Já haviam se passado quatro semanas deste que Eliza saíra andando daquele quarto de hotel em Barcelona sem sequer olhar para trás com lágrimas e decepção transbordando de seus olhos, deixando os demais sem ter o que fazer.

Desde então Charlie não havia mais a visto.

Liza se preocupou em tomar cuidado para que sua partida fosse a mais discreta e silenciosa possível. O monegasco ao menos percebeu quando ficou inteiramente só em um quarto que antes era preenchido por sua risada gostosa e suas malas gigantescas espalhadas pelo chão.

Ele ligava e mandava mensagem, porém ambas não eram retornadas. Tentara o celular de Fábio, Cris, Mike e até mesmo o de Patrícia, e suas respostas seguiam sempre o mesmo contexto: “Ela está bem.”; “Precisa de um tempo”; “Tem muita coisa acontecendo agora.” e “Tenha paciência, com o tempo as coisas se resolvem”.

Mas Charlie queria saber quanto tempo era esse e o que tanto acontecia que ela não podia parar por um minuto para retornar as suas ligações.

Mesmo que ele soubesse que havia agido de forma errada, pensava que merecia ao menos o mínimo de consideração e uma ligação, mensagem ou email que fosse.

Apesar de não querer que o seu relacionamento não oficial com a pilota chegasse à um fim, ele gostaria de qualquer contato da parte dela – qualquer um – mesmo que fosse para xingá-lo e dizer que estava tudo terminado.

Ele queria saber como Liza realmente se sentia, se estava a descansar, se as coisas com a mãe estavam bem, o que fazia no dia a dia... E principalmente se ela pensava nele na mesma intensidade que ele pensava nela.

Merde, como ele sentia a falta de Eliza.

Não só do corpo dela ou das suas curvas brasileiras, mas das conversas ao telefone altas horas da madrugada, as brincadeiras infantis, as provocações maliciosas, a risada dela, do seu jeito descontraído e positivo, e, até mesmo, da forma como ela olhava diretamente em seus olhos, dizendo-o o quanto eles eram bonitos e o quanto ele era maravilhoso.

Ao se recordar da dor explícita em seu rosto da última vez que estiveram juntos, ele se abomina.

Como ele não havia percebido as cada vez mais fortes investidas de Afonso em cima de Liza em pista ele não sabia. Talvez tivesse se assegurado demais no fato deles serem “amigos”, que ambos pilotos pudessem ter amadurecido nestes anos de competição, e, claro, o fato da sua vida ser tão agitada que ele simplesmente não se prendia aos mínimos detalhes.

Essa sua falta de atenção havia custado a confiança da sua parceira e ele não a culpava. Se a situação tivesse sido ao contrária, ele não teria reação diferente.

No entanto a contínua falta de notícias deixava-o em completa agonia e, apesar de se envergonhar do fato, ele foi obrigado a puxar pelo nome da brasileira na internet para que ao menos tivesse ideia sobre o seu paradeiro.

Ele encontrou muitas fotos dela e Charlie juntos, antes de tudo acontecer. Nos circuitos, nos saguões dos hotéis, com fãs e, até mesmo, na garagem da Pruma. Mas, ao contrário do que eles imaginavam, o público realmente apreciava a ideia deles estarem em um relacionamento e torciam por mais aparições dos dois.

É, ele também torcia.

Seguindo o feed nas redes sociais ele viu que Eliza havia voltado ao Brasil pouco antes da final do campeonato de Fórmula 2 acontecer, onde Mike não só ganhou como dedicou o seu prêmio à parceira de equipe. Porém, Eliza não havia se declarado sobre este acontecimento e qualquer outra coisa nas redes sociais durante a sua visita à terra natal.

Mesmo quando foi fazer o teste de jovens pilotos no circuito de Yas Marina – Abu Dhabi, não se pronunciou uma ver sequer à qualquer jornalista.

O teste em questão tinha a funcionalidade de avaliar todo piloto que compete em categorias inferiores à Fórmula 1, para que eles provassem as suas habilidades nos carros mais potentes do mundo e pudessem os pilotar.

Aqueles testes não garantiam uma vaga no campeonato de fato, mas funcionava para que as escuderias descobrissem possíveis futuros talentos dentro do esporte.

Durante todo o final de semana ela não saíra para bares ou restaurantes, e as fotos em que havia posado com alguns de seus fãs eram mínimas. Sem qualquer rota consistente que ele pudesse se apegar.

A partir de então ela simplesmente desapareceu. Nenhuma informação recente podia ser encontrada.

Charlie queria ir atrás dela, mas sem saber por onde começar deixava a sua tarefa muito mais difícil. Ela poderia estar em qualquer lugar do mundo, fazendo qualquer tipo de coisa e na companhia de qualquer um.

O rapaz fica completamente frustrado.

Como ela poderia simplesmente se afastar daquela maneira? ele pensava, Sem uma conversa final, dizeres determinantes ou abraços de despedida.

E era por isso que Charlie estava novamente no telefone em plena véspera de Natal – o feriado que haviam combinado de passarem juntos – tentando desesperadamente pelo mínimo de contato. Ele não aceitava tamanho descaso.

Por ele ter presenciado o sofrimento dela, que havia provado do descaso da própria mãe, Charlie pensava que ela teria um senso de empatia com ele e considerasse que ela lhe devia uma resposta.

Talvez ele estivesse errado.

— Charlie, querido. – sua mãe chama sua atenção. – Venha me ajudar com a rabanada.

O rapaz suspira alto e bloqueia a tela do celular, finalizando a chamada antes de se direcionar em passadas cansadas até a mesa que a mãe enfeitava.

Seus cabelos grisalhos estavam presos em um coque alto na cabeça com um laço vermelho, que combinava com o suéter de seda da mesma cor, e a matriarca usava uma saia rodada branca.

Isabel Lacroix estava inteiramente no clima natalino e não poderia estar mais incomodada com a inquietação do filho. Era verdade que o monegasco estava muito diferente do que geralmente era em um ambiente familiar. Charlie costumava interagir com a sua família, brincar com os primos e sobrinhos pequenos, discutir sobre futebol com o tio, dar dicas ao irmão mais novo sobre direção e ajudar à mãe com a decoração da mesa, mas ele não se via animado para sequer tentar.

Contudo Charlie ajuda a mãe com a mesa sem pronunciar uma palavra, perdido em pensamentos. Em seguida sua atenção é chamada por seu primo de oito anos.

— Charlie, vamos jogar vídeo game?

O garoto era um amante de corridas, como a maioria da família, e sempre aproveitava de toda a oportunidade para testar as suas habilidades com o piloto oficial.

— Claro, Rámon. — ele diz sorrindo fraco e se direciona com o menino até o sofá branco em frente à televisão.

Na outra extremidade do sofá está Lorenzo, seu irmão mais velho e sério gerente de uma empresa multinacional idealizadora na criação de eventos, brincando com a filha de colo.

Lorenzo era o típico homem de família. Casara cedo, havia feito uma faculdade fora do país, logo conseguiu uma vaga dos sonhos em uma empresa de grande porte e agora estava fazendo filhos feito um coelho.

Ele e a mulher, Alessandra, estavam animados com o conceito de uma família e além de Dakota, o pequeno bebê de um ano, eram pais dos gêmeos Hervé e Yohan, os pivetes imperativos de cinco anos que quase destruíam a casa se não supervisionados por adultos.

Charlie olhava a família de seu irmão e, apesar de tamanho trabalho que ele o via ter com os filhos, via a explícita felicidade dele e da mulher, além do amor que os envolvia.

Lorenzo e Alessandra haviam crescido e progredido juntos, passaram por inúmeras dificuldades e agora estavam a aproveitar os ganhos dos frutos que haviam plantado.

Era aquilo que Charlie queria para si.

Ele sabia que ainda era jovem e que devido ao seu estilo de vida teria que deixar o plano para um futuro um pouco distante. Mas, como seu pai costumava dizer-lhe quando mais novo: “A vida é mais leve e colorida quando tem alguém ao seu lado para compartilhar das suas dores e conquistas”. E Charlie queria construir uma vida extraordinária ao lado de alguém que amasse.

Refletir sobre isso o levava de volta á Eliza e o que eles não estarem juntos representava.

Charlie queria ser um piloto de sucesso e campeão de Fórmula 1, claro, mas não queria ser o piloto sublime e solitário na sua caminhada ao topo.

Seus relacionamentos passados não haviam chegado aos pés do que ele tinha com Liza e ele não queria deixar que ela escapasse por entre os seus dedos. E não era só porque ele não queria acabar sozinho, não!

Era porque não se via com mais ninguém além dela depois que havia a conhecido.

Enquanto Rámon configura os modos de jogo Charlie aproveita o tempo para mais tentativas de ligações. A caixa postal de Liza já devia estar lotada.

Enquanto o telefone chama a campainha da casa soa e sua mãe corre até a porta celebrando com animação: — A visita chegou!

O número o qual você ligou está fora da área de cobertura.

Aquela era nova, Charlie olha para a tela do celular com o cenho franzido.

— É a Benedetti! – ele escuta a voz de seu primo pronunciar com excitação e seus olhos automaticamente correm para a tela da televisão.

— Esse jogo não é da Fórmula Indy, Rámon? Não tem ela na lista de pilotos deste. – Charlie diz correndo os olhos por cada nome, só para conferir. – Ela disputa a Fórmula 2.

— Não, Charlie. – o garoto se aproxima dele e vira o rosto do rapaz com as mãozinhas gorduchas na direção da porta. – É a Benedetti!

Charlie pisca os olhos duas vezes seguidas, sem acreditar no que estava diante dele. Precisamente na porta de entrada, usando um belo vestido branco que destacava levemente as suas curvas, saltos na mesma cor, cabelo solto em ondas perfeitas pelas costas e um batom vermelho nos lábios intensificando a tamanha beleza deles, estava ninguém menos que Eliza.

Ela sorria simpática ao cumprimentar a mãe de Charlie e entregar-lhe uma garrafa – ao que parecia ser – de vinho. Elas se abraçam e conversam rapidamente, mas ele não ouve uma palavra sequer devido aos sons estarem abafados pela imagem da mulher na porta de sua casa.

Em plena véspera de Natal.

Em Mônaco.

Ele ainda não estava acreditando.

Eliza cumprimenta educadamente cada familiar do monegasco, que haviam se aproximado ao constatar quem era a tal visita.

Joseph, seu irmão mais novo, faz um sinal positivo para Charlie disfarçadamente depois que a brasileira troca uma palavra com ele, mas o rapaz ainda não está em condições de reagir adequadamente.

Em um movimento rápido Eliza corre os olhos na direção de Charlie e parece respirar aliviada. Ela segue em sua direção depois de uma conversa rápida com Lorenzo, a quem Charlie sequer notara que havia saído do sofá, e é quando ele desperta de seu choque e se levanta.

Ela para frente a frente com ele e sorri abertamente.

— Oi, Charl. – diz zombeteira, com o notório sotaque forçado.

— Liza... – ele sopra desacreditado.

— E eu sou Rámon. – seu primo chama a atenção da mulher, obrigando-a desviar o olhar dos olhos verdes do monegasco.

— Olá, Rámon. – ela se abaixa e aperta a mão estendida do menino. – É um prazer te conhecer.

— Você é mais bonita do que na TV. – o garoto diz e Liza ri. – Quer jogar vídeo game?

— Eu adoraria, mas antes preciso dar uma palavrinha com o grandão aqui. – ela diz apontando para Charlie, que assiste a cena extasiado.

— Tudo bem, eu vou ir configurando o seu carro para você. – ele diz se jogando de volta no sofá e pegando o controle que seria de Charlie. – Como você gosta?

— Confio no seu gosto, fique à vontade. — ela diz e se levanta, voltando a olhar para Charlie – Podemos conversar... – ela morde o lábio inferior receosa. – à sós?

— Claro. – ele diz ao recuperar a sua voz e a indica a varanda atrás das cortinas azuis. Ela se direciona até lá e ele a segue.

Sob a iluminação da luz da lua ela senta nos pés de uma das espreguiçadeiras de madeira enquanto ele senta na do lado.

— Você quer algo para beber? – ele questiona, só para puxar assunto depois que ela passa um tempo admirando o seu rosto com a barba grande e bolsas fundas abaixo dos olhos.

— Não, obrigada. – ela sopra.

— Então... – ele solta o ar preso pela boca – eu acho que te devo desculpas apropriadas...

— Não. – ela o interrompe com a face plena. – Antes preciso falar uma coisa, por favor.

O coração de Charlie gela. Ela não estaria ali para terminar com ele, estava?

Tudo bem que ele queria alguma informação da parte dela, qualquer que fosse, mas realmente não queria que fosse aquilo.

Eliza engole em seco ao notar seu semblante sofrido.

— Eu queria, primeiramente, te pedir desculpas. – ela diz.

O monegasco franze a testa, completamente surpreso e confuso.

— Como é?

— Eu sinto muito por ter jogado a responsabilidade pelo o que aconteceu em você, quando na verdade a única culpada fui eu. – ela declara. Umedece os lábios vagarosamente, e continua: — Você não tinha a obrigação de me contar o que tinha acontecido com você e os meninos. Foi algo que aconteceu com você há anos, é um assunto desagradável de ser relembrado, você não devia imaginar como me afetaria... Tudo isso, realmente não importa. – ela respira fundo – Eu acho que o fato de você saber, entrar numa briga com o Afonso e estar indiretamente envolvido nessa situação me fez jogar toda a minha frustração em você, e isso foi muito injusto.

Charlie solta o ar que sequer se lembra de ter prendido.

— Acho que uma parte de mim só não queria aceitar que fui tão estúpida em não perceber o que estava diante dos meus olhos. – ela dá de ombros – Sinto muito por não ter te retornado, te respondido ou sequer dado alguma notícia. Eu só queria... – ela suspira – queria estar longe de tudo isso um pouco e sinto muito por ter te incluído nisso quando você também foi um dos afetados. Você não merece o que eu fiz, é sempre tão atencioso e cuidadoso comigo. Eu devia ter sabido que você não faria nada para me magoar.

— Lizzie...

— Não. – ela o interrompe novamente, com os olhos doces. – Por favor.

Ele assente indicando que ela continuasse e ela respira fundo novamente.

— Eu sei que isso não serve como desculpa por não ter entrado em contato com você antes, mas a minha vida tem estado uma completa bagunça e eu não queria te envolver nisso depois desse drama em Barcelona. – ela ri anasalado. – Mas eu já vinha querendo entrar em contato com você para deixar as coisas às claras antes mesmo da sua mãe me ligar, de qualquer forma.

— Minha mãe te ligou? – ele indaga risonho.

— Você mais do que ninguém deve saber que ela fez isso porque estava preocupada com você. – ela sorri. – Agora sei de onde puxou essa impulsividade em ajudar o próximo. – ela rende as mãos ao alto – Não que eu esteja julgando, claro.

Charlie ri e Eliza o acompanha.

Despois de um tempo o semblante dela volta a ficar sério.

— Eu não queria chegar aqui e despejar tudo isso no seu colo assim de cara. – ela pronuncia e o coração de Charlie volta a resfriar, errando algumas batidas. – Era para termos aproveitado o jantar, ter dado algumas risadas, eu ia jogar vídeo game com o seu priminho, ia babar na sua sobrinha e... Bom, queria que essa conversa fosse a mais tranquila possível, mas assim que vi no seu olhar o quão vulnerável você está... – ela engole em seco. – Eu nunca quis te deixar assim, Charlie. Sinto muito.

Charlie sente uma azia súbita se apoderar do seu estômago.

— Você é uma das pessoas que mais importam para mim. – ela revela. – E eu não quero que nos afastemos.

— Então não vamos nos afastar. – ele se adianta em dizer. – Lizzie, o que passou, passou. A gente pode superar isso. Eu não te culpo por como reagiu, você estava no seu direito e estava chateada. Tudo bem que uma ligação teria me deixado aliviado, mas – ele ri fraco – tudo bem.

— Charlie...

— Não, sério. Me deixa falar, por favor. – ele pede aproximando-se dela ao sentar na ponta da espreguiçadeira – Eu devia ter falado, devia ter compartilhado... eu acabei não me atentando no quanto isso podia te afetar sim, e por isso eu sinto muito. Eu estou arrependido e você também. Mas é isso, casais brigam o tempo todo e essa foi nossa primeira briga. – ele suspira, a garganta seca – Agora eu sei o que tenho que mudar e isso vai nos moldando a ser pessoas melhores. Nós somos ótimos juntos.

O telefone dele toca no bolso de sua calça de forma estridente e eles se assustam momentaneamente.

— Me desculpe por isso. – ele diz puxando o telefone e apertando o botão para recusa da ligação, sem sequer checar quem era.

Quando ele volta os olhos aos de Liza percebe que ela está com os olhos fixos na tela acessa de seu celular. Ali como papel de parede estava uma foto dos dois.

Ela tinha sido tirada por algum fotógrafo no autódromo de Barcelona e mostrava os dois disputando uma corrida a pé no circuito, logo depois dela terminar de cumprir com o reconhecimento de pista.

Eles estavam em passadas largas e rindo verdadeiramente. Os cabelos de Liza estavam jogados ao vento e ela segurava o rapaz pelas costas de sua camisa, Charlie estava minimamente a sua frente e ria da sua tentativa de trapacear para ganhar.

Ele havia pego a foto no perfil de um fanclube de Liza, e havia gostado muito dela por mostrar tremenda felicidade de ambos em um momento tão descontraído. Era uma imagem que dispensava legendas.

— Eu não quero que isso acabe, ma belle. – ele diz com convicção indicando o celular.

Liza sobe os olhos diretamente aos dele.

— Eu também não. – ela admite aos murmúrios. – Deus, eu senti tanta a sua falta.

O peito de Charlie se aquece.

— Vamos nos esquecer dos campeonatos por enquanto, vamos esquecer dessa parte da nossa vida. – ele sugere. – Deixar tudo isso guardado em uma caixa e viver as festas de final de ano como um simples casal normal, só Liza e Charlie. Digo... – ele suspira – isso se você quiser estar ao meu lado.

— Eu não poderia estar em qualquer outro lugar. – ela diz sorrindo enquanto passa a mão pelo cabelo de Charlie, penteando-o para trás.

É o sinal verde para que o monegasco se aproximasse ainda mais e a abraçasse. Eliza passa os braços por cima dos ombros do rapaz e o aperta. Ele cheira os seus cabelos e quase suspira de alívio ao finalmente constatar que aquilo não era um sonho seu. Ele não seria tão criativo em imaginar todos os detalhes dela tão perfeitamente.

Com o queixo apoiado no ombro de Liza, Charlie percebe a mãe e o irmão mais novo os observando por trás das cortinas. No momento em que são flagrados eles se desconsertam, riem descontraidamente e saem. Charlie não consegue segurar o riso.

— O que foi? – Liza pergunta risonha se afastando minimamente.

— Nossa conversa à sós não foi tão à sós assim. – ele diz percebendo o primo Rámon em outro ponto da cortina, também à espreita.

Liza segue o seu olhar e ri quando nota além do priminho, os tios de Charlie.

— Somos acostumados a trabalhar em frente à plateias maiores, então tudo bem.

— Espero que eles saibam que o que vem a seguir é censurado para menores de dezoito. – ele diz encaixando a mão na nuca da jovem.

— Essa é a melhor parte. – ela diz pouco antes deles selarem os lábios.

O resto da noite passou a ser mais animadora.

Apesar dos parentes de Charlie parecerem completamente deslumbrados com a presença da pilota, respeitaram quando o próprio monegasco pediu para que evitassem o assunto sobre o acontecido na F2.

Liza brincou com o seu priminho, ficou encantada pela sobrinha do monegasco e foi quem havia conseguido finalmente a fazer dormir – o que quase fez com que Lorenzo a agradecesse de joelhos; conversou sobre técnicas de pista com o seu irmão mais novo, insistiu em ajudar sua mãe com a louça da ceia onde Isabel relatou diversos detalhes engraçados sobre a infância do rapaz – a prometendo até lhe mostrar algumas fotos antigas; Liza até falou sobre futebol com seu tio depois que os presentes foram distribuídos as inquietas, porém sonolentas, crianças. Não teria como ser melhor.

Passado da meia noite e encerrada a queima de fogos que eles assistiram pela varanda com vista às aguas do mar de Mônaco, pouco a pouco os familiares de Charlie foram se retirando vencidos pelo sono.

Joseph foi o último a ir se deitar e deixou o casal sozinho observando os barcos, já apagados e iluminados somente pela luz do luar.

Apoiados lado a lado no parapeito de vidro da sacada do apartamento de Charlie, o rapaz a observa virar a taça de champanhe e beber um gole do líquido enquanto o seu rosto brilha vivamente.

Ela o olha de canto de olho e sorri.

— O que?

— Só estou feliz por você estar aqui. – ele dá de ombros, voltando os olhos para o mar. – Sei que não deve ter sido fácil para você entrar em um avião sozinha e passar horas acordada para vir me ver.

— Na verdade, — ela ri – eu não vim sozinha.

Charlie arqueia as sobrancelhas e se vira para ela surpreso.

— Priscilla? – ela assente – E ela está por aí sozinha no Natal? – logo em seguida ele fala em tom zombeteiro: – Que tipo de amiga é você?

— Eu não sabia exatamente o que poderia acontecer por aqui, — ela se defende rindo – Se você me xingasse e me expulsasse da sua casa ela estaria pronta para me consolar e me levar para encher a cara de cachaça pelos bares de Mônaco. – Charlie gargalha – Não soa tão ruim, não é? Afinal, é Mônaco.

— Como se eu fosse capaz de fazer isso com você. – ele diz balançando a cabeça em negativa – E como deu tudo certo, o que ela está fazendo agora?

— Enchendo a cara pelos bares de Mônaco. – Liza sorri. – Ela está com o Fael e, antes que me julgue mal, eu não os obriguei a vir. Eles que não queriam me deixar sozinha.

— Você diz Fael, seu ex? – ele indaga e não consegue evitar o tom enciumado, já imaginando que durante todo esse tempo em que estavam afastados ela estivera com ele.

De imediato ele tenta reprimir as imagens de sua cabeça, tentando se conter. Não era do seu feitio ser ciumento, mas a reação era automática.

Ela se vira completamente para ele com um sorriso ingênuo no rosto.

— Digo Fael, meu amigo. – ela responde veemente, olhando diretamente nos olhos do monegasco. – Não tem com o que se preocupar, acredite. Não há ninguém que possa tomar o seu lugar no meu coração.

Charlie suspira aliviado, aquela declaração era muito mais do que palavras e ele conseguia sentir isso.

— Ele sabe disso? — o monegasco questiona depois de um tempo.

— Ele está com a Pri. – ela ri. – E quando eu digo estar, eu quero dizer que estão juntos. – Charlie franze o cenho, confuso – É, eu sei.

— Como você está lidando com isso? – ele indaga.

— Eu estou bem resolvida comigo mesma. Quero dizer, eu sei quem eu quero então não tem nem por que eu ficar abalada. – ainda apoiada no parapeito ela se aproxima dele e encosta a cabeça no ombro do monegasco, que passa o braço por cima de seus ombros – A Pri estava sofrendo com a minha partida, ele também. Acabaram passando muito tempo juntos e aconteceu. – ela deu de ombros. – Me garantiram que não existia nada antes e eu acredito, eles foram muito claros e cuidadosos em me contar. Fico realmente feliz por eles, estão apaixonados e acho que ambos precisavam disso.

— Então... – Charlie suspira – sua a viagem foi triplamente difícil. – eles riem juntos. – Avião, enjoos, insônia e gente se pegando do seu lado... Você realmente queria estar aqui.

Ela passa os braços entorno da cintura dele.

— E está valendo por cada segundo.

Notas finais
Se gostou do capítulo considere deixar o seu comentário.