Racers of Life
17 Transplante
Notas iniciais
Sakura sentia frio. Seu corpo estremecia levemente, tanto pelo ontagélido com a maca e a pouca roupa, quanto pelo nervosismo que a tomava. Sabia que não ia ser uma cirurgia e nem nada arriscado para si, mas ainda sim sentia aquele friozinho na barriga.
Ela olha para a maca ao lado e vê Mikoto adormecida a base de medicação. Sorri fraco observando a feição dócil da mulher.
Shizune começa a explicar para Sakura os procedimentos que serão feitos e logo uma agulha é espetada em seu braço e a coleta do sangue é começada. Uma máquina, estranha aos olhos de Sakura, recebe seu sangue e lá é feita a separação das células percussoras de medula, devolvendo o restante para o corpo da doadora.
Sakura sente uma leve tontura e seu corpo começa a pesar. Aos poucos a sala branca e os barulhinhos feitos por médicos e enfermeiros, vão ficando distantes.
Ela tomba a cabeça para o lado e passa a observar Mikoto, rezando internamente para que tudo dê certo.
“ Nunca mais chore por falta de uma mãe. Eu serei ela.”
Um sorriso triste se faz no rosto da garota enquanto ainda observa o rosto bonito da Uchiha. Sem perceber, seus pensamentos começam a divagar e a lembranças ligadas à figura materna, surgem.
“Uma mulher bonita de longos cabelos loiros prepara o café da manhã cantando uma música qualquer. A garotinha de 7 a assiste rindo, até que a mulher percebe a presença da filha e lhe manda um beijo no ar aumentando o volume da música para que as duas cantem juntas.”
“É aniversário de Sasori, a mulher loira pega a pequena Sakura no colo e a família inteira se posiciona atrás da mesa do bolo para uma foto feliz.”
“ Sasori, maior, arrasta Sakura até o quarto e liga a TV no volume máximo. O rosto dele está vermelho e os olhos inchados. Ela tenta questionar o que são os barulhos que está escutando, mas ele balança a cabeça dando um beijo na cabeça dela e a trancando. Deixando-a somente com os barulhos dos motores dos carros de corrida na TV.”
“Kizashi Haruno anda de um lado para o outro quando a pequena garota de cabelos cor de rosa aparece na cozinha para tomar seu café. Estranha a falta do cheiro de café fresco e do bolo de laranja que tinha toda manhã. Pergunta por sua mãe e se assusta quando o pai joga um copo na parede bufado de fúria. Sasori aparece correndo a pegado no colo e levando-a até o quarto.”
“Sakura corre chorando até o quarto do irmão dizendo que está morrendo. Sasori fica vermelho e gago tentando explicar que aquilo não é uma hemorragia... é algo normal nas mulheres quando viram moça.”
“Sakura está entrando no Ensino Médio, agora sua rotina mudou e a falta que a mãe faz, vai sendo abafada por novos objetivos. Sasori trabalha dia e noite para conseguir dinheiro suficiente para alimentar os dois e o pai bêbado. Ela consegue convencê-la de que pode ajudar, e aprende tudo o que ele sabe.”
“Ela anda pelos corredores do colégio com as mãos no bolso, já cansou de ser ridicularizada por ter as unhas sujas de graxa.”
“As garotas de sua classe a convidam para uma festinha do pijama. Ela está feliz por ser integrada ao grupo, mas um acidente doméstica envolvendo o pai a faz declinar o convite. Nunca mais foi convidada.”
“Vê as garotas sendo convidadas para o baile e sendo deixada para trás. Não queria ter que pedir dinheiro ao irmão para comprar um vestido.”
“Ela está chorando numa apresentação de dia das mães. Não entende porque ficou tão emotiva, visto que aprendeu a suprir aquele sentimento. Ela olha desolada para as cadeiras ocupadas por tantas mulheres e ao fundo vê um homem ruivo e grande perdido procurando seu assento. Ela sorri acenando freneticamente na direção do irmão.”
“Sakura é abordada por um garoto, antes que o mesmo pudesse falar algo, Sasori aparece e faz o coitado correr.”
“Formatura de Sakura e os dois irmão estão sentados no banquinho em frente à oficina com a foto da mãe em mãos. Aquele dia era aniversário dela. Não sabiam se ela estava morta ou simplesmente sumiu. Só sabiam que ela deixou uma ferida grande o bastante para jamais cicatrizar por completo.”
“ – Ninguém vai te fazer mal algum enquanto eu estiver aqui. Se preciso for, vou ser seu pai, sua mãe, seu amigo. Somos mais que irmãos, pequena.”
Uma solitária lágrima escorre direto para o travesseiro e Sakura fecha os olhos sentindo toda a emoção que parece querer romper o seu peito.
Gratidão é algo muito fraco para se sentir em relação a tudo que Sasori foi para ela. A palavra mãe começou a ser associada a ele por muito tempo. Até que ela conheceu Mikoto e se lembrou de uma forma de amor diferente. Um carinho que mesmo que Sasori se esforçasse bastante, não conseguiria passar. Um afeto único. Algo natural para alguém que nasceu para ser mãe.
A falta da figura materna a arrebata toda vez que está junto daquela mulher, e, internamente, ela suplica pra tê-la por perto sempre. Sentir o algo mais, que mesmo Sasori, não conseguiu suprir.
Sakura respira fundo abrindo os olhos mais uma vez e fita a mulher sentindo um turbilhão de bons sentimentos.
Suas preces se intensificam e seu coração clama para que tudo dê certo e que a vida daquele anjo seja salva.
***
Neji está sentado ao lado do pai com o humor péssimo. Teria que o acompanhar em uma reunião social com empresários.
– […] os contatos que serão feitos poder ser importantes para seu futuro...
Neji ignora com sucesso o discurso do pai sobre a importância de eventos como este em sua ida profissional e se distrai com a movimentação nas ruas.
Os dois chegam ao clube onde está sendo feita a reunião. Sem reclamar, mas deixando bem claro seu descontentamento em estar ali, Neji segue seu pai cumprimentando todos a que lhe são apresentados.
O garoto passa os olhos por todo o salão procurando alguma distração, mas vê somente gente velha e com seus herdeiros superficiais. Começa a resmungar baixo até sentir a mão de seu pai apertando seu ombro.
– Sr. Mitsashi, esse é meu filho e sucesso Neji Hyuuga.
O garoto se vira refazendo sua “postura Hyuuga” e quase a perde quando, ao invés de olhar para o homem que estende a mão em sua direção, vê uma garota delicada a seu lado olhando com visível descrença.
Antes que ele pudesse ter qualquer reação, a voz do homem se apresentando o faz quebrar o contato visual e como o bom filho que é, faz o pai orgulhoso tendo uma ótima discussão sobre a bolsa de valores e mercado exterior.
– Foi um enorme prazer conhecer um garoto tão inteligente. Você é um homem de sorte, Hiashi. — diz o Sr. Mitsashi cordialmente.
– Nós somos homens de sorte. — corrige Hiashi dando uma leve risada – Tente é uma mulher muito esperta e inovadora.
Enquanto os pais trocam elogios exagerados, Tenten e Neji se encaram. Ela bufa e faz um movimento com a cabeça para que ele a siga.
– Pai, terei uma conversa em particular com o Sr. Hyuuga. — diz Tenten séria.
Hiashi dá um sorriso satisfeito e quase empurra Neji na direção da garota quando o pai da mesma dá permissão para conversarem.
– Ora, ora, ora. Sniper então é uma garota. — diz Neji tentando quebrar o silêncio incômodo que se fez. Tenten estala a língua impaciente enquanto o conduz até as cadeiras perto da piscina. — Quase não te reconheci usando vestido.
– Não acredito que ainda tá mordido por causa de sábado. — ela diz levemente irritada se sentando. Neji a acompanha dando um pequeno sorriso.
– Não. Seria falta de cava...
– Ah, cala a boca! Te chamei aqui achando que teria uma conversa decente, diferente do que estou sendo obrigada a ouvir lá dentro e você me vem com esse papinho?
Tenten olha feio para Neji, mas ele acaba rindo e balançando a cabeça.
– Ok, então me conte como acabou líder de um bando de motoqueiros. — ele começa a olhando com atenção.
Tenten sorri nostálgica e olha para a água cristalina que se movimenta junto ao vento.
– Tive que pisar em muitos capacetes pra chegar lá. — ela responde desviando os olhos para o Hyuuga. Ele se impressiona com a forma que ela consegue parecer tão dócil e tão agressiva rapidamente. — Mas é aquele negócio: o mais rápido manda. Eu sou a mais rápida.
Ela termina dando um sorriso convencido e Neji balança a cabeça fingindo inconformismo.
Os dois conversam por bastante tempo, trocando farpas e experiências.
– Eu não sei andar de moto. — dispara Neji disfarçando seu constrangimento quando ela começa a questioná-lo sobre o porque de tanta hostilidade.
Tenten congela por um tempo esperando que ele diga que é brincadeira, mas o silêncio só faz o Hyuuga ficar ainda mais incomodado. A gargalhada da garota ecoa por todo o lugar e Neji se irrita, levantando-se para ir embora.
– Não, não. Espera. — pede ela controlando o riso. Neji para respirando fundo e se voltando para ela. — É sério mesmo? — pergunta incrédula.
Ele simplesmente assente arrependido de ter soltado essa informação vergonhosa sobre ele.
– Eu vou te converter pro motociclismo. — ela diz altiva se levantando e se transformando na Sniper. Erguendo a cabeça e o encarando com os olhos cerrados.
Antes que Neji pudesse falar algo, ela o puxa para o meio das pessoas em direção a porta de saída.
***
Sasuke e Itachi esperam ansiosos sentados nas cadeiras da sala de espera.
O barulho do relógio os incomodava ao máximo.
O silêncio entre eles era quase palpável. A ansiedade e a esperança eram as únicas coisas que os mantinham quietos. Esperando.
Fugaku deveria estar se descabelando na empresa sem saber por onde andam os dois filhos, ele nem sequer sabia do trasplante, mas isso não era algo com que os dois se preocupavam.
Tudo dentro deles, estava voltado para a sala onde Mikoto e Sakura estavam.
Mais de uma hora havia passado quando Sakura saiu sendo levada de cadeira de rodas até outro quarto. Itachi e Sasuke pularam no lugar indo em direção a ela.
– Tá tudo bem? — pergunta Itachi vendo a garota um pouco pálida.
– Sim, ela só precisa comer alguma coisa que vai ficar melhor. — responde a enfermeira.
– Deu certo – diz Sakura olhando para os dois rapazes com um sorriso radiante.
Itachi solta uma lufada de ar aliviado e Sasuke aperta a cabeça com força.
– Um de cada vez pode ficar na sala com sua mãe. — a enfermeira informa. — Ainda vai demorar aproximadamente uma hora para terminar a tranfusão.
Sasuke e Itachi se olham tentando decidir quem vai primeiro. Sasuke acena para que Itachi vá primeiro.
– Valeu. — diz o mais velho dando um um tapa em seu ombro e seguindo a enfermeira.
Sakura se esbalda no lanche que trazem para ela e Sasuke se senta esperando que ela diga o que aconteceu.
O silêncio que se faz a deixa consciente de que só se encontram os dois no quarto. Ela vira a cabeça lentamente encontrando aquele sorriso discreto e os olhos brilhando... os olhos...
Ela enrubesce virando a cara rapidamente para o outro lado. Sasuke estranha a atitude dela, mas não tem tempo de questionar nada.
Sasori aparece no quarto cumprimentando-o rapidamente com um aceno de cabeça.
– Vamos, pequena? Já te deram alta.
Ela se levanta se firmando nas pernas fracas e passa rapidamente em direção a porta. Sasuke a barra antes que ela consiga escapar.
Sakura prende a respiração fazendo de tudo para apagar as lembranças daquele sonho maluco e o encara.
Não são necessárias palavras para ela compreender toda a gratidão que ele sente. Ela consegue ver ali, em sua expressão aliviada, em seus olhos brilhantes e o sorriso contido de felicidade.
Os atos falam mais do que palavras.
Sasuke a puxa para um abraço apertado e Sakura congela sem consegui ter uma reação aceitável Seu coração dispara e seu rosto começa a queimar novamente.
Muitas palavras poderiam caber naquele gesto. Muitos sentimentos poderiam verbalizar aquela cena. Mas ás vezes uma simples palavra consegue resumir tudo.
Sasuke a afasta um pouco e com um beijo em sua testa ele consegue resumir tudo o que ele gostaria de falar.
– Obrigado, Sakura.
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