Ragnarok - o Crépusculo dos Deuses

1 Episódio 1 - Quando sopram os Ventos


Notas iniciais
História inspirada nos manhwas de Ragnarok por Lee Myung-Jin.

Ragnarok

I

The Awakening

Episódio 1 – Quando sopram os Ventos

O AMRC, ou Advanced Magic Research Center, era um prédio de porte espantoso, localizado na por si só espantosa cidade voadora de Yuno. Apesar de ser um laboratório de pesquisas mágicas, o majestoso edifício da AMRC lembrava mais uma guilda. Ou talvez um presídio.

Magos corriam de lá para cá nos corredores, levando, de um lado para o outro, poções esquisitas e pergaminhos antigos. No lobby, um grande número de mercadores negociava a compra e a venda de diversos artigos mágicos, alguns de duvidosa procedência.

Um homem de aparência pálida, utilizando óculos de proteção, passou apressadamente por entre as pessoas no salão principal, parando apenas para mostrar ao segurança seu crachá, entes de entrar em um dos elevadores.

O homem enrolava furiosamente seus cabelos verdes com indicador direito, indicando nervosismo. Ele pressionou o botão que o levaria para o andar mais profundo da AMRC. Um número absurdo de poções tilintou no seu cinto e bolsa, quando ele se mexeu para observar, pela centésima vez, o relógio de bolso. Era obviamente um alquimista. Um alquimista obviamente atrasado.

~

A porta de entrada para a Sala de Extração foi escancarada. A sábia que manipulava o maquinário virou-se para identificar o recém chegado. Era Barry, o alquimista, é claro. Quem mais poderia ser a àquela hora?

-Você está atrasado.

O alquimista cruzou os braços, numa posição meio rebelde um tanto estragada pelo suor no seu rosto.

-Bom, e daí? Não é como se “ele” conseguisse fugir só por causa de uns minutos de atraso.

A sábia colocou as madeixas loiras atrás das orelhas e sorriu. A visão de sua beleza fez o nada esplêndido Barry corar.

-Você já deveria estar aqui á meia hora. Mas você tem razão, não é o fim do mundo. Os leitores estão todos normais, nenhuma alteração no padrão de ondas psíquicas.

Barry não demonstrou surpresa. Já sabia que os medidores estariam normais. Eles sempre estiveram normais.

-E a extração?

-Mecanismo de extração funcionando a 78% da capacidade, a 27 unidades por segundo.

O alquimista levantou uma sobrancelha. Tinha a impressão de que aqueles números eram um tanto altos. O Sugador, como o chamavam, quase nunca se completava 70% de sua capacidade em apenas um dia.

A sábia, vendo no rosto de Barry o que este pensava, apertou um botão no console.

-Veja por você mesmo.

Luzes se acenderam cadenciadamente, iluminando o centro da sala, sala que também era o centro de poder do prédio. Na verdade, o centro de poder de toda a cidade. A luz final se acendeu, revelando um enorme tubo, cheio de liquido alaranjado. Dentro do recipiente de vidro, uma figura humana flutuava fantasmagoricamente. Barry sempre sentia arrepios ao vê-lo. Não podia evitar.

O pálido alquimista aproximou-se do tubo. Agora ele podia ver nitidamente os fios e conectores ligados ao vulto. Mais precisamente, á sua cabeça. Barry direcionou o olhar á um mostrador próximo, que mostrava números e diagramas.

-Vamos aumentar a dose de sedativo por hoje. Não quero nenhum maquinário explodindo por excesso de magia.

Elissa, a sábia, assentiu, mas quando ia apertar o botão para jogar o cérebro da silhueta presa no tubo em um estado de inconsciência ainda mais forte, um vento irritante soprou na sala, ondulando as mechas douradas da sábia. Levando em conta que não havia ali qualquer janela, aquela brisa fria era muito estranha. Elissa, porém, não teve tempo de cogitar o significado daquilo, pois a porta foi escancarada pela segunda vez naquele dia. A penúltima vez.

~

Runa entrou na Sala de Extração, um ser reluzente naquele ambiente de luz reduzida. Ela utilizava uma armadura alva, brilhante, e um elmo decorado com asas sobre os cabelos castanhos e curtos, além da suntuosa capa vermelha e da enorme lança, de aparência letal. Essa proteção toda ressaltava a sua estonteante beleza, uma vez que a armadura se ajustava ás suas curvas.

-Senhorita Runa!

Barry e Elissa exclamaram ao mesmo tempo. A sábia se levantou, mostrando respeito, enquanto o alquimista, que já se encontrava de pé, se limitou a ficar de boca aberta. Elissa, estando menos deslumbrada, iniciou o diálogo.

-Senhorita Runa, o que a traz aqui? Não teríamos outra avaliação até daqui á duas semanas!

A resposta da Paladina foi curta e fria.

-Ordens do mestre Vôdan. Ele me pediu para garantir pessoalmente a segurança da fonte de energia.

Elissa, mesmo nervosa, sorriu.

-Não ha com o que se preocupar Senhorita Runa. Altamente improvável que ele acorde. Suas ondas mentais são mínimas, é como se fosse um vegetal.

-Então reduza-as ao nível de um mineral.

O mesmo tom de voz inexorável. Elissa deu de ombros e começou a mexer nos botões, obedecendo às ordens de sua superior.

-Acho... que já é tarde para isso...

As palavras sopradas por Barry eram menos do que um sussurro. Agora que Elissa olhou para o companheiro viu como ele tremia. Seus olhos estavam fixos nos monitores.

Todos os marcadores estavam no vermelho. Gillian estava acordando.

~

-Mas o que...!?

A sábia martelava furiosamente o teclado, porém era inútil e ela sabia disso. Era preciso apenas uma olhada para o homem confinado no tubo. O liquido laranja, entes estático, borbulhava furiosamente, como se fervesse. O próprio vulto se debatia, puxando febrilmente os fios que o conectavam á máquina. Lutando para respirar.

Barry continuava abismado, Elissa ainda tentava comandos inúteis ao computador central. Runa apenas pegou sua lança e a arremessou contra o tubo de vidro, matando sem dó a maior fonte de energia de Yuno.

A sábia deu um gritinho quando o projétil passou rente a sua cabeça, porém a arma não encontrou seu alvo, parando a meros centímetros do tanque, no exato momento em que o homem abriu os olhos. No segundo seguinte a porta se escancarou pela última vez, detonada das dobradiças pelo poder da explosão que varreu a sala de extração.

Elissa e Barry abandonaram seus postos e correram covardemente na direção dos elevadores. Runa não se moveu um centímetro.

O homem ergueu-se do entulho do que fora sua prisão por 50 anos. Agora era possível ver claramente seus cabelos verdes, longos, sua estatura avantajada, e seu corpo magro. Em seus olhos não se via pupilas.

Runa não se intimidou e puxou sua espada curta, tendo perdido sua lança. Seus movimentos mostravam grande experiência e confiança. Nada daquilo adiantou quando Gillian levantou sua mão. Um círculo mágico materializou-se espontaneamente a volta da Paladina, que sentiu instantaneamente os efeitos da magia. A gravidade naquela área intensificou-se exponencialmente. A guerreira, que agora mal suportava o peso de sua própria armadura, teve dificuldades em articular palavras.

-Mas como... Sem... Invocação verbal...

Como resposta, Runa teve apenas o barulho da explosão magistral que removeu seus sentidos.

~

A bola de fogo abriu um buraco do porão direto para o térreo, perfurando pelo menos 10 andares até ter tido sua força dissipada. Muitos dos comerciantes caíram na cratera formada pela explosão, mas a maioria tinha conseguido fugir do prédio. Gillian flutuou pelo buraco, aparentemente usando uma magia de campo gravitacional invertida. O prédio, já evacuado, não passava mais a sensação imponente de antes, uma vez que a estrutura do prédio foi abalada pelas explosões no subsolo. O AMRC com certeza desmoronaria em questão de horas. Gillian, sem pressa, pegou a capa que um mago deixou para traz. Aquela roupa o trazia memórias, memórias de muito tempo atrás. Era incrível como o uniforme dos magos não mudara muito depois de 50 anos...

~ 71 anos atrás ~

O instrutor do teste não escondeu sua surpresa ao receber a prova do garoto de cabelos verdes. Não foi devido ao fato que todas as respostas estavam corretas, mas ao fato que o jovem tinha 12 anos.

Aquele era o teste de entrada da guilda dos Bruxos, conhecida pelas outras guildas como a detentora do teste de entrada mais difícil. Como poderia um menino de 12 anos acertar todas as questões de uma prova tão complexa? Bom, a resposta é simples. Sendo um gênio.

O teste prático foi ainda mais impressionante. O garoto conseguiu derrotar todos os adversários usando poderosíssimas magias de fogo, e mesmos as criaturas resistentes a este elemento sucumbiram diante a força das chamas. Ao final daquela tarde, o garoto foi consagrado como Bruxo e recebeu suas vestimentas características, ainda que contra a vontade dos líderes, que achavam que uma criança poderia arruinar a imagem da guilda. Estas suspeitas se tornaram infundadas, uma vez que o menino se tornou um dos membros mais notórios e conhecidos. O nome do jovem prodígio era...

~

-... Seu nome é Gillian Feuerzeug Potter, um gênio da magia que, há cinqüenta anos, conspirou contra os deuses. Claro que acabamos com ele antes que pudesse realmente se tornar uma ameaça, mas seu corpo... Ele é praticamente usina infinita de magia. Então, em vez que meramente matá-lo, o aprisionamos em Yuno, usando sua magia para alimentar o feitiço que mantêm a cidade flutuando no ar. Porém, como disse a profecia, os Ventos do Destino sopraram novamente, e ele foi libertado.

Um sino tocou em algum lugar no alto da catedral. Runa, que estava ajoelhada perante o homem com vestes sacrimoniais, levantou a cabeça. Seu rosto ainda trazia traços das queimaduras causadas pelo caso no AMRC aquela manhã. Ela teve sorte em ser teletransportada a tempo.

-Perdão, senhor Vôdan. Se eu tivesse chegado lá mais cedo...

O homem de longos cabelos prateados sacudiu a cabeça, mostrando em sua face uma expressão benevolente.

-Não Runa, foi minha culpa. Fui tolo ao pensar que poderia impedir o que já foi pré-determinado. Mas não se preocupe. Iremos matá-lo. Odin todo poderoso há de dar-nos forças para impedir a loucura de Gillian.

Aquela expressão subserviente parecia estranha no rosto da Paladina, normalmente sério e duro. O homem de cabelos brancos virou-se para uma estátua, o objeto de destaque naquele templo.Nela estava retratado um ser humanóide, vestindo uma armadura pesada, segurando uma grande espada. A armadura era incrivelmente bem detalhada, mas o que mais impressionava era o poderoso cavalo de seis pernas que o ser cavalgava. A espada estava apontada na direção de um grandioso vitral, por onde entrava toda a luz no templo.

-Oh! Senhor Odin! Iluminai-me!

Runa, respeitosamente, voltou a olhar para o chão, enquanto o homem sagrado comungava com o líder do panteão, o deus mais poderoso. Quando acabou sua prece, o homem de cabelos brancos chamou a atenção da guerreira.

-Runa. Vamos colocar esta tarefa nas mãos de profissionais. O que acha?

-Você quer dizer... Os assassinos de Morroc?

O homem, ainda de costas para Runa, sorriu.

-O melhor deles.