Rachaduras no Tempo

3 02. Bem-Vinda à West-Reeve


Notas iniciais
:. Info para o capítulo>> Em inglês, as cartas diferenciadas (ou seja, que não são números) são chamadas de: Ace [Ás], Jack [valete], Queen [dama] e King[rei]. Por último, há também o Joker, que é o [coringa].

02. BEM-VINDA À WEST-REEVE

Pequenas mudanças podiam passar despercebidas para a maioria das pessoas. A exceção da regra, é claro, poderiam ser pessoas com habilidades inatas de visão e audição aguçadas ou pessoas que tinham sido meticulosamente treinadas para elevar seus sentidos básicos de sobrevivência.

Em West-Reeve School, esses dois tipos de pessoas estudavam juntos, na mesma sala, e ainda mantinham seus dons – assim como suas identidades – em segredo dos demais.

Por esse mesmíssimo motivo, ainda que a mais nova integrante da escola tenha simplesmente escolhido o lugar vago mais perto da mesa do professor, sem que ninguém precisasse de fato se levantar ou ao menos trocar de lugar, sua presença por si só não passou despercebida nem por Damian, nem por Jon.

A garota Arvin, afinal, tinha suas próprias habilidades especiais que, desde há pouco tempo, já não eram bem mais um mero segredo particular.

Para Damian Wayne, as aulas apenas costumavam ser chatas e monótonas. Graças a sua criação diferenciada, ele já conhecia todo o embasamento teórico que pudessem estar passando nas escolas, até mesmo as mais avançadas. Por isso, diferentemente de todas as outras manhãs em que ele apenas ficava sentado, esperando as horas passarem, desta vez ele tinha realmente algo, ou neste caso alguém, em quem prestar atenção.

Apesar da distância entre seus lugares, Damian tinha a vantagem de estar no fundo da sala, o que lhe proporcionava um bom campo de visão. Era amplo o suficiente para poder observar todos os rostos da sala, incluindo o perfil da nova estudante. Ela tinha uma boa postura e mantinha um semblante harmonioso. E dificilmente seria a primeira opção de alguém que tentasse descobrir pessoas com habilidades secretas naquela sala.

No entanto, Damian conhecia uma quantidade consideravelmente grande de pessoas assim para saber que era justamente essa impressão que sempre preferiam passar: a de serem perfeitamente comuns. Essa era a coisa mais óbvia a almejar quando se quer passar despercebido, e nem mesmo Damian poderia dizer que era uma completa exceção à regra.

Quando o sinal tocou, um pequeno círculo logo se formou em volta da garota nova. Algumas pessoas tentavam ser amigáveis, enquanto outras só conseguiam ser enxeridas. A garota Arvin, entretanto, não parecia incomodada ao explicar tudo o que gostariam de saber sobre sua vida, embora Damian soubesse que aquilo poderia ser um processo desgastante.

Podia perceber, pela forma que os colegas de classe estavam entusiasmados, que nenhum deles tinha a intenção de saciar sua curiosidade tão cedo.

– O nome dela é Ellie – sussurrou Jon da cadeira de trás.

Desde que o interrogatório em torno da garota nova começara, Damian sabia que Jon estivera fazendo bom uso da sua audição kryptoniana.

– Escola anterior?

Ele queria saber mais sobre o passado dela, embora nunca fosse relacionar isso a alguma curiosidade específica que tivesse. Precisava investigar mais a fundo sobre ela por causa de suas habilidades especiais. Era apenas isso.

— Ela veio da Trinity. E também era capitã das líderes de torcida – informou Jon, animado, antes de uma pausa constrangida pelo olhar que estava recebendo de Damian – Que foi? Ela tem cara de ser uma boa líder de torcida.

Damian rolou os olhos. A informação dela ser capitã das líderes de torcida não era necessariamente relevante para ele. No máximo, poderia incluir certa resistência física e também uma pré-determinação para liderança no perfil que estava tentando traçar sobre ela. Ao menos, ele agora tinha conseguido um nome.

Ellie. Ellie Arvin.

No instante em que concluiu esse pensamento, porém, uma coisa estranha aconteceu. Ellie se virou diretamente para ele, como se subitamente só existissem os dois na sala de aula.

Damian a viu se levantar apressada, mostrando seu melhor sorriso e criando uma desculpa esfarrapada que a pudesse deixar livre do restante das perguntas no interrogatório. Ela se virou decidida, contornando a carteira, e caminhou até o outro lado da sala, onde Jon e Damian estavam.

— Oi – ela disse – Acho que não me apresentei direito mais cedo. Me chamo Ellie.

Jon sorriu.

— Jonathan Kent, mas pode me chamar só de Jon.

Sorrindo de volta, ela assentiu, e então voltou sua atenção para Damian.

— Espero mesmo que esteja tudo bem e que não tenha se machucado...

Ela fez uma prolongação ao final da frase e Damian entendeu sua entonação.

— Wayne. Damian Wayne.

– Certo, Wayne. Damian Wayne— ela disse, esticando a mão educadamente para ele – Se estiver tudo bem, será que podemos nos encontrar depois da aula? Acho que deixei um assunto pendente com vocês antes.

Algumas cabeças estavam viradas na direção deles. Jon e Damian eram ambos relativamente populares, embora não necessariamente pelos mesmos motivos. Enquanto Jon era naturalmente amigável e se dava bem com praticamente todo mundo, Damian se destacava pelo seu status e pelo seu histórico de notas impecáveis.

— Podemos fazer isso – disse Damian com um sorriso sutil – Jon?

— Tudo bem por mim também.

Damian estendeu a mão de volta, segurando a mão de Ellie com reciprocidade, e seu sorriso se tornou mais amplo.

Ele sabia a que “assunto pendente” ela estava se referindo, já que a única coisa com a qual ela parecia se importar de verdade era o filhote resgatado. No entanto, Damian estaria mentindo se dissesse que não tinha nenhum outro assunto que gostaria de tratar com ela também.

— O que acha de um tour no final do dia, Arvin? – ele perguntou, calmamente.

Ellie ergueu uma sobrancelha. Por um instante, ela pareceu surpresa.

– Tudo bem – ela sorriu – Acho que podemos fazer isso, Wayne.

Os dois pareceram esquecer do aperto de mãos, prolongando-o por mais tempo do que era necessário.

— É apenas a recepção que é esperada da nossa instituição – ele disse por fim, repetindo o discurso do velho Arnold – Bem-vinda à West-Reeve.

— – –

Aquilo simplesmente não era algo que estivesse acostumado a fazer. Derrotar super-vilões e combater as mazelas do crime? Claro, moleza; poderia fazer isso de olhos vendados. Mas uma tour pelo colégio? Por livre e espontânea vontade?

Nah, isso definitivamente não se encaixava na rotina diária de Damian Wayne.

Para ele, a escola de um modo geral não passava de uma mera obrigação legal determinada pelo Estado. Algo que talvez estivesse mais próximo da definição do que as pessoas consideram como sendo “um mal necessário”. No entanto, a West-Reeve era a primeira instituição educacional que Damian frequentava oficialmente.

Durante toda sua vida, ele simplesmente tinha aprendido tudo que se pode esperar de uma educação privilegiada com os melhores mestres e tutores do mundo, e tudo no conforto da sua própria casa.

Contudo, mesmo que esse não fosse mais o caso, Damian sabia muito bem o que Bruce estava tentando fazer. Ele podia aguentar facilmente as horas de aula, mas no aspecto social, era completamente indiferente.

Apesar de saber os nomes de todos os colegas de turma e ter uma detalhada lista psicopatológica do corpo docente, Damian não tinha realmente nenhum interesse particular em algum deles. Sua maior interação na escola era sempre Jonathan Kent, porque era meramente a única pessoa que o conhecia de verdade.

Por ambos estarem estudando lá há aproximadamente um ano, os demais também pareciam ter se acostumado a isso. Se Damian não passava no corredor com Jon tagarelando ao lado, então era normal apenas encontrá-lo caminhando sozinho.

Imaginava que era esse o motivo de ter mais olhares em cima dele agora do que o habitual. A cena de Damian ziguezagueando pelos corredores sem a necessidade de ir para uma aula específica, e ainda por cima na companhia de uma terceira pessoa era, no mínimo, inusual.

Ellie, porém, não parecia incomodada por nada disso. Ela escutou entretidamente enquanto Jon trazia à tona diferentes histórias toda vez que passavam por uma sala nova. Quando eles passaram pela sala de Artes, ele contou sobre o palco de guerra que se instaurou quando Brendon Bennett e Sarah Wilson começaram a acertar tinta um no outro no inverno passado; e quando contornaram o Laboratório, Jon se lembrou da vez que Lucas Hamilton quase incendiou a escola ao trocar os componentes que deveria usar para seu experimento de Química.

Damian analisou atentamente cada uma das reações que Ellie Arvin tinha e esperou pacientemente por algum eventual deslize que ela pudesse cometer, mas, diferentemente do que estava esperando, isso não aconteceu. Ellie não voltou a tocar no assunto do ocorrido durante a manhã e nem sequer tentou inventar desculpas. Ela sequer parecia nervosa ou receosa, pelo contrário. Continuava emanando essa espécie de calmaria e controle singular.

Quando os três deixaram o prédio, seguiram estritamente até o ginásio, pegando a direção do canteiro em que o filhote deveria estar.

— Ele ainda está aí? – Perguntou Jon, quando Damian se aproximou para dar uma olhada.

O gato tinha se mudado para uma porção de terra seca, o que fez com que seu pelo branco ficasse ainda mais sujo e encardido.

— Está – disse Damian, levantando o gato – Só que ainda pior do que antes.

Ellie se aproximou sem se importar, acariciando levemente o topo da cabeça do felino. O gato, apesar de pequeno, conseguia miar incessantemente.

— Ele deve melhorar depois de um banho e um pouco de comida.

— Você vai ficar com ele? – Jon voltou a perguntar.

— Vou. Não sei se minha mãe vai gostar muito da ideia, mas acho que consigo convencê-la. Vocês têm algum animal de estimação?

— Eu tenho um cachorro, Krypto, e o Damian tem um dogue alemão.

— Krypto? – Ellie perguntou, parecendo pensativa – É um nome diferente, mas soa bem. Ainda não sei qual nome posso colocar nesse aqui. Como se chama o seu?

Ellie ainda brincava com o gato enquanto Damian o segurava, então ele apenas o entregou de uma vez.

— Ace.

— Ace, hein? – riu ela, olhando para o gatinho confortavelmente aconchegado em seu colo – Talvez eu deva chamar você de Jack então, o que acha?

Sem conseguir evitar, Damian riu também. Ela tinha um senso de humor estranho, mas pelo menos não tinha escolhido a outra carta do baralho para nomear o gato. Ainda assim, por mais que Ellie não parecesse ser uma pessoa ruim, ele não podia fingir que ela não estava escondendo algo.

— Escute Ellie, sobre o que vimos mais cedo, tem certeza que não quer falar sobre isso?

— Eu não sei bem o que você acha que viu, Damian – Ellie respondeu, calmamente – Mas tenho certeza que deve ter sido apenas uma falha no ângulo de visão ou coisa do tipo.

Ela era boa. Tinha segurança e falava com tranquilidade. Damian achou que se fosse outra pessoa, provavelmente poderia ter acreditado.

— Falha no ângulo de visão – ele repetiu sarcasticamente – É, quem sabe, Arvin... talvez tenha sido isso.

— Bem, se é só isso, então acho que é melhor irmos indo – disse Jon, segurando o braço de Damian, e arrastando-o consigo – Nos vemos amanhã, Ellie?

— Claro – disse ela com um breve aceno de despedida – E obrigada de novo!

Jon sorriu para ela até estarem suficientemente afastados, e então se virou para Damian.

– Ah cara, por que você tinha que trazer esse papo? É claro que ela não ia querer falar sobre isso!

– Eu dei a chance dela tentar explicar.

No mesmo instante, Jon parou no lugar em que estava, olhando para o amigo com desconfiança.

– Você não está pensando o que eu acho que você está pensando, está?

— Fique pronto em 30 minutos.

– Não – Jon retrucou – Eu não vou sair pra espionar a nossa nova colega de classe, Damian. Eu me recuso.

— Tudo bem – respondeu Damian, que continuou andando sem se virar.

Por um breve segundo, Jon pareceu se mexer, e num piscar de olhos, ele já estava na frente de Damian.

— Nem vou deixar que você o faça.

– Escute Jon, eu sei que você deve estar muito entusiasmado com a nova líder de torcida pra poder perceber agora, mas ela tem superpoderes, e não podemos simplesmente ficar de braços cruzados e ver no que vai dar. Você não precisa vir se não quiser, mas também não pode me impedir.

Sem voltar a olhar para trás, Damian cruzou o grande portão de entrada da escola. Sabia que Jon estava enfurecido, mas não tinha outra escolha. Era o que precisava ser feito.

Mais a frente, do outro lado da rua, Alfred o esperava no carro. Algumas nuvens cinzas começavam a se agrupar ao alto, deixando a cidade com um aspecto carregado pouco usual.

Tempestades não combinavam com o céu sempre limpo de Metrópoles.

A chuva contínua e horrível era uma característica muito mais marcante em Gotham e, pelo menos, com isso ele estava acostumado. Não deixaria que as forças da natureza, muito menos as suas desavenças com Jon, arruinassem seus planos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.