Rachaduras no Tempo
2 01. Tudo Começou Como um Erro
01. TUDO COMEÇOU COMO UM ERRO
METRÓPOLES – TRÊS ANOS ANTES
As coisas não costumavam dar certo em sua vida. A constatação, mesmo que infeliz, não fazia com que Damian Wayne se sentisse excepcionalmente vitimado. Nenhum momento singular da sua criação fora particularmente comum e isso era um fato. Simples assim.
Se por um lado, as lembranças dos primeiros anos que passou com a mãe, Talia, no templo de al Ghul, sempre recaíam nos incontáveis e meticulosos treinamentos que recebera, então, os últimos anos que vinha passando sob a tutela do pai, Bruce Wayne, podiam facilmente ser resumidos a um constante e lento atrito de egos.
Não fora até o último ano, porém, que Bruce soltara a bomba de que iria matriculá-lo na West-Reeve School, uma escola elitista que, por conveniência ou não, era localizada bem ao centro da grande e agitada Metrópoles.
A West-Reeve, por sua vez, não era somente a mesma escola que a Fundação Wayne havia, muito complacentemente, feito sua última e generosa doação de fundos, como também era a mesma escola que outro jovem aluno, em condições minimamente similares, frequentava.
Jonathan Kent era a pessoa mais próxima, se não a única, que Damian Wayne poderia considerar como um amigo. Talvez fosse essa recente percepção, afinal, que o deixava inquieto, mesmo agora, recostado sob a reconfortante sombra de um carvalho solitário.
Não havia muitas árvores como aquela nos gramados sempre bem alinhados da West-Reeve. Não havia, na realidade, muitas árvores como aquela em parte alguma de Metrópolis no geral.
Era uma árvore grande e velha, com cascas resistentes e uma boa quantidade de barba-de-velho que pendia dos seus galhos mais altos.
Era um verdadeiro achado.
Um achado, sobretudo, para os dois amigos, que se orgulhavam de ter aquela árvore só para eles. Não era nem de longe uma sensação ruim, mas ainda assim, era diferente do que Damian estava acostumado. E era diferente o suficiente para fazê-lo se questionar.
Frequentar uma escola e estudar com seu melhor amigo poderiam soar normais demais na vida de qualquer outro adolescente de 15 anos, mas não para Damian. Para ele, seguir um dia-a-dia normal, parecia mais desconexo do que forçar um espadachim a lutar debaixo d’água.
E isso não era exatamente a coisa certa a se fazer.
— Ah, cara, esqueci completamente das lições que o velho Arnold passou para o recesso – resmungou Jon ao lado, rolando na grama.
O velho Arnold era o professor de trigonometria que por algum motivo continuava dando aulas mesmo já podendo ter se aposentado pelo que Damian calculava ser, no mínimo, uma década.
Na sala de aula, é claro, todos o chamavam respeitosamente de Sr. Keller ou simplesmente de Sr. K, mas, entre os dois, o professor era sempre citado como sendo apenas o bom e velho Arnold.
— Não vai dizer que estava ocupado demais lutando contra o crime para poder lembrar do dever de casa, vai? – Provocou Damian, naturalmente, sem conseguir evitar o habitual tom de superioridade na voz.
— Escute – começou Jon parecendo desconfiado – foi você quem me arrastou para todas aquelas rondas na última semana! De onde é que você tira tempo para trigonometria!?
Jon levantou da grama num só pulo, mas Damian continuou impassível, com as costas confortavelmente encostadas no tronco do carvalho e os braços cruzados sob o peito.
Era verdade que sempre patrulhavam a cidade até tarde quando tinham a oportunidade. A luta contra o crime era o melhor que sabiam fazer. Jon sempre dizia que percorrer as ruas era a melhor forma de gastar energia, mas ele não gostava de dedicar a mesma energia aos deveres da escola, e Damian sabia disso.
Pensava que poderia facilmente emprestar sua lição de casa para o amigo – se ele ao menos pedisse –, quando subitamente sua linha de raciocínio foi cortada para algo muito mais interessante.
De um instante para o outro, uma garota subitamente apareceu em seu campo de visão, cruzando o alto muro da escola da maneira mais inusual possível. Ela não o estava escalando, nem pulando por cima dele. Ela estava verdadeiramente levitando acima dele, voando.
Não era um voo ríspido, nem sequer veloz. Era algo mais… delicado.
Os cabelos alaranjados da garota acompanhavam seu movimento anti-gravitacional enquanto ela se aproximava do topo do carvalho, como se ela estivesse apenas sendo levantada pelo ar.
— Incrível – Jon não conseguiu evitar soltar, nitidamente impressionado.
O próprio Jon tinha demorado uma eternidade para aprender a controlar suas próprias habilidades de voo e, ainda assim, ele não chegava nem perto de fazer a coisa toda parecer tão sofisticada quanto ela.
Pega de surpresa, a garota olhou instintivamente para baixo. Parecia que recém havia se dado conta da presença dos outros dois ali. Ela tentou parar, buscando refúgio no próprio carvalho. Damian a viu tentar se apoiar na árvore, mas ao pisar num dos galhos fracos e velhos, ela despencou miseravelmente com um baque.
— Você está bem? – Perguntou Jon, preocupado, se aproximando dela com assustadora velocidade.
Os cabelos longos e ruivos da garota tinham se espalhado pelo gramado verde. Ela tentou se levantar, segurando a costela dolorida pela queda, e escutou um grunhido baixo que parecia estar muito próximo.
Por sorte ou azar, ela tinha caído exatamente em cima de Damian Wayne.
– Desculpa – ela disse, se levantando imediatamente.
Mesmo estirado no chão, Damian tinha um perfeito semblante sério e contido no rosto. Ela estendeu a mão para ajudá-lo, mas ele levantou com facilidade por conta própria.
— Quem é você? – ele indagou, direto.
Mas a confiança que emanava de Damian não pareceu intimidá-la.
— Eu só estava tentando ajudar um gato – ela respondeu, se esquivando da pergunta – Um filhote, por sinal.
— Tem um filhote preso na árvore? – Jon perguntou audivelmente.
— É, mas tem um cachorro imenso também. Está do outro lado do muro, e acho que está tentando pegá-lo.
– Bom – começou Jon – então vamos...
Mas no mesmo instante, Damian o interrompeu, segurando-o pelo ombro. Sabia exatamente o que Jon estava pensando em fazer, e por isso mesmo o impediu. Sabia que se dependesse do amigo, ele mesmo sairia voando para pegar o maldito gato. Bem em frente da garota desconhecida.
Jon poderia facilmente colocar em risco sua própria identidade só por causa de um filhote que nem ao menos sabiam se existia de verdade. Era simplesmente o tipo de coisa que ele fazia.
Damian suspirou, e com um movimento ágil, pegou impulso para o galho mais próximo da árvore e se equilibrou nos outros mais resistentes, até alcançar o topo do carvalho. Ali, encolhido em meio a folhagem densa, realmente estava um gatinho encardido e magricela. Damian o pegou com cuidado e desceu novamente até onde os outros dois estavam esperando.
Jon e a garota se aproximaram para dar uma olhada no filhote, e ele achou que talvez seria melhor simplesmente entregá-lo de uma vez para ela.
— Obrigada – ela disse, com um sorriso genuíno.
Ela tinha um sorriso bonito, e Damian se permitia admitir isso, mas se ela achava que ele a deixaria ir sem nem ao menos dizer quem era, então estava redondamente enganada.
— O filhote está a salvo. Agora pode começar a falar.
Ela o encarou. Damian notou que seus olhos eram de um azul índigo vívido.
— Bom, eu sou nova aqui – ela admitiu – E na verdade, eu deveria estar em outro lugar agora, então… será que podem olhá-lo só por enquanto? – Perguntou, entregando o filhote para Jon enquanto já começava a se afastar – Prometo que volto assim que puder!
E então ela se virou, correndo na direção dos outros estudantes, deixando Damian e Jon para trás, e ainda por cima com um filhote de brinde.
No final das contas – e como já era de se esperar – foi Damian quem conseguiu arranjar um esconderijo mais ou menos decente num canteiro perto do ginásio que, por sua vez, evitou que Jon enfiasse o gato na mochila e o levasse para a sala de aula.
Diferentemente do habitual, o gato era bastante apegado, sobretudo para um animal de rua. Assim, o caminho de volta para sala foi uma lamentação para Jon, que parecia verdadeiramente relutante em deixar o animal sozinho.
— Não acha melhor pegarmos mais água para ele? O intervalo ainda vai demorar uma eternidade!
— Ele vai ficar bem – murmurou Damian – Melhor que você, pelo menos, que não fez o trabalho do velho Arnold.
Quando os dois chegaram na sala, todo o restante da turma já parecia estar ali. Eles conseguiram seus lugares de costume, e largaram as mochilas logo antes do professor chegar. No entanto, quando o velho Arnold entrou na sala, ele não estava sozinho.
Desta vez, uma nova aluna o acompanhava. Era a mesma garota. O mesmo sorriso sincero, a mesma segurança no andar. O cabelo alaranjado, porém, agora parecia mais arrumado, cuidadosamente jogado para o lado, emoldurando o rosto jovem e bonito.
Ela parou perfeitamente ereta em frente a louça, enquanto o Sr. Keller dizia:
— A srta. Arvin é a nossa mais nova aluna. Espero que a recebam com a educação que é esperada da nossa instituição.
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