Sophia estava particularmente quieta naquela manhã nublada que ela escolheu para visitar o túmulo de seus pais. Seus cabelos ruivos e longos estavam presos por um rabo de cavalo e cobertos por uma boina preta, pertencente à sua mãe, que havia deixado aos seus cuidados naquele dia fatídico em que ocorreu o acidente.

Apesar de naquele dia completar exatos cinco anos do acidente de avião que levou a vida de seus pais, a jovem ainda recordava com exatidão os últimos momentos que passou ao lado de sua mãe e o abraço aquecido que seu pai lhe deu quando se despediram no aeroporto, deixando a pequena garota, à época com seus treze anos, ansiosa pelos presentes que eles trariam para ela quando retornassem.

Eles sempre traziam presentes, não importa para onde fossem, e isso sempre alegrava a pequena Sophia, mas aquela viagem em especial não estava gerando a empolgação que ela sempre teve. Na verdade, um pressentimento muito ruim pairava sobre a jovem, que suplicou aos choros e soluços para que eles não pegassem aquele avião, mas por ser apenas uma criança, seus pais apenas tentaram acalmá-la, e sua mãe deixou sua boina sob os cuidados da filha, prometendo que voltaria para buscá-la, pois só assim foi possível acalmar a pequena jovem.

Seus pensamentos voltaram para o presente, quando o táxi parou em frente ao portão do cemitério e o motorista chamava sua atenção para pagar o valor da corrida. Após pagar ao taxista e sair do carro, ela deu observou a paisagem à sua frente: não entendia do que valia ser enterrado em um cemitério tão bem cuidado quanto aquele, com grama aparada, chamariz e pequenos arbustos de flores colocados estrategicamente para dar uma aparência de uma praça alegre e feliz. Pensou que mesmo que as árvores de lá dessem dinheiro ao invés de frutos não seria o suficiente para esquecer que ela ou qualquer outra pessoa estava indo visitar um defunto, por mais que fosse um defunto de alguém que se gostasse bastante.

Ela nunca gostou de cemitérios, mesmo quando seus pais ainda eram vivos. A idéia de um local cheio de cadáveres apodrecendo não lhe era muito convidativa, e sempre que entrava nesses locais lembrava-se dos filmes de zumbis que assistia escondida de madrugada quando era criança.

Resolveu então respirar profundamente até encher por completo seus pulmões, tomando coragem e seguindo em frente para honrar seus pais no aniversário de suas mortes. Não que os corpos deles estivessem lá, enterrados. Afinal, o acidente havia ocorrido em alto mar, caindo o avião no meio do oceano e, por isso, não haviam encontrado qualquer corpo.

Mas Sophia gostava da idéia de se conectar de alguma forma aos seus pais, e aquela forma simbólica a fazia se sentir com a sensação de dever cumprido. Não raro quando ia aos aniversários deles ficava por horas conversando em frente aos túmulos, contando as novidades sobre sua vida, desabafando como quando teve sua primeira paixão adolescente ou quando brigou com sua melhor amiga. E aquele ano em especial era cheio de novidades, pois finalmente ela havia completado 18 anos e se mudado para o apartamento que havia pertencido aos seus pais.

Enquanto ia pensando em tudo o que diria dessa vez, ela finalmente chegou aos túmulos onde, simbolicamente, descansavam em paz os seus falecidos pais. Deixou a coroa de flores que havia trazido sob a lápide dos dois e então começou a falar todas as novidades quando se assustou com um barulho.

CLAMP.

Sophia deu um pulo para trás e olhou em sua volta. Aquela era uma manhã calma, e o cemitério encontrava-se praticamente deserto, não havendo uma alma viva em um raio de pelo menos uns quinze metros.

CLAMP.

A jovem ouvira atentamente o barulho dessa vez. Era algo próximo, extremamente perto, mas ainda assim ela não via nada. Olhou novamente em volta, procurando a origem do som, mas tudo o que viu foi um jardineiro podando um arbusto ao longe, muito distante e ocupado demais com seu trabalho enfadonho para fazer uma brincadeira dessas.

CLAMP.

- Quem está aí?! – Resolveu, por fim, perguntar, já com uma pequena dose de medo tomando conta de si.

E então ouviu novamente o barulho, para só então perceber que vinha do lado do túmulo de seus pais. A terra começou a se agitar lentamente e a grama artificial que cobria o chão cedeu, mostrando um dedo encardido, e depois mais outro, até que por fim uma mão suja de terra apareceu completamente.

Sophia não acreditava naquilo que estava acontecendo. Parecia tão surreal que não conseguiu ter nenhuma reação no momento. Pensou em gritar por socorro, se beliscar para ver se não era algum sonho, ou simplesmente empurrar a mão de volta para dentro da terra, porque certamente aquilo estava errado e Sophia detestava quando as coisas não estavam em seu devido lugar.

A mão foi gradualmente ganhando um braço, para logo depois, com um impulso provocado pelo membro, brotar um jovem rapaz de terno azul coberto de terra e com as bocas abertas sugando o máximo de ar que pudesse. Aquela situação foi decisiva para que Sophia escolhesse a opção correta de seu questionamento.

- Ahhhh! – Gritou a plenos pulmões, enquanto correu desesperadamente para longe daquela aberração.

Percorreu metade do cemitério até perder o fôlego e parar para descansar um pouco. Uma situação absurda daquelas deveria ter alguma explicação lógica, é claro. Provavelmente ele havia sido enterrado vivo, e fosse de alguma espécie de máfia maluca que enterrava seus traidores em cemitérios aleatórios, ou ele sofria daquela doença que ela assistiu na televisão semana passada em que a pessoa aparentemente morria e depois acordava novamente.

Não que isso excluísse totalmente o fato de que um rapaz brotar da terra era extremamente improvável, mas certamente diminuiria drasticamente as chances de ela estar ficando completamente louca e tendo alucinações. Tentou colocar os pensamentos no seu devido lugar e passou a mão pelos seus cabelos, algo que sempre fazia quando estava nervosa.

E foi então que percebeu que a sua boina não estava na sua cabeça. A boina que ela havia ganhado de sua mãe e que era seu tesouro provavelmente havia caído quando ela correu.

Sophia sentiu seu estômago se contorcer só de pensar em voltar o caminho que ela havia percorrido e se encontrar novamente com o rapaz moribundo. Mas aquela boina era muito especial, e ela nunca se perdoaria se a perdesse.

Seus pensamentos foram interrompidos por uma mão tocando seu ombro. Quando se virou ela viu um rapaz pouco maior do que ela, cabelos negros arrepiados cobertos de terra e olhos em um castanho tão escuro quanto a terra que o cobria da cabeça aos pés em um corpo magro vestido por um terno azul marinho e tênis vermelhos.

- Creio que... Herm... Você deixou isso cair quando me viu sair do meu... túmulo. – Disse aquele rapaz de forma tímida e desajeitada enquanto segurava em suas mãos uma boina preta.

E foi então que Sophia, como uma resposta automática de seu cérebro sagaz, arregalou os olhos amedrontados e depois de ouvir o rapaz dizer “meu túmulo” desmaiou.