Radioactive
3 Episódio 3 – Just do Not Let The Tide Take You.
Notas iniciais
“Mares calmos não fazem um bom marinheiro.”
— The Walking Dead.
As nuvens negras e carregadas ainda pairavam sobre o céu noturno do Estado de Virgínia, a chuva agora era suave, mas o vento ainda mantinha sua velocidade. Finalmente o Volvo chegara a um local ao quais muitas pessoas chamavam de Lar, em um mundo normal era um pequeno bairro suburbano, que agora era rodeado de muros altos por volta de três metros, feitos com materiais retirados de um canteiro de obras num Shopping Center próximo. À medida que o veículo se aproximava do local o grande portão que jazia ali se abria.
Em poucos minutos o carro estava totalmente dentro da pequena comunidade de Alexandria, e seus passageiros saiam do mesmo sendo recebidos calorosamente por um rosto conhecido, ao quais muitos admiravam um rosto que pertencia a um líder nato, e por isso que o mesmo se tornava tão admirável, todos sabiam que liderar, fazia-o viver numa fronteira frágil e instável entre a lucidez e a total desumanidade. Entre a bondade e a crueldade. Entre cuidar dos seus e ter o simples “prazer” de se vingar dos que o fizeram ter perdas ou tentaram matá-los. Concordando ou não com seus métodos e ações, Rick tem conseguindo manter as pessoas vivas, na maioria das vezes com sucesso. Apesar de tudo, um líder bipolar e com traços de desequilíbrio mental, continuaria a ser a melhor opção de liderança para os sobreviventes daquele lugar. Rick Grimes era a prova viva do quão era difícil ser humano em um mundo apocalíptico, mas o mesmo o fazia com maestria.
— Fiquei preocupado com essa mudança de tempo, achei que poderiam ter problemas. – Rick disse se permitindo sorrir à medida que se aproximava de Michonne beijando-a brevemente em seguida.
— Já deveria saber que sabemos nos cuidar. – Michonne disse com desdém o olhando de forma furtiva e um sorriso na voz. – Afinal, como você mesmo disse ao Governador uma vez, temos o Daryl. – completou e os outros se permitiram sorrir abertamente vendo a mesma afastar-se lentamente dali.
— E você como esta? – o xerife questionou voltando agora a atenção para seu filho.
— Estou bem, mas... – Carl hesitou quando dera sua resposta.
— Precisamos conversar Rick. – Daryl respondeu pelo garoto em um tom sério. – Vimos algo suspeito, acho que vai gostar de saber. – completou.
Rick arqueou uma das sobrancelhas e seu semblante descontraído mudou repentinamente para desconfiado, por um momento olhou para os portões daquela fortaleza e imaginou se passaria por tudo novamente, pois parecia que sim.
— Vamos reunir o Conselho. – Rick decretou enquanto se deslocava para reunir-se com outros moradores de Alexandria.
–Eu vou avisar aos outros, pai. – Carl disse com a intenção de que participasse de tudo e se apressou para transmitir a mensagem.
—Tudo bem Carl, mas quando for falar com a Carol, pegue a Judith e leve-a para casa. – o xerife disse e por um momento Carl demonstrou certa decepção pela decisão do mesmo, mas assentiu e correu para longe dali.
...
Tudo estava calmo, havia somente o assobiar dos ventos, e o barulho mínimo de algumas gotas de chuva que caiam contra a lataria do carro. Parecia que Lucille havia passado uma eternidade ali dentro ao invés de horas, seu pescoço doía pela forma desengonçada que ali se encaixara. O olhar assustado da mesma ainda percorria por todo o local através da brecha que a mesma provocara com o casaco, parecia seguro, ela conseguiu enxergar o momento em que o ultimo zumbi daquela horda curvou a estrada como todos os outros a caminho de lugar nenhum.
Então Luce esperou alguns segundos e fez certo esforço para escutar algo a mais que o vento e a chuva, mas não havia nada a mais, nada a mais que o silencio ensurdecedor. Com cuidado escorregou seus dedos finos pela brecha suspendendo de vez o capo do carro, sentiu o vento gélido contra o seu rosto incomodando suas pálpebras e finalmente deslizou para fora da porta malas ficando de pé.
Olhou para todos os lados a procura de alguma movimentação e não havia mais nada além dela, o carro, a chuva e o vendaval.
Isso é o que ela pensava.
De repente alguns passos foram ouvidos pela garota, seus olhos rapidamente percorreram toda a extensão e os mesmos pararam em uma silhueta se movendo no meio das árvores, a primeira impressão era a de ser um errante, Lucille rapidamente retirou uma faca da cintura e segurou entre as mãos, mas à medida que a silhueta se aproximava Luce percebeu que seu andar era normal, era a silhueta de um garoto de pele pálida, cabelos negros e lábios absurdamente rosados. Ele tinha corpo definido que era percebido até mesmo através de seu casaco negro de algodão. Suas calças eram rasgadas, tinha uma mochila negra das costas e usava um coturno da mesma cor. Mas nada chamou a atenção de Lucille como as cores de seus olhos eram de um verde esmeralda, simplesmente estonteante. Lucille teria suspirado se não achasse que fazer isso fosse patético.
— Oi. – o garoto disse simplesmente com um sorriso no canto dos lábios. Luce ainda o observava por completo, ainda em posição de ataque.
— Quem é você? – foi a frase que saiu dos lábios da garota, ela tinha um tom de imposição o que fez o garoto alargar ainda mais o sorriso.
— Me chamo Joffrey. Joffrey Lannister ou Joffrey Baratheon me chame como preferir. – respondeu prontamente e em seguida gargalhou. Lucille entendeu a referencia a Game Of Thrones, mas não riu como o mesmo, apesar dele ser absurdamente bonito, ela ainda estava desconfiada. – Qual é? Não vai abaixar isso? –o garoto de orbes verdes questionou levantando ambas as mãos, referindo-se a faca que Lucille ainda apontava para ele.
— Não antes de você responder minha pergunta. – Lucille uniu as sobrancelhas, e mais uma vez falou firme, o que fez o sorriso do outro se esvair.
— Tudo bem, eu sou... – o garoto começara a dizer dando alguns passos mais a frente aproximando-se da garota. Lucille atentou os ouvidos, mas antes que pudesse saber de quem se tratava, sentiu uma pancada forte na cabeça e tudo escureceu. Outro garoto, só que de olhos intensamente azuis e cabelos louros viera silenciosamente por trás, e com um taco de beisebol levara a garota ao chão, conseqüentemente desacordada.
— Gostosinha, mas muito curiosa. – o rapaz que fizera a manobra falou rindo apoiando o objeto de ataque sobre um dos ombros.
O outro garoto abaixara e retirava do rosto de Lucille seus cabelos negros e úmidos, por um momento ele analisou cada traço fino de seu rosto, com a ponta dos dedos tocou o contorno de seu rosto, e os direcionou para seus lábios arroxeados pelo frio que a mesma sentira, mas quando finalmente iria tocá-los o outro lhe interrompeu.
– Quê? Não vai me dizer que se apaixonou pela vadia... – o loiro indagou de forma estúpida e sarcástica olhando curiosamente para o mesmo. O outro logo pegou a garota nos braços e rolara os olhos com a afirmação do amigo, tentando mostrar indiferença, o que parece ter funcionado.
– Você é um idiota. – o garoto de cabelos negros respondeu ironicamente. – Vamos, antes que Jamie venha atrás de nós e nos mate pela demora. – o mesmo completou e o outro assentiu seguindo ao seu lado. A chuva começara a cair novamente, fazendo-os apertar o passo.
Sumiram em meio às arvores noite adentro, em completo silencio, um deles orgulhoso pelo o que a acabara de fazer e o outro com seu caráter ferido pelo simples fato de querer sobreviver.
...
–... E aí os encontramos barrando a estrada. Não percebemos inicialmente pelo fato de estarmos longe, mas quando nos aproximamos vimos as correntes e as marcas no corpo. – estavam todos em silencio observando o arqueiro dar sua espécie de depoimento pelo o que o mesmo, Carl e Michonne viram mais cedo.
— E vocês acham que pode ser algo realmente preocupante? – Carol Peletier questionou em bom som, com seu jeito costumeiro de falar.
— Sim. Pensamos que fossem apenas errantes vagando sem rumo, mas com o que encontramos podemos concluir que há pessoas cruéis. – Michonne respondeu levando o olhar a todos.
— Isso não é novidade pra ninguém Michonne. – Sasha disse sorrindo de canto.
— O que ela quis dizer é que há pessoas cruéis perto de nós. Os zumbis tinham pouco tempo transformados, se estão perto de Alexandria e são recentes mortos-vivos significa que quem fez isso com eles ainda vive, e pode vir atrás de nós. – Daryl verbalizou calmamente batendo seu dedo indicador sobre a mesa ao qual estavam próximos.
– Pois que venham! – Rick disse pondo uma das mãos sobre a arma que possuía no quadril. – Já enfrentamos Negan, serão só mais um obstáculo no meio desse mar de mortos.– completou com tendo a firmeza e a confiança refletidas em seus olhos azuis.
— Concordo com você Rick, afinal... –pausou. – mares calmos não fazem bons marinheiros. – Maggie Greene verbalizou repetindo uma frase que ouvira antes daquele próprio homem.
Rick assentiu e sem mover-se de onde estava, olhou a noite pela única janela que ali continha, e sentiu que assim como a noite, os dias também poderiam ser escuros e cheios de perigo.
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