Rain
1 One
Notas iniciais
Joyce, definitivamente, gostava da chuva.
Quando criança, gostava das poças que um temporal deixava no caminho enlameado entre sua casa e o parquinho da praça. Nelas, podia pisar com suas galochas e ver a água espirrar para todos os lados — e principalmente em sua capa de chuva vermelha.
Depois, ao crescer, a chuva passara de diversão para uma desculpa. Em dias como aquele, insistia com sua mãe que era difícil ir até à escola. Acabava ficando em casa, metida na coberta com um livro em mãos, observando o vidro de sua janela e as gotas de água que nele escorriam.
Ou ainda quando a chuva caíra no dia que seu Will voltara para casa. Em sua vida, a torrente de água era o presságio de que algo bom lhe estava para acontecer.
Com os olhos na janela de sua casa e uma boa caneca de café quente em suas mãos, Joyce observava o mundo de Hawkins ser dominado pela enxurrada que desabava do céu nublado. Depois de tudo que lhe acontecera, Joyce aproveitava todas as oportunidades para ter alguns minutos de silêncio, em harmonia com sua mente e coração Embora o último batesse um pouco descompassado quando via alguma viatura da polícia de Hawkins ou, especialmente, quando o via.
Balançou a cabeça buscando afugentar esses pensamentos. Essa era uma área em sua vida em que realmente não gostava de passar algum tempo pensando, estava bem consigo mesma para se deixar balançar por isso. Até mesmo conhecera um cara legal. Mas não negava que, no silêncio deitada em seu quarto, o grosso xerife dominava seu pensamento. Agradecia a Hopper por tudo que fizera pela sua família e, ainda mais o que fazia pelo seus meninos, mas não permitiria deixar seus sentimentos comandar sua vida.
A verdade era que não entendia seus sentimentos e, por tudo que acontecera com Will, Joyce já não queria passar por coisas tão intensas mais.
O som de rodas atravessando o cascalho a sobressaltou. A princípio, achara que Jonathan houvesse voltado mais cedo da saída com seus amigos — Nancy e Steve — mas, mesmo com o vidro embaçado e a chuva caindo forte, conseguira reconhecer o símbolo da polícia de Hawkins.
Imediatamente, sentiu seu coração acelerar. Na pressa em se levantar, quase derramou o café em suas roupas, derrubando-o, de fato, no carpete no chão. Praguejou baixo, andando agitada enquanto arrumava seu cabelo. Está parecendo uma garotinha de 15 anos, era o que seu consciente dizia.
Vieram as três batidas na porta e Joyce a abriu. Parecia um pouco menos cansado e com os ombros encharcados. Havia um pouco de restolho em seu rosto e uma mecha de seu cabelo caia de dentro do chapéu. As feições não eram uma das melhores, ele a olhava como se acabasse de cometer um crime, estava agastado, embora não soubesse pelo o quê.
“Por que não me contou?” Indagou, de repente, quebrando a valsa de respirações altas que ambos soltavam.
“O que… Contou o quê?” Contrapôs, confusa. Era difícil de pensar com alguém daquele tamanho em sua frente, com ele em sua frente.
“Seu novo namorado” as palavras saíram como um rosnar de um lobo, mas isso só fez o peito de Joyce se incendiar… de raiva.
“Espere! Você acha que eu devo te contar sobre isso? Hopper, isso não é da sua conta!”
“O idiota de Brandon¹, sério, Joyce? Achei que sua cota com idiotas já havia esgotado!” Jim ignorou sua resposta.
“Isso não é da sua conta!” Rebateu.
Hopper não tinha o direito de lhe dizer com quem deveria sair ou não. Não era ele quem devia ditar sua vida, agindo como um animal raivoso, rosnando e falando alto. Ele não deveria estar aqui, gritando como se isso fosse algo de errado. Ele… ele… ele não deveria estar sempre em seu pensamento.
“Realmente, Hopper? Você não tem mais nada a fazer?” Sentiu vontade de chorar, de esmurra-lo ou até mesmo de fumar um cigarro.
“Pense nos seus filhos! Brandon, ele não sabe fazer nada além de beber e cortar alguns móveis…”
“Hopper, eu não lhe dei nenhum direito de falar coisas assim… saia da minha porta agora” gritou, fazendo-o parar com seu discurso irritante.
Entretanto, ele continuou onde estava, embora por fim, calara a boca. Sua respiração ainda era alta, seu punho estava fechado e seus olhos a encaravam com raiva, frustração e outras coisas. A chuva violenta caia há poucos centímetros atrás dele, sobressaltando sobre eles. Joyce só queria que ele fosse embora para que ela pudesse respirar novamente.
“Ande, saia! Não me procure para falar de mim ou de Brandon” falou com firmeza. “Nada disso lhe diz respeito, nada! Agora saia da minha casa ou...”
“Ou o que? O que você fará, Joyce?”
Ela queria responder, mas ainda mais lhe bater! Acertar sua cara furiosa com um bom tapa, mas, não pode fazer nada disso.
Os lábios furiosos de Hopper tomaram os seus para si. O grunhido que soltara não fora suficiente para afastá-lo. O policial parecia obstinado a fazer seu cérebro fritar. Byers acabara cedendo, a proximidade de seu corpo e o calor que emanava dele fizera-a perder os sentidos – quando retomasse a consciência, diria que fora ele o culpado por isso. Passara os braços sobre seu ombro e então seus corpos estavam colados.
O beijo era selvagem, necessitado. As mãos do policial passeavam por seu corpo, deixando um lastro quente e instigante por onde tocava. Sentira suas costas colidir com a parede e arfou em surpresa, mal notara a hora em que Hopper entrara em sua casa. De repente, perdera contato com seus lábios, mas sentira-o em seu pescoço, percorrendo toda a base de seu pescoço e de volta ao seus lábios.
Mas assim como começara, o beijo tomou seu fim. Hopper se afastou como se acabasse de levar uma queimadura. Hopper a olhava atônito, primeiro, parecia surpreso, mas logo em seguida, seus olhos se arregalaram e ele se afastou ainda mais. Byers continuava onde ele a deixara, tentando entender como isso aconteceu e porque isso parou.
“Eu não… eu não, não, desculpa!” Balbuciou confuso antes de sair pela porta sem olhar para trás.
Joyce ficara estupefata, olhando o carro se afastar até sumir de vista. Seus pensamentos estavam em total desordem, não acreditava no que acabava de lhe acontecer. Tocara com os dedos os lábios inchados. Podia sentir o efeito que esse beijo lhe causara por todo seu corpo.
De fato, pensara, a chuva sempre lhe fora um presságio de algo bom.
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