Ragnarök: The Gate of the World
2 O Velho Novo Mundo
Notas iniciais

O belo nascer do sol tingia o céu de laranja, uma paisagem não muito incomum na floresta de Payon, onde os pássaros tentavam, ainda que timidamente, acordar a floresta com seu canto.. Andando por alí, uma jovem espiritualista que apreciava a floresta ainda sonolenta enquanto tomava seu caminho para Morroc.
–Finalmente pé na estrada! – Espreguiçou-se e suspirou. –Não aguentava mais ficar em Payon..
Caminhava fazia algum tempo sem muita pressa, apreciava a paisagem antes que ela mudasse para o clima árido do deserto de Sograt.
–“Talvez eu consiga chegar na fronteira antes do anoitecer, se esse for o caso, acampo por lá mesmo.” – Pensou enquanto tirava de seu rosto seus curtos cabelos cacheados. –Hm!?
Um barulho incomum surgia da floresta, soava como um cochicho, ela aproximou-se com cautela de duas árvores onde o estranho barulho originava-se e ajoelhou atrás de um arbusto perto a elas para observar o que acontecia. Se deparou com um pequeno grupo de Galions que pareciam estar a procura de algo.
–“O quê?!” – Quase deixou escapar de sua boca. –“Não deveria haver Galions aqui!!”
Pensou em aproximar-se mais, mas ao tentar, ouviu algo se mexendo atrás dela e rapidamente virou-se, se deparando com um grande Atroce e seu machado, que estava prestes a acertá-la.
–Kaupe!! – Usou rapidamente sua habilidade, fazendo com que ela escapasse por um triz do ataque do monstro, se afastando dele.
–Isso é ridículo!! – Olhou assustada para o monstro que acertara seu machado no chão com uma força tremenda. –Essa coisa está muito longe de onde deveria estar!!
O monstro voltou sua atenção à ela e avançou sem hesitar, a espiritualista, quase que por instinto, saltou sobre o monstro e adentrou na floresta correndo o máximo que podia, conhecia seus limites, lidar com um Atroce sozinha seria suicídio. Continuou a adentrar a floresta mais e mais, já nem sabia em que direção estava indo, olhou rapidamente para trás, não havia sinal do monstro.
–“Acho que despistei ele”.. – Voltou seu olhar para frente topando com o monstro que já a esperava com o machado prestes a cortá-la ao meio.
–Desgraçado!! – Ela berrou sentindo a cólera e adrenalina subir sua cabeça, então, com uma cambalhota, passou por baixo das pernas do monstro e voltou sua atenção para ele em modo de combate.
–Brisa leve!! – Uma pequena ventania alvoroçou as folhas das árvores. – Kaizel!! – Continuou enquanto o Atroce retirava seu machado cravado no chão.
–Estun!! – Ela conjurou a magia que acertou o monstro, não mostrando ter efeito algum sobre o mesmo. Não parecia surpresa, estava ciente que aquilo não funcionaria, então rapidamente ela conjurou outra magia e com um grito a lançou. –Esma!!!!
O Atroce virou-se violentamente e cortou as lâminas mágicas com seu machado, então levantou-se de sua posição curvada, olhou para ela e começou a se aproximar lentamente.
Ela sentiu suas pernas desabarem, fazendo-a cair sentada, ele era enorme, dava pelo menos três dela. Os olhos vermelhos do monstro brilhavam intensamente e, conforme ele se aproximava, ela conseguia sentir o cheiro da carnificina e a sede por sangue, ela não sabia o que fazer, Esma havia falhado miseravelmente..
–Kaahi! – Ela conjurou, sentindo alguns arranhões que sofrera sendo curados.
Ela fechou seus olhos e colocou suas mãos na cabeça, esperando pelo golpe do monstro. Ele se aproximou e cheirou ela, abrindo um sorriso e deixando a mostra seus dentes afiados. O cheiro era tão forte que ela teve que se conter para não vomitar. Então ela sentiu ele se mover e fechou os olhos com força, mas após alguns segundos ela notou que ele havia se levantado, algo havia atraído sua atenção.
O monstro olhou para sua direita e hesitou em dar o primeiro passo, mas cedeu e começou a correr em suas quatro patas com o machado na boca. Ela se abraçou e soltou um suspiro, não acreditara que escapou da fera por tão pouco.
–Como fui tola!! – Socou o chão. –É claro que Esma não iria funcionar!! Kaizel também não me salvaria dessa besta.. – Ficou algum tempo em silêncio –Mas.. – Olhou para a direção em que ele seguiu. –O que ele queria aqui?...
Ela se levantou ainda um pouco trêmula e tomou uma pose pensativa. Olhou mais uma vez para o caminho que a besta trilhou e então o seguiu.
–“Isso é extremamente incomum.. Um Atroce surge em Payon, me ataca e desiste de me matar assim do nada?”
Ela o seguia com muito cuidado, sempre mantendo uma boa distância, também foi cautelosa a ponto de conjurar todas as magias que podia para se fortificar caso algo acontecesse. Ele era muito rápido, as vezes parava para farejar algo, e chegou a mudar de direção algumas vezes. Quando ele parou, pôs-se em pé e encontrou-se com os três Galions que ela havia visto anteriormente.
–“Eu sabia!! Eles definitivamente estão atrás de algo!”
Ele pegou um artefato das mãos dos Galions, parecia uma espécie de cajado com uma esfera verde na ponta, muito elegante por sinal. O Atroce farejou o item o jogou para os Galions, então começou a busca novamente. Ele seguia para a fronteira entre Payon e Morroc.
–“Preciso pegar aquele cajado!!” – Ela esperou o Atroce se distanciar um pouco e então partiu para cima dos Galions que brigavam entre si.
Rapidamente ela saiu de trás da árvore onde se escondia.
–Brisa Leve!! – Chamou a atenção dos Galions.
–Estun!! – Atacou um deles que ficou atordoado, mas os outros dois partiram para cima dela, então ela começou a conjurar outra magia.
–Esma!! – As lâminas mágicas dilaceraram o Galion mais a frente, o outro aproveitou a oportunidade e pulou para atacá-la, ela desviou com Kaupe e então pegou o cajado caído no chão, perto do primeiro Galion que havia atacado. Ela sentiu um grande poder vindo do item.
O monstro tentou mordê-la mas ela deu-lhe um golpe direto em sua cabeça com o cajado e saltou para se distanciar. Os dois Galions se olharam e pareciam ter um plano, avançaram ao mesmo tempo.
A espiritualista pôs-se em posição de combate, desta vez porém, não começou a conjurar magia alguma, esperava pelo ataque dos monstros.
Um deles atacou suas pernas e o outro pulou, mirando em sua garganta. Ela deu um pulo e chutou um dos galions lateralmente o lançando um pouco distante, entretanto o que ela havia desviado deu meia volta avançou novamente em sua perna, ela pousou e o acertou de baixo para cima com o cajado, então saltou para trás.
–Kaupe! – Conjurou voltando sua atenção ao monstro que havia acertado com um chute. –Estun!!
Aproveitando que ele havia sido atordoado, ela conjurou Esma, mirando no outro Galion que foi dilacerado pela magia.
–Agora só falta você! – Ela se posicionou em modo de combate e provocou o Galion, chamando-o com a mão.
Ele partiu para cima dela e ela revidou com o cajado, mas errou deixando seus braços expostos, o Galion foi mordê-la mas ela desviou com Kaupe.
Furioso, ele continuou a atacá-la não lhe dando oportunidade de conjurar novamente a habilidade, em um momento ele conseguiu arranhá-la, mas baixou sua guarda, ela o acertou com o cajado em sua cabeça e conjurou Estun, finalizando com Esma.
–Pro azar de vocês.. – Disse passando a mão em seus cabelos castanhos. –Eu era uma ótima Taekwon.
Voltou a seguir o Atroce, sua única pista eram as pegadas pesadas que ele deixou enquanto corria, não podia se aproximar muito também, já que estava com o cajado poderia chamar a atenção do Atroce pelo cheiro do mesmo.
Enquanto se movia sentia uma energia estranha vinda do cajado, o orb verde começará a brilhar fracamente. Ela parou e o apontou para diferentes direções.
–Como suspeitava, você está tentando me indicar algo.. Não era coisa da minha cabeça, eu realmente senti uma energia espiritual vindo de você. – Ela seguiu o caminho em que o brilho ficará mais intenso.
Passou por algumas árvores e arbustos e encontrou um garoto deitado em uma clareira. Diferente de sua pele morena, a do garoto era muito clara e seus cabelos eram escuros, não pretos, pareciam mais um azul escuro, suas roupas também eram bem extravagantes não se lembrava de ter visto nada parecido.
–Ei.. – Ela tentou acordá-lo cutucando com o cajado. –Será que ele morreu?... – Novamente ela o cutucou, com mais força dessa vez. Ele soltou um resmungo.
–Ele está vivo! Ei, acorda!!
Lentamente o jovem despertou, seus olhos eram azuis bem claros. Ele levantou lentamente, parecia machucado, mas por fora não haviam arranhões. Ele balançou sua cabeça tentando despertar e então voltou sua atenção à espiritualista.
–Onde.. – Sua voz estava rouca. –Onde estou?
–Pra ser sincera.. – Ela agachou. –Nem eu sei mais.. Em algum lugar entre Payon e Morroc, eu espero.
Ele olhou para ela confuso e então levou sua mão na cabeça, aparentando sentir muita dor.
–Você está bem?!
–Minha cabeça.. Ela dói muito.. E minha visão também está embaçada.
–Consegue andar? Temos que sumir daqui o quanto antes!
–Hm?! – Ele a olhou confuso e avistou o seu cajado em suas mãos. –Behemoth!! – Gritou. –O que você faz com ele?!
–Ah.. Me desculpe, aqui está. – Ela devolveu o cajado ao garoto que o tomou rapidamente de suas mãos. –Er.. Eu recuperei eles de uns Galions ladrões.. – Ele ficou em silêncio.
–Tá legal.. – Ela revirou os olhos. –Agora vêm, vamos sair antes que aquela besta apareça de novo. – Ela agarrou o braço do garoto e o puxou para dentro da floresta. Mas era tarde, ela ouviu um rosnado e sentiu o cheiro desagradável do Atroce. Ele havia os encontrado.
–Pelo amor de Odin!! Me dá um tempo, sua aberração!! – Ela esbravejou, se colocando na frente do garoto.
–O-O que é essa coisa?! – Disse assustado.
–É um Atroce! É uma criatura horrível que vive nos arredores de Rachel.. E pelo que eu entendi até agora, ele quer você!
–E-Eu?! Mas o que- O monstro pegou seu machado e avançou nos dois. A espiritualista rapidamente arremessou o garoto para um lado e saltou para o outro, conjurando uma magia.
–Estun!! – A magia atingiu o Atroce, não causando efeito algum. –Corre!! Eu cuido dele!
–De maneira alguma! – Ele se levantou apoiado em Behemoth e então começou a conjurar alguma magia. O monstro ignorou a espiritualista e avançou no garoto.
–Lanças de fogo!! – O Atroce foi acertado por algumas das lanças mas não se importou, levantando seu machado para o golpe final.
–Imbecil!! Eu disse pra fugir!!
Ele tirou do cajado uma fina espada, e então desviou do golpe do Atroce rolando para o lado, foi tentar contra-atacar, mas o monstro atacou o garoto com sua mão o arremessando na espiritualista.
–Uh!! – Pestanejou ela com raiva. –Você vai acabar matando a gente assim! – Ela se levantou rapidamente puxando ele pelo braço, adentrando a floresta. –Escute antes que ele nos alcance. – Disse ela correndo enquanto o puxava. –Ele é grande e lerdo para atacar, se nós dois agirmos juntos ele vai ficar confuso, minhas magias são rápidas e pelo que eu notei você tem uma espada que pode ser útil! – Ele apenas concordou com a cabeça. –Ótimo! Vamos voltar.
Então virou à esquerda, notou que o monstro estava se aproximando rapidamente, mas conseguiram chegar a tempo na clareira. Tomaram certa distância, mas o monstro avançou sem hesitar com suas garras prontas para retalhá-los.
–Brisa leve!! – Gritou ela, fazendo com que uma pequena ventania passasse pelo local.
Ela correu em direção ao Atroce e passou por ele com uma cambalhota, fazendo com que ele se virasse para atacá-la, o garoto imediatamente se aproximou dele e com a fina lâmina e cortou as costas do monstro, recuando rapidamente em seguida, desviando por pouco das garras afiadas, começou então, a conjurar uma magia. A espiritualista, sem perder tempo usou Estun, chamando novamente a atenção do monstro, que a atacou, conseguiu desviar com Kaupe e começou a conjurar Esma. O garoto atacou a besta com lanças de fogo o deixando furioso e a espiritualista lançou Esma em seguida, com a propriedade sagrada da Brisa Leve, causando um enorme dano. O monstro ajoelhou-se por um instante.
–Hm?! – Ela estranhou. –“Um Atroce é muito mais forte que isso..”
–Tempestade de raios!! – Gritou o garoto que havia conjurado a magia sem que ela percebesse.
Os raios atingiram o atroce o deixando paralisado, o garoto avançou com a espada e cortou o olho do monstro, o deixando furioso e atingindo o garoto com um soco, lançando-o na árvore.
–Kaupe! Estun! – Conjurou respectivamente, se preparando para lançar Esma. –Você está bem?!
O garoto se levantou e tossiu um pouco de sangue, então bateu o cajado no chão
–Behemoth!! – Ela pode sentir uma forte energia sendo acumulada no cajado.
–Esma!! – Ela atingiu novamente o monstro que ficou mais impotente. –Agora é com você! Eu já não tenho mais energia para usar qualquer outra magia!
O garoto demorava a conjurar, e cada vez mais ela podia sentir a força que o cajado acumulava em sua esfera. O garoto bateu o cajado no chão e o apontou para o monstro, que finalmente se livrou da paralisia.
–Relâmpago!! – Um forte clarão tomou o local e um raio atingiu diretamente o monstro.
Quando a claridade se esvaeceu, o monstro gritava em dor sendo queimado por chamas negras que o consumiram por completo.
–Eu sabia.. – Disse ela sentando no chão, com certo alívio. –Ele era fraco demais pra ser um Atroce de verdade..
Ela ouviu um barulho e olhou para o garoto, ele havia desmaiado.
–Mas o quê?! – Ela correu até ele, ainda fraca por ter usado toda sua energia com suas magias. –Ele deve ter usado tudo o que tinha no último ataque.. Acho que não vai ter jeito, vamos ter que acampar aqui mesmo.
Ela observou ao seu redor, a paisagem já adquiria uma clima um pouco mais árido, não deveriam estar muito distantes da fronteira. Ela se levantou e foi procurar alguns galhos para fazer uma fogueira. Também precisava achar algo para comerem e, principalmente, beberem.
Quando o garoto acordou já estava entardecendo, viu ela sentada em um tronco deitado, cutucando a fogueira com um galho.
–Finalmente acordou. – Disse ela sem desviar o olhar da fogueira. –Acho que dormiu por pelo menos duas horas.
–Lamento por estar te dando trabalho.. – Respondeu baixo. –Meu nome é Erwin.
–Não precisa se desculpar, já passei por coisa pior. – Respondeu com um sorriso de canto. –Meu nome é Aria Yngvarr, e como você já pode notar, sou uma espiritualista.
Erwin se sentou no tronco e escorou Behemoth em seu lado.
–Eu sou um encantador.
–Um o quê?! – Interrompeu ele, o olhando confuso. –Nunca ouvi falar de encantadores em Midgard.
–Eu.. – Ele fez uma pausa. –Me disseram que eu sou uma mistura de noviços e magos, se me lembro bem.
–Bem.. – Ela o olhou descrente. –Isso explica suas roupas bonitas.
Virou seu rosto e corou de vergonha, não tivera contato com ninguém além de seus mestres no monastério onde vivia. Adquiriu uma cara triste, lembrará de o que havia acontecido com sua casa.
–De qualquer maneira, Erwin. – Ela continuou. –Para onde estava indo? E por que o Atroce estava atrás de você?
–Eu não sei..
–Como não sabe?! – Se virou para ele. –Vai me dizer que nem se lembra o porquê de estar desmaiado naquela clareira?!
–Exatamente.. Tudo que lembro foi de atravessar os “portões do mundo”.
–... – Ela o fitou. –Acho que você bateu a cabeça em algum lugar.
–Como você me achou?
–Eu estava indo para Morroc e fui atacada pelo Atroce. Aí ele começou a correr e eu o segui, foi aí que encontrei sua arma nas mãos de uns Galions. Eu lutei contra eles e venci, então sua arma meio que me levou até você. O resto você já sabe..
–Obrigado por recuperar Behemoth. – Disse meio sem jeito. –É minha única lembrança de casa.
–E de onde você vem?
–De um monastério, mas ele pegou fogo e eu tive que fugir..Fui o único que sobreviveu.
–M-me desculpe.. – Disse chocada.
Ambos ficaram em silêncio, Aria pegou alguns galhos e espetar frutas e carne que havia conseguido na floresta. Após algum tempo, ela começou a falar.
–Já esteve em muitos lugares de Midgard?
–Não, sempre estive dentro do monastério. – Disse um pouco triste.
–Então eu vou te levar pra conhecer vários lugares! – Sorriu oferecendo a ele um dos espetos no fogo. –Eu já andei muito por Midgard, mas acabei voltando para cá.
–Para cá onde? – Aceitou o espeto que ela oferecia.
–Morroc, minha terra natal.
–Posso.. – Ele hesitou. –Posso ir para Morroc com você? – Disse timidamente.
–Claro! Mas não espere que seja fácil. – Deu uma mordida na fruta. –O deserto de Sograt é bem traiçoeiro, e com essa sua pele branquinha você vai se queimar muito. – Soltou uma risadinha.
–Obrigado. – Sorriu timidamente e beliscou o espeto.
Já havia escurecido, a floresta a noite era um pouco fria, mas com a fogueira alí não teriam problemas. Erwin olhou a lua e as centenas de estrelas que os iluminava na clareira, sentia-se livre e confuso, por que os portões do mundo o trouxeram alí? Passou sua vida toda trancado treinando para descobrir que havia um mundo completamente diferente para conhecer. Não sabia dizer o que era, mas algo grande acabara de começar.
Fale com o autor