Rain Sound

10 Capítulo 10


Notas iniciais
Em primeiro lugar gostaria de comemorar porque não demorei pra escrever esse capítulo e ele passou do meu limite mínimo de palavras aceitáveis para a postagem. Vamos relembrar que é uma fanfic Yaoi (moço X moço) e que SnK não me pertence. Vamos ao capítulo, não vou enrolar muito vocês hahahaha!

'Bem vindo de volta, filho.' seus olhos pareciam mortos, mas ele sorria. Eu quis socar a cara dele até aquele sorriso cínico sair de lá e nunca mais voltar.

~~

'Jean, se acalma, por favor.' Marco era forte, mas talvez não o suficiente para parar uma injeção de adrenalina do meu corpo. 'Desculpa, Louise, eu tentei não deixar ele entrar…' ele se desculpava com minha mãe, que estava tentando falar, mas, claramente não encontrando palavras.

'Me larga Marco!' eu grunhi, ele me abraçou com mais força e começou a me arrastar para a escada enquanto eu tentava me soltar de seus braços.

'Jean, por favor…' me deu um beijo na parte de trás da cabeça, ele estava sussurrando um pouco cansado. 'Vamos pegar suas coisas e eu te explico tudo…' consegui me soltar finalmente, mas, ao invés de pular em cima do homem e o encher de socos, usei todo o meu auto-controle para ir para meu quarto. Marco me seguiu, fechei a porta com força e a tranquei. Cruzei os braços e o encarei com raiva.

'Quero ver que explicação razoável você vai encontrar pra esse cara estar na minha casa.’ ele sentou na cama e tentou me puxar junto. ‘Só fala antes que eu vá lá embaixo e bata nele.’

'A sua mãe que queria explicar, eu…'

'Marco! Pelo amor, dá pra falar logo? Não sei se você tá entendendo a situação, mas o cara que me espancava, era alcoólatra e abusivo e tentava bater na minha mãe tá no andar de baixo na minha casa enquanto você tentava em convencer e não entrar aqui e ir direto pra sua só pra eu não ver que ele tava aqui!’ eu o interrompi. ‘Não sei como isso soa pra você, mas é bastante estranho pra mim.’

'Eu sei, eu sei, desculpa, mas você precisa se acalmar primeiro.' ele usou seu tom duro, aquilo sempre me deixava arredio. 'Pega suas coisas, eu vou falar com sua mãe enquanto isso e te encontro lá fora.' arqueei uma sobrancelha, mas acabe assentindo. Ele passou por mim e beijou minha bochecha novamente. 'Eu te amo, tá? Não fica puto…' dei de ombros e comecei a juntar o que teria de levar pra a acasa de Marco.

Como não ficar puto? Em primeiro lugar: o que aquele cara estava fazendo na minha casa? Em segundo lugar: por que Marco sabia mais das coisas do que eu? Eu era quem deveria saber o que estava acontecendo, era minha vida. Mas não, Marco e minha mãe estavam de segredinhos um com o outro e esses segredinhos envolviam meu progenitor — a única pessoa quem eu realmente não queria contato com nunca mais. A pessoa que arruinara minha vida completamente.

Juntei tudo o que eu queria levar para a casa de Marco, abri uma das minhas gavetas do móvel ao lado de minha cama e peguei o objeto metálico que guardava lá. Fiquei segurando-o em minhas mãos, de olhos fechados, contemplando se deveria carregá-lo comigo ou não. Acabei desistindo, colocando-o de volta na gaveta e descendo com minha mochila nas costas, sem parar um segundo, sem olhar para trás. Tendo como objetivo chegar ao lado de fora sem arrumar mais confusão. Ao passar próximo da cozinha ouvi a voz de Marco.

'Com todo o respeito que eu consigo ter — e que fique claro que é quase nenhum -, ninguém te perguntou nada, senhor Kirschtein.' sorri com aquela frase, mas continuei em frente. Se eu ficasse ouvindo ou se eu hesitasse eu sabia que daria merda.

Saí de casa e sentei onde havia encontrado Marco. Meus fones no ouvido, coloquei a música no máximo e fiquei o esperando e tentando não pensar em nada. A pergunta de Marco veio à minha cabeça apesar de meus esforços. Me perguntava se ele sabia do que estava acontecendo desde aquela época… Mas ele não conhecia minha mãe ainda. Eu estava definitivamente confuso, nada fazia sentido em minha cabeça, as peças não encaixavam direito.

Senti uma mão em meu ombro, olhei para cima e lá estava ele. Levantei, tirei um dos fones e fomos para sua casa, quietos o trajeto todo, até chegarmos em seu quarto. Seus pais me olhavam com um pouco de pena. Ótimo, até eles sabiam o que estava acontecendo e eu não!

'Senta, por favor.' apontou para sua cama, eu o fiz, jogando minha mochila em qualquer canto. Cruzei os braços. 'Sua mãe era quem queria explicar direito, mas ela deixou eu falar pra você parar de surtar.' ele sentou em sua cadeira após coloca-la em frente a mim. Respirou fundo e lambeu os lábios. 'Seu pai veio procurar sua mãe faz um tempo… Ele queria tentar reatar os laços, ele disse que tinha parado de beber e queria te uma chance de conversar com ela. Sua mãe deu uma chance, uma única chance. Ele não tinha parado de beber. Ainda mais quando ele viu…' Marco suspirou. 'Ele viu a gente junto. No nosso primeiro encontro. Era ele o cara que esbarrou na gente. Eu, sinceramente, fiquei surpreso de você não ter reconhecido. Eu tinha.’

'Pera. Você tá tentando me acalmar dizendo que minha mãe saiu com esse cara e ele ficou bêbado com ela por perto? Como caralhos isso vai me acalmar, Marco!' levantei irritado.

'Senta.' ele usou seu tom duro novamente, eu obedeci e abaixei a cabeça. 'Ela aceitou sair com ele em um lugar público e lotado justamente por isso, Jean. Ele bebeu e ficou alterado, ela logo chamou um táxi pra ele ir sozinho embora e ela foi pra casa de uma amiga conversar. No fim das contas sua mãe decidiu que ia pedir o divórcio oficial, mas, pra isso ele ia precisar vir pra cidade e de um lugar pra dormir por um dia. E a sua casa tá no nome dele até você fazer dezoito anos, então ela não teve muita escolha a não ser abrir as portas. Mas ele só tá aí pra isso, amanhã de noite ele vai embora e só volta quando tiver de assinar os papéis oficiais, dorme mais uma noite e acaba. Você nunca mais vai ter que ver esse cara de novo na sua vida.'

'Minha mãe vai ficar sozinha com ele por uma noite? Nem fodendo! Eu vou ficar lá.’ levantei novamente, ele me segurou.

'Ela jogou fora toda e qualquer bebida alcoólica que tinha na casa de vocês, Jean. Além disso o advogado dela sabe que ele está lá e meus pais estão de stand by. Se qualquer coisa acontecer, ela vai avisar e nós vamos socorrer sua mãe e chamar a polícia.’ meu aperto estava forte em meu braço. Ele me puxou me fez cair em seu colo.

‘Dê um mínimo e confiança pro plano da sua mãe, Jean. Vai ficar tudo bem. Ela não é mais como era, se ele tentar qualquer coisa, Louise não vai mais ficar quieta.’ ele me abraçou e começou a acariciar meu cabelo. Fechei os olhos.

'Mas eu me preocupo… E você viu o sorriso dele? Você ouviu como ele me chamou?' sentia asco só de pensar naquele homem.

'Eu sei, eu sei, mas tá tudo bem agora. Ele não tá aqui. Sou eu quem to aqui. Pensa em mim e não nele.' seu tom de voz já não era duro e sério, mas leve e acalentador. Eu apenas assenti, me deixando levar pelo seu toque, deixando que ele me tirasse do mundo e me fizesse parar de pensar tanto. 'Agora a gente tem que dormir porque tem aula amanhã, ok?' abri os olhos e me afastei para encara-lo. Marco sorria. 'Não faz essa cara triste… Eu to prometendo pra você que vai ficar tudo bem, que nada vai dar errado. É só uma noite hoje e uma daqui a meses, não tem como dar errado.' assenti e lhe dei um selinho.

Nos trocamos e fomos deitar. Marco me abraçou e ficamos e conchinha. Me aconcheguei em seus braços, me sentindo acolhido e protegido. Toda minha raiva havia ficado para trás, o meu medo estava bem menor — obviamente não nulo, mas não tão intenso quanto antes.

No dia seguinte foi difícil me concentrar na aula, eu não parava de pensar sobre como minha mãe estaria. Mandei um sms para ela em um dos intervalos, mas ela não respondeu, o que aumentou minha ansiedade. Não havia nada que me acalmasse, eu estava à beira de um surto de nervoso.

No almoço eu não disse uma palavra. Não cumprimentei ninguém, não queria jogar papo fora. Só tinha um único assunto que em interessava naquele momento e era minha mãe. Marco me perguntou se eu queria contar para nossos amigos o que estava acontecendo e eu neguei. Preferia esperar. Se eu exteriorizasse meu desespero naquele momento eu provavelmente teria um colapso nervoso e não seria uma situação muito agradável. Ele respeitou e quando me perguntaram se eu estava bem ele simplesmente fez um gesto pedindo que não perguntassem.

O período letivo foi eterno, mas a tarde sozinho em casa conseguiu ser um suplício ainda maior. Eu ficava pensando besteira, ficava criando hipóteses de coisas que podiam dar errado, ficava lembrando do passado. Aquele dia foi provavelmente um dos piores desde minha briga com Marco por culpa de Eren.

J.K.: Por favor vem pra cá quando der, não aguento mais ficar sozinho.

Meu namorado não respondeu, mas vinte minutos depois minha campainha tocou. Agradeci. Desci correndo e abri a porta para ele.

'O que foi? Você não parece bem?' balancei a cabeça, negando, mordi o lábio inferior o o abracei. 'Jean, o que aconteceu? Você fez alguma besteira?' neguei novamente, arregaçando minhas mangas e mostrando meu braço sem nenhum corte novo, mas cheio de cicatrizes. Aquilo foi a gota d'água. Se Marco não tivesse me segurado eu teria caído no chão chorando. 'Tá tudo bem, Jean, vai ficar tudo bem.' ele fazia carinho em minhas costas. 'Me fala o que aconteceu, por favor, eu to preocupado.'

'Eu to com um mal pressentimento. Sempre que ele tá por perto alguma coisa dá errado. Toda vez. Ele arruinou a minha vida, ele tirou toda a minha alegria, ele tirou toda a minha vontade de seguir na música, ele tirou tudo de mim e agora que eu tava começando a reconstruir uma vida ele voltou, Marco.’ tentava falar as coisas do jeito mais conciso possível, mas era difícil me expressar naquela situação.

Era de se esperar que alguém que cresceu com o apoio e o amor dos pais não entendesse meus medos. Por isso uma das coisas mais estranhas era o quanto ele me entendia. Marco não conseguia relacionar minha dor e meus medos com as dores e os medos dele, mas ele conseguia entender. Talvez muitas vezes até melhor do que eu mesmo — como quanto à minha relação antiga com minha mãe. Havia sido ele quem percebera minhas mentiras. A verdade era que, na época, até eu achava que estava bem com todo aquele afastamento e, se não fosse por meu namorado, eu nunca teria voltado a falar com ela.

E eu também entendia as aflições dele, por mais que elas nunca tenham sido o foco de nossa relação. É importante notar que, por mais que pareça um relacionamento onde há um lado frágil e um forte, não era bem assim. Quando eu me desesperava — o que, de fato, era mais frequente — ele juntava toda a força do mundo para me apoiar. Mas o contrário também acontecia.

De qualquer maneira, Marco ficou sussurrando que estava tudo bem em meu ouvido até eu parar de chorar. Ele não cansava de mim, aquilo era deveras admirável.

'Você tá melhor agora?' assenti, enxugando o que sobrara das minhas lágrimas. 'Jean, seus laços agora são muito mais estreitos, são muito mais fortes. Você tá cercado de gente que gosta tanto de você e você sabe disso. Ele não vai tirar nada de você, amor, relaxa um pouco. Para de se bombardear com esses pensamentos um pouco, você tem de se permitir ser positivo às vezes. Por exemplo: você não tá nada bem, mas você preferiu me chamar aqui a se cortar.’ ele beijou o topo de minha cabeça, respirei fundo. ‘Isso é um avanço enorme, eu to orgulhoso de você.’ seu sorriso era sincero. Não era triste, não era com pesar, era de uma felicidade extremamente sincera. ‘Que tal a gente fazer alguma coisa pra tirar isso da cabeça? Vamos lá pra minha casa e a gente pode jogar algum jogo, ver algum filme, qualquer coisa…’

‘Seus pais não vão achar ruim?’ ele riu e balançou a cabeça.

‘Meus pais não tão em casa, eles trabalham de dia. Mãe psiquiatra e pai dentista, lembra?’ sorriu. ‘E, mesmo se estivessem, é claro que não iam achar ruim. Meus pais gostam de você, Jean, e eles entendem que a situação que você tá passando agora é complicada. Tenho certeza que eles iriam te receber de braços abertos, igual a ontem.’ assenti.

Fomos de mãos dadas, sem falar nada, até a casa de Marco. Eu tentava me concentrar em não pensar nada ruim, nada negativo, tentava me concentrar em ser positivo. Foquei meus pensamentos na mão dele e a apertei com um pouco mais de força para senti-la melhor.

‘Tem alguma coisa que você quer fazer em especial?’ perguntou assim que adentramos a residência. Dei de ombros. Ele franziu o cenho por um instante, claramente pensativo, mas logo voltou à sua expressão costumeira. ‘Tá, então vamos pro meu quarto e lá a gente decide.’ assenti, ainda sem dizer uma palavra sequer. Apertando a mão de meu namorado com a mesma intensidade de antes.

Eu gostava de estar no quarto de Marco. Era, provavelmente, o cômodo de sua casa que eu mais gostava. Apesar de sua sala de estar ser, também, muito legal com uma TV gigante e um sistema de som maravilhoso. Mas seu quarto tinha um quê de aconchego, de lar, que eu não sabia explicar. Tinha um ar leve, uma sintonia alegre – muito parecido com o próprio Marco.

Sentei em sua cama, tirei o tênis e cruzei as pernas. Aquele era meu ritual sempre que entrava naquele lugar. Gostava de me sentir confortável lá porque tínhamos uma política de não sermos estranhos na casa um do outro, então peguei a mania de sempre começar minhas visitas ao quarto dele com aquelas três ações.

Primeiro porque sempre que você entra em um lugar e fica acanhado, você espera que convidem você para sentar antes de fazê-lo de fato. Além disso porque tirar os sapatos na casa de outra pessoa é sempre algo que nos faz indagar sobre o quão íntimos daquela pessoa somos. Imagina se, naquele dia em especial, seu pé suou mais do que o normal e você está com algum mau cheiro. Por isso tirar os sapatos fazia parte do meu ritual – além do fato de eu sempre colocar o pé em cima da cama e calçados serem sujos, o que não é uma atitude legal. E cruzar as pernas simplesmente porque eu gostava de sentar de perna de índio, mais nada.

‘Você conhece os meus jogos e a gente pode ver alguma coisa no Netflix.’ dei de ombros, Marco ficou pensativo.

‘O que você tava fazendo antes de eu te chamar?’ ele corou um pouco. ‘Marco.’ Chamei seu nome arqueando uma sobrancelha.

‘Eu tava desenhando… Nada de mais…’ sorri. ‘Não faz essa cara, não vou te mostrar.’ ri com seu comentário e com o quanto ele estava corado. ‘Para!’ ele desviou o olhar.

‘Tá bom, não precisa mostrar… Mas isso não ajuda muito porque não resolve a questão do que a gente pode fazer.’ apoiei meu cotovelo em uma de minhas pernas e meu rosto em minha mão. Pensei por algum tempo, calado. ‘Já sei!’ exclamei animado. ‘Eu posso posar pra você me desenhar. Você só tem desenhos de mim que você fez em momentos de stalker.’

‘Isso não é verdade! Tem vários que eu fiz de cabeça também! Eu não sou tão stalker assim.’ ele corou ainda mais quando percebeu o que tinha dito e quando viu que eu estava sorrindo muito. ‘Eu te odeio.’ disse escondendo o rosto entre as mãos.

‘Também amo você.’ mandei um beijo. ‘Mas sério, eu posso posar pra você. É só falar como você quer que eu fique. Eu gostei dessa ideia.’ falei animado.

‘De verdade?’ assenti.

‘A não ser que você não queira, claro.’ ele balançou a cabeça rapidamente.

‘Não, eu quero.’ foi até sua escrivaninha e pegou seus materiais de desenho. Puxou sua cadeira para frente da cama e sentou. Marco ficou me encarando por algum tempo sem dizer nada.

‘Você precisa me falar como você quer que eu fique.’ o lembrei.

‘Pode ser de qualquer jeito que seja confortável, na verdade.’ ele deu de ombros. Bufei com sua resposta e revirei os olhos.

‘Essa é uma chance única na vida, Marco. Quem sabe quando você vai ter a oportunidade de me ter como seu modelo bem na sua frente e consciente de que você está me desenhando?’ falei fazendo pose de esnobe, o que o fez rir. ‘Não, mas falando sério: escolhe alguma pose que você queria que eu faça. Tem que ter alguma coisa que você quer me desenhar fazendo!’ Marco corou no mesmo instante e sorriu maliciosamente.

‘Não.’ o impedi de começar a falar.

‘Mas eu não falei nada.’ cruzei os braços.

‘Mas eu sei o que você ia pedir. E não.’ continuei usando meu tom sério. ‘Pensa em outra coisa.’ ele continuou sorrindo. ‘É, péssima ideia, vamos jogar algum jogo.’

‘Pelo menos ouve uma das minhas propostas.’ passei a mão pelo rosto e respirei fundo. ‘Vai, Jean, você me deixou animado com essa ideia, não mia o rolê agora.’

‘Tá, tá, tá. Te dou três chances.’ acabei concordando, não conseguia evitar. Quando Marco fazia cara de cachorro sem dono meu coração enlouquecia, eu tinha de desviar o olhar para não ter um ataque. Eu sabia que ele estava sorrindo, feliz, porque eu havia cedido.

‘Ok, eu vou falar as três e depois você escolhe, ok?’ assenti com a cabeça. ‘A primeira ideia é você escolher a pose que for mais confortável. A segunda ideia é você deitar na cama sem roupa e se cobrir de algum jeito sensual. E a terceira ideia…’ fez uma pausa dramática, o que fez com que eu olhasse para ele. Marco olhava para o chão, extremamente vermelho. ‘É que eu queria desenhar a sua cara de perto… Aí eu queria que você…’ ele engoliu pesadamente, respirou fundo e olhou para dentro de meus olhos. ‘Jean, eu quero desenhar você chegando no seu ápice.’ meu queixo caiu.

‘Isso é completamente impossível!’ balancei as mãos desesperadamente, fazendo com que Marco risse de mim. ‘Você não tem vergonha de pedir isso não?’

‘Claro que eu tenho! Você não viu como foi difícil?’ ele continuava rindo mesmo assim. ‘Vai, você tem que escolher uma das três.’ disse jogando sua borracha em mim. Parei de me debater e a joguei de volta.

‘Ou nenhuma delas…’ o corrigi, ele fez um biquinho de decepção. Tentei ignorar e me focar nas propostas. ‘Eu realmente não consigo pensar em nenhuma pose pra fazer, o que anula a primeira opção… Mas as outras envolvem meu corpo nu…’

‘Quero só lembrar você que não tem nada aí que eu já não tenha visto.’ corei e joguei seu travesseiro nele, mas errei minha mira e quase acertei seu Nintendo 64, o que fez eu me encolher de arrependimento. ‘Só por você ter quase quebrado um dos meus bebês você vai ter que escolher entre uma das duas.’ abri a boca para retrucar, mas ele não deixou. ‘Se você não escolher eu escolho por você.’

‘Tá, eu deito na cama e me cubro com a porcaria do lençol!’ revirei os olhos, o fazendo rir.

Levantei da cama e comecei a tirar minha roupa. Claro que eu faria daquilo uma provocação para Marco. Estávamos só os dois na casa e, apesar de termos ambos vergonha desse tipo de coisa até certo ponto, sempre acabávamos conseguindo tomar a iniciativa. Fui tirando peça por peça, bem devagar, seus olhos brilhavam e ele mordia seu lábio inferior. Ri ao notar uma leve diferença no volume de sua calça, ele nem ao menos tentou esconder, continuou me encarando, quase rasgando minha cueca – a última peça de roupa ainda em mim – com seu olhar. Sem tirar a última peça de roupa sentei na cama.

‘Agora me dá as diretrizes de como eu preciso ficar.’ ele semicerrou os olhos, encarando minha boxer. Estralei os dedos naquela região e os levei para cima, seu olhar me acompanhou e encontrou com meu sorriso mais convencido. ‘Eu sei que eu sou, tipo, um deus grego, mas foco.’ brinquei. Ele limpou a garganta e balançou a cabeça.

‘Tá certo… É…’ se remexeu um pouco na cadeira, eu ri de sua situação. Pobre Marco, acho que havia levado a brincadeira muito longe. ‘Você pode ficar deitado de lado ou então sentado assim mesmo e só colocar o lençol em você, cobrindo seu pênis e qualquer outra parte que você queira cobrir.’ assenti.

‘Só uma perguntinha: por que você quer que eu cubra meu pênis?’ arqueei uma sobrancelha.

‘Pra caso alguém entre no meu quarto…’ disse baixo.

‘Então é só trancar a porta.’ sorri provocante. Levantei e fui trancar seu quarto. Na volta ele segurou meu braço, me fazendo parar. ‘Que foi?’ suas mãos foram direto para minha boxer, mas não sem, antes, arranharem minha barriga levemente. Eu devia saber que dois podiam jogar aquele jogo.

‘Não vou conseguir desenhar se você ficar com isso.’ puxou a peça para baixo vagarosamente. A proximidade começou a me deixar excitado e eu estava claramente em desvantagem. Percebi que minha ideia havia sido, em certo ponto, muito ruim. Ele com certeza acabaria conseguindo desenhar sua terceira opção. Tentei me afastar quando percebi suas intenções, mas Marco era mais forte do que eu. ‘Foi você quem começou, agora vai ter que continuar. Não é justo.’ suspirei. Ele olhava em meus olhos, suas pupilas dilatadas, meu membro semi ereto bastante perto de suas mãos. Assenti e fechei os olhos assim que ele me tocou com uma das mãos. ‘Eu vou te ajudar e depois você vai terminar sozinho pra eu poder desenhar, ok?’

‘Isso não vai dar certo… Eu não vou conseguir sabendo que você tá desenhando.’ mordi meu lábio inferior.

‘Vai sim, é só pensar que é a minha mão e não a sua. Pensa que eu to com você e não te desenhando. Como se fosse mais uma sessão de pegação nossa.’ ri baixinho. Era fantástico ouvir a voz baixa e já rouca de Marco tentando ser completamente técnico. Ele estava se segurando para não avançar em mim assim como eu para não avançar nele. Talvez até mais. Vários arrepios já percorriam minha coluna quando ele parou de mover sua mão. ‘Senta na cama e termina, por favor…’ disse bem baixo. Eu acatei seu pedido.

Respirei fundo umas três vezes, sem abrir os olhos, assim que me sentei, tomando coragem para começar a me masturbar tendo a consciência de que Marco estava me desenhando. Era uma sensação extremamente esquisita, mas não de tudo ruim, confesso. Atrevo-me a dizer que era até mesmo um pouco excitante.

Pensei em Marco enquanto estocava em minha própria mão. Pensei em nós dois juntos, nas vezes em que havíamos feito qualquer coisa sexual juntos. Tentei não me esforçar muito e não chegar ao meu máximo muito rapidamente, afinal, eu não estava fazendo aquilo com o intuito de sentir prazer. Senti-lo era uma consequência, eu estava naquela situação para que Marco pudesse me desenhar. O que era bizarro, mas tudo bem…

Após algum tempo aumentei meu ritmo e não consegui mais conter meus gemidos. Ouvia o som de seu lápis no papel freneticamente, quase que acompanhando meus movimentos.

‘Não dá mais…’ tentei diminuir meu ritmo, durar mais um pouco, mas era muito difícil. Eu já conseguia sentir minha ejaculação vindo. ‘Marco, não consigo me segurar mais, por favor, fala que vai dar pra você terminar de desenhar.’ falei entre gemidos e tentando não tocar em meu pênis.

‘Pode continuar, vai dar sim.’ respondeu com a voz extremamente rouca. Eu assenti, mordi meu lábio inferior e terminei meu trabalho.

Aquele foi o orgasmo mais violento de minha vida até então. Justamente porque eu tentei segura-lo o máximo possível. Ele me atingiu em cheio e, nessa brincadeira, o nome de Marco simplesmente saiu de minha boca o mais alto que podia sem que eu percebesse.

‘Puta merda!’ o ouvi exclamar baixinho, mas não abri os olhos. Caí na cama para trás, ofegante e exausto. ‘Merda, merda, merda.’ alguns barulhos aconteceram depois disso, mas eu ignorei completamente, tentando recuperar meu fôlego.

Uma porta abrindo – presumi que fosse seu armário porque seria bastante constrangedor se fosse alguém chegando na casa tendo ouvido meu berro – e depois fechando. Escutei o barulho de coisas caindo no chão e Marco xingando mais. Senti um toque em meu ombro. Abri os olhos com relutância e franzi o cenho para meu namorado, que não olhava diretamente para mim ao me entregar uma caixa de lenços de papel.

‘Eu vou precisar tomar um banho…’ falou encarando o chão, morrendo de vergonha. Arregalei os olhos.

Mentira.’ disse segurando o riso. Ele assentiu e eu não consegui me conter. Gargalhei. ‘Marco, que virgem.’ recebi um soco mais forte do que o normal no ombro. ‘Mas é verdade, ué.’

‘Eu sei…’ escondeu o rosto entre as mãos. Me levantei, sentando, e o puxei para baixo. Abri espaço entre suas mãos e lhe dei um selinho. ‘Pelo menos deu certo… Eu consegui desenhar, só preciso arrumar uns erros e acrescentar alguns detalhes, coisa normal. Mas o esboço foi um sucesso.’ foi sua vez de rir. Segurei suas mãos e as abaixei com as minhas, sorrindo para ele. Ele sorriu de volta. ‘Eu amo você.’ me deu outro selinho e foi para o banheiro.

Eu também queria tomar um banho, mas ainda estava cansado e um pouco sem ar, então resolvi que ia tomar depois dele. Observei seu quarto e fui limpar com os lenços de papel os lugares do chão que eu havia sujado. Depois juntei todos os lencinhos em um grande bolo para jogar fora. Deitei novamente e esperei meu namorado sair do banho. Estava morrendo de vontade de ver como o desenho estava, mas sabia que ele ficaria bravo se eu visse sem que ele deixasse, então me controlei para não fazê-lo e continuei deitado na cama.

Com a cabeça apoiada no topo da cama, onde geralmente ficava o travesseiro outrora arremessado pelo quarto, comecei a ler os post its da estante de Marco. Havia uns dois novos. A caligrafia de um deles me era desconhecida e a do outro era de Reiner.

“Reiner Braun é a melhor pessoa. Assinado Marco Bodt.” era o que estava escrito no segundo post it citado, ri e revirei os olhos. Reiner era um idiota.

No outro lia-se “Lembrar de apresentar o namorado legal que gosta de Doctor Who para o irmão esquecido que também gosta de Doctor Who. Otário.”

Suspirei e virei de lado. Havia percebido que meu contato com a família de Marco era muito pequeno, aquilo era algo que eu gostaria de mudar. Impus essa meta para mim mesmo: aproximar-me dos familiares de meu namorado. Afinal, era como se eu fosse parte da família de certo modo, não?

‘Prontinho. Limpo e cheiroso.’ ouvi sua voz saindo do banheiro. Sentei na cama.

‘Você é muito rápido.’ ele estava com a toalha enrolada em sua cintura. Foi até o armário e pegou uma muda qualquer de roupa para se vestir. Acabou vestindo uma blusa preta do Queen e uma calça verde de moletom. ‘Posso tomar banho também?’

‘Claro!’ sorriu para mim, secado o cabelo. ‘Tem toalha no armário em baixo da pia, você sabe. Depois se quiser pegar uma roupa mais confortável pra usar pode.’ assenti indo para o banheiro. ‘Você limpou o chão.’ sorri para ele, que fez o mesmo. Entrei no banheiro e fechei a porta atrás de mim.

Tentei ser rápido no banho, o que era sempre uma tarefa árdua para Jean Kirschtein. Não fiquei enrolando e pensando muito no box para não demorar.

Acabei de me banhar, peguei minha toalha, tirei o excesso de água do cabelo e enrolei a toalha em minha cintura. Parei para me olhar no espelho. Eu havia ganhado um pouco de peso. Não havia muito diferença, mas meus ossos não estavam tão marcados como eram antes. Encarei meus braços, as cicatrizes salientes. As dos cortes pouco fundos já não estavam lá, sorri para o espelho. Acabei perdendo a conta de quanto tempo fazia que eu não tocava uma lâmina em minha pele.

Lembrei-me de Reiner pedindo que eu avisasse se ele pudesse me ajudar com qualquer coisa e de Marco dizendo estar feliz por eu ter o chamado mais cedo ao invés de me autoflagelado. Sorri para mim mesmo, orgulhoso. Eu estava conseguindo lidar com meus problemas, conseguindo canalizar minhas frustrações e emoções em geral em um meio mais positivo para mim e para as pessoas à minha volta. Quando saí do banheiro Marco estava em sua escrivaninha com fones de ouvido, terminando o desenho.

Tentei não desconcentra-lo, sendo o mais silencioso o possível, porque não sabia o quão alto o volume de sua música estava. Peguei de seu armário uma boxer limpa e uma calça de moletom qualquer e as vesti. Cheguei perto dele e dei um beijo em sua bochecha, ele deu um pulinho na cadeira, assustado.

‘Desculpa, é que você tava muito fofo aí se concentrando.’ ri baixo, ele sorriu e me mostrou o desenho. Por mais constrangedor que aquilo fosse, aquele desenho estava excepcionalmente bonito. ‘Isso ficou muito bom, cara!’ disse pegando o caderno de sua mão. ‘Você nunca vai poder mostrar isso pra ninguém, mas ficou muito bom.’

‘Obrigado. O modelo ajudou bastante.’ abriu mais seu sorriso, senti meu rosto corando um pouco. ‘Mas eu fico feliz que você tenha gostado… Não sei o que eu acho sobre ele ainda, mas é bom que você goste.’

‘Você é muito chato com essas coisas, fica sempre criticando seus próprios desenhos e nunca reconhece que eles são muito bons…’ o abracei. ‘Eu amo muito você.’ Lhe dei um beijo na bochecha, ele virou o rosto e me deu um selinho. Coloquei o caderno em cima da mesa e joguei meus braços atrás de seu pescoço e o impedi de sair de perto, continuando e aprofundando nosso beijo.

Sentei em seu colo. Nosso beijo era puramente carinhoso, não lascivo. Quando nos separamos eu o abracei. Marco retribuiu o abraço com força. Apoiei minha cabeça na região entre seu ombro e seu pescoço e respirei fundo, sentindo seu cheiro.

Marco tinha um cheiro bastante específico e familiar, mas eu não conseguia relaciona-lo com nada que eu lembrasse. Anos depois eu perceberia que aquele cheiro era cheiro de cacau.

‘Eu amo muito você, sabia?’ ele disse, me fazendo sorrir de verdade. Senti um conforto em sua voz e em como ele falava. ‘É sério.’

‘Eu sei.’ beijei sua bochecha. ‘Eu também.’ Marco me deu um selinho. ‘Eu topo jogar aquele videogame agora, ein, cara.’ saí de seu colo e fui ligar o Nintendo 64, estávamos zerando juntos todos os jogos de Zelda que ele tinha, mas como eu nunca ia para sua casa, ainda estávamos no Majora’s Mask do N64. Peguei o controle e sentei no chão, na frente de Marco – que estava sentado em um pufe -, encaixando meu corpo entre suas pernas que estavam abertas.

‘Falta muito pra acabar esse? Eu nem lembro mais…’ me abraçou.

‘Um templo só, tamo no fim. Se pá dá pra acabar hoje.’ respondi já concentrado no jogo, Marco continuou abraçado em mim.

Passamos um bom tempo naquela mesma posição, com ele rindo de mim sempre que eu xingava o jogo ou gritava de frustração quando errava alguma coisa elementar. Eu nunca esperei ser alguém que gostasse dessas situações fofas e melosas, mas aconteceu de eu ser. Gostava da ideia de ser envolvido por ele, me sentia protegido, amado, querido. E mesmo nesses momentos aleatórios – como quando eu jogava videogame ou estudava alguma matéria ou escutava alguma música –, por conta da minha insegurança quanto a mim mesmo, era extremamente confortável ter alguém que me proporcionava tais sensações.

‘Ei, deixa eu falar…’ pausei o jogo após dez tentativas frustradas de passar de uma certa parte. ‘Eu queria conhecer melhor o seu irmão. Ouvi falar que ele curte Doctor Who.’ deitei a cabeça em sua perna, olhando para trás com o intuito de olhar para ele.

‘Ouviu falar nos meus post its, né?’ assenti, casualmente. Marco sorriu. ‘Ele chega em casa umas seis da tarde, a gente pode colocar vocês pra conversarem direito, então.’ sorri de volta. ‘Só… Eu comentei com ele que você…’ apontou com a cabeça para meus braços. ‘Desculpa…’

‘Tudo bem. Eu confio no seu julgamento, amor.’ larguei o controle para pegar sua mão. ‘Até porque ele também fazia, não é?’ ele assentiu. ‘Então é mais uma coisa que a gente tem em comum, olha só.’ aumentei meu sorriso para certifica-lo de que estava realmente tudo bem.

‘Foi, tipo, bem antes… Foi na primeira vez que a gente se falou… Sei lá. Desculpa qualquer coisa.’ dei um beijo em sua mão, Marco fechou os olhos.

Seu semblante parecia tranquilo. Era consideravelmente difícil aquilo acontecer. Ele sempre estava preocupado com alguma coisa. Fosse com relação a mim ou à escola ou a nossos amigos. Aquele era o perfil de Marco: alguém que se importava até mais do que devia. Ele sorriu, sem abrir os olhos. Toquei seu rosto delicadamente, ele aconchegou sua bochecha em minha mão, aquilo me fez sorrir também.

‘Como foi que a gente chegou até aqui?’ beijou a palma de minha mão, arqueei uma sobrancelha. ‘A gente foi de completos desconhecidos com quedinhas um pelo outro pro que a gente é agora. Foi tão aleatório, foi tão estranho...’

‘Mas isso é algo ruim?’ ele balançou a cabeça e riu. ‘Já que a gente tá falando do que a gente era antes... Eu não sei se eu comentei com você, mas eu conversei com o Reiner sobre o passado.’ Marco abriu os olhos instantaneamente. ‘Ele quis se explicar, quis pedir desculpas por tudo, sabe? E eu falei que tudo bem, óbvio. Na época eu tinha raiva dele, mas agora nada daquilo importa pra mim.’ comecei a fazer carinho nele com meu polegar, ele cerrou pouco os olhos, quase que imperceptivelmente. ‘Eu acabei perguntando o motivo de você nunca ter tentado me ajudar.’

‘Porque eu era um idiota.’ ele me interrompeu, mordendo o lábio inferior. ‘Eu devia ter parado eles, não importando o que eles me dissessem, mas eu era idiota e não fiz isso...’

‘Para, Marco. Não adianta chorar pelo leite derramado. É o que eu falei pro Reiner: o que passou não volta mais e, mesmo com seus motivos sendo toscos ou sei lá, você tinha um pra ter feito as coisas como fez.’ sorri. ‘Não abri essa discussão pra começar um momento de depreciar o Marco do passado, mas pra te dizer que eu entendo. Pra dizer que eu não sinto raiva por isso, tá?’ ele assentiu, ainda mordendo o lábio inferior. ‘Eu tinha certeza de que você ainda se culpava por isso, sabia?’

‘É claro... As coisas chegaram ao ponto que chegaram porque eu não intervi antes.’ balancei a cabeça, negando, ele beijou minha mão de novo.

‘As coisas chegaram ao ponto que chegaram por vários motivos. E se não tivesse chegado a gente não estaria aqui agora, já parou pra pensar nisso?’ apertei sua bochecha um pouco, arrancando um sorriso dele. ‘Enfim... Ah, e eles sabem. Pelo menos o Reiner e o Bertholdt.’

‘É, eles já me perguntaram sobre isso. Eu falei que não, obvio, mas eles viram a lâmina no chão aquele dia e eles perceberam como você tava depois da nossa briga... Mas eu não ficaria preocupado com isso, sabia? Eu sinto que a gente é muito família agora, que a gente vai estar aí pra apoiar um ao outro sempre e independente de qualquer coisa. Até a Annie, que é mais reservada, me passa essa segurança.’ assenti. ‘A gente cresceu muito. Vou te contar uma coisa, mas você não pode comentar com ninguém, tá?’ assenti mais uma vez, sentando reto e virando completamente de frente para Marco. ‘O Bert já tinha comentando comigo que você ia conversar com o Reiner e que ele ia tentar tocar no assunto da lâmina e tal. Ele falou também que você tava servindo de inspiração pro Reiner e que ele até tinha chegado a comentar com o Bert que, talvez eles deviam assumir o relacionamento deles.’

‘Sério?’ arregalei os olhos, Marco assentiu. ‘Caralho, eu to me sentindo muito lisonjeado, cara. Essa foi a notícia mais bonita que alguém já me deu, sabia?’ ele riu. ‘Ia ser sensacional se a gente pudesse começar a ir em encontros não-hétero juntos, né. As pessoas iam bugar, ia ser tão legal.’ falei animadíssimo com a ideia. ‘Assim que eles assumirem eu vou dar a ideia de começar esses encontros, que que você acha?’

‘Topo o que você topar, Jean.’ reparei que os olhos de Marco brilhavam de um jeito estranho para mim.

‘Que cara é essa?’ questionei.

‘Nada de mais, eu só to pensando no quanto você tá diferente do começo da nossa relação...’ arqueei uma sobrancelha. ‘Você tinha me dito uma vez que o amor não cura as coisas, que não ia ser eu quem ia concertar você e esse tipo de coisa. Então eu to feliz porque você tá conseguindo se ajeitar sozinho, sabe... Não sei explicar direito, é só uma coisa que eu pensei agora... Você me ligou hoje, antes de tentar qualquer coisa contra si mesmo, você tá perdoando as pessoas todas que te fizeram mal – Reiner, sua mãe, Bert, mesmo eu... -, você tá super envolvido com os nossos amigos, tá se abrindo pra gente. Isso me deixa feliz, essa sua força me deixa feliz, só isso.’

Fiquei em silêncio. Eu não havia, até então, percebido nada do que Marco dissera. Minha força, o meu perdão, meu envolvimento com os outros. Parei para refletir por um instante e acabei por me desligar um pouco do mundo com isso. Ele estava certo.

Tentei traçar o caminho até ali e entender de onde viera toda aquela mudança, mas não conseguia faze-lo. Com certeza o amor de Marco não havia sido o que me mudara. Obvio que a certeza de que alguém me amava e de que eu não estava só ajudou no processo de eu mesmo gostar um pouco mais de mim, mas não foi o principal. Tudo aquilo tinha acontecido naturalmente. Todas as melhoras haviam simplesmente rolado e eu não era capaz de explicar o motivo. A questão era se eram melhoras permanentes ou não, claro.

Ouvi o barulho de alguém batendo na porta e foi aquilo que me tirou de minha digressão.

‘Pelo amor, fala que vocês não tão fazendo sexo e eu não vou ter que ficar ouvindo gemidos a tarde inteira.’ a voz falou, com tom risonho, do outro lado da porta. Marco levantou e foi abri-la. ‘Ótimo, ótimo. Olá, casal, como vão vocês? Vim só dizer oi e vou para o meu quarto rever algum episódio de Doctor Who porque hoje o dia foi barra.’ ele apontou em direção ao cômodo citado, eu ri. ‘Você tá convidado, se quiser, Jean.’ olhou para seu irmão. ‘Você não, você não é digno de assistir Doctor Who com a gente.’ Marco deu um tapa em seu ombro de leve.

‘Vou ter de concordar com seu irmão, Marco. Você nunca vai ser capaz de entender a beleza por trás dessa série.’ sorri meu sorriso mais convencido. ‘Só os melhores podem entender a grandeza por trás de uma obra tão divina.

‘Tranquilo, vão vocês dois nerds assistirem o programa de nerd de vocês enquanto eu vou até o mercado e compro vários doces, trago pra casa e como todos sozinhos.’ foi a vez de Marco sorrir, o queixo de Bruno – seu irmão – caiu. ‘Muito chocolate, sabe? Hershey's, KitKat, Reases...’

‘Você não faria isso. Você não compraria Reases e não dividiria com seu lindo irmão mais novo.’ ele colocou a mão do lado onde ficava seu coração e fez cara de quem estava indignado, Marco arqueou uma sobrancelha.

‘Você não é digno de comer Reases.’ disse com um sorriso no rosto. ‘A não ser que eu possa assistir a série com vocês.’

‘Eu não ligo muito pra Reases.’ falei dando de ombros. Bruno caiu de joelhos, teatralmente. Ele tinha o físico de Marco e as atitudes de Connie, meu velho conhecido.

‘E, quem sabe, eu não chame Eren pra ir comigo.’ me provocou. Uma onda de raiva percorreu meus ossos, trinquei os dentes. Aquilo não era justo. ‘A escolha é de vocês, claro.’ encarei Bruno, que tinha o olhar de desespero e ambos assentimos.

‘Tá bom, você pode assistir com a gente.’ ele deu o veredito levantando. ‘Vou tomar um banho e, enquanto isso, vocês dois vão arranjar chocolates, pipoca e refrigerante.’ Marco assentiu animado. 'E coloca uma blusa antes disso, tá? Não quero ficar no mesmo lugar que o meu irmão se ele estiver com uma ereção.' Bruno acrescentou e retirou-se do recinto. Marco revirou os olhos, rindo um pouco.

Cruzei meus braços e encarei meu namorado com um pouco de raiva por conta de sua provocação. Ele veio até mim e me levantou do chão, com um sorriso no rosto. Arqueei uma sobrancelha, mostrando que não havia gostado da brincadeira. Marco tentou me dar um selinho, mas desviei o rosto. Suas mãos apertaram minha cintura com mais força.

‘Ah, para com isso, amor.’ sorriu para mim. ‘Foi só uma brincadeira. Você acha mesmo que eu ia chamar Eren pra sair comigo pra comer chocolate?’ o encarei com raiva, ele me puxou para mais perto. ‘Você é a única pessoa que me interessa, Jean.’ obteve sucesso em me dar um beijo, eu amoleci um pouco, jogando meus braços em torno de seu pescoço.

‘Qual é a do Reases?’ perguntei. Puxei um tufo de seu cabelo, obrigando Marco a jogar a cabeça um pouco para trás, e mordisquei seu pescoço.

‘É, provavelmente, a comida favorita do meu irmão. Porque eu sempre trazia pra casa quando ele estava mal, pra tentar dar uma animada nele.’ assenti.

‘Você gosta bastante de chocolate, né? Todo dia vejo você comendo um...’ Marco assentiu. ‘Não sou muito fã, sabia?’ ele gemeu baixo quando eu deixei um chupão na curva entre seu pescoço e seu ombro. ‘Quem sabe você não consegue fazer alguma coisa pra mudar isso.’ falei sugestivamente em seu ouvido e sorri. Ele assentiu novamente e afundou os dedos em minha cintura. ‘Agora é melhor você ir arranjar alguns pra gente comer antes que seu irmão fique bravo.’

‘Tem certeza que você quer ir assistir Doctor Who com ele?’ foi sua vez de me provocar. ‘A gente pode ficar aqui e eu invento jeitos de mudar sua cabeça quanto à chocolate...’ Marco havia voltado sua cabeça a uma posição reta e olhava no fundo dos meus olhos com as pupilas um pouco dilatadas. Balancei a cabeça negando e rindo.

‘Você é muito pervertido, Marco.’ encostei nossas testas. ‘Eu quero estreitar meus laços com sua família... Ficar mais íntimo deles e tal... Assim como você é da minha mãe.’ seu semblante mudou um pouco, ele estava claramente tentando reprimir seus pensamentos libidinosos naquele momento. ‘Talvez mais tarde. Você pode ir dormir em casa e a gente resolve a questão do chocolate, que tal.’ dei um selinho em Marco.

Ele riu e assentiu antes de se separar de mim. Coloquei uma blusa de manga comprida qualquer no armário de Marco e a vesti. Descemos na cozinha para fazer pipoca e pegar alguns doces no armário e, depois, fomos para o quarto de seu irmão. Nesse meio tempo mandei uma mensagem para minha mãe avisando que estava na casa de Marco e que, provavelmente, não jantaria em casa. Após alguns minutos de discussão entre Bruno e eu, decidimos que não nos importávamos com o fato de Marco não saber nada sobre a série e escolhemos direto um episódio da era do décimo primeiro Doctor.

Assistimos, fora de ordem, quatro episódios. O primeiro que vimos foi Vincent and The Doctor, que me fez chorar feito um bebê. No segundo, Blink, Marco me abraçou, com um pouco de medo dos "monstros" e ficou reclamando porque não esperava que eles fossem tão assustadores. Depois vimos o primeiro de 2005, Rose, e ficamos rindo os três dos efeitos especiais toscos e, por último, The God Complex, um dos, na minha opinião – e fiquei feliz de Bruno concordar – melhores episódios de Doctor Who de todos os tempos.

Depois da nossa sessão de três horas, os pais deles chegaram na casa. Jantamos juntos umas nove e meia, mais ou menos, o que foi uma interação deveras peculiar. A mãe de Marco era extremamente simpática comigo e fazia, claramente, de tudo para que minha visita fosse agradável – exatamente como Marco. Já seu pai fazia mais piadas, sem se importar muito com meu conforto, mas dando muito valor à minha diversão – como Bruno.

Parei para perceber aquela família. Bruno e Marco eram muito parecidos fisicamente com o pai, mas tinham o cabelo escuro da mãe. Os olhos do filho mais novo eram o mesmo verde do senhor Bodt e os do mais velho um castanho um pouco mais escuro do que o da senhora Bodt. As sardas vinham do lado paterno, mas o tom de pele do materno. O pai deles era extremamente branco. Mais branco do que eu – e é importante ressaltar o fato de eu quase nunca tomar sol, o que me faz ser da cor pálida de um vampiro. A diferença é que ele tinha um tom saudável e não um tom defunto, como eu. Já a mãe dos meninos tinha a pele um pouco mais morena. Quanto à personalidade: era claro qual filho havia puxado qual progenitor.

Após o jantar e muitas risadas com o senhor Bodt indignado com o fato de eu também gostar de “coisas nerds” como seu filho mais novo, Marco pediu para ir dormir em minha casa. Sua mãe hesitou antes de deixar porque tínhamos aula no dia seguinte, mas seu pai deu de ombros e disse que já tínhamos idade o suficiente para sermos responsáveis e não deixar que nosso relacionamento atrapalhasse nossa formação acadêmica. Com isso fomos para minha residência, afinal.

Ao contrário da minha proposta inicial, acabamos levando em consideração o curto discurso sobre responsabilidade que o pai de Marco havia dado e dormirmos cedo para não termos problemas na escola. Mas aquela proposta ficou pendente e meu namorado me deu a certeza de que em breve ele me convenceria dos prazeres do chocolate.

Dormimos abraçados, de conchinha, e sorrindo. Estávamos felizes e, apesar dos pequenos detalhes, a vida estava boa.

Notas finais
Bom, gente, é isso que temos pra hoje. Espero, sinceramente, que vocês tenham gostado. Eu tive a impressão de que ele ficou meio meh porque demorou tão pouco pr'eu escrever, mas... Eu tentei botar o máximo de mim pra produção desse capítulo porque eu planejo acabar essa fanfic ainda esse ano e, no ritmo que tava indo, essa meta não seria alcançada. Especialmente porque no mês de novembro/dezembro vão começar os vestibulares e minha dedicação a Rain Sound e aos meus outros projetos vai _ter que_ diminuir. Quero agradecer a todos que leem a fanfic e que comentam - mas também aos que só leem e não comentam, obviamente, vocês também são super importantes ♥. Agradecer também porque a fanfic atingiu 700 visualizações, o que, pra mim, é bastante. Nunca tinha tido uma fic com mais de 90 visualizações na minha _vida_ #emocionada! Espero, realmente, que vocês estejam gostando da fanfic e não só lendo pela força do hábito, viu... Qualquer coisa que tiverem pra me falar podem falar nos comentários, no meu tumblr, nos meus twitter, de verdade. To sempre aberta a críticas e a feedbacks. Vou-me nessa porque ainda vou tentar escrever o capítulo de Our Love Is Like A Song de hoje, porque faz uns três dias que eu não posto nada e era pra ser uma fic diária, né... Ah, mais duas coisinhas! Em primeiro lugar: vou estar em um evento de Homestuck que vai acontecer sábado dia 11 no parque Ibirapuera às 12h. Se algum de vocês lê a webcomic e quiser ir, estão convidadxs todxs. E a segunda é que na semana do dia 11 eu vou viajar. Vou dia 14, se não me engano, e volto dia 20 e poucos. Então vou ficar em torno de uns 10 dias sem escrever nada, por isso eu vou, provavelmente, demorar o tempo normal - aka o tempo que eu demoro geralmente - pra postar o próximo capítulo. Vejo vocês no futuro ~ ~ chu