a única coisa que ele deixou

foi uma carta de amor

onde ele dizia ser

armagurado pela vida

chorava segredos, engolia vômitos

ele tinha um suicídio diário

caixas de remédio espelhadas pela mesa

todas de tarja preta

bebidas, cigarros, fotos nos noticiários

sabia que a morte andava ao seu lado

mas não queria aguardar o tempo de ela lhe pegar

só por hoje, ele não queria mais sofrer

mal sabia que ele que isso duraria para sempre

afinal, todo suicida costuma acreditar na vida após a morte

apreciava uma boa música, curtia um bom cigarro

diziam que ele não tinha amigos

mas ele tinha, afinal

as tragadas de cigarro eram sua companhia

assim como a música ouvida

ele costumava andar ao contrário de onde a multidão estava indo

pensava nos homens de bem, mulheres de salto alto. seus egos inflados

suas rotinas rotineiras. Tão medíocres, como conseguiam encontrar a felicidade? sem um excesso de loucura?

ele percebia o abismo entre ele e as outras pessoas

que encontravam a felicidade

onde ele não conseguia encontrar

seus amigos foram se afastando

e a vontade de não ficar aqui também.

Reiniciar cada dia era um processo longo e doloroso

tudo que ele tinha, cabia no seu bolso

afinal,

a vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.