REvolution: O Futuro
6 Capítulo 3
Notas iniciais
Bass ainda se lembra de lá. A cidadezinha pacata e escondida entre morros pontudos, com um povo calmo mas forte. Do bar onde ele um dia roubou sua primeira cerveja e junto de Miles se regozijou com o gosto amargo. A escola na esquina, onde todos se conheciam e brincavam juntos. Da casa amarela no final da rua e o jardim extenso com rosas de todas as cores, as plantas preferidas de sua mãe, colocadas ali com todo o esmero por seu pai. Do cheiro de frango assado, do frio cortante no inverno, e tantas outras.
A maioria das memórias são felizes, uma época onde nada podia feri-lo, e tudo era possível.
Mas uma faz a bile subir para a sua boca, o horror tomar conta do seu ser. A imagem de duas meninas, crianças, uma de rabo de cavalo e outra de cabelo solto ambas com olhos vidrados. Mortas. Sua mãe junto delas, seus braços abertos como se pudesse protegê-las da batida fatal. Seu pai a alguns metros, seu rosto transfigurado, e seu corpo todo torto, quebrado. A imagem é nítida de um modo que nada consegue se comparar. Ele não se lembra muito das próximas horas.
O carro negro se aproxima devagar, dando-lhe tempo para esconder ou fugir. Ele continua no mesmo lugar, e aperta um pouco a garrafa, tentando fazer a dor física diminuir a emocional. Miles se aproxima, seus olhos brilhando com algo que ele não consegue identificar e diz “Estava procurando por você.”
Sua voz está rouca como se tivesse gritado com alguém. “O que está fazendo?”
Bass não responde e ele sabe que Miles provavelmente não precisa ouvir nada, eles sempre conseguiram se entender com micro expressões, um piscar de olhos dizendo mais do que palavras, mas está tudo tão confuso que ele mal consegue encarar seu melhor amigo. E portanto encara seus sapatos, botas negras como seu carro, sujas mas confortáveis.
“Estava tendo…” ele tenta, desviando o olhar do sapato de Miles. “Um jantar em família.”
Miles olha para o lado, lambendo o beiço e dando um leve suspiro. “Está bem.” ele vira no lugar. “Levanta, Bass, vamos embora.”
Ele não desvia o olhar dos quatro túmulos, tudo o que restou da sua família, quatro tumbas que ele provavelmente nem poderá visitar com muita frequência defendendo povos com o qual mal pode se comunicar a quilômetros dali. E isso é como uma epifania. As bombas e terroristas que eles mataram e caçaram, tantas armadilhas e quase mortes. Tantos momentos em que pensou que morreria, em que desejou que pudesse mas que nunca se deixou levar. Tudo o que superou por todos aqueles anos naquele lugar.
Menos isso. Ele duvida que poderá algum dia superar isso.
“Sempre pensei que estaria morto a essa altura.” ele diz, tentando fazer Miles entender. “Faz sentido não é? Trabalho perigoso, duas missões no Iraque.”
Miles o olha, estudando sua expressão e finalmente se aproxima, sentando-se ao seu lado. Bass não se move, suas mãos trêmulas erguendo um pouco a garrafa tentando esconder a fraqueza que as tomou. “Mas meus parentes… Minhas irmãzinhas… Estavam indo ver Harry Potter. Um motorista bêbado os acertou e foram atirados ao chão.”
È como tirar veneno de uma ferida, doloroso mas necessário. Miles o encara e ele é o único cujo os olhos não refletem pena ou pesar, apenas uma aceitação fria com algumas camadas de dor. Ele bem que queria ser como ele, aceitar os desígnios da vida sem agonizar sobre eles.
Bass desvia o olhar.
“Como superar isso?”
Miles balançou a cabeça, seus olhos fixos na tumba de Angie. “Não tem como. Quero dizer, eu não sei.”
As palavras são como uma facada, um tiro bem no meio do seu peito. Miles foi sempre quem fez os planos, quem tem sempre uma saída para tudo, mas se nem mesmo ele tem uma resposta para essa agonia contínua e tremenda então ele está preso em uma gaiola de culpa e dor.
O frio do metal parece ainda mais convidativo.
“Devia ter sido eu.” ele repete, tentando convencer Miles. Tentando convencer-se.
“Qual é, já basta.” Miles diz. Sua voz, no entanto, é estranha, uma mistura de raiva, arrogância e um leve toque de dor. Ele pega a garrafa da sua mão, e Bass deixa.
Miles sabe que ele sempre fará tudo por ele. E esse momento não é exceção.
Bass ri baixo, mais parecido com um soluço dolorido e esconde seu rosto sob suas mãos . O cheiro de bebida ainda está impregnado nelas mas ele não se importa, não há mais ninguém ali. Ele começa a chorar, lágrimas caindo sem seu controle.
“Não me restou nada. Não tenho nada.” ele sussurrou. Sua mão esquerda agarrando seu cabelo com força, tentando controlar os soluços que pareciam matá-lo por dentro.
Miles deu de ombros e coçou seu pescoço. “Você tem a mim.”
Bass ergueu os olhos encarando o moreno, procurando sinais de mentira ou pena que possam ter provocado aquelas palavras. Miles sempre foi meio calejado, principalmente a ver com emoções, ele nunca se importou com isso, para ele elas apenas atrapalham e por isso ele sempre foi meio confuso quando tenta dizer algo sobre como se sente. Mas dessa vez a mensagem é clara, os olhos dele parecem camadas, cada uma recheada por amor e empatia. Bass riu, surpreso.
Mas então Miles continuou sua feição mais séria e se aproximando alguns centímetros como se a sua presença aumentasse a ênfase das suas palavras. “O que seria de mim sem você?”
Bass desviou o olhar, apertando o ferro ao ponto de quase se cortar. Ele gostaria de poder gritar, empurrar ou brigar com ele mas não pode, é nítido nos olhos castanhos a vontade de ajudar.
Além da loucura que corre precariamente escondida no corpo magro, controlada por pouco com abraços e palavras irritadas.
“Sempre fomos irmãos, desde crianças.” ele disse.
E o que se tem para negar? A maior parte das suas memórias tem a presença de Miles, correndo e aprendendo um com outro. “Sim.” ele respondeu, quase decidido.
“Bass, me entrega a arma…”
A voz dele é um sussurro penoso, fazendo Bass virar a cabeça rapidamente. Como ele a viu? Miles não o olhou, suas mãos escondidas no bolso da calça e seus ombros erguido. Um sinal claro de que está nervoso, seu coração doí em saber que o preocupou a tal ponto que chega a ser nítido.
“Antes que faça alguma besteira.” ele continuou fechando os olhos.
Bass observou a pistola negra escondida nas suas pernas cruzadas. É só isso, um tiro e ele nunca mais terá que sentir tal dor, ele sabe que Miles sobreviverá o moreno sempre foi a pessoa mais forte que conheceu. Mas o barulho da respiração compassada dele o faz lembrar de como os dois se apoiam. De algum modo ao crescerem juntos eles se adequaram a corrigir os defeitos um do outro. Enquanto Miles é frio como gelo, Bass corre com as suas emoções à flor da pele para qualquer um ler. Bass não gosta de matar, preferindo salvar ou incapacitar as pessoas enquanto Miles parece quase florescer ao atirar em um terrorista.
Dois lados de uma mesma moeda.
E se ele se for, Miles não terá ninguém para protegê-lo.
Bass colocou a arma na sua mão, tentando dizer que não o deixaria. È a única família que lhe resta e ele não a deixará escorrer pelas suas mãos. Um baque surdo e Miles se aproximou, a arma entre as suas pernas mas o calor do seu corpo acalmando-o, colocou a mão no seu ombro em apoio implicito
Ele não diz nada mas sua presença já diz tudo que precisa…
O calor de uma pequena mão sob a sua o faz piscar, dissipando os últimos resquícios daquela noite fatídica.
“Da?” seu dono perguntou baixinho.
Bass sorriu e se agachou, puxando o garoto para perto e absorvendo seu cheiro único. “Connor?” ele imitou.
O menino franziu o cenho tentando parecer ameaçador. Bass tem a ligeira impressão que ele aprendeu isso com um certo moreno irritadiço.
“Eu já sou adulto.” ele disse, claramente tentando não fazer beiço. “Mi disse.”
Bass assentiu com severidade. “Claro que é. Por isso nos estamos voltando para Jasper sem ele.”
Connor sorriu satisfeito. “Eu vou proteger a gente, e vou contar vantagem pro Danny.”
“Claro que vai.”
Bass correu a mão pelo cabelo castanho de Connor, tentando manter na memória sua textura e cor. Ele não quer se separar do filho mas não tem escolha. O único jeito de ele sobreviver é não ter nenhuma ligação com a República Monroe.
O garoto logo se entedia e corre na frente, explorando a estrada de terra batida e seus terrenos próximo. Bass não se preocupa muito com sua segurança, Miles lhe disse que todo o caminho para Jasper foi limpo e rechecado um milhão de vezes. E as poucas vezes que fez viagem isso foi comprovado. É totalmente seguro.
Ele só precisa convencer Jason disso.
O rapaz moreno de cabelo negro raspado rente, morde o polegar toda vez que Connor desaparece por trás de alguma árvore. E ele quase o viu gritar seu nome algumas vezes quando minutos se passaram sem sua presença.
“Está tudo bem, Jason. Aqui está seguro.” ele tentou acalmá-lo.
“Com todo o respeito, senhor, Miles me encarregou da proteção de vocês dois e eu não estou a fim de deixá-lo na mão. Você sabe bem como ele é possessivo.”
Bass riu. Olhando para trás bem em tempo de ver o olhar irritado e desapontado de Tom. Ele suspirou baixinho. Não que seja da sua conta como o homem cria seu filho mas ele teme o dia em que o rapaz morrer e o Sargento perceber o erro ao se afastar dele.
“Senhor?” Jason chamou o retirando dos seus pensamentos. “Quanto tempo falta?”
“Pouco, alguns minutos… ou segundos.” ele diz ao ver a placa de boas vindas.
A entrada é a mesma que ele lembra deixar anos atrás. Casas com cercas brancas dos dois lados da rua de pedra e jardins extensos por todo o lado, a única diferença são os carros destruídos e transformados em hortas, além dos castiçais de velas. Connor feliz por finalmente ter chegado entra correndo, agarrando a perna de alguns que passa por ali, e rindo ao receber um afago, logo passando para outro.
Bass entra na cidade com uma recepção fria, no mínimo. As pessoas sabem o que ele fez e apesar do medo isso não as impede de julgar. Connor os guia pelas ruas, dizendo os nomes das pessoas e das ruas cumprimentando alguns e mostrando a língua para outros.
Logo, antes que Bass possa se acostumar com a ideia de não ter a pequena bolha de energia por perto eles chegam a uma casa rosa, que ele ainda se lembra, pertence a Emma. Connor pula os três degraus e os espera impaciente.
Bass agarra o ombro do menino que o olha confuso, mas ele não tenta acalmá-lo ou explicar seu olhar gélido. Sem se dar tempo para pensar melhor ele bate na porta.
Os minutos passam agonizantes mas logo um homem de cabelo castanho e olhos cansados o encara.
“Ei,” ele diz claramente bêbado. “Você é o pirralho da Emma. Você não tinha fugido para ficar junto do seu tio?”
“Oi, Valent.” Connor cumprimentou, mas se escondeu atrás de Bass.
Algo não está certo.
Ele ainda se lembra o dia em que Miles apareceu na cidade carregando um garoto ferido. Ele parecia febril e sempre gritava quando alguém o tocava chamando Miles que mais do que rapidamente retirava a pessoa com ameaças de morte, que geralmente não eram só isso. Logo, Bass descobriu o porque, o menino moreno que mais parecia com seu General do que tudo era seu filho. Miles não lhe disse onde o achou e ele havia pensado pelo modo como seus olhos brilharam com raiva que tinha matado o responsável.
Mas o jeito como Connor se esconde atrás dele e segura a bainha da sua camisa é o resquício de uma lembrança antiga. Ele fez isso por anos com Miles e ele quando tinha medo de algo.
Bass tentou ignorar a raiva correndo como lava por suas veias. Ele não pode agir sem pensar. Não é só sua vida que corre perigo.
“Emma está?” Bass perguntou, escondendo Connor ainda mais e erguendo os ombros. “Eu preciso muito falar com ela.”
Valent sorriu mostrando os dentes. “Ela morreu a alguns anos. Teve uma pneumonia grave e você sabe como é hoje em dia. Qualquer coisa além de uma gripe leve e as pessoas morrem.”
Alguns anos atrás. Foi quando Miles apareceu com Connor.
“Há quantos anos?” Bass perguntou sorrindo.
“Cinco.”
Bass retirou a espada da sua bainha e enfiou no peito do homem que só teve tempo de o olhar assustado e cair morto. Ele ouviu Jason erguer a pistola afastando alguns espectadores nervosos e Tom gritar que está tudo bem, que ele era perigoso. Connor olha a cena, no entanto, com nojo.
Bass se abaixa perto dele, tampando o homem com olhos vazios e sangue pingando dos lábios. “Está tudo bem. Você não precisa voltar.”
Connor sorriu e o abraçou o mais forte que pode.
Bass fez uma promessa e se tem algo que ele sempre cumpre é isso. Seu filho não vai ficar aqui e sofrer por algo que nunca foi sua culpa.
“Vamos.” ele disse, Jason e Tom o olharam com perguntas nos olhos. “Está na hora de conseguir um exército para acabar com esses malditos patriotas.”
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