R:A.I.: Raichuh: Adventures InTheEnd
1 O encapuzado nada humano.
Notas iniciais
Oh. Hm. É. Então. Vou contar o que se passa.
Acho que tenho 23 anos. Não passa de 25.
Desconheço sobre meus antecessores... ou... família.
Nem... nacionalidade... ou sei lá.
Não preciso conhecer, depois de tudo.
Bom, nome? nome... nome... Eu tenho um papel.
Nem... nacionalidade... ou sei lá.
Então.
Quando percebi... ou quando acordei... Na verdade, quando eu comecei a existir, pelo que me lembro — Estava num suporte de gravetos e pedaços de madeiras amarrados com palha. O suficiente para servir de barco para um bebê por um tempo. Acordei num mar aberto, mas sem nada perigoso. Pelo que vi, vejo que meus supostos pais... não. As pessoas que me colocaram ali calcularam isso. Já estava quase chegando na praia naquele momento. E depois, atraí um público, obviamente. É o que sei sobre meu passado antes de chegar naquela ilha. Depois de ter atraído povo, subitamente, adormeci. Já me impressiono por ter lembranças vagas disso. Aliás, pelo que me contaram, tinha 3 coisas naquele suporte: uma cartola; uma capa; um bilhete. Já, já conto sobre isso.
Famílias me adotaram. É claro, ninguém pôde se estabilizar comigo. Era como uma maldição mudando de pessoa em pessoa. Eu não parecia uma criança normal, de qualquer modo. Não, não. Não fui maltratado. As pessoas eram boas comigo. O problema é que eu não queria isso. Era como um senso, instinto, teimosia, que veio de sangue. Já penso como meus antepassados são escrotos. Mas as famílias, eu não queria pertencer a elas. Não queria ficar com elas. Era tudo tão confuso para mim. E ainda é. Acredita que eu desde que cheguei na beira da praia até os meus 23 anos atuais, eu nunca fiquei de vez com alguém para me cuidar?
Fugi... Fugi... Fugi... Sempre fugi, às vezes, semanas depois de me adotarem, às veze, dias. Eu fiquei até um pouco conhecido como pestinha fujão. É isso. Por anos apenas fugi. Não quer dizer que eu não obtera respeito ou até amor por alguma família. Como eu já disse, era apenas um senso. Muitas vezes, eu até chorei por ter fugido. E foi assim que eu me formei como pessoa.
Nunca tive interesse em descobrir nada de meu passado. Não penso assim. Se isso aconteceu, aconteceu. O que eu tenho que fazer mesmo é seguir e deixar a vida decidir como eu vou ficar. Ou esperar a vida me mostrar algo. Afinal, pareço um distúrbio no mundo. Apareci sem nenhuma razão. Nenhum rastro.
E, recentemente, depois de tanto fugir de outras cidades, estabilizei-me em uma chamada 切腹('Felicidade' em japonês no caso). Também tem outros nomes, como 腹切り('Alegria' em japonês no caso); 自害('Viver' em japonês no caso); 自杀('Diversão' em japonês no caso). Aliás, a cidade é de uma ilha; Uma ilha pacata e monótona. Segurada na maioria das vezes por pontes, madeira, e terra. A cultura daqui se baseia em escrita, teatro, poesias, e essas coisas; criatividade em geral. Nada que não se veja de costume na época de Shakespeare.
Faz 5 anos que habito em 切腹, ou seja, desde que eu tinha 18. Morei como um cidadão comum, que, por sinal, não tinha moradia e era quase um mendigo. Mas, como nas outras cidades, me sustentei com minhas habilidades marítimas. Desde que cheguei, trabalho com encomendas por navegação, cuidar de barcos... missões pelo mar... tudo sobre barcos, navios, água, e mar. Derivados disso, sabe?
Ganhava totalmente a vida com isso. E eu era tão profissional nas tarefas – humildade à parte — Que cansou. Mas até que sou conhecido por aqui. Não é como se eu fosse amigo de todos... Bem... como posso dizer? Não sou inimigo de ninguém.
Sobre os itens do suporte; O bilhete. Pequeno pedaço de folha amassado e rasgado normal. Com uma caneta velha, parecia estar escrito o que acharam que seria meu nome: Yoiki Japan. Talvez Yoiki seria meu nome e Japan meu sobrenome. Belo e formoso. Então, todos precisam de um nome oficial. Esse foi o meu.
Depois de um tempo, percebi uma coisa. Até achei que estavam me enganando sobre meu sobrenome. Japan era um lugar. Meu deus. O lugar. Sonho em ir para lá. Para mim, é o lugar que mais me adequa. Sério. Nem só de maneira cultural ou geográfico, tudo em geral. Eu conheço poucos lugares desse mundo devido à tecnologia pacata da minha cidade. Ganho conhecimento com minhas próprias conclusões. Crio meus próprios mapas, com minhas próprias navegações. É. Também, essa cidade foi feita por japoneses. Então, por causa disso, tem muitos vestígios históricos e culturais do Japão, histórias sobre os outros lugares. Quem sabe eu tenho o sobrenome de um dos fundadores do lugar. Mas nunca se sabe, né?
Na nossa tecnologia, é muito difícil atravessar mares demais, e – de novo, humildade à parte – eu sou o único que conseguiria fazer isso. Histórias de pescadores tem que vir de algum lugar, não é? Pois é, 70% vem de mim. Eu acho isso magnífico, mesmo contando com o fato de eu ter falado que a minha vida é um tédio.
O que falta? Minha aparência?
Cabelos grandes bagunçados verde-escuro; Tenho aproximadamente 64 quilos e 1,76 metros. Branco, graças a deus. Nem tenho barba direito. Tenho um formato de cabeça... quadrado. Tenho olhos pretos focados predominantes. Ah sim, tenho boca, nariz, duas orelhas, dois olhos, e cabelo. Uau, você tem boca, nariz, duas orelhas, dois olhos, e cabelo? Eu tenho boca, nariz, duas orelhas, dois olhos, e cabelo. Morra de inveja de minha boca, nariz, duas orelhas, dois olhos, e cabelo! Haha!
Outra coisa sobre os itens do suporte. Além do bilhete, era uma cartola azul com uma fita branca, bem grande, usada mas bem conservada. Não acho que isso tenha sido passado de algum familiar, mesmo que seja uma das únicas explicações. É algo que serve completamente em mim, se adequa direitinho a minha cabeça, tanto quanto no meu gosto. Ele só passou a servir direito em mim agora. Na época dos 20 anos mesmo. Idem à capa. Junto com o bilhete, cartola, veio uma capa combinada com a cor do chapéu. Perfeitamente combinada. Totalmente azul, grande, muito, muito, grande e larga. Rasgada também. Ela tinha um botão dourado claro de junta. E também com uma sandália amarela simples emprestada/dada/roubada, e uma bermuda verde-escuro, quase da cor dos meus cabelos, também emprestada/dada/roubada. Isso cria minha imagem.

Então, bem, hoje não vinha a surpreender. Dia simples, claro, temperado. Moro em uma cabana que mal cuido ou fico. Ela é toda feita de madeira e tem mais ou menos 13 metros de comprimento e 10 de altura. Palha no telhado, Porta cheia de farpas, e a maior parte da base é feita em troncos. Aliás, eu que fiz. Também construo coisas. Sou bem multiuso, diga-se de passagem. E, ela quase não serve para nada, porque eu fico quase o dia todo no meu barco. Só não durmo lá porque tenho medo de que um lendário leviatã me coma de noite.
Hoje, terça-feira, dia de trabalho; as pessoas não tinham motivo para embarcar. Eu não tinha do quê reclamar, também. Curiosidade: Ganho cerca de nove mil por mês. Dá uma boa economia, afinal, sou tão materialista e simbólico que ainda uso roupas rasgadas, sequer compro algo melhor para me cobrir nos dias de frio.
Vamos chamar de encapuzado o tal. Esteve me observando faz um tempo. Sua aparência não me familiarizava mais que a de um mendigo, embora não mostrasse nem 5% do corpo. É. Ele tinha um sobretudo – Digo... Aquilo não é um sobretudo, é um pedaço de pano enorme amarronzado que vem do último fio de cabelo dele até a ponta da unha do dedão do pé. Na verdade... Uma capa? Sei lá. Parecia mais um edredom empoeirado e gigante. Por isso, o que dava pra ver era só um buraco onde tem seus olhos e nariz. Eu nem via os pés dele batendo no chão, parecia que ele flutuava. E, não, os olhos arregalados aterrorizantes bizarros medonhos viciantes dele não me davam arrepios. Tô de boa. Aliás, também tinha uns dois fios de cabelo vermelho escapando no buraco da capa. Enfim, uma hora finalmente tomou ação:
— Leve-me – Pediu.
— Para...? – Perguntei.
— Frente – Firme e conclusivo, afirmou. Sem nada mais. Eu estava esperando algo, mas, nem ele, nem eu, continuamos. É, é. Eu deixei um mendigo que não mostra nem um décimo dele, com um pano gigante marrom sujo coberto, e que ninguém nas redondeza viu, e que possivelmente não tem nada a oferecer, ir num barco sozinho comigo sem destino algum, e apenas seguindo para frente. Ah, vai. Você sabe. Trabalho é trabalho.
Não usei o meu barco grande e precioso. Peguei uma canoa motorizada de 7 metros, cor vinda da madeira, que dá pra ocupar mais ou menos de 7 pessoas. É o que dá. Ainda quando armei a canoa, fiquei perguntando para onde ele quer ir de verdade. Mas me irritava o fato de que ele só insistia que era em frente. Ainda mais com aquela voz rouca estúpida. Argh. Inclusive olhei no mapa, e... até onde sei, não tem muito destinatário a frente. Ele dissera que iria falar quando quisesse parar, então pelo menos eu tinha algo.
A canoa avançou, e avançou. Sem nada mais se falando no meio do caminho... Quase não acontecia nada. No máximo alguns desvios de pedras meus. O problema era que a viagem estava demorando, tipo, mais de 8 horas. Já era de noite. Eu não sabia se tinha mapas suficientes para o lugar que estava e ia chegar. E o cara não avisava pra parar! Meu deus. O que ele estava fazendo? Até jurei para ele que ele ia me dar no mínimo 2000 por aquela viagem. Ele concordou. Na décima hora de viagem, o sono atrapalhava tudo. Por um momento pensara que ia desmaiar na canoa e não controlar mais nada, viajando sem rumo a frente pelo mar. E... Bem... Por um momento... isso aconteceu.
Você não percebe quando dorme, tá bem? Podia ser uma armadilha, o cara podia ter tudo planejado, ter roubado tudo que eu tinha. Mas eu confiei nele. Sem motivo aparente, mas confiei. Enfim, depois de umas 3 horas e meio, acordei. Vamos por partes. O mais incrível foi que não me aconteceu nada. O mais bizarro foi que aconteceu tudo com o resto do mundo. Pelo que me lembro da pré-soneca, o encapuzado continuava a mesma coisa. Mesmo lugar, mesma posição, mesma cara. Até a alma dele devia estar dormente àquela altura. Ok, e o resto do mundo. Estava escuro indo para claro, tipo amanhecer. Havia névoa por todo o canto. Eu estava ferrado. Não fazia ideia de onde eu estava. Parecia que tudo tava desfocado fora da canoa, de tanta névoa. Eu fiquei praticamente desesperado. Até berrei para o encapuzado. Perguntei onde estávamos, mesmo sabendo que não tinha utilidade. Mas, cara, ele só dizia que era pra continuar seguindo em frente! Mas, do que adianta, afinal? Eu já tinha me perdido pelos mares. Se tentasse voltar, ia ser pior.
E, reviravoltas. A névoa só aumentava. Aumentava, aumentava, aumentava. Eu sentia que ia me sufocar com os olhos. Até que, não durando nem 15 minutos depois de eu ter acordado, ele avisou:
— Chegou. Obrigado.
Puta que pariu, vai tomar no cu. Caralho, vai se foder. Que porra é essa? O que à sincera foda? Meu deus, que merda. Toma no seu cu, desgraçado. Rapariga. Filha da putinha de três negões com caralhos gigantescos. Piru. Mijo. Vagina. Caralho. Caralho. Sério. Caralho. Porra. Buceta. Cara. Merda. Cara. Porra. Imbecil. Vai tomar no cu. Nem fodendo! To cagando e andando! Foda-se. Puta merda, cara. Vai pra puta que pariu. Corno. Enfia no cu. Fudeu de vez. Cacete. Vai tomar no seu cu.
E então, num piscar de momentos, aconteceu.
A canoa bateu. Tipo, bateu bem forte. Em algo que eu nem tinha visto. Não é culpa da névoa. Aquilo não existia. A mesma coisa que senti com a névoa: algo que não devia estar ali. Desde que acordei, o ambiente estranhou. Até porque, eu tenho todos os mapas possíveis decorados na minha mente. Este lugar não existe, pode ter certeza disso. Foi numa grande e estendida — onde eu não conseguia nem ver o final — ilha. Ilha não, parecida um continente. Mas é impossível. Não tem como, tá bem? Isso não dá. Sem chance. Ã-an. No way. Nunquinha. Bullshit.
De qualquer modo, a canoa partira ao meio, afinal, já que eu estava dormindo, não tive chance de controlar o modo de navegação da canoa, então o choque foi incontrolado. Ahm, é claro que eu estava desesperado. Sou estranho, mas sou humano. E... novidade: o encapuzado agiu de maneira inumana de novo. Uau. Agora está rindo e sorrindo, embora tente enganar, como um vilão diabólico. Rindo e sorrindo enquanto está preste a afundar no mar. Que raiva, esse cara parece a ressureição anticristo. Que horror.
A canoa já estava enchendo, e, consequentemente, afundando. Eu não sabia o que fazer, então, tentei, numa tentativa impulsiva, subir na ilha, porque era a única coisa possível para sair daquela situação. Com a posição da ilha de onde a canoa estava, uh, dificultava. Era um monte de pedras e montes. Pelo que eu conseguia ver, a possível chegada era em 15 metros de altura de montes. Eu diria que seria fácil, mas, bom... observação: não sou bom em pressão. No desespero, não via onde pegar, ou pisar, quebrava as rochas onde dava para segurar. O meu cérebro fez parecer que são 500 metros. Parecia que eu estava subindo num Braquiossauro. Ah é, também tem o fato de que eu uso uma sandália mequetrefe. As pedras eram muito quebradiças. E ainda voava areia e caia pedaços de pedras no meu rosto. Mas, não demorou tanto para eu subir. Afinal, não eram 500 metros de verdade, eram 15 mesmo.
Cheguei lá encima, cheio de suor, manchado e riscado do marrom das pedras dali. O que tinha no cenário não é nada mais que um terreno verde de grama sadio totalmente plano. Com algumas árvores, pedras, ou arbustos. Também não parecia ter nenhuma casa ou pessoa rodeando por lá, pelo menos até onde eu vi. A nevoa ainda estava lá, embora esteja abaixada naquele lugar. Eu dei meia-volta apenas para prestar atenção bem no lugar que eu estava, já que eu tinha praticamente decorado todo o geográfico perto de 切腹, ou pelo menos até onde dava pra navegar. Realmente não identifiquei nada, não só pela névoa, que estava cessando, mas realmente era tudo muito estranho, principalmente essa ilha.
Também cheguei a olhar a canoa, que havia afundado e sobrado alguns pedaços de madeira, nada suficiente para alguém boiar. O encapuzado já não estava mais lá. Com certeza dava para saber se ele havia afundado. Ele simplesmente sumira. Normal, outra coisa anormal vinda dele. Eu seriamente não queria saber mais dele, só andar em frente, mas quando eu me virei para frente, ele estava lá. Com aqueles olhos arregalados e firmes, eu me assustei tanto que quase caí da ilha. Eu fiquei com tanta raiva dessas bizarrices dele, que gritei.
— Fale! O que você quer?
— Você já fez o que eu quis, me levou para cá. – Respondeu, no mesmo sorriso enfadonho de sempre.
— Então... – Eu estava com veias saltando. – Qual é seu nome?
Ele riu muito, muito, alto, que nem uma bruxa. A resposta dele depois de ter rido tão alto, e com um sorriso mais aterrorizante ainda, foi:
— Evil. – Depois disso, uma névoa que estava cessando se ajustou a ele e o fez desaparecer. É isso. Eu tentei até dar um soco nele desaparecendo pela névoa, mas só soquei o ar.
Conclusão: Por causa de um maluco mágico fiquei preso numa ilha inabitada, sem saber que lugar estou, ou se existo. Agora tudo que tenho que fazer é o que fazia por anos: seguir em frente.
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