RE - FUNDAÇÃO

9 08 - A Origem De Lith


Nada... Era exatamente esse estereótipo usado por Lith quando se referia a Gustavo. O desprezava, ele era mais um ser humano qualquer, e de fato era, Lith só não contara com o 'efeito surpresa' de que os seres humanos possuem vontades e anseios inexplicáveis, voláteis, que são capazes de desencadear um grito ou um sussurro avassalador.

O que você é?! — Ecoou a voz em meio ao nada.

Era de noite, o 63º dia estava por começar, Gustavo (Lith) rolava pelo solo encharcado resulto de uma noite de fortes tormentas. A íris escurecida, dessa vez, presente no olho esquerdo dilatava-se com ódio, finalmente Gustavo começava a acionar o seu lado adormecido.

Desde o dia dos sequestros um nome soava incansavelmente em sua mente... Amon.

Amon era a representação do sol na mitologia egípcia, a sua parte contrária, sua dicotomia. Uma sombra ou uma escuridão não é capaz de continuar estável após o aparecimento do sol. Lith e Amon... Sombra e sol... Uma das mais puras contrariedades.

Fala! Me diz quem é você! Me diz! — Gustavo Arranhara sua parte esquerda do rosto enquanto rolava em cima de pequenas pedras pontiagudas.

Lith cochichou ironicamente "Sou seu aliado..." e riu, um riso diabólico, daqueles possíveis de estremecer uma alma.

...

Uma semana antes...

Fala logo Will! — Impacientemente Marcy balançara seus braços.

Com o livro apoiado em suas mãos, Will disse-lhes:

Lilith...

A imagem de uma mulher nua, envolvida por uma serpente grotesca, assombrou-lhes.

O lado negro da lua... — Liz completou sem notar.

...

Caminhou durante horas sem um rumo certo, não queria dar a oportunidade de Lith machucar mais alguma das pessoas que amava. Houve momentos em que desviava o percurso, e saia da rota 'traçada'.

Ao amanhecer sua íris voltou ao normal, seu olho esquerdo novamente assumira a coloração castanho-escura e devagar se adaptava aos raios do recém-nascido sol.

Ao notar que tudo havia voltado ao normal resolveu prosseguir de volta pra casa. Só um desejo vinha em sua mente... Dormir.

Antes de estirar-se na cama, tomou um demorado banho de água quente, o que era estranho já que não tinha o hábito de ligar o chuveiro elétrico. Apenas sentia a necessidade de aquecer o corpo. Quando Lith assumia o controle tudo se tornava frio, não um frio qualquer, mas sim um frio intenso, incessante, cruel.

Ao terminar deitou-se na cama, e dormiu por 10 longas horas.

...

Will pôs o livro sob a mesa, e começou a lê-lo. Em seus sonhos Gustavo teve acesso a recordações obscuras da parte de Lith, ninguém além dele sabia sobre sua verdadeira origem, mas como todo sistema por definição tem falhas com ele não fora diferente, sua falha foi o fortalecimento d'alma de seu hóspede, a brecha perfeita de poder conhecer a verdadeira face do inimigo.

<< Lilitu, Lilu, Ardat Lili e Lamaschtu... Lilith

De acordo com a lenda hebraica, Lilith teria sido formada assim como o homem à partir do barro, logo após a formação deste. Por esse motivo ela não teria aceitado uma posição inferior em relação ao homem, pois sendo criada da mesma forma, exigia os mesmos direitos, não aceitou uma posição submissa e assim desentendeu-se com Adão. No primeiro ato sexual Lilith não aceitou ficar por baixo, aguentando o peso do corpo do companheiro e exigiu ter também o direito ao gozo e ao prazer sexual. Como não foi atendida em seus anseios ela se revolta e pronuncia o nome “inefável” que lhe deu asas por meio das quais fugiu do Jardim do Éden. Assim Lilith abandonou Adão com quem não se entendia e foi para as margens do Mar Vermelho. Adão ficou só e reclamando, tendo medo da escuridão opressora. Daí haver uma relação entre Lilith e a Lua Negra, a escuridão da noite, por isso a associação dela com a coruja, o pássaro noturno. Segundo a tradição talmúdica, Lilith é a “Rainha do Mal”, a “Mãe dos Demônios” e a “Lua Negra”.

Deus vendo o desespero de Adão enviou três anjos, Semangelaf, Sanvi e Sansanvi, para trazê-la de volta ao Éden, mas ela recusou-se a aceitar tal proposta. Dessa forma a fuga converteu-se em expulsão.

Para substituir Lilith é criada Eva, mulher submissa, feita não de barro, mas de uma costela de Adão. >>

Então Llith nos sequestrou? — Verena ansiou por uma resposta.

Will posicionou o livro em uma prateleira velha. Nem ele e nem os demais tinha a convicção certa de que o rapto fora obra da primeira mulher de Adão.

Acho improvável — Confiante palpitou Liz.

Por quê? Você sabe de alguma coisa? — Amber a intimou.

Não. Só penso que a mãe divina saberia e acima disso nos avisaria caso estaríamos por encontrar a Lilith — Reflexionou.

Will ficara calado em gesto pensativo. Ann e Marcy eram os que possuíam menos experiência e aprendizado em relação aos outros, e por um tipo de respeito resolveram apenas ouvir o que seus companheiros dissessem.

...

10 perturbantes horas preso em um único sonho. Vira sem saber como o iniciar da criação, coisa por coisa, de grão a galáxias.

Ela percorria os campos celestes regojizando da natureza em plenos pulmões, cantarolando sons calmos e animalescos, sensíveis... Do outro lado da relva Adão, o primeiro homem.

Te amo — Entregou uma flor de pétalas rosadas.

Pegara à rosa, e num tom dócil beijou-lhe na altura de sua bochecha.

Uma confusão de nuvens e borrões cinza se entre cruzavam, eram como frequências de TV que procuravam sintonizar algum canal.

Numa outra situação vira a mesma mulher ter recebido por meio de uma palavra um par de asas negras. Logo após observou a mesma sobrevoar o jardim do éden.

Teve acesso a um encontro de Deus com três anjos (Semangelaf, Sanvi e Sansanvi), ouvira e vira os mesmos anjos irem de encontro a Lilith, esta próxima ao Mar Vermelho. Já não era a mesma, a mulher submissa de antes já não existia, Lilith era outra, a lua negra. Ali nas margens do rio recusou-se voltar para o Éden com os anjos, e começara a fazer uma série de atrocidades contra bebês recém-nascidos, mulheres grávidas e homens durante o período de sono.

Novamente as situações criaram chiados e borrões cinza, dessa vez mais intensamente. Parou-se de pé ao lado de uma cama.

Deitada em trabalho de parto gritava ansiando por ajuda. Seu marido era um pescador, e ela era uma humilde comerciante mal remunerada. Bastante supersticiosa colocara cerca de três amuletos na cabeceira da cama, neles estavam grifados o nome dos três anjos enviados por Deus em busca da esposa de Adão.

Viu o mundo pela primeira vez inocentemente, chorara como de costume, e desejara involuntariamente o calor materno. Sua mãe acariciava-lhe o rosto com bastante delicadeza, dava-lhe o amor mais puro que tinha. O intruso nem a mulher perceberam a chegada de uma obscura figura alada aproximar-se, era Lilith.

Ambos esbugalharam seus olhos, ambos não puderam impedir a diabólica Lilitu de roubar o bebê. Gustavo gritava com o intuito de que pudesse ser ouvido, como não pode correu, mas não adiantou Lilitu já não estava mais no mesmo ambiente em que eles.

Vira o marido chegar desesperado ao quarto, sem entender o que tinha acontecido. Queria poder ajudar o casal, mudar aquela situação, sentia que tudo aquilo era a chave da origem de Lith. E era.

Acordou dando incansáveis e longos suspiros, e encharcado de suor.

Levantou-se zonzo e ao ir ao banheiro se deparou com um espelho.

Já sei o que você é — Falara provocativo.

"Diga!" Lith soou imperativo.

Ao ver sua face refletida no espelho arriscou:

O filho de Lilith... — Lith queimou-se de ódio — O bebê roubado.

Mantera-se quieto. Gustavo quase tinha se desfeito de seu palpite, mas antes resolvera esperar por alguma contestação.

"Fim dos mistérios..." Disse.