Rain
1 Aquele furo!
Chuva. Aquelas insistentes gotas frias batiam violentamente contra o pára-brisas do carro – era quase como um suicídio em conjunto. O impacto da água no vidro disputava com o volume do rádio e do trânsito à minha volta. Puxei mais um cigarro da carteira, tentando não dormir em serviço, enquanto procurava alguma música mais agitada para animar minha madrugada.
- Ele está saindo.
Fui sugado de volta à realidade quando Adrian me cutucou. Olhei à nossa volta, mas especificamente em direção ao café Orange Cup, e vi nosso alvo andando pela calçada. “Hora de trabalhar”, suspirei, jogando a nicotina acessa pela janela. Meu parceiro, Goulart, parecia animado, era seu primeiro emprego, seu primeiro caso.
Alias, Adrian era muito animado para tudo, fora meu vizinho na infância, meu melhor amigo e confidente. Não se importava com o fato de eu ser sete anos mais velho, fumar ou ter lhe arranjado um emprego tão... desagradável. Tudo o que eu conseguia ver nele era um sorriso sincero e grandes olhos castanhos e ingênuos; tinha uma terrível mania de enrolar um dos seus inúmeros cachos loiros enquanto conversava, gostava de fotografias e chocolate.
O alvo, concentre-se no alvo.
Eu tinha sua ficha no porta-luvas. Lucca Draghi, beirando os 40 anos, estrangeiro, caucasiano. Olhos claros, possivelmente verdes, e cabelos cor-de-chocolate; 1,83 de altura, 77kg. Acusado de inúmeros assassinatos, viciado em heroína. Político, uma figura importante. Um homem com dinheiro e um ótimo advogado.
Lucca freqüentava o Orange como um crente freqüenta sua igreja: sempre no mesmo dia, na mesma hora e com as mesmas pessoas. Todas as sextas, às 20h, entrava no estabelecimento acompanhado por sua filha, Alice, passava uns quarenta minutos lá e depois saia, sozinho, fumando. Mas esta não era uma sexta normal, Alice já tinha ido embora há horas e o alvo ficou conversando com um vulto qualquer do café, um homem com quem tem se encontrado muito.
Eu conhecia o vulto, era um ex-traficante que foi recentemente solto. Adrian havia batido várias fotos desses encontros às escuras, bom material.
Draghi estava se dirigindo à uma parte escura e esquecida pela metrópole, um bairro humilde há muitas quadras dali, onde não daria para segui-lo de carro sem chamar demasiada atenção. Deixei meu querido Uno estacionado na avenida e peguei minha maleta – ela era essencial. Segui com Adrian rumo à periferia, numa distância segura de poucos metros do alvo.
O cheiro ácido de urina pareceu queimar os pêlos do meu nariz, nem mesmo a água da chuva estava dissolvendo aquilo, mas aquele era o “furo” que eu estava esperando, minha chave para a promoção. Havíamos finalmente chegado ao “point”.
O alvo parou em frente a uma casa velha de madeira porcamente pintada de cyan, suspirou, tocou a campainha e esperou.
Abri minha maleta e tirei um gravador e um caderno de notas. Lucca pareceu inseguro, olhava para trás constantemente, suava, mas estávamos escondidos na escuridão, batendo fotos e gravando alguns comentários pessoais. Havia uma criança chorando a poucos quarteirões dali, possivelmente berrava de fome, um fato devidamente ignorado pela mulher que atendeu a porta.
Ela era baixa, realmente magra, pálida. Um protótipo de esqueleto com cabelos pintados de vermelho. Trocou algumas palavras com Lucca, inaudível graças ao choro da criança e os latidos na vizinhança, mas sua expressão se transformou numa careta de desagrado. O alvo gesticulava bastante, realmente aborrecido com qualquer coisa, até que tirou algo do seu bolso e acertou o rosto esquelético da mulher.
Fui obrigado a me aproximar, não poderia perder os detalhes. Lucca tinha um tipo de faca nas mãos e a usou para arrancar o escalpo da mulher. Não demorou muito para que seus berros e lágrimas chamassem a atenção do homem da casa – tão magro quanto a mulher, com seus olhos avermelhados quase saindo das órbitas; um viciado.
Eles discutiram sobre o corpo feminino no chão, como se ela fosse um mero objeto ali. O drogado levantou as mãos e entrou na casa, voltando com uns papelotes entre os dedos. Tudo o que eu precisava estava ali, Lucca precisava apenas pagar pela droga e eu teria meu furo, mas ele foi além.
Draghi enfiou um dos papelotes na boca e acertou o traficante com a faca. Começou a rir à medida em que pisoteava no rosto da mulher e, quando o homem finalmente recuperou seu equilíbrio, acertou meu alvo no nariz. Torci para que Adrian estivesse fotografando cada segundo daquela briga, era notícia em tempo real, era a garantia de nossos salários no final do mês.
Era a realidade.
Tínhamos três corpos caídos há poucos metros. A mulher jazia morta, o traficante tinha uma faca enfiada na garganta, Lucca se contorcia de dor no chão com seu nariz quebrado. Adrian chamou a ambulância. Esperamos, fotografamos. Nos afastamos.
Voltamos para o carro do mesmo modo que nos afastamos dele anteriormente, sem pressa, em silêncio. Fui organizando mentalmente as informações que colocaria no jornal enquanto Adrian tentava acelerar o ritmo dos passos. Coloquei a chave, ouvi meu parceiro suspirar aliviado quando o carro ligou e começamos a andar.
Fomos para o prédio do jornal, a idéia era ter a noticia escrita, editada e corrigida até às seis da manhã. Adrian foi para o estúdio, revelar as fotos, e eu fui para a redação. Como o prédio estava praticamente vazio – a não ser por umas duas mulheres que limpavam as salas, o porteiro e uns funcionários perdidos – pude colocar o volume do gravador no máximo.
O choro, os latidos e os gritos invadiram a sala, lembrando-me cada detalhe do ocorrido. Eu estava quase no fim do texto quando Adrian entrou na sala.
- Robert? – Sua voz era baixa, cuidadosa.
- Sim? – Eu não conseguia desgrudar meus dedos do teclado, estava fissurado no texto – Algum problema, Adrian?
- O que vimos hoje, bem...
- Foi demais para o pequeno Goulart? – Ri.
- É, acho que foi – Forçou um sorriso – Quer dizer, aquele cara tinha tudo! Uma filha, uma esposa, família, amor, dinheiro. Não entendo como as coisas acabaram assim.
- “Uma filha, esposa, família e amor”? – Repeti com desgosto – Adrian, a realidade é mais dura do que isso. Lucca nunca teve filhos, mulher ou amor. Teve apenas produtos, uma sócia e muitos vícios – Soltei o teclado por alguns segundos, apenas para acender um cigarro.
- Isso soa tão... Duro – Ele começou a brincar com um de seus cachos – Como você consegue dormir escrevendo sobre tantas tragédias, Robert?
- Eu escrevo pecados, não tragédias.
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