Radioativa

2 ⇢ ❝Avant l'enfer❞


Notas iniciais
Então, perdão, mas eu não vou editar esse capítulo bonitinho com italicos porque o Firefox fechou KSKAKA. Aproveitem a leitura.

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— Per favore! — Senti os primeiros sinais do desespero borbulhando dentro de mim e, com ele, o italiano materno. Fiz meu melhor, falhando miseravelmente, para tentar alcançar o motorista incorrigível apressando o ritmo de minha correria frenética. — Per questo autobus!

Mas no fim, todo o esforço e gritaria gastos foram desnecessários. A velocidade do ônibus dobrou, o rosto redondo e diabólico do condutor era visível pelo retrovisor retangular e seu sorriso de satisfação era tão grande que ia de orelha a orelha. Bastardo. Aos poucos, meus passos iam diminuindo até que estava caminhando novamente. Meu coração palpitava fortemente em meu peito, minha respiração era uma bagunça e meu pescoço estava dolorido.

Jogando a bolsa no chão, parei por um mísero momento para respirar. O crepúsculo caiu sobre a cidade e a lua erguia-se soberana e imortal nos céus escuros, adornado por pequenas estrelas pálidas. Sua luz caía nas construções não imponentes e a ponte acima de um regato de águas cristalinas. Nova Iorque, em pleno ano de 2016, mesmo em uma noite movimentada, não era o lugar mais seguro para estar ao ar livre após o Sol Cair. Lancei um olhar sem esperanças ao relógio marrom em meu pulso — nenhum ônibus passaria por ali hoje. E eu teria que caminhar para chegar até o local desejado.

Com um suspiro e um olhar cauteloso para a mata que me cercava, dei os primeiros passos que me levariam até Bleecker St, 177a — também casualmente conhecido Sanctum Sanctorum. O lar da magia, meu lar. O peso do Anel de Acesso no bolso do jeans vermelho se fazia presente, quase tão pesado quanto os livros de antropologia emprestados. Poder saltar de longas distâncias, criar atalhos místicos, era prático, contudo, observar as alterações realizadas diariamente pelas mãos ambiciosas dos homens era atraente. A sociedade mudava de forma física cotidianamente, mas a podridão da realidade vinha da própria humanidade.

O mundo continua o mesmo, — Há apenas menos.

Durante a noite, a cidade que nunca dorme se destacava de todas as outras que existiam. Uma metrópole caótica, com luzes exageradas de edifícios e estabelecimento decorando um cenário de aparência quase futurista. O cenário que faria poetas da antiguidade implorarem para descrever em seus contos líricos.

Meus passos eram silenciosos e calmos. Meu coração, porém, não estava assim. Tive tempo para me recuperar da corrida que o motorista me fez dar, mas o problema era o que me aguardava a frente. As luzes dos postes iam me abandonando conforme eu me aproximava da ladeira caracol que dava acesso à parte movimentada da cidade. Parei de caminhar para engolir o seco, e o gosto amargo que agora residia em meu paladar. O percurso que me aguardava era escuro, não tendo nenhuma luzinha por perto, exceto as que radiavam beleza longe da rota da faculdade.

Simplesmente maravilhoso...

Eu tenho o que médicos psiquiatras podem diagnosticar como Nictofobia — um medo irracional do escuro. Alguns dizem que ela geralmente se origina de alguma experiência traumática que ocorreu durante o passado. Mas não me lembro de nenhum acontecimento envolvendo escuridão que possa ter dado origem a esse pavor. Poucos se recordam do prólogo de seus temores mais sombrios, certamente eu não seria diferente.

As sombras que ansiosamente me esperavam não eram amistosas. Logo, ao entrar em seus domínios, elas agarram-me em um aperto sufocante. Dedos invisíveis e frios agarram meu pescoço, tirando brutalmente todo o oxigênio de meus pulmões. Meu coração estava saltitante no peito, batendo tão fortemente que superaria facilmente cavalos de corrida. A velocidade de meus passos tornou-se menor, meu corpo estava dividido em pequenos espasmos de tremor, minha perna formigava e ameaçava ceder a qualquer instante. Gotículas de suor frio estavam acumuladas em minhas palmas e meu coração saltava tão freneticamente que rivalizaria com cavalos exóticos de corrida.

Lute contra seus medos, uma voz masculina dizia ao fundo de minha mente perturbada. Era um som familiar, severo e, se interpretado corretamente, amoroso. Era papa, que mesmo no prelúdio de um ataque psicológico, e a quilômetros de distância de mim, me incentivava a sobreviver. Seus medos mais ocultos são como um parasita, pouco ele se apossa do hospedeiro, sugando, quebrando, matando, destroçando. — Eu queria resistir, fugir do feitiço criado por mim mesma, sobreviver.

Mas sou humana...

E havia uma parte de mim, que era submissa aos próprios medos, que acreditava que alguma criatura demoníaca saltaria da mata sombria a qualquer instante. Era uma parte quebrada e assustada, uma parte irracional. Eu me esqueci de que aqui era um lugar desprovido de iluminação. Talvez, a visão era diferente no conforto de uma poltrona de ônibus ou no banco do passageiro do Mustang clássico de Thomas. E, no fim, tudo aquilo era patético.

Sempre encontrei prazer em coisas pequenas, sua simplicidade enchia meu coração de mansidão. O cenário em que habitamos era decorado por elementos monótono. Outra característica desagradável sobre a humanidade é a ingratidão. Tínhamos tudo, — ar, água, luz e amor — mas estávamos tão ocupados com coisas sem valor, que não iria nos acrescentar em nada. Mas qual era o propósito de admirar uma paisagem decorada por meu maior pavor? Meu corpo travou, não consegui mover nenhum músculo.

E era aquilo...

O ataque de nervos, — o desespero antes esquecido ressurgiu poderoso, estremeceu meus alicerces mentais e físicos. Trouxe consigo um espírito de auto preservação adormecido, era hora de sair dali. Sempre me ensinaram a usar meus medos como uma armadura, tirar proveito do ruim, moldá-lo ao meu anseio e necessidade. Minha família, não dotada pelo mesmo sangue que corria em minhas veias, me ensinou a enfrentar meus demônios. E eu queria, desesperadamente, o fazer. Mas como?

— Che cazzo! — Aquele era meu limite. Meus dedos voaram para o bolso de tecido cor vinho e metal frio beijou meu tato, um adorável convite, silencioso, e elegante. — Non hai un manuale di istruzioni su come gestire le mie paure.

Uma mão ereta diante um corpo trêmulo, mente elevada ao destino. Um santuário, dois andares, telhado de vidro, piso de madeira, escadarias que gemiam ao toque, livros empoeirados. Era familiar, era minha casa, que clamava por meu regresso. E, em questões de segundos, um círculo celeste surgiu em minha frente. Brilhante, flamejante e prateado. Um portal, uma entrada alternativa.

Il est temps de rentrer à la maison.

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Todas as noites, eu sonhava.

Um sonho onde o universo era exatamente como deveria ser. Ilusões angelicais equivalentes a leite e mel, um universo paralelo onde meus problemas eram solucionados — meus inimigos derrotados. Varga tolerável e Ahri, finalmente, livre de seus demônios. Meus sonhos eram doces, o alfa de meu próprio paraíso.

Et pendant de nombreuses fois, j'ai cru en la créativité de mon esprit fertile.

Mas, no fim, era tudo isso. Sonhos. Des rêves. Até porque, em meus deleites noturnos, a voz dela não era a primeira coisa que eu ouvia ao chegar ao céu, onde anjos negros me recebiam com abraços e carícias inocentes.

— Está atrasada. — Ela disse e, mesmo de costas, com os olhos fixos na bela cidade, pude ver seu rosto bonito e inocente distorcendo-se em irritação, o que era comum de se vislumbrar quando ficava perto de mim. Um pequeno riso, parecido com o som do tocar de pequenos sinos, ecoou pelo salão vazio. Reconheci o veneno banhando as palavras que em seguida cortaram o sereno. — O que não é espantoso.

Até mesmo no paraíso existem demônios — e aquela garota era o Diabo, que tinha como principal função me atormentar.

— Maddison. — Voltei meu olhar para sua figura graciosa, apenas para cumprimentá-la com um acenar distante. Meu estômago embrulhou-se ao ver o rosto doentio. — Que infelicidade vê-la novamente.

Tarien limitou-se a sorrir. Já estava, obviamente, acostumada com o tratamento que recebia. Suas tentativas de criar um diálogo entre nós era algo baseado em artimanhas ilusórias.

— Não compreendo como Rup ainda tolera seus atrasos. — A morena arriscou um passo em minha direção, seu tom de voz era suave, mas a perversidade continuava ali. — Se fosse eu, no lugar dele, já teria a destituído de seu maktab.

— Que sorte a minha. — Quando me afastei dela, não fiz questão de ocultar a repulsa que marcava meu rosto. Todos sabiam que eu odiava Maddison, e poucos viam que ela tirava proveito disso para de passar de vítima. — Graças ao bom Deus, Rupert é justo e não segue influências negativas.

— Rupert apenas te deixa por perto devido sua... Amizade. — Maddison tinha prazer em exibir seu lado da história, esfregá-lo em minha cara na esperança de magoar meus sentimentos.


Inocente, apesar de tudo.

— É mesmo? — A verdade é uma faca, e vou lhe ensinar porque elas cortam profundamente. Um turbilhão de emoções se espalhou por meu peito, fogo em palha. — Lembre-se que por muitas vezes Lerolan se fingiu de cego para acobertar sua rebeldia. Não ouse abrir sua boca imunda para falar de mim, afinal, suas atitudes deixam a desejar.

— Você não sabe de nada. — Olhos castanhos cintilando com sentimentos obscuros. Sempre foi assim e algumas coisas nunca mudam. Maddison nunca mudaria sua conduta.

— Será mesmo? — Aceitei o desafio que as palavras traziam. Senti um sorriso puxando-se nos cantos de meus lábios. Sarcasmo. — Então nega Grishka?

Não existiam palavras para descrever minha satisfação ao observar Tarien perdendo a cor do rosto oliva. Seu silêncio, porém, foi o conforto e o balde de água fria para refrescar meus ânimos. Errado? Sim.

— Você nunca soube cuidar dos seus assuntos, não é? — Um, dois, três, o Diabo estava perigosamente perto de mim, com um olhar predador. Quase beirando ao maníaco. A morena soube se recompuser rapidamente e vestir a mascara de inocente e frágil. — Suponho que a conivência com Kaecilius gerou isso. É uma característica desagradável que todos os alunos dele compartilham.

Superar é bom, Maddison, eu queria lhe dizer. Faz muitíssimo bem para a pele e a alma. Experimente, é grátis.

— Chega Maddison. — Uma nova voz se fez presente na interação desconfortável. Masculina. A figura, adornada por trajes escuros e minuciosos, estava no topo da escadaria. Sua presença exalava poder e superioridade, e seus olhos, um par de safiras pálidas, refletiam tal. — Você falou o bastante por hoje.
Ela fala bastante por uma vida inteira...
— Ah, Haziel! — O rosto de Tarien iluminou-se. Seu sorriso era quase sincero, mas suas palavras ásperas diziam o contrário. — Veja só, Reën, seu protetor chegou.

Rolei os olhos, prevendo mais uma onda desnecessária de ladainha — e Haziel Voult copiou meu ato, contudo, jamais perdia sua áurea de firmeza.

— E sua deixa também. — No meio de desprezo e indiferença, um sentimento que define perfeitamente minha relação tóxica com Tarien, encontrei minha voz. — Se faça de fumaça e evapore.

Maddison Tarien, porém, não recebia ordens além de si mesma e permaneceu ali. Braços cruzados e sorriso audacioso indicavam sua negação. Surpreendente como ela possuía uma aparência angelical e uma personalidade idêntica a uma prostituta medieval.

— Reën tem razão. — Dedos longos envolveram-se ao redor de meu antebraço em um aperto familiar. Com a cabeça inclinada ligeiramente inclinada para o lado, Haziel completou. — É melhor você ir. Seria lastimável Rupert chegar aqui e perceber que você está causando problemas com outros magos, de novo.


— Sempre protegendo ela. — A voz de Tarien quebrou-se ao fim, foi fácil notar a pitada de amargura ali, algo que era exclusivamente direcionado a mim, mas não consegui sentir simpatia por ela. Não mais...

Haziel não estava afetado pela tristeza evidente no rosto dela. Seu rosto continuava austero e suas emoções guardas e trancadas. Algumas coisas nunca mudam.

— Sempre vou proteger Reën, mesmo ela não precisando. — Um braço pesado foi jogado com delicadeza em meus ombros, era uma rara demonstração de afeto. Meu coração se encheu com fogo, um calor agradável que se manifestou em minhas bochechas. — Ela é minha amiga e eu cuido dos meus. Você sabe disso melhor que ninguém.

Enquanto Haziel conseguia encher meu peito com o mais puro dos amor, Madison Tarien, por sua vez, incendiava todo meu ser com rancor que ela guardava. Sempre andei numa linha da insanidade e o ódio ao sentir sua mudança radical e negativa. Todos um dias uma briga, todos os dias lágrimas sem o mínimo significado. Todos os dias, pedidos de desculpas monótonos.

— Maddison, guarde seu veneno para nossos inimigos. Não o desperdice comigo. — Minhas escolhas me trouxeram aqui e, graças a elas, terei uma rival até o fim de meus dias. Às vezes, entre delírios e suspiros, me vejo presa na ilusão de coisas que poderiam ter acontecido. Mas as probabilidades são agridoces e falsas, pois era uma questão de tempo para que meu castelo de gelo desmoronasse. O fim chegara

Era tão difícil de acreditar que um dia todos nós já fomos amigos.

— Apesar da abordagem nada agradável, Maddison estava certa sobre uma coisa. — Voult comentou casualmente, após Maddison Tarien retirar-se de forma pomposa, puxando-me para mais perto e nos guiando para o segundo andar.

— Eu sou egoísta? — Arrisquei, distraidamente, absorvendo o poder que cada figura mística imóvel possuía. Lar doce lar. — Ou queridinha de todos?

— Não, você está atrasada. — Nossos passos unidos chegaram ao fim no momento que as palavras deslizaram inocentemente pela língua de Haziel. Empurrei seu corpo alto e forte para longe do meu, com uma colisão de meu ombro no seu torço coberto pelo tecido rico.

— Acho que você deveria se tornar um detetive, sabia?

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— Não foi intencional. — Fiz uma pausa, para mastigar o sanduíche frio. Os ingredientes frescos e suculentos eram uma dádiva para um estômago vazio. — O atraso, quer dizer.

Sentado no outro lado do escritório, um lugar geralmente ocupado por nosso mentor, a sobrancelha de Haziel erguer-se. Ele parecia curioso.

— O que aconteceu? Você encontrou seu namorado bonitão? — Um sorriso descarado brincou nas feições. O homem que se ocupava com uma firme leitura sumiu e deu espaço para o adolescente que Haziel não teve tempo para ser.

— Haziel, cala a boca. Para o bem dos meus ouvidos, por favor. — E levei o sanduíche mais uma vez aos lábios.

Voult, porém, gostava de deleitar-se de meu infortúnio emocional. Romance, por sua vez, era um exemplo de trópico que conseguia, sem dificuldades, deixar-me rubra.

— Oh? — Eu odiava a forma que Haziel parecia genuinamente curioso para saber. Uma expressão inocente, infinitamente doce, traçou o semblante bonito. — Estamos lidando com um amor unilateral, então? Isso torna tudo mais saboroso. O público adora.

— Haz, — Me vi choramingando, como um adolescente cheios de hormônios implorando para seus pais cessarem uma humilhação cômica. Para mim, Haziel mencionar ele tão abertamente, era algo vergonhoso. — Per favore, não começa.

— Não há necessidade de ficar envergonhada, Reën. Todos nós já nos apaixonamos por alguém que não corresponde nossos sentimentos. — Haziel sorriu, exibindo uma fileira de dentes brancos e uma covinha no canto da bochecha direita. — Agora, seja uma boa menina e diga-me o qual o nome dele. Seria Arthur?

— Isso é ridículo. — Não é Arthur, e não estamos chegando nem perto. Vermelha, sou um tomate. — Você quer saber o motivo do atraso ou vai continuar me envergonhando?

— Então você está envergonhada? Quer dizer que existe algo entre vocês?

— Atração unilateral, eu suponho.

— Dispenso a oferta, — Haziel disse e, ao ver meu olhar de curiosidade, ele riu jovial. — Relaxe, garota. Sua vida amorosa não é da minha conta. Eu só gosto de irritar você. Agora, termine de comer.

— Que sexy. Adoro quando um homem manda em mim. É muito patético. — Terminei, para meu desgosto, o sanduiche. — Temos algum rolê planejado para hoje? Além de não ir conversar com Rupert?

— Vamos conversar com Rupert. — O mais alto respondeu, levantando-se. Como alguém podia ser tão bonito? — Na biblioteca.

— Vocês vão se beijar? Eu não curto voyeurismo.

— Para de reclamar e vem logo...

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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.