Rabo de Leão, Cauda de Escorpião
1 Capítulo único
Notas iniciais
Aiolia deixou o pescoço e os braços penderem languidamente para fora da banheira. Bufou. Não conseguia acreditar que estava sofrendo interrupções de novo. Ninguém naquele Santuário tinha a decência de deixá-lo tomar um banho, não? Depois reclamavam dele por ser esquentadinho sem motivo.
Antes que pudesse evitar, franziu o cenho com a dor que o ranger de dentes lhe causou. Que dia ótimo, de fato. Não, não lhe bastava a humilhação de ter sido banhado de lama por um carro em alta velocidade, agora quase deslocava a mandíbula. “Por que você não correu ou fez algo inteligente na hora em que o carro passou, Aiolia?”, as pessoas perguntariam, e a raiva acumulada seria descarregada de uma vez só no primeiro engraçadinho.
— Shaka, é você de novo?
Shaka adquirira aquela péssima mania de entrar em sua casa sem permissão. Quando era para pegar apenas açúcar para o chá ou algo da cozinha, estava tudo bem. Certo, quase tudo bem. Shaka era um chato, afinal. Mas Shaka achava que podia tudo, e volta e meia entrava nos aposentos privativos de Aiolia para colocar as coisas dele em ordem.
Ou para tentar entender o motivo para tanto barulho, que vinha a ser Aiolia quebrando as paredes de sua própria casa. Era claro que Shaka discursava sobre como Aiolia estava dilapidando o patrimônio, e era claro que Aiolia ficava mais nervoso e com mais vontade de dilapidar o patrimônio ainda.
“Vou dilapidar o patrimônio da sua cara, Shaka”, Leão disse mais de uma vez.
Com toda essa cortesia entre os dois... Ou a cortesia de um Aiolia adolescente com qualquer pessoa, para dizer a verdade, não era de se espantar que ele estivesse resmungando e procurando algo para esmurrar. Pelo bem de sua sanidade, ele dizia.
Já era o bastante que tivesse que conviver com o peso e a culpa por ser irmão do traidor. Pelos deuses, até parece que Aiolia sairia matando todo mundo e atentando contra a vida da deusa só porque Aiolos fez o mesmo. Ele tinha suas próprias vontades e desejos.
Que ele não sabia bem quais eram, como qualquer adolescente com seus dezesseis anos, por sinal, além de limpar o nome de Aiolos a qualquer custo.
Então, se tivesse que responder, não. Uma interrupção era a pior coisa que alguém poderia lhe fazer naquele momento… Vulnerável.
— Whoa! Não precisa me mostrar a cauda do leão, não.
(Mas até que era uma visão agradável. Não que Milo fosse admitir em voz em alta. Visão agradável? Vinda de Leão, de todas as pessoas? Não, não, só pode ser um engano.)
Aiolia já estava se levantando e se preparando para atacar, quando finalmente reconheceu o dono daquela voz. Como poderia não reconhecer? Más notícias. Péssimas notícias, aliás: o dono daquela voz conseguia ser mais insuportável do que Shaka de Virgem.
Apressou-se em buscar uma toalha, as roupas, o que quer que fosse. Tudo fora de alcance.
— Bom, Escorpião, se não queria ver, não deveria ter entrado no meu banheiro a essa hora.
Milo mostrou-lhe a língua. Os dois pareceriam regredir alguns anos no comportamento, quando estavam juntos. Agiam como duas crianças, mais do que quando em condições normais de temperatura e pressão.
— Milo? Você está… Você estava… Por acaso você estava me encarando, Milo? Seu pervertido!
Riu dos melindres de Aiolia. Meio devagar, aquele leonino, não era? Só para não dizer que era muito devagar no raciocínio.
— Só agora você vem reclamar? Antes estava gostando, era? — Resolveu provocar, só porque podia. E porque Aiolia não ousaria começar uma guerra de mil dias completamente nu, por mais sem noção que Leão fosse. — Como é mesmo o ditado? Ah, o que é belo precisa ser admirado ou algo assim, não é? Até que você tem um belo… rabo.
Falava casualmente, embora sua clara intenção fosse mesmo provocar a outra parte. Aiolia sempre caía como um patinho. Estouradinho demais sem motivo. Sentou-se na borda da banheira, pernas cruzadas, queixo apoiado nas mãos.
— Eu não sei porque você está tão interessado assim no meu traseiro, Milo.
— Seu traseiro não fala, então ele ganha pontos extras. Eu diria até que ele é melhor do que o dono.
— Ora, seu!
Desnecessário dizer que, a esta altura, Aiolia já havia se esquecido de sua situação de completa nudez e de sua dignidade e mostrava os punhos cerrados para um Milo que ria muito. Evidente também que Aiolia encontrava-se ainda mais furioso.
— Se alterando assim… Vai acabar com morrendo por problemas cardíacos, a menos que se controle, sabia? Seria uma vergonha, para um cavaleiro de Atena, morrer por ataque cardíaco, de todas as coisas que podem nos matar. Você quer isso para a sua vida, Aiolia? Ou melhor, para a sua morte?
— Olha quem fala! Que moral você tem para falar de mim, Milo?
Ah, mas não tinha sido uma boa ideia mesmo virar-se para encarar Milo. Aiolia ainda tentou esconder seus pudores com as mãos. Não foi muito eficaz no intento. Milo assoviou.
— Vá te catar, Milo! Não tem mais o que fazer, não?
— Na verdade, não. — Milo balançou os pés. Empertigou-se logo em seguida. — Se eu tivesse algo melhor para fazer, não estaria aqui tendo que aturar você.
— Inacreditável. O que você está fazendo aqui, então? Desembucha logo.
— Você é um chato, sabia? — Precisou controlar a vontade de mostrar a língua outra vez para aquele leonino dos infernos. — Eu só estava passando e realmente não tinha nada melhor para fazer. Ter tempo livre te leva a fazer coisas loucas, sabia? Tipo gastar com roupas para colegas chatos.
Aiolia preferia manter-se tão ocupado quanto possível, para ignorar os sussurros de um local onde era odiado pela maioria. E para gastar a energia que parecia não se esgotar (e que pelo jeito era estocada na forma de pura fúria).
Era difícil ser um cavaleiro de ouro e um adolescente ao mesmo tempo! Então não entendia bem o motivo para alguém estar falando com ele, logo com ele, sobre tempo livre. Por que não despachavam aquele desocupado para uma missão?
— O que você está querendo insinuar, Milo de Escorpião? — Era uma pergunta perigosíssima de se fazer naquele momento. Aiolia se importava? Aiolia sequer pensou que seria ainda mais provocado e ridicularizado? Claro que não.
— Estou dizendo apenas que — falar aquilo sem rir demandaria muito esforço — apesar da cauda… e outras partes… do leão serem até bonitas de se ver, eu não aguento mais ouvir a sua voz.
Aiolia estufou o peito. Esqueceu-se do que estava tentando tampar e colocou as mãos na cintura. Lançou um olhar intenso para Milo.
— Você sequer respondeu minha pergunta.
— Eu não sou escultor, Aiolia. Mas, se eu fosse, captaria essa sua pose para a eternidade. Está impagável! Sério. — Deu uma volta ao redor de Aiolia. — De fato, é um belo rabo. Ou, como dizem por aí, uma raba de respeito.
Ah, mas aquilo já era demais. Aiolia nunca conseguia saber se Milo falava sério ou se só estava zombando da sua cara. Na dúvida, Aiolia sempre ficava com a opção da zombaria — uma que lhe dava o direito de alegar orgulho ferido (apenas para si, sempre apenas para si, em silêncio) para o tapa que daria na cara de Milo.
— Quem tem rabo aqui é você, ô Escorpião!
— Agora você está interessado no meu rabo, Aiolia? Eu posso te mostrar. — Milo sorriu. Perigosamente.
— Eca! Não! — Aiolia virou a cara e fechou os olhos enquanto Milo simulava descer as próprias calças.
— É bonitinho. Se até Afrodite diz que é bonitinho, quem sou eu para negar?
— Como… Não. Na verdade eu não quero saber.
Milo suspirou. Riu, depois, com gosto e vontade. Aiolia era engraçadíssimo quando irritado ou constrangido. Ou quando simplesmente estava aprontando alguma estupidez. Ou seja, Aiolia era engraçadíssimo sempre, Milo apenas não admitiria isso. E não admitiria para o próprio Aiolia nem morto.
Milo deveria saber, no entanto, que rir na frente de Aiolia seria interpretado como rir de Aiolia — o que não estaria totalmente equivocado. Mas, ah, as reações de Aiolia.
Aquele tonto deveria saber que não se levantava a mão assim, no impulso, para esbofetear outro cavaleiro de ouro. Milo aproveitou-se daquilo para agarrá-lo pelos pulsos e praticamente jogá-lo contra a parede mais próxima.
Lambeu os próprios lábios enquanto encarava Aiolia. Aquilo de repente tornara-se tão mais divertido do que no início...
— Nem vai me pedir para te soltar? Quer dizer que o leão gosta de ser dominado?
— Eu… Eu não gosto, Milo! — Aiolia respondeu-lhe com uma careta indignada. Milo encarou o chão, suspirou e fez muxoxo.
— Te solto quanto você me pedir para te soltar. Até agora você só disse “não gosto” com pouca convicção.
Mas até que, vendo de perto, os olhos de Aiolia eram um charme. Até Milo seria obrigado a admitir que Leão não era de se jogar fora… Quando estava com a boca fechada e quando não estava destruindo tudo. Se bem que nem poderia julgá-lo pela última parte, pois fazia a mesma coisa quando furioso.
Lembrete para si mesmo: jamais admitir que tivesse qualquer semelhança com Aiolia de Leão. Jamais. Eles eram tão diferentes quanto os animais que representavam suas constelações. Melhor assim.
Milo relaxou um pouco suas mãos. Ainda segurava Aiolia, mas ele poderia fugir facilmente, se quisesse. Deveria lembrar-se de zombar sobre a não reação de Aiolia naquele momento. Soltou-o, por fim. Não teria graça se fosse algo imposto ou forçado.
Teria graça, isso sim, se Aiolia tentasse correr pelo Templo de Leão tal como estava, porque era o maior cabeça-de-vento do mundo e era bem capaz de se esquecer que não estava com roupas. Milo até pagaria para ver.
— Deu defeito, foi? — Milo tocava repetidamente, com o indicador, entre as sobrancelhas franzidas de Aiolia.
Aiolia finalmente pareceu recobrar o senso, alguma fagulha de juízo há muito esquecida, e afastou a mão de Milo.
— Escorpião. — Pelo menos a época dos falsetes havia passado, e Aiolia conseguia manter a voz grave. — O que diabos você pensa que está fazendo?
Só podia haver algo de muito errado com ambos, para que ainda não tivessem tentado se matar àquela altura. Nenhum dos dois entendia bem o que estava acontecendo por ali.
— Estou com calor. — Milo anunciou. E procedeu a despir-se sem qualquer cerimônia, como se estivesse em sua própria casa. Por que as pessoas achavam que a Casa de Leão era lugar para serem folgadas? — Vou tomar um banho.
— O calor está te deixando ainda mais burro, é?
— Nesse caso, seria bom você se juntar a mim. Vai que um banho gelado te cure a burrice.
— Eu não sou burro, Milo! — Ah, a necessidade de se afirmar perante Milo…
— Não. Burro não. Apenas estúpido. Venha logo, Aiolia.
— Que diabos é essa proposta, Milo? Você quer que eu tome banho com você?
Aquilo não poderia estar certo. Não mesmo. Desde quando homens tomavam banho juntos, assim? Desde quando Aiolia não conseguia desviar o olhar do corpo escultural de Milo de Escorpião?
Opa. Tinha algo de muito errado aí. Era melhor mesmo que Aiolia entrasse logo na banheira, para disfarçar o incômodo que sentia entre as pernas.
— Eu sabia que você não resistiria, Aiolia. — Milo jogou os cabelos fartos para trás, fazendo charme. Ergueu as sobrancelhas ao encará-lo. — Você está bem? Está mais vermelho do que um tomate maduro.
Aiolia ergueu os braços em sinal de rendição. Já desistira. Não tinha como ganhar aquela luta. Apontou o dedo em riste para o nariz de Milo.
— Você. Você está tentando me enlouquecer, é isso!
— Você perde a cabeça muito fácil, te enlouquecer não seria trabalho algum. — Milo mal pôde disfarçar a risada. — Você tem sais de banho? Sabonete líquido? Não me diga que você está escondendo bombas de banho em formato de leão…
Irritação e Aiolia de Leão são um péssimo combo. Ninguém teria vontade de ver essa bomba explodindo. Para a sorte de Milo, Aiolia permaneceu quietinho naquela famigerada banheira. Em boa parte porque chegara a uma conclusão um tanto desconfortável, e porque ainda estava em negação sobre o fato de sentir atração física por Milo de Escorpião.
— Milo. Apenas cale a boca por um minuto, porra!
Milo conduziu a situação, encaixando um Aiolia que protestava como um gato arisco, para o seu colo.
— Apenas fique quieto, Aiolia. — Despejou uma porção de shampoo na juba de Aiolia e esfregou, talvez com mais força do que deveria… Mas que culpa Milo tinha se Aiolia era tão irritante? Era merecido. Aspirou o perfume de ervas diversas. — Até que tem um cheiro bom.
— Quer dizer que você gosta do meu cheiro, Milo? — Provocou. Não sairia daquela batalha sem pelo menos arranhar Milo. Não mesmo. Já era ruim o suficiente que já estivesse praticamente derrotado.
— Do seu cheiro, sim. Do seu corpo, talvez. Mas eu odeio a sua personalidade.
Milo passara a fazer movimentos circulares mais suaves no couro cabeludo de Aiolia, que fechara os olhos e, quase inconscientemente, massageava as coxas de Milo como quem amassava pãozinho. Tentava não pensar que Aiolia parecia um gatinho carente naquele momento, mas a imagem mental era forte demais.
— Eu também te odeio, Milo.
— Olha bem para nós agora. Isso é tão pouco convincente, Aiolia…
Sentiu um calafrio quando os dedos de Milo desceram de seu pescoço até suas nádegas. Remexeu-se e sentiu algo… Duro?
— Milo.
— Aiolia.
Como Milo era capaz de não demonstrar nenhum constrangimento? Nadinha. Que cara de pau! Enquanto Aiolia só queria esconder a cara em algum lugar de tanta vergonha. Tentou remexer-se sem se levantar, até ficar frente a frente com Milo. Escondeu o rosto entre o ombro e o pescoço dele.
— Até que você também não cheira mal. Até porque está usando meu sabonete.
— Cala a boca, Aiolia.
Foi a vez de Aiolia rir. Finalmente. Uma pena que Aiolia sempre se precipitasse em suas ações, reações, conclusões e palavras, sem levar em consideração as consequências futuras de tudo.
— Ou o que? Vai calar minha boca com um beijo?
— Pode apostar que sim. Depois vou te fazer gemer com um orgasmo, Aiolia.
Quando achava que Milo não poderia escandalizá-lo ainda mais, ele vinha com uma dessas. Aiolia não queria se perguntar nem onde nem como Milo aprendera aquelas coisas, enquanto o próprio Aiolia só conseguia se constranger.
— Se você não estiver pronto, tudo bem. Não precisa ficar com essa cara. — Milo ria, enquanto despejava água sobre a cabeça de Aiolia. Até que ele ficava quase fofo daquele jeito.
— Você nem está vendo minha cara, Milo.
— Eu sei que você continua vermelhinho.
— Te odeio, Milo! — Uma frase repetida quase ao ponto da exaustão. Estava mais do que claro que Aiolia tentava se convencer de seu ódio por Milo. Sem sucesso.
Milo avançou para a boca de Aiolia. No lugar de beijá-la, no entanto, acabou por morder os lábios do leonino.
— Isso dói, caralho!
— Aiolia… Você por acaso percebeu que seus palavrões podem ser muito mal interpretados? Quero dizer, você está pedindo por um caralho, ou oferecendo um?
— Gosto mais de você quando você está calado. — E isto poderia resumir aquele dia, ou todas as vezes em que Aiolia e Milo se topavam, mas nenhum dos dois se contentaria se não levassem as coisas adiante.
Se eles sabiam quem tomou a iniciativa primeiro? Ainda era uma pergunta sem resposta, estavam inebriados demais pelo desejo para se lembrarem desse detalhe. Passariam o resto da vida um jogando a “culpa” no outro.
O fato é que se beijaram. Trocaram mordidas e unhadas — as de Milo eram muito mais profundas, aquele ridículo — que deixariam marcas por dias e dias.
Exploraram o corpo um do outro, perdendo aos poucos os pudores, libertando-se gradualmente de concepções sobre o mundo e sobre eles mesmos.
Eram livres, naquele momento. Livres para experimentarem, para descobrirem, para se abrirem um ao outro sem preocupações. Livres para andarem, nus e respingando água, até o quarto.
Trocaram provocações, evidentemente, mas já estavam com os corpos cansados demais para que se prolongassem. Milo chegava a bocejar.
— Não sabia que isso ia me dar tanto sono. — Confessou, enquanto Aiolia guiava seus passos trôpegos até a cama. — Parece até que tomei mesmo um porre.
— E quem nos garante que não tenha tomado um porre, Milo? — Aiolia farejou. Como se ele fosse encontrar algum sinal do cheiro de álcool depois de tudo.
Milo respondeu-lhe com uma mordida no ombro. Aiolia protestou dando-lhe um puxão de cabelo. Um brilho vitorioso passou pelos olhos de Milo.
— Eu não disse que ia te calar e depois te fazer gemer, Aiolia?
— Você tem palavra. Isso eu tenho que respeitar em você. Isso, e seu rabo de escorpião. — Aiolia deu-lhe um tapa quase de leve (porque não havia nada que fosse de fato leve quando aqueles dois se juntavam) no traseiro de Milo.
Já era um grande passo para afastá-los do ódio mútuo que alegavam sentir. Não admitiriam que gostavam da companhia um do outro, porém. Não tão cedo. Por enquanto, ficariam com poderiam se aturar, se estivessem calados. Ou ocupados demais deixando marcas no corpo alheio.
Fale com o autor