Radioactive
2 Episódio 2 – Do Not Give Up.
Notas iniciais
“Uma alma aflita pode matar mais rápido do que um germe.”
— The Walking Dead.
Eram exatamente 17h36min da tarde, o sol estava baixo no oeste pronto para se pôr, alguns grilos cantarolavam no meio do grama silvestre, as mesmas um tanto douradas por alguns raios solares que se permitiam tocá-las. Um garoto de dezesseis anos de idade andava por ali, com o olhar perdido no horizonte, seus passos eram silenciosos, assim como a arma que segurava com as duas mãos. O silenciador instalado na mesma impedia que outros errantes o notassem, era algo bem útil em tempos com este.
— Carl. – uma voz feminina chamou o garoto inerte em seus pensamentos. – Carl, vamos. – a dona da voz, uma mulher negra de dreeds indagou novamente, e só dessa vez o mesmo ouvira. Ele olhou imediatamente para ela por baixo do chapéu de xerife que usava, assentiu com a cabeça seguindo-a posteriormente.
...
Um Volvo S60 2012 se deslocava a 80km/hr numa estrada no Estado de Commonwealth of Virginia, nos Estados Unidos da América. Por um longo tempo o silencio permaneceu no veículo até um homem de pele clara e cabelos castanhos, de idade entre trinta e cinco a quarenta e dois anos se pronunciou.
— É até estranho dizer que se está feliz por que está tudo bem. – disse calmamente se largando ainda mais no banco carona, apoiando um de seus braços na janela do veículo.
— Não gosta de estar feliz Daryl? – Michonne disse sorrindo de canto, olhando de relance pelo retrovisor para Carl que estava sentado no banco traseiro perdido novamente em seus pensamentos.
– Não de se estar feliz necessariamente, mas da sensação de acreditar que está tudo bem. – respondeu pensativo, coçando brevemente a barba mal feita.
— Não entendi seu ponto de vista filosofal. – Michonne revelou com um sorriso escondido na voz.
— Ele quer dizer que é estranho acreditar que está tudo bem depois de tudo que passamos, é estranho procurar algo de errado próximo de nós e não encontrar. É agonizante não saber de onde você será atingido. – Carl Grimes disse de repente, deixando os outros dois atentos ao que seria dito depois.
– Por que dizem isso? – Michonne verbalizou tendo um semblante agora mais sério, voltando a olhar o garoto pelo retrovisor do carro.
—O sentimento de paz é traiçoeiro, normalmente quando a maré está calma demais há muito tempo, é sinal que grandes tempestades podem vir. – Daryl disse mirando a estrada a sua frente e o silencio voltou a emergi-los.
...
Uma chuva torrencial começara a cair de repente deixando o céu iluminado pelo por do sol anteriormente, agora negro e mórbido. Alguns pássaros voavam na chuva em direção a algumas arvores próximas da estrada. Os três ainda estavam no carro, desde aquela conversa breve que tiveram nenhum deles ousou dizer uma palavra, as palhetas de para brisa retiravam o excesso da água da chuva deixando uma visão mais nítida, mas nem por isso tão agradável.
– Merda. – Daryl disse um pouco irritado com a aparição de oito errantes barrando de certa forma a passagem do carro. – Vocês fizeram eu me molhar, vão pagar por isso. – completou sarcástico enquanto saia do carro e mirava a sua besta em um deles, acertando uma flecha em cheio no seu olho esquerdo.
Michonne com suas espadas e Carl com sua espingarda o seguiram, aniquilando em menos de um minuto todos os zumbis desnudos de camisa que cruzaram seu caminho. A chuva caia agora com certa violência e o vento seguia o mesmo ritmo. Apesar de estarem sujeitos a uma pneumonia ou hipotermia debaixo daquela pré-tempestade, não conseguiram recuar, a única reação que tiveram foi a de chegar mais perto dos mortos para conseguir identificar o que jaziam em seus punhos e tornozelos.
– Correntes? – Carl estreitava os olhos tocando nos objetos cobertos aparentemente por sangue e terra. Agora mais de perto, podia se notar que acorrentados em duplas, totalizando os oito como foi visto inicialmente;
– Estavam sendo maltratados quando vivos. – o Dixon presente verbalizou com dificuldade pelo frio que já sentia, ele sinalizava com a ponta dos dedos as marcas de queimaduras e cortes na região do tórax, isso incluía tanto os homens quantos as mulheres. – A transformação deles é recente, no máximo dois dias. – completou os olhando por completo como se os analisasse, logo depois caminhou em direção ao carro, os outros dois o acompanharam.
Entraram no veículo e em poucos segundos encharcaram os bancos do mesmo pela quantidade absurda de chuva que tomaram em tão pouco tempo, eles tremiam de frio e ficaram alguns minutos parados ali esperando que a temperatura do carro os aquecesse.
— Por que disse aquilo. – Michonne disse preocupada enquanto segurava firme no volante. – Digo, porque acha que a transformação é recente?
– As feridas ainda estão minando, e o mau cheiro não chega nem perto dos errantes que encontramos em toda a nossa vida. –respondeu com seriedade. – Sei que estavam sendo maus tratados, mas a roupa deles, quer dizer, as calças que usavam ainda são mais limpas que a roupa da maioria dos zumbis que encontramos por ai. Mais limpas que as minhas talvez. – completou olhando para os mortos ainda no chão, sorriu com o que disse por último, mas pela cara dos outros não foi engraçado.
— Acho que quem fez isso com eles ainda está por aí. – Michonne verbalizou pensativa colocando novamente o cinto de segurança e os outros fizeram o mesmo.
– Tenho absoluta certeza, mas como não estamos em vantagem, aconselho que não fiquemos aqui para conhecê-los. – Daryl disse e Michonne assentiu pisando fundo no acelerador.
Carl olhava pela janela do carro atentamente através do vidro embaçado a procura de algum movimento, algo suspeito, mas à medida que o carro se afastava ficava impossível ter algum tipo de percepção. Aos olhos de quem os observava em poucos minutos o carro sumira em meio à neblina que já se formara no local.
Aos olhos de quem os observava, eles eram inimigos.
...
Talvez seguir caminhando não fora uma boa ideia, não ter um meio de transporte dificultava o propósito de sobrevivência de muitos, principalmente o de Lucille. A chuva caia forte, sua respiração estava freneticamente trêmula devida o frio que sentia. Seus cabelos negros estavam ensopados sobre sua pele bronzeada que aos poucos ganhava uma tonalidade roxa assim como suas unhas e lábios.
Ela corria no meio do nada, numa estrada qualquer do estado de Ohio, ao seu redor só havia as arvores que percorriam essa mesma estrada. A área que havia casas abandonadas já tinha sido deixada para trás pela garota, regressar agora poderia lhe trazer sérios problemas. O céu estava agora ainda mais escuro, indicando que já era noite, por alguns segundos Lucille deixou que o desespero lhe chamasse a realidade.
–Droga. – disse para si mesma enquanto olhava com dificuldade o espaço ao seu redor. Havia uma densa neblina que não lhe permitia ter uma visão de qualidade, mas algo parecia estar parado mais à frente na estrada, pela silhueta em meio à chuva parecia muito com algum carro.
Lucille caminhou, em seguida correu mais depressa, pois ali poderia ser a chance de sobreviver mais uma noite. Seus passos eram pesados pela tensão de nunca ter estado tão vulnerável antes com estava naquele momento. Quando finalmente chegou até seu destino pode ver que realmente era um Hyundai Tucson muito velho, mas também viu que não estava sozinha naquele lugar, uma horda numerosa de errantes caminhavam em sua direção, a distância era de alguns metros, mas pela vagarosidade dos zumbis e pelo tamanho mediano do veículo Luce percebeu que ainda não havia sido notada. Mas se ficasse parada não demoraria muito para isso acontecer.
Pensou imediatamente em entrar no veículo e se esconder, mas o vidro das janelas havia sido violentamente quebrado, mesmo que se abaixasse estaria vulnerável e sentiriam seu cheiro mais facilmente, pelo número em que estavam ela não teria chance. Então abriu rapidamente o porta malas e retirou da sua cintura o casaco molhado de modo que a porta não fechasse totalmente, permitindo que saísse depois sem ficar presa ali dentro.
Quando terminou seu feito imediatamente a horda de zumbis lhe alcançou, os chiados eram absurdamente altos e faziam os pelos da nuca da garota se arrepiassem. Pela brecha ela podia ver os novos donos do mundo vagando sem rumo, sedentos por carne humana.
Naquele lugar, naquela situação Lucille Hall se sentiu uma criança novamente, ela queria chorar, queria ter sua mãe de volta, queria que tudo aquilo não passasse de um pesadelo. Seu choro quase não seria contido se ela mesmo não tivesse tapado sua boca com uma das mãos. Por um momento cogitou a ideia de desistir, já tinha sido muito difícil chegar até ali, ela não saberia se aguentaria, não sabia se era perda de tempo insistir naquela vida miserável, naquele mundo que não era o que ela conhecia. Mas toda vez que tinha esse tipo de pensamento, o rosto de seus pais apareciam diante de seus olhos, era mais que uma certeza que ela precisava ser forte, precisava sobreviver.
— Eu amo vocês. – sussurrou para seus pais, respirou fundo e continuou ali imóvel a espera que aqueles monstros sumissem de seus olhos.
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