Race in Heels - Corrida em saltos
16 Quinze
1º de Março
Circuito de Sakhir – Barein
Para qualquer lado que se olhasse dentro daquele autódromo via-se ambientes abarrotados de pessoas de diversas culturas, formas, cores, genética e línguas. A falação era constante e audível, a modo que aquele zumbido intermitente prolongava-se por quilômetros de distância.
O transitar do pessoal era constante e de forma atropelada, a todo momento correndo para não perder um suspiro sequer.
Câmeras, gravadores, microfones, rádios sendo monitorados por jornalistas, repórteres e colunistas de grandes veículos informativos prontos para captar toda informação do que estaria previsto para a temporada da tão aclamada Fórmula 1.
Havia finalmente começado a pré-temporada e o clima de ansiedade se estendia por construtoras, pilotos, engenheiros, fãs e todo o público envolvido com o esporte.
A pré-temporada tem o intuito de exercer os testes nos carros das construtoras oficiais, os quais iriam para as pistas naquele ano. Toda a modernidade, atualização e tecnologia integrada aos carros seriam apresentadas em duas sessões, cada uma com três dias de avaliação referente à potência, velocidade, aderência, frenagem e afins – que juntos afirmariam se o automóvel estava adequado. Além de, claro, serem completamente inspecionados pela Federação Internacional do Automobilismo – FIA.
Naquela semana também eram cedidas entrevistas pelas construtoras para exibir o seu plano de ação, expor os integrantes que iriam compor o time e, principalmente eram apresentados oficialmente os pilotos titulares que estariam guiando os seus distintos carros.
Charlie tinha acabado de deixar o painel da Findspot junto à Carlos depois de uma extensa entrevista e já estava com o celular em mãos, digitando ferozmente mensagens à Liza.
Durante esses dois meses eles não haviam se visto, porém conversado muito por chamadas ao telefone e mensagens de celular. Ela havia dito há dois dias que estava embarcando para o Barein, mas que faria algumas escalas em outros países até chegar ao local.
Seu voo era para ter chego há exatas duas horas e até então ele não tinha notícias sobre o paradeiro da sua namorada, o que lhe deixava com um leve desconforto.
Ela havia dito que lhe faria uma surpresa hoje, e este fora o máximo de informação que Eliza havia cedido desde que eles se despediram em Mônaco. Nada sobre o seu paradeiro, sobre o que era o projeto que tomava maior parte do seu dia ou com quem estava trabalhando, ela apenas dizia: “É restrito e o pessoal é muito exigente, sinto muito. Em breve você entenderá o porquê.”
Ele segue atrás do seu assessor de imprensa, Garret, e ao lado de Carlos, apenas sendo guiado por entre os bastidores do evento. Eles percorrem o traçado de alguns corredores extensos entre as salas de imprensa e logo param em frente à uma porta, no aguardo para a próxima coletiva.
— Carlos! – ele ouve uma voz familiar com sotaque requintado alegre, que só um britânico possuía, e ergue os olhos encontrando Orlando Noward caminhando na direção do parceiro de equipe de Charlie e seu próprio ex-parceiro de equipe.
— Lando! – o espanhol salda com a mesma alegria. Eles se abraçam contentes. – Como foram as férias de inverno?
Eles se separam.
— A mesma coisa de sempre, passei em casa. Nada demais. – Orlando dá de ombros. – Você parece um tomate ambulante. – diz, se referindo à cor vermelha do novo uniforme do amigo. – Sem ofensa.
— Acho que alguém já está com saudades. – Charlie diz divertido e logo o rapaz o mira com uma sobrancelha arqueada, também em tom zombeteiro. – Não aceito rescisão de contrato Noward, se quiser o Carlos de volta vai ter que pagar muito caro.
Orlando ri significantemente, a modo das bochechas saltarem e os olhos azuis ficarem espremidos. Carlos e Charlie se entreolham em expectativa.
— Você vai querer me dar o Carlos de volta por livre e espontânea vontade quando ver quem é o meu parceiro de equipe. – o rapaz diz controlando o riso e cruzando os braços – Mas aí, eu quem não vou querer trocar.
A McDraguen não havia divulgado o seu segundo piloto titular até então, era comum a situação vir a ocorrer na transição de uma temporada à outra.
Até então naqueles primeiros instantes de feira a Renou já havia anunciado o retorno de Fernando Rodríguez – tricampeão mundial a categoria – como parceiro de Daniel, os estreantes Yuki Tvald pela escuderia Alfa Toro, e Mike Schmidt e Niki Marcus pela Homes como novidades no grid.
No entanto, a histórica construtora que carregava a cor laranja estava para conceder a sua coletiva em poucos instantes.
— Diz aí, é o Hulk voltando para as pistas, não é?! – Carlos pressiona esperto, o tal piloto que se retirara da categoria para um ano sabático deixara explícita para a mídia e afins as suas assíduas tentativas de retornar ao esporte.
— Não se apressem, pequenos gafanhotos. – Orlando diz passando a mão pelos seus cabelos castanhos encaracolados – Logo vocês verão.
— Que suspense. – Charlie caçoa – Se o Gonzáles não tivesse sido renovado com Astro Martíni, eu jurava que poderia ser ele.
O rosto jovial de Orlando se abre em um sorriso ainda mais largo. Ele era um dos pilotos mais jovens do grid, por este fato era o mais extrovertido e espontâneo do grupo.
Mas se enganava quem pensava que o britânico levava tudo na brincadeira, ele fora uma das grandes apostas da construtora nos anos anteriores e ficara entre os melhores pilotos na classificação geral. Levava seu trabalho muito à sério e gozava de talento.
— Vamos? – uma mulher também trajada com as cores da McDraguen toca o ombro de Orlando, indicando-o a porta dupla atrás deles.
— Tudo bem, vamos lá. – o britânico diz e se encaminha para as portas, abrindo-a enquanto dizia aos colegas – Vejo vocês daqui a pouco.
Antes que as portas se fechassem atrás de Orlando, Charlie vê de relance cabelos loiros, o que até poderia ser comum se não fossem tão parecidos com as madeixas de uma conhecida empresária.
— Cris? – ele questiona para si mesmo, visto que a porta já estava completamente fechada.
— Quem? – Carlos o indaga confuso.
— Eu... pensei... – ele diz aos sopros enquanto sua mente funcionava. Ele se encaminha até a porta dupla e suspira antes de abrir uma fresta.
Na bancada do painel estavam Zach Bowl, diretor executivo da McDraguen; Andy Spence, o engenheiro chefe da equipe; Orlando e ao seu lado uma cadeira encontrava-se vazia. Eles estavam de frente à um grupo grande de repórteres e jornalistas, alocados em fileiras organizadas de cadeiras de ferro.
Por entre a abertura da porta Charlie corre os olhos pela sala, procurando pelo alguém com as madeixas douradas.
— A McDraguen este ano integra o motor novo Mustof de nova geração, chassi MCD35G, mas uma lista completamente renovada de acessórios e ferramentas de configuração de direção dispostas aos nossos pilotos. – Zach diz no microfone próximo á boca.
Vários jornalistas erguem a mão no mesmo instante. Zach aponta o homem gorducho da fileira da frente.
— Leo Armsty, Esporte integrado, Alemanha. – o homem declara se levantando – Senhor Bowl, esse motor de alta geração consiste a mesma potência do motor fornecido pela outra construtora da temporada passada?
Enquanto o chefe de equipe respondia a pergunta minuciosamente, Charlie abre a porta um pouco mais para visualizar o fundo da sala.
Lá ele encontra o que procurava. Cris estava a conversar com Fábio em cochichos e com o telefone grudado no ouvido, eles estão afastados da multidão e passam despercebidos pelos demais, mas não para o monegasco.
A mente de Charlie começa a trabalhar.
Orlando fazendo suspense sobre o novo parceiro de equipe. Cris e Fábio presentes no painel da construtora.Liza estar cheia de segredos sobre seu “projeto” e não tê-lo respondido até então.
— Kabir Radesh, Sportfox da índia. – o homem de pele parda e nariz fino se apresenta, levantando-se. – Senhor Bowl, a minha pergunta, e acredito que seja a de todos nesta sala, é: quem é o segundo piloto à integrar à equipe da McDraguen?
Zachary Bowl abre um sorriso satisfeito.
— Acho que já deixei o público por demais ansioso com essa informação. – o homem diz e acena para uma mulher próxima à uma porta na parede oposta a que Charlie estava.
Quando a mulher alta abre a porta atrás de si e revela a pessoa que estava escondida até então, Charlie sente o coração parar com a confirmação de suas suspeitas.
Vestida com o uniforme característico da construtora, com direito á boné laranja e crachá identificando a sua posição na equipe, Eliza caminha até a mesa sob uma chuva de flashes e um falatório crescente. Ela se senta ao lado de Orlando, que dá dois tapinhas amigáveis em suas costas e sorri diante aquele mar de jornalistas.
— Senhoras e senhores, acredito que já conhecem Eliza Benedetti. – Zach pronuncia sorridente – Ela será a nossa segunda pilota titular nesta temporada.
Inúmeras mãos se erguem ao alto e com veracidade.
Zach aponta uma mulher na quinta fileira, ela se levanta em um salto e com a empolgação explícita dos olhos.
— Amanda Xie, rede esportiva do Japão. — ela declara rapidamente – Senhor Bowl, qual a intenção estratégica com esta nova contratação?
— Desde a contratação do Orlando, nós estamos investindo em talentos mais jovens para que o modo que a McDraguen trabalha seja complementado com ideias dessa nova geração. – o homem explica. – Já tivemos muitas lendas e pilotos de grande potencial que cresceram conosco e seguiram em frente. Então nesta temporada decidimos arriscar em apostar todas as nossas fichas em dois pilotos de grande competência e habilidade do esporte da nova geração. – Zach sorri – Eliza atingiu números espetaculares no ano passado em sua temporada da F2 e provou que tem capacidade o suficiente para integrar o time dos vinte melhores pilotos do mundo aqui na F1. E Orlando vem demonstrando cada vez mais resultados melhores a cada corrida. Estamos satisfeitos com o nosso time desta temporada.
A mulher se senta sorrindo satisfeita.
— Estão abertas as perguntas aos pilotos.
A assessoria escolhe um jornalista.
— Mitchel Vrum, emissora Pegasus da Suíça. – o homem ruivo diz. – Senhorita Benedetti, primeiramente quero desejar meus parabéns pelo seu contrato. Acredito que podemos esperar grandes feitos de você. Em contrapartida gostaria de perguntar: Devido à sua polêmica envolvida com a FIA F2 no término do campeonato do ano passado, o qual a senhorita sofreu uma punição gravíssima e até então comprovadamente não justa, qual a sensação de integrar um time do maior campeonato do mundo automobilístico?
Eliza encaixa o suporte do microfone nas orelhas por cima do cabelo solto e o ajusta até a boca.
— Bom dia a todos. – ela diz sorrindo e um coro de vozes a cumprimentam de volta. – Obrigada, Mitchel. – Liza olha para o repórter em específico – Eu realmente quero deixar o que aconteceu para trás, só trazer comigo a bagagem de experiências e todos os resultados que obtive lá. Estou em uma nova fase da minha vida, completamente diferente, e finalmente no lugar que sempre sonhei. Meu foco está no futuro e neste campeonato, mas, se quer saber, a sensação é bem reconfortante. – ela sorri.
Mitchel se senta assentindo com um sorriso largo no rosto.
Outro jornalista se levanta.
— Orlando, como se sente referente á sua nova parceira de equipe? – um homem com uma barba espessa e longa questiona ao piloto. – Você e Carlos eram muito próximos. Você sente que pode ter o mesmo coleguismo com a Eliza?
A pilota se vira para ele, aguardando sua resposta.
— Eu estou muito satisfeito com a contratação sim. – ele diz. – Nesses últimos dois meses eu e Lizzie estivemos em constante convívio por conta da preparação e introdução às novas ferramentas do carro, no simulador, e eu pude perceber que ela é tão determinada e focada quanto eu. Claro que será diferente sem o Carlos, mas continuamos bons amigos e eu sinto que com ela posso ter o mesmo apoio e amizade que desenvolvi com ele. – Orlando olha para a parceira de canto de olho, risonho – Carlos nunca fez limpeza de pele em mim, então acho que Lizzie está uns pontos na frente dele.
Todos na sala riem.
— A pele de Mike Schmidt que lute agora sem você. – Orlando finaliza aos risos.
A coletiva prossegue com o destaque da dupla mais jovem a estrear no grid daquela temporada da Fórmula 1. Orlando e Liza ganhavam a simpatia dos jornalistas a cada sorriso ou piadinha que faziam entre si, mostrando que seriam mais um dos parceiros com laços fortes na competição.
— Última pergunta.
— Liza, você já deve ter notado a drástica mudança na sua vida pela promoção, mesmo que escondida dos olhos do público até então. Daqui pra frente tudo vai passar a ser mais intenso, mais atenção, mais reconhecimento, o dobro de trabalho, uma fama maior, assim como críticas maiores... Você se sente preparada para mudanças dessa magnitude?
Eliza suspira fundo antes de sorrir verdadeiramente.
— De um ano e meio para cá minha vida tem tomado um rumo completamente diferente do que eu pensei que seria, então as mudanças já tem sido uma fiel companheira. – ela diz. – Dentre situações boas e ruins, o que eu faço é erguer a minha cabeça e focar nos meus objetivos sempre. A fama significa que as pessoas conhecem o seu trabalho e com isso muitas outras vertentes são abertas, estamos expostos a qualquer tipo de coisa. Tem horas que não são fáceis, não são mesmo! – ela intensifica expressando-se com as mãos – E eu realmente não espero que tudo seja um mar de rosas, mas esse não é o tipo de coisa que você é treinado para lidar. São apenas consequências ao que você se submete. – ela limpa a garganta – No entanto, eu venho trabalhado muito para chegar onde estou hoje e não será um grupo pejorativo de pessoas que não respeitam o meu trabalho como eu sendo uma pessoa, não apenas como mulher, que vai me abalar. – ela umedece os lábios – Hoje eu estou mais forte e focada no que eu quero e não poderia estar mais agradecida pelas pessoas que vem me apoiando nessa caminhada e também por mim mesma por não desistir. – ela ri fraco – Agora definitivamente estou pronta para lutar. Dessa vez não com unhas, mas com garras.
O discurso é finalizado com uma salva de palmas estrondosa.
A banca se despede dos jornalistas e se encaminha para a saída aos bastidores, onde Charlie e Carlos passaram a última meia hora assistindo à entrevista. Eles eram os próximos.
Assim que Orlando se aproxima dos dois, abre um sorriso convencido.
— Eu não disse?
Logo atrás dele vem Eliza, com os olhos receosos no rosto de Charlie – que ainda está sem fala.
— A próxima coletiva é na sala E, — a assessora de imprensa da McDraguen, Jordyn, avisa – Começa em vinte minutos.
— Estaremos lá. – Orlando responde e Zach assente, liderando a caminhada do grupo de cinco pessoas que transitavam com as cores laranja e azul pelo corredor.
Logo Cris sai pelas portas duplas acompanhada de Fábio.
— Lacroix, meu garoto! – Fábio salda alegremente assim que põem seus olhos no rapaz.
Charlie aperta sua mão em movimentos automáticos.
Cris olha para ele e apenas assente a cabeça com um sorriso, logo se direcionando à Fábio e Orlando: — Vamos deixa-los conversar a sós, está bem? – ela se vira para a própria Liza e diz: — Não demore e nada de estardalhaços, você sabe o quanto foi difícil ocultar aquelas fotos. Portanto seja breve.
— Sim, claro. – Liza assente e assiste os três seguirem na mesma direção que o primeiro grupo. Quando eles viram no corredor ela se direciona aos dois pilotos. – Oi.
— Benedetti! – Carlos diz alegremente, abraçando-a de lado enquanto Charlie os assistia com as mãos nos bolsos da calça. – Você é fogo, chica!
Liza ri contida.
— Obrigada.
— Muito bom, muito bom mesmo! – o espanhol continua – Eu ficaria mais para te parabenizar, mas já estão nos chamando ali. Celebraremos mais tarde, certo? – ele indaga já se encaminhando para as portas duplas.
— Com certeza! – ela diz e ele dá um soco no ar contente.
— Lacroix, cinco minutos. – Garret avisa antes de se encaminhar para a sala atrás do espanhol.
Liza se vê sozinha com o namorado quando volta-se para a sua direção.
— Surpresa. – ela diz com um sorriso receoso.
— Você me superou no quesito surpresas. – ele diz sem expressão, o rosto pleno.
— Olha, eu sei que está chateado, mas é algo que eu realmente não podia te contar e como contratado por uma construtora, deduzo que você saiba exatamente sobre o que estou falando de confidencialidade. – ela se explica. – Foram ordens contratuais e você sabe como a Cris é chata com isso. Mas... – ela sorri esperta e direciona a mão até o bolso traseiro da própria calça e tira de lá dois pedaços de papéis coloridos – para mostrar a minha completa empatia, comprei dois rodízios de churrasco que vai ser servido lá no meu quarto hoje. As mais variadas e melhores carnes, do jeito que eu sei que você gosta. Aí podemos conversar e você pode descontar a raiva em mim da forma que achar melhor.
Ela balança os papéis em sua mão em expectativa.
Charlie não controla o riso leve.
— Me chantagear com comida, que golpe baixo. – ele diz.
— Me desculpa. – ela ri, seus olhos brilham. – Mas está funcionando?
O monegasco sorri e se permite se aproximar da namorada e abraça-la. Liza o abraça de volta satisfeita, apertando o corpo que tanto sentira falta.
— Você não poderia ao menos ter me dado uma dica? – ele questiona afastando-se minimamente para checar o rosto dela.
— Eu te dei uma dica! – ela diz – Falei que estaria nos testes de pré-temporada.
— Eu pensei que fosse para me dar apoio. – ele relata.
— O que não deixa de ser verdade. – ela se adianta em esclarecer – Mas mon amour, se tivesse realmente pensado sobre isso teria deduzido o óbvio. O que uma pilota, propícia a uma promoção depois de ter tirado a superlicença, estaria fazendo na pré-temporada de um campeonato?
Ele faz um bico.
— É verdade. – ele sopra, rendido.
Liza sorri.
— E como foi isso, como é que aconteceu? – Charlie questiona animado. – Caraca, você está aqui! – ele a chacoalha pelos ombros – Está na Fórmula 1!
— Eu estou! – ela diz contente.
— Eu estou tão feliz por você, ma belle. – ele diz tornando a abraça-la.
— É tudo muito recente ainda, — ela diz quando eles se afastam – e eu vou ter que ir me adaptando a essa nova vida, mas é uma das coisas mais maravilhosas que poderiam acontecer, é claro. – Liza sorri.
Charlie automaticamente se recorda de sua conversa com Daniel no final do ano, o que o faz se lembrar: — Sobre quais fotos a Cris estava falando?
O sorriso da brasileira murcha um pouco.
— As de Mônaco. – ela suspira – Aparentemente existem algumas, para não dizer, várias fotos de nós dois super íntimos nas férias.
Charlie engole em seco.
— Você já deve saber sobre as cláusulas contratuais. – ela sorri sem humor – Mas não se preocupe, Cris já cuidou de tudo referente as fotos. – ela garante. – É um dos assuntos da nossa conversa de hoje à noite. Prometo te contar tudo depois, mas agora você tem entrevista e eu também.
— Devo me preocupar?
— Não é uma das coisas que vai te fazer ficar tranquilo. – ela diz fazendo uma careta. – Mas, fica frio, porque eu tenho plano que tem tudo para dar certo. – ela sorri acariciando o rosto do rapaz – Vai ficar tudo bem!
— Tudo bem. – ele respira fundo. – Eu confio em você.
Liza sorri e quando eles estão para se aproximar e selar os lábios, Garret abre a porta chamando pelo monegasco.
Ele faz uma careta.
— Ops, tenho que ir.
— Vai lá, bonitão. – ela diz e sela os lábios rapidamente.
Charlie se vira e ela lhe dá um tapa carinhoso no traseiro, fazendo o monegasco entrar na sala de imprensa rindo.
(...)
Depois do primeiro dia da primeira sessão de treinos nos carros, os pilotos são direcionados à uma coletiva em conjunto. Todos os vinte sentados lado a lado em quatro fileiras dispostas num palco à frente de um mar de jornalistas e público.
Os pilotos vão se acomodando pouco a pouco.
A placa com o nome de Eliza está ao lado da cadeira que sentaria à sua esquerda Daniel e Jorge Russo à sua direita, seguidos por Mike Schmidt e Luís Houston.
Ela segue na direção da sua cadeira secando o rosto com a toalha laranja que Cris havia lhe dado. O sol do Barein estava a pino na hora da sua volta e o ar condicionado da sala não suportava aquela quantidade de pessoas.
— Lizzie! – ela escuta uma voz familiar a saldar e logo percebe Daniel caminhar sorrindo em sua direção.
— Danny! – ela salda contente e o abraça rapidamente quando ele se aproxima.
— Sua precoce! – ele ri – Quando falei que logo te veria por aqui não imaginei que seria tão cedo. – ele diz empurrando-a levemente com o ombro.
— Eu gosto de ser imprevisível. – ela diz balançando as sobrancelhas e eles se sentam aos risos.
— E quanto à você e o... – o australiano indica Charlie à duas fileiras à baixo da que eles estavam. O monegasco conversava animadamente com Sebastian Weber, seu ex-parceiro de equipe.
— Estamos bem, obrigada. – ela sorri.
— Não pensei mesmo que vocês fossem terminar quando você fosse promovida. – ele diz. – Fico realmente feliz por terem encontrado uma solução.
— Ainda estou trabalhando nisso. – ela admite. – E boto fé que dá certo. Mas para isso você tem que ficar de bico fechado.
— Eu sou um túmulo. – ele levanta uma mão no ar e apoia a outra sob o peito. – Palavra de escoteiro.
— O que, ironicamente na verdade, significa que essa boca grande dele não é de enfeite. – Orlando, que está logo abaixo deles na fileira seguinte, se pronuncia. – Esse cara é um tagarela.
— Olha só, você é parceira do garoto que joga videogames e ainda não tem pelo no saco. – Daniel zomba Liza olhando para o rapaz, que lhe mostra o dedo de volta. – Quando que vai ensinar ele a entornar bebida como fez no iate? O moleque tá precisando dar uma farreada.
Liza ri.
— Essa definitivamente vai ser uma das prioridades. – ela diz sarcástica.
— Eu bebo sim, e farreio. – Orlando se defende – Só não exagero.
— Farra e Lando não se encaixam na mesma sentença. – uma voz grave chama a atenção dos três. Aproximando-se da cadeira com a referência de “Jorge Russo” um rapaz alto, de cabelos castanhos e olhos grandes de íris completamente azuis, zomba. – É ele tomar uma dose que em meia hora está colocando tudo para fora.
— Isso foi só uma vez. – o britânico se defende – E já faz um tempão.
— Claro, do começo do ano passado para cá já faz mais de uma década. – Russo diz sarcástico e se vira á Liza, estendendo-lhe a mão sorridente – É um prazer conhecer a pilota mais comentada desse autódromo.
— O prazer é meu. – ela aperta sua mão rapidamente e logo Jorge se senta.
Conversando lado a lado enquanto se encaminham aos seus lugares Liza reconhece Luís, o grande campeão da atualidade, acompanhado de seu ex-parceiro de equipe.
Quando Mike se aproxima da cadeira de Liza a abraça por trás entusiasmado.
— Porra, Lizzie. Que saudade. – ele fala e ela acaricia seu braço com ternura. – Hoje quando fiquei sabendo que estava por aqui quase sai no meio da entrevista pra vir te ver.
Ela ri e se desfaz do abraço do rapaz com delicadeza para se levantar e abraça-lo corretamente.
— Saudade de você também, Schmidt.
Eles se afastam.
— Eu não disse que você estaria aqui?! – ele diz contente. – Parabéns, eu estou tão feliz por você!
— Obrigada.
— McDraguen, han?! Você merece muito. – ele acentua e se aproxima dela para falar mais baixo. – Aposto que aquela gestão da FIA F2 deve estar se contorcendo neste exato momento.
— Espero que estejam mesmo. – ela diz e bate na mão que o loiro ergue no alto.
— E vão se contorcer mais ainda quando você começar a pontuar em disparada. – uma voz mais grave soa atrás de Mike.
— Foi mal, Lou. – Mike se desculpa, dando espaço para o homem e indicando a jovem. – Esta é Eliza, mas claro que você já sabe quem ela é.
Liza fita aquele homem de pele da cor chocolate com cabelo arrumado em tranças embutidas, joias no nariz, orelhas e pescoço olha-la com admiração e sente seu coração se preencher. Ela poderia gritar de emoção ali mesmo, mas se conteve.
— É um prazer te conhecer. – ela diz estendendo-lhe a mão com um sorriso alegre.
— Eu não poderia estar mais satisfeito em ter você aqui conosco hoje. – ele diz apertando sua mão – É um passo muito importante para a história e para as mulheres.
O piloto era conhecido não só pelo seu talento em pista, comprovado com sete vitórias no campeonato automobilístico, mas também por ser um grande adepto de causas sociais de diversas proporções.
Luís havia sido um dos pilotos que a elogiara e a apoiara na mídia quando a FIA suspendeu-a do campeonato, e ela desconfiava que este fora um dos motivos para que a diretoria da Federação decidira por demitir toda a gestão da F2 que estava envolvida na armação antes mesmo do primeiro julgamento acontecer.
Ela e Luís haviam trocado algumas, poucas, mensagens e Liza sentia que tinha uma grande personalidade bem à sua frente. O que fazia-a se sentir emocionada.
— Obrigada. Significa muito.
— Boa sorte. – ele diz terminando o caminho até sua cadeira.
Todos os vinte pilotos se acomodam em seus devidos lugares e ficam em silêncio, aguardando pela introdução dos representantes da FIA e organizadores do evento.
Liza não poderia estar mais radiante. Ela tinha aquele leve frio na barriga, normal devido ao nervosismo, mas sentia que desta vez as coisas seriam melhores. Tanto pela recepção de seus novos colegas de trabalho, como pelo acolhimento do público e aquele peso nas costas, de se estar entre uma selva de predadores, que fora felizmente deixado para trás.
Ela estava mais tranquila, claro. Finalmente havia chegado ao patamar dos melhores e sabia que dali para frete seriam intuitos novos e desafios ainda maiores. Mas estava completamente animada para começar, apesar de ter uma pedra no sapato que teria que ser resolvida.
— E damos início à coletiva de pré-temporada do campeonato de Fórmula 1.
Ela não consegue deixar de vibrar por dentro.
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