Réquiem - o Experimento de Lázaro
3 Capítulo 2 - Nicholas
Nicholas nunca foi um rapaz muito paciente, e estava visivelmente irritado dentro daquela sala escura, iluminada apenas por um projetor que exibia imagens estáticas enquanto uma voz monótona recitava lentamente o contexto de cada uma delas.
Não tinha certeza se sua irritação provinha da voz extremamente enfadonha do narrador que não exibia face alguma, e apenas propagava o som pelo recinto sem expressar qualquer expressão, ou se deveria creditar às imagens, tão familiares aos seus olhos.
Sempre idealizou na verdade o que todos imaginam da morte: que sua vida passaria diante de seus olhos tal qual um filme e você julgaria cada ação que você cometeu ao longo da vida, enfrentando seus próprios demônios. Enquanto se questionava sobre como deveria estar o orçamento do plano espiritual para não terem comprando um reprodutor de vídeo nem que fosse dos mais vagabundos, o narrador finalmente havia chegado na imagem do seu primeiro dia na escola. Aquele definitivamente seria um longo dia.
Estava quase dormindo quando ouviu um barulho de algo se partindo, que também chamou a atenção do contador de histórias sendo o suficiente para fazê-lo se calar por alguns segundos antes de prosseguir. Novamente, o mesmo som se reproduziu, agora muito mais forte. A escuridão vazia se partiu, surgindo perto da poltrona uma pequena fresta de luz, que se expandiu lentamente até chegar aos pés de Nicholas, sugando-o para dentro de forma brusca, não dando tempo sequer de o jovem recém-defunto gritar por ajuda.
Percorreu rapidamente por um feixe de luz enquanto sentia que o buraco que se abrira sobre seus pés estava se fechando atrás dele, ouvindo apenas um suspiro insípido do narrador que deixara para trás. Certamente qualquer lugar que ele fosse levado seria melhor do que aquele ambiente, quase se solidarizando com a próxima pobre alma que teria que escutar sua vida através daquela voz, que a deixaria mais medíocre do que ela provavelmente foi.
O brilho da luz se tornou cada vez mais intenso, obrigando Nicholas a fechar os olhos e cobri-los com suas mãos, até que finalmente sentiu um baque ao cair. Abriu os olhos de forma reticente e se deparou novamente com a escuridão, porém dessa vez em um espaço consideravelmente menor do que a sala anterior.
Na verdade, o espaço era tão pequeno que sequer conseguia ficar de pé ou esticar os braços. Deduziu que se encontrava preso em alguma espécie de caixa de madeira, a julgar pela consistência do material, e começou a tentar abri-la com leves pancadas. Após a segunda ou terceira tentativa, ouviu uma voz ao longe, e intensificou as batidas até que finalmente a madeira cedeu e uma quantidade indesejada de terra entrou dentro do caixão.
Nicholas subiu vorazmente o caminho até que sua mão finalmente sentiu uma leve corrente de ar. Estava tão desesperado para sair e poder respirar que nem havia percebido que até aquele momento não havia tentado puxar ar para os seus pulmões. Tudo o que queria era se sentir vivo mais uma vez, e quando seu corpo chegou à luz, sugou fortemente todo o ar que podia com a sua boca.
Seu susto ao ouvir o grito histérico da garota que estava ao lado dele o fez ficar sem reação por alguns segundos, e quando conseguiu pensar em algo para dizer, a jovem ruiva já estava correndo para longe. Olhou para o chão e encontrou uma boina preta que provavelmente aquela garota havia deixado cair.
Procurou sair de uma vez daquele monte de terra o olhou a lápide de seu túmulo. Não lembrava como havia morrido, mas conseguia se lembrar das imagens projetadas e aquele narrador, logo não se sentiu surpreso ao saber que estava, de certa forma, morto. Teve bastante tempo para digerir esta informação e já havia aceitado sua morte antes mesmo do narrador terminar de contar detalhadamente como seus pais o haviam concebido. Provavelmente aquele novo local seria uma espécie de purgatório, ainda que não fosse o tipo de purgatório que ele esperasse.
Começou a bater levemente com suas mãos o terno para tirar o excesso de terra, até que se lembrou que nunca havia gostado daquele terno, resolvendo deixá-lo como estava, pois se livraria dele na primeira oportunidade. Se recompôs e pegou a boina que estava no chão, decidido a devolvê-la para a garota histérica que o havia assustado. Gostaria de se desculpar pelo incômodo de não ter morrido adequadamente, ou pelo menos repreendê-la por assustá-lo daquela forma tão inconveniente.
Foi ao encontro da jovem garota, que estava de costas e ofegante depois de ter corrido tão depressa. Tocou levemente seus ombros, e lhe dirigiu a palavra imediatamente assim que ela virou para olhá-lo:
- Creio que... Herm... Você deixou isso cair quando me viu sair do meu... túmulo.
Antes que pudesse explicar — ou pedir explicações, ainda não havia se decidido -, Nicholas viu a jovem desmaiar sobre seus pés. Suspirou impacientemente, imaginando que certamente aquele não seria o melhor dia da sua não-vida.
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