está comigo?’

‘S-sim...’ tentei falar entre os soluços.

‘Em vinte minutos a viatura chega na sua casa, você consegue sair daí de algum jeito?’ as batidas pararam. ‘Jean?’ respirei fundo e larguei o telefone, decidido a descer e tentar sair de casa de algum jeito sem que ele notasse. No meio do caminho peguei meu celular e liguei para Marco. Ele não atendia.

O silêncio me assustava mais do que aquelas batidas. Liguei mais três vezes. Ele não atendeu. Eu estava desesperado, mas decidido a tentar sair de lá.

Eu tinha certeza de que se aquele homem conseguisse entrar em casa, eu apanharia tanto dele que seria meu último dia na Terra. Eu tinha certeza. Eu queria me despedir de Marco, já havia me despedido de minha mãe.

Abri o whatsapp e comecei a enviar um áudio, mas ele me ligou de volta na mesma hora.

‘Jean, eu to no meio do treino. Que foi?’ eu desabei. Naquele momento eu desabei de vez. Sentei na escada e me acabei. ‘Jean? Pelo amor de Deus, o que aconteceu?’ sua voz preocupada do outro lado da linha.

‘Meu pai...’ respondi tentando falar alguma coisa no meio dos soluços. ‘Meu pai tá aqui, Marco. Se ele conseguir entrar em casa...’

‘Ele não vai conseguir! Tá tudo trancado?’

‘Tá.’ respondi de olhos fechados. ‘Ele tava gritando até agora, mas ficou silêncio. Você tem como vir aqui? Eu já chamei a polícia, mas eu to com muito medo. Eles demoram vinte minutos.’

‘Tá, eu vou sair daqui e chego aí em cinco, dez minutos no máximo. Me espera no seu quarto e em silêncio. Me liga se alguma coisa acontecer, por favor!’

‘Eu te amo muito.’

‘Eu também, meu amor. Muito.’ e ele desligou o telefone.

Fui para meu quarto, como ele pediu, com as pernas tremendo. Coloquei meu cronômetro do relógio para rodar. Cinco minutos. Eu esperaria ele por cinco minutos, se ele não chegasse ou meu pai não entrasse em casa eu tentaria sair de lá.

Foram os piores cinco minutos da minha vida. Eu tentava me acalmar, segurava minha lâmina na mão com força. Eu não sabia o que teria de fazer com ela, mas o que quer que fosse, eu faria. Fosse em mim ou nele. Eu faria. Olhei pela janela em algum momento e o vi rondando o quarteirão dentro de seu carro. Ele, com certeza, estava embriagado. Não conseguia manter uma linha reta, mantinha uma velocidade estupidamente rápida...

Cinco minutos e um segundo, eu saí da janela, respirando fundo e segurando a lâmina com ainda mais força. Peguei meu celular e liguei para Marco. Quase no fim dos toques ele atendeu.

‘Eu to chegando. To indo o mais rápido que eu consigo. Tá tudo bem?’

‘Tá... Ele não voltou a bater, tá dando voltas no quarteirão com o carro dele... Faz algum tempo... Eu to com um sentimento ruim, Marco...’

‘Vai ficar tudo bem. Eu to chegando e a polícia também deve estar. Conversa comigo enquanto isso.’ ele falou, tentando parecer calmo, mas eu sabia que ele estava com tanto medo quanto eu.

‘Eu te amo muito, ok? Se alguma coisa acontecer comigo...’ Marco me interrompeu.

Nada vai acontecer com você, Jean.’ ele disse duro.

‘Ok... Mas eu to com medo mesmo assim, tá? Porque eu sei que eu tenho motivos. Se esse cara entrar aqui... É o fim pra mim, eu tenho certeza disso. Ele tá bêbado de novo. Eu sei o quão forte ele é... E ele não parecia nada feliz quando eu o vi pelo olho mágico, Marco...’ suspirei. Mais uma vez pensei ter ouvido um trovão e me encolhi um pouco. ‘Puta merda...’ mas aquilo não era barulho de trovão. ‘Marco?’ era barulho de lataria amassando, barulho de borracha derrapando no chão molhado. ‘Marco?’ silêncio no outro lado da linha.

Amanheceu o dia chovendo, acabou o dia chovendo. Acabou o dia mais cedo e acabou chovendo.

Pela primeira vez eu desejei que aquela chuva fosse uma tempestade. Um pé d'água que acabasse com tudo, que destruísse tudo. Um temporal com trovões tão altos que abafassem todo e qualquer som, com gotas tão pesadas que impossibilitassem qualquer um dos dois de sair de onde estavam antes.

Demorou um segundo para o meu cérebro entender o que estava acontecendo. Mais alguns para eu descer de meu quarto, tropeçando nos degraus, abrir a porta com toda a minha força e ver o que havia acontecido. Minha voz desesperada foi instantânea.

Corri em direção ao carro, capotado, o lado do motorista esmagado. Eu não consegui me mover muito mais longe do que a calçada de minha casa. Havia sangue. Havia muito sangue. Eu caí no chão com força. Ouvi a sirene da viatura e as luzes vermelhas e azuis piscando, iluminando o local.

‘Não...’ minha voz saiu bem fraca. 'Isso não tá acontecendo, não tem como isso estar acontecendo!’ aquilo tudo saiu em voz alta.

E eu não conseguia sair do lugar. Minhas pernas não se moviam. Eu não conseguia ir ver como Marco estava. Dois policiais saíram da viatura. Um deles pedindo reforço o mais rápido possível e o outro vindo em minha direção.

‘Você é Jean?’ eu assenti. ‘O que aconteceu aqui?’ eu não conseguia responder. Nem chorar. Eu não conseguia nada. ‘Jean, eu preciso que você me ajude.’

‘Eu não vi...’ respondi com os olhos arregalados. ‘Eu liguei pra ele... Eu tava com medo e eu liguei pra ele... É minha culpa...’

‘Ligou pra quem? Quem está no carro? Onde está seu pai?’ aquelas perguntas não faziam sentido pra mim. Entravam por um ouvido e saíam por outro.

‘Marco... Marco, é tudo minha culpa...’ a chuva caía em mim, mas não limpava nada. Ela espalhava o sangue. Percebi espectadores. Eles deveriam estar lá desde o começo do escândalo de meu pai... O outro policial olhou em nossa direção e fez um não com a cabeça. E eu entendi. ‘Não.’ minhas pernas tomaram força mais uma vez. Um resto de força. E deram um impulso em direção à cena. Minha lâmina ainda sendo apertada em minha mão. ‘Não, Marco, não me deixa, Marco!’ eu berrava. O policial perto de mim me segurou com força e o outro veio ajudar. Eu me debatia. ‘Não! Me solta! Me solta! Não! Marco!’

Aquela chuva não era o bastante para abafar os meus gritos. Os poucos vizinhos que estavam de espectadores abaixavam suas cabeças. Pais e mães botavam seus filhos para dentro de casa novamente, horrorizados. Não queriam que eles tivessem contato com aquele tipo de situação tão cedo em suas vidas.

O dia acabou cedo para mim como a vida acabara cedo para Marco. Dezesseis anos. Ele tinha dezesseis anos. Como eu.

O relato médico fora quebra da coluna e de duas costelas, que perfuraram seu pulmão. Por algum motivo ele estava sem cinto de segurança e correndo muito, foi o que disseram. Aparentemente não viu o outro carro – que bateu nele – vindo porque estava no telefone, eles disseram.

A culpa era toda minha.

O mundo entrou em colapso.

Ver seus pais e seu irmão no hospital, chorando em cima do corpo morto dele. Me sentir culpado porque se não fosse por minha causa Marco não teria saído do treino mais cedo, não teria corrido na chuva, não teria se distraído no telefone, teria visto o outro carro… O carro do meu pai... Eu mal conseguia olhar para seu rosto sem vida. Seus pais fizeram questão de dar a mim o mesmo consolo e apoio que estavam dando a Bruno. Eles não me culpavam por nada e deixaram isso bem claro.

Não é possível dizer quando foi a parte mais difícil. Se foi ver o carro, se foi ver a notícia sendo contada a seus pais e a cada um de nossos amigos, se foi o funeral, se foram os meses depois disso tudo, os primeiros meses sem Marco… Tudo era extremamente complicado. Mesmo com todo o apoio que eu recebia.

O enterro de Marco fora o momento mais triste que eu presenciei na minha vida toda. Ele usava nosso colar com nossa aliança. Fora um pedido de Bruno que ele fosse enterrado com aquilo. Ele sabia que seria um ato importante para seu irmão.

Nossos amigos e seus amigos nem ao menos choravam. Era como se ninguém acreditasse na cena que estava bem diante de seus olhos. Como se todos esperássemos que, a qualquer momento, Marco levantasse do caixão com um sorriso no rosto e dissesse que era tudo uma grande piada. Como se ele tivesse ganhado uma parte do meu humor mórbido por convivência.

Eu passei o tempo todo ao lado do caixão. O tempo todo. Com Bruno atrás de mim, tocando meu ombro, mas não olhando para seu irmão.

‘Era pra ser eu.’ sussurrei em algum momento daquilo tudo. Bruno apertou seu toque, mas não disse nada. Ele entendia o que eu queria dizer. Ele sentia o mesmo.

Antes de fecharem o caixão eu dei um último beijo nele. Em sua testa. Sussurrei em seu ouvido que o amaria para todo o sempre, como ele prometera. E coloquei lá dentro a minha última lâmina, numa promessa silenciosa, num gesto que ele entenderia com certeza.

Aceitei a ideia de minha mãe e comecei a fazer terapia. Eu sabia o quanto aquilo faria Marco feliz. Nas primeiras sessões tudo o que eu conseguia fazer era chorar. Incessantemente. Depois fui contando nossa história aos poucos, fui me abrindo aos poucos, como eu sabia que ele gostaria que eu fizesse.

Era difícil às vezes. Era difícil lembrar e, mais difícil ainda, saber que Marco odiaria que eu me culpasse e que odiaria que eu odiasse meu pai mais do que antes. Era bem difícil continuar indo na terapia e saindo de lá inchado e vermelho e cheio de arrependimentos e cheio de angústia. Mas eu continuava. E depois de toda sessão eu ia até o cemitério, colocar flores em seu túmulo, às vezes ler para ele algo que eu havia escrito, cantar algo que eu gostava ou que havia composto.

Três meses se passaram.

'Tinha certeza que você ia estar aqui.’ ouvi uma voz conhecida atrás de mim em uma das minhas visitas. Era Bruno. 'Um dos guardinhas disse que um garoto vinha toda semana nesse mesmo horário, nesse mesmo dia, e às vezes mais de uma vez. Só podia ser você.’ colocou uma rosa branca no frente da lápide. 'Rosas brancas não são flores de cemitério, mas eram as favoritas dele.’ sorriu e me abraçou. 'Como você tá?’

'Continuando… E você?’ ele apertou o abraço, fiz o mesmo.

'Vivo.’ nos separamos. Bruno virou para a lápide e respirou fundo. 'Essa é a parte mais difícil, né... Foi o que você disse no velório... Eu também sempre achei que eu ia acabar indo primeiro que ele por causa da depressão...’ assenti, eu sabia que ele entendia o sentimento. A ideia de que você não duraria muito porque você nem ao menos sente vontade de durar. ‘Eles nunca encontraram seu pai, né?’ balancei a cabeça, negando.

'Ele sumiu... Não ouvi mais falar dele depois daquele dia. Pelo menos os papéis do divórcio saíram, finalmente e assinados, dois dias depois.’ ele assentiu e deu de ombros. 'Como tão as coisas em casa?’

'Ah, ninguém toca no assunto. Às vezes minha mãe pergunta de você. Por algum motivo ela acha que nós nos falamos bastante, não sei. Mas ninguém fala dele. O quarto dele tá fechado, só eu entro lá.’ ele tirou a mala as costas e a abriu. 'Por falar nisso, tem algumas coisas que eu acho que o Marco gostaria que ficassem com você.’ tirou alguns cadernos de dentro dela e entregou em minhas mãos. 'Confesso ter me arrependido de ver muitas dessas imagens, mas enfim…’ zombou.

Eram os desenhos que ele havia feito de mim e algumas cartas que ele havia escrito. Todos estavam datados. À medida que eu os observava, sentia lágrimas começando a se formar em meus olhos. Fechei o caderno que eu estava olhando. Bruno tocou em meu braço, eu olhei para ele.

'Posso fazer uma pergunta íntima?’ questionou. Assenti. 'Eu posso ver seus braços?’ sorriu com um pouco de vergonha. Arregalei os olhos por um instante, mas logo percebi que não havia problema algum. Arregacei as mangas para ele. 'Não tem nada novo aí?’ balancei a cabeça, negando. Bruno me fez perceber que eu não havia me cortado. Pode parecer estranho, mas eu realmente não havia notado aquilo. 'Desde quando?’

'Desde a primeira vez que eu briguei com Marco…’ ele sorriu para mim. ‘No dia eu pensei nisso. Eu pensei muito nisso, pensei em morrer junto com ele... Eu já tinha até a lâmina na mão... Mas não aconteceu. Eu não conseguiria. Eu decepcionaria muito ele.’ mesmo com todo o sentimento de culpa que eu tinha, eu não havia me auto flagelado. 'Eu sempre fui muito duro com ele com relação a isso, sabia? Falando que o amor não ia me curar, que ele não ia me curar… Mas foi só depois dele que eu parei...’

'Não foi o amor que curou você, Jean. Nem o Marco. Foi você quem se ajudou, simples assim.’ ele pegou minha mão. 'Olha, eu sei que isso é meio cruel de falar, mas as coisas boas da sua vida só calharam de acontecer na mesma época que ele aconteceu. Eu amo o meu irmão, amo muito, mas por eu ter passado por isso que você passou eu sei como funciona. Você foi duro e isso foi bom. Porque ele tinha a mania de querer ajudar o mundo e sofria muito quando não conseguia, sabe… Mas você fez meu irmão ver que tem coisas que não estavam ao alcance dele, então foi bom.’ Bruno sorriu de um jeito mais feliz. 'Acho que o Marco ficaria muito feliz se você atribuísse essa conquista a si mesmo, sabia? Porque você estaria se ando um pouco de valor, o que ele queria muito que você fizesse.’ assenti.

'Talvez você esteja certo mesmo… Sei lá…’ ficamos em silêncio, segurando a mão um do outro e encarando a lápide de Marco Bodt, até escurecer.

‘Apareça em casa um dia desses, Jean. Nós sentimos a sua falta...’ ele apertou minha mão. ‘Eu sinto muito a sua falta.’ eu sabia que aquela frase não era exatamente para mim. Sabia que era, em grande parte, para a memória de Marco que eu ajudava a manter viva. Simplesmente assenti, concordando em fazê-lo. Se aquilo fosse fazer bem para as pessoas eu o faria.

Me sentia mais do que na obrigação de fazer bem para a família de Marco. Não só por me sentir culpado e causador de tudo, mas porque sentia que devia muito a eles. Afinal, se não fosse pelos seus pais, Marco nunca teria existido e eu não sei o que teria sido de mim.

De tudo a gente tira lições.

O hinduísmo e diversas outras religiões orientais acreditam que pra algo ser criado, o que tinha antes deve ser destruído. Essa foi minha trajetória. Eu me destruí, eu fui destruído. E de cada um desses momentos eu me reconstruí, ressurgi das cinzas. De cada um desses momentos eu voltei à vida mudado.

Eu nunca esqueceria Marco, nem amaria alguém como o amei, mesmo no futuro, quando eu conhecesse um outro alguém e acabasse me apaixonando novamente. Eu e Bruno acabamos por ficar muito próximos um do outro. Fui o padrinho de seu casamento anos depois. Também fui padrinho do casamento de Reiner e Bertholdt e acabei ganhando um afilhado, o filho que Ymir e Chrita adotaram.

Armin e Annie não duraram muito tempo. Depois de um ano de faculdade, ele foi estudar medicina fora do país e ela acabou sumindo de nossas vidas. Fiquei sabendo que Eren casara também, um pouco depois de Reiner e Bert.

Mikasa virara modelo e viajava o mundo todo. Raramente tínhamos qualquer notícia dela, até o ponto em que tudo o que tínhamos era sua memória. Sasha e Connie terminaram na faculdade, no terceiro ano. Ymir, que virara uma fofoqueira de mão cheia, me disse no batizado de seu filho que eles haviam se reencontrado e recomeçado o namoro do zero.

Nosso grupo se afastou um pouco depois do acidente, mas, na vida adulta, acabamos por nos reunir novamente. Reiner, Bertholdt, Christa, Ymir e eu continuamos bons amigos, mesmo não tendo o mesmo contato como nos tempos de colegial.

Nunca fui alguém de acreditar em coisas como almas gêmeas ou qualquer outra superstição do tipo, mas nunca me apaixonei tão profundamente quanto por Marco. Nunca amei alguém tanto quanto o moreno cheio de sardas, capitão do time de basquete de meu colégio antigo. Toda vez que chovia eu lembrava dele. No começo fora difícil, mas depois a chuva voltou a ser para mim o que era antes. Ela voltou a me acalentar, a lavar minhas tristezas, voltou a ser boa para mim.

Fiz questão de guardar minha aliança e deixar bem claro que quando eu me fosse eu queria ser enterrado com aquilo no pescoço e ao lado da pessoa que eu mais amei na minha vida toda. Porque eu havia prometido que Jean e Marco seria eterno. E seria. Era. Foi. É.

A vida segue. E ela ensina. Ensina a fazer de tempestades escabrosas as chuvas mais suave, a fazer das dores mais fortes os maiores motivos para ter força e continuar vivendo. A vida segue para quem fica.

E eu fiquei. E continuo aqui.

Notas finais
Olar, pessoas! E é dessa forma que eu encerro a fanfic. Espero, de verdade, que vocês tenham gostado. Foi a primeira long fic que eu consegui terminar - mesmo tendo demorado éons... Queria agradecer a todxs xs leitorxs, a todxs que acompanharam a fic - seja desde o primeiro capítulo ou não -, a todxs que leram - mesmo sem ter acompanhado do começo, mesmo quem já chegou com ela finalizada -, a todxs que comentaram, a todxs que não comentaram, mas, de alguma forma, apreciaram a escrita. Enfim, quero agradecer a todo mundo. Um trabalho escrito é formado e constituído e construído não só por quem o escreve, por quem o bota no papel, mas também por quem o influencia e por quem o acompanha. Essa história foi influenciada por muitos de vocês, pelos seus feedbacks, pelas suas visualizações, pelas histórias que alguns de vocês - que são amigos próximos meus - já me contaram... Vocês são também responsáveis pelo término dela, pelo processo criativo, e, por isso e por muito mais, eu agradeço vocês de coração! Todos vocês! Estou trabalhando em uma próxima fanfic JeanMarco faz algum tempo e o link pra ela é: http://fanfiction.com.br/historia/621727/Thinking_of_You/ Se quiserem dar uma olhada... :3 Muito obrigada, de verdade, queridxs! Espero, sinceramente, que tenham gostado! Beijos cheios de amor e de luz e abraços quentinhos e amor no coração! E até, quem sabe, uma próxima vez! Mars ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!